Flora não deixava de ler sobre a história da escola nem para cuidar da casa, uma vez que agora fazia tudo apenas mexendo a varinha. Felipe já estava fazendo piadas sobre como ela iria fazer para tomar banho com o livro na mão, sem molhar... Para, em seguida, emendar:
- Ah, esqueci, ela é uma bruxa. Vai dar um jeito...
Yan aproveita a distração da mãe para cortar o cabelo no estilo moicano e colocar um piercing na língua. Que foi imediatamente removido durante o jantar, assim que Flora percebeu o som do metal batendo no garfo.
- Mas mãe, tá todo mundo usando!
- Meu filho não é todo mundo... E isso é nojento. Me volte aqui com piercing, tatuagens e o que mais for só depois da maioridade.
- Pelo menos a maioridade dos bruxos é mais cedo, não vou ter que esperar até os dezoito anos... Garanto que se fosse o Ricardo você deixava.
- A-hã... Quantos piercings ele tem? E alargador de orelha?
- O Ricardo é careta igualzinho você, mãe...
Yan deixa a cozinha arrastando os pés, derrotado. Felipe o segue:
- Você sabe como sua mãe é: liberal para umas coisas, para outras não. Entenda, filho, ela quer seu bem. Acabamos de mudar para um novo país, você está numa escola nova. Nós não somos pessoas comuns nem entre os bruxos. Tente não chamar muita atenção para si mesmo na escola.
- Mas pai, a mamãe vive dizendo que para não chamar atenção temos que nos comportar como as outras pessoas com quem a gente está. Lá na escola todo mundo se veste diferente, põe piercing, alargador, até uns caroços debaixo da pele que são bem maneiros... Se eu ficar todo certinho, vão achar que eu sou nerd ou retardado. Eu queria tanto por um, só na língua, vai. E tem mais, o sobrinho da Rosmerta me garantiu que depois dá pra tirar tudo com magia que nem fica cicatriz nem nada.
- Ok, vou falar com sua mãe. Mas nada de chifres ou caroços.
- Prometo: nada de chifres ou caroços.
Diz Yan, escondendo os dedos cruzados atrás das costas, pensando que nem havia cogitado que poderia ter chifres, ou um chifre: um unicórnio humano. E perdido nas imagens bizarras de si mesmo transformado vai correndo para o quintal aos saltos.
Flora observa esses saltos e percebe que algumas vezes ele parece pairar no ar, o que ela julga muito interessante. Felipe vem pra junto dela, a abraça e repete a argumentação do filho, ela sacode a cabeça e diz:
- A perspicácia dele não me impressiona, é igualzinho a você. O que ele não se deu conta é que, se algumas crianças reclamam das mães e as chamam de bruxa, a dele é a própria! Ai que vontade que dá de apagar a memória dele só no ponto em que ele contra-argumenta de modo que não poderei negar...
Felipe a olha com assombro. Ela retruca o olhar:
- Fica tranqüilo, meu amor. Nunca faria isso. Não acho que os fins justifiquem os meios. Deixe que ele vire um pára-raio ambulante. Depois que enjoar, a gente dá um jeito nisso, se ele quiser. Nem que seja daqui a sessenta anos.
- Nunca pensei que você fosse dizer isso.
- Bem, antes eu não tinha uma varinha para dar um jeito nas coisas. E além do mais, Yan é vaidoso. Quando a primeira menina o achar esquisito, ele vai querer arrancar tudo... Ele está chateado por ter que ir para o colégio trouxa quando os irmãos já estão em Hogwarts. Vamos dar esse tempo a ele e não deixar as coisas ainda mais entediantes para ele aqui do lado de fora dos muros da escola.
- Às vezes esqueço que você ainda é psicóloga.
- Eu também.
E os dois se abraçam e se beijam carinhosamente antes de ir encontrar o filho no quintal e admirar a noite magnificamente estrelada.