V
Pra você sempre fui insignificante. Um trágico poeta, um músico sem vocação. Um dramaturgo pior ainda.
Quando mais jovem, eu precisava cantar as mesmas notas que ouvi, permanecer nas sombras e na solidão. O preço, apesar disso, era mais alto do que eu imaginei. Eu deveria viver sozinho, preparando-me para o sacrifício. Estava eu realmente apaixonado por você?
Eu possuía esperanças de que um dia eu ainda aprenderia com a vida, com os meus erros tão pueris. E quiçá eu, enfim, estivesse pronto.
Vi-a despertar de seu sono com o céu ainda escuro, porém pouco antes do amanhecer. Eu ainda estava acordado, podendo assistir, com satisfação, à sua feição de espanto ao dar-se conta de que aquilo não era um pesadelo arrebatador, não obstante era a mais pura realidade.
Era chegada a hora de meu plano infalível ser posto em prática, e outro elemento de cenário já havia sido posicionado: nosso elixir da morte estava pronto. Um cálice de algo além de vinho branco para mim e outro para você.
Definhe junto comigo, minha Julieta!
Silêncio.
Hora do último ato – mesa virada, eu era o protagonista agora.
Hora de se ouvir a última nota do cravo débil e melancolicamente afinado.
Hora de a cera da vela abolir-se, junto com sua chama dourada, como as luzes que se apagariam, conduzindo a plateia ao fim daquele show de horrores.