Os dias passavam depressa. Hermione havia conseguido um afastamento no trabalho para ajudar “na educação” de Flora e Felipe, sob a desculpa de lhes informar tudo sobre as leis do Ministério. E não havia ninguém mais indicado para a tarefa, uma vez que ela trabalhava no departamento de Execução das Leis da Magia. O Ministro pessoalmente acreditava que seria bom manter alguém sempre “de olho” nos passos da herdeira de Voldemort, então o afastamento de Hermione e as “escapadas” de Harry não eram reprimidas. Mesmo que eles não fizessem relatórios sistemáticos sobre este trabalho.
Flora e Hermione agora davam uma “passadinha” na escola todos os dias, a despeito das orientações de Harry, que temia que a amiga estivesse instrumentalizando demais Flora, apesar dele mesmo fazer o mesmo sempre que podia. E sob os protestos de Ginny, que acreditava que Hermione estivesse realmente enfeitiçada, pois Flora era agora seu assunto favorito.
O que Ginny não podia compreender é que ensinar magia para Flora era realmente mágico, como conseguiu definir Hermione depois de muito refletir, pois ela tinha uma capacidade de aprendizado fora do comum, era interessada e muito dedicada.
Nestas idas diárias até a escola, elas pegavam e devolviam livros e mais livros. De volta à casa de Flora, praticavam por horas. Hermione havia montado um programa com tópicos básicos do que acreditava ser importante para uma bruxa adulta dominar. Hannah também participava da educação de Flora, principalmente quando se tratava de ensinar o preparo de poções e os cuidados com plantas mágicas, interesse que adquiriu com o marido.
Flora era um desastre nos cuidados com as plantas, mas excelente no preparo de poções, o que fazia suas professoras lamentarem frequentemente que seu antigo professor, Severo Snape, tivesse falecido sem ter tido a oportunidade de ensiná-la. Acreditavam que até costumeiro mau humor do professor teria se esvaído diante de aluna tão brilhante.
As tardes eram muito agradáveis na companhia das duas amigas. Felipe estava cada vez menos presente a estas aulas, ou clube das meninas como ele costumava brincar, mas praticava muito em sua loja Os habitantes de Hogsmeade faziam questão de ensiná-lo feitiços diversos em troca das aulas de informática. Abeforth, dono do bar ao lado, um senhor muito idoso, que mal conseguia mexer no teclado devido seus dedos curvos pela idade, era um de seus alunos mais dedicados. Já estava até criando o próprio blog (o Blog do Velho Javali sem Cabeça – já que a cabeça estava sobre a porta de seu bar) e, em retribuição, havia ensinado Felipe a conjurar um patrono, o que Felipe fazia com facilidade, pois sua vida estava muito boa. Difícil era escolher quais das lembranças felizes que seria a mais forte para ajudar a fazer o patrono mais e mais brilhante. Qualquer lembrança que escolhesse, nela sempre estava a figura de sua mulher. Seu patrono, um enorme condor andino, era tão perfeitamente detalhado que dava para ver cada fiapo de suas plumas.
Logo depois do almoço de um dia chuvoso, chega uma coruja com um recado de Harry Potter, avisando que teria uma folga e deveria chegar em uma hora para levá-la até o escritório da diretora.
Flora fica com o coração aos pulos. Sentia receio do que poderia ver lá, mas sua curiosidade era maior do que seu medo. Sempre fora. Felipe lamentou-se por não poder ir junto:
- Prometi ao Abe ajudar a melhorar o gráfico de seu blog. Neville deve ir lá nos encontrar, ele também está de folga esta tarde. Depois vamos dar uma passadinha no bar do Abe, ele disse que vai cozinhar para a gente. Neville disse que a comida dele é inesquecível, mas deu a impressão de que isso não quer dizer que seja boa. De qualquer forma, parece que vai ser divertido, um programa para garotos.
Flora levanta uma sobrancelha, Felipe emenda:
- Não se preocupe, nada de obsceno. Até vou levar o Yan, ele não terá aulas esta tarde. Agora que ele descobriu o xadrez de bruxo, não vai sossegar até encontrar um parceiro mais sarrista que ele. Joga pelo simples prazer de ver as peças se massacrarem.
- Então o velho Abe fez um blog?
- Não te contei? É o maior sucesso entre os ex-alunos da escola. Vou indo, meu bem. Preciso abrir a loja. Se cuide, meu amor.
Felipe a deixa sozinha em casa. Ela manda uma mensagem via celular para Hermione, uma das poucas bruxas adeptas dessa tecnologia, avisando que não poderiam ter aulas naquela tarde. Passa rapidamente na casa de Hannah e também a avisa. Não conta o motivo, como se o encontro com Harry tivesse que ser mantido em segredo. Termina o serviço da casa e fica na varanda dos fundos lendo em sua cadeira de balanço. Estava totalmente absorvida pela leitura que não o vê chegar, Harry contornara a casa e se posta diante dela, lhe fazendo sombra. Assusta-se. Sorri e levanta-se da cadeira para cumprimentá-lo com um beijo no rosto. Harry fica um pouco sem graça com a demonstração de carinho, ela se desculpa, explicando que era costume brasileiro.
Flora lhe oferece um suco, ele aceita. Depois caminham pela estradinha que leva até os portões da escola:
- Hoje vou lhe mostrar uma lembrança antiga de Dumbledore, do dia em que conheceu Voldemort no orfanato. Uma visita que Dumbledore fez para explicar que o menino havia sido selecionado para uma bolsa de estudos em um colégio interno. Acho que você vai ter uma boa idéia de quem foi Tom Riddle desde a infância.
E seguem caminho conversando sobre a infância de cada um, ambos criados por famílias trouxa. As coincidências e as diferenças marcantes de uma infância extremamente feliz de Flora, submersa em carinho e respeito contrastam com a de Harry, repleta de privações de todas as formas. A conversa entre eles flui facilmente, há muita cumplicidade, como se fossem velhos amigos ou até mesmo irmãos. Ou namorados.
Encontram com a Profa Minerva próximo ao seu escritório. Ela avisa que iria deixá-los a sós, pois tinha um compromisso.
Eles passam pela gárgula que guarda a escada em caracol que leva ao escritório. Chegando lá Flora segura a mão de Harry e ele pergunta se ela quer mesmo continuar. Ela responde que sim, queria ao menos experimentar, conhecer. Depois decidiria se iria querer continuar com isso.
Harry cumprimenta rapidamente os diretores pintados nos quadros no alto da parede. Faz uma pequena pausa no quadro de Dumbledore, mas não fala nada. Ao seu lado Flora, imóvel e calada, segue com os olhos a movimentação nos quadros. Então ele pega a penseira no armário que parece uma cristaleira antiga, e um vidrinho com o tal líquido perolado. Despeja na bacia de pedra e a substância se expande, é fluída como água, mas não molhada, algo entre gás e líquido. Ele sinaliza que ela “entre” com o rosto lá, ela estranha, mas o faz. Imediatamente ela tem a sensação de estar caindo em outra dimensão. Harry surge ao seu lado logo após. Seguem um homem de roupa estranha que se dirige ao portão do orfanato, um prédio austero, aparentemente inabitado, uma vez que por fora dele não se ouvia nenhum som que indicasse a presença de crianças.
Este senhor conversa com a responsável pelo local, que demonstra-se surpresa que alguém procurasse pelo menino, pois nunca havia acontecido antes. Ela também fala de modo a entender que ele tem um comportamento bizarro, mas não dá muitas explicações provavelmente com medo de que não o levem. Ela vê o encontro do menino com o senhor que Harry explica ser Dumbledore quando novo. Flora observa que Tom Riddle já naquela época não tinha muito senso moral e sentia um certo prazer em maltratar outras crianças e animais, além de cometer pequenos furtos. Eles voltam deste mergulho à penseira.
Saem do escritório em silêncio, Harry entende a necessidade dela de refletir para absorver aquilo que deveria ser um choque para seus sonhos infantis de que o pai era inocente e foi a falta de amor e compreensão que o fizeram desenvolver comportamento desviado.
Mas isso era o que ele pensava.
Flora, depois de ver o pai, um menino tão bonito, feições muito parecidas com as suas, alguns traços comuns com seus filhos, sente ainda mais compaixão por ele. Quando finalmente consegue falar, estão fora do castelo, indo em direção à cabana de Hagrid – Harry havia avisado que daria uma passadinha lá para rever o velho amigo:
- Coitadinho!
- Coitadinho? Eu não acredito que estou ouvindo isso!
- É... Entenda, Harry. Nesta idade dele ainda não podemos falar em psicopatia, ele tem é claro, um desvio de conduta, mas nada que eu não tenha tratado em muitos anos de consultório... Continuo pensando que se ele tivesse a mesma oportunidade que eu tive, ou ainda, um tratamento adequado, ele poderia ter tido uma vida diferente...
- Você é mesmo impressionante. Não sei nem o que dizer.
Harry está irritado com o que ouve. Fica calado. Chegam à cabana e são recebidos por Hagrid que facilita a conversa entre os dois, mudando de assunto. Hagrid fala sobre hipogrifos e outros animais muito exóticos, comentando sua última aula. Também comenta o quanto tem conversado com Lia e Lily, agora inseparáveis e extremamente interessadas no trato de criaturas mágicas:
- Eu não me surpreenderia se Lia aparecesse com um ovo de dragão em sua casa, Flora... Eu mesmo já criei um por algum tempo, apesar de ser uma animal dócil, foi ficando difícil conviver com os incêndios... (Hagrid ri). A propósito, Flora, estou indo até o Cabeça de Javali. Abeforth convidou. Disse que seu marido estará lá, Neville também. Um programa só pra garotos, espero que não se incomode que eu lhe roube também o Harry aqui...
Flora joga a cabeça para trás e dá uma gargalhada, para disfarçar o constrangimento da insinuação de que Harry, de alguma forma, poderia ser seu. Depois responde que não, não teria problema algum.
Hagrid diz que já está na hora marcada e que vai acompanhá-los até o vilarejo. Ao chegar na frente do bar, Harry deixa Hagrid lá e diz que acompanhará Flora até em casa.
Chegam rapidamente na casa. Ele olha nos olhos dela e pergunta:
- Como você pode ser tão inocente, ter explicação para tudo?
- São resquícios de infância... Falando sério agora, Harry. Não quero ver mais nada sobre meu pai. Já vi o suficiente, já tenho minhas explicações. Gostaria de conhecer um pouco mais sobre os Gaunts, mas imagino que sobre eles você não tenha nada...
- Eu não tenho, mas Dumbledore deixou um vidrinho de memórias que conseguiu com um funcionário do ministério que um dia foi investigar os Gaunt.
- Investigar? Eles também eram avessos aos bons costumes?
- Mais ou menos. Na verdade eram meio primitivos... Você vai ver. Posso voltar amanhã?
- Se não for atrapalhar sua rotina, sim, eu quero.
- Bem, então até amanhã. Agora vou naquele programa de garotos.
Flora se aproxima e lhe dá um beijo no rosto. Ele cora. Ela diz que ele iria se acostumar.