No dia seguinte Hannah vai à casa de Flora para avisar que Neville havia lhe mandado uma mensagem contando que Ricardo tinha sido selecionado para a casa de Gryffindor e Lia para a de Ravenclaw. E que pareciam felizes e já enturmados. Flora e Felipe ficam aliviados em saber que os dois estavam bem, que não haviam sofrido nenhuma espécie de preconceito nem por sua origem familiar, nem por serem estrangeiros. Hannah lamenta que Neville tivesse que dormir na escola alguns dias por semana. Flora oferece-se para ajudar a vizinha sempre que fosse necessário, na presença e na ausência do marido: “vizinho é parente nas horas de aperto”.
Felipe e Yan passam a manhã envolvidos na procura de um local para a futura lanhouse, loja de equipamentos e escola de informática. Flora fica em casa, distraindo-se com o jardim, pensando que uma vez que agora que sabe usar magia o almoço fica pronto em instantes. Uma hora depois lembra-se que precisa comprar os ingredientes, então arruma-se e sai de casa, sem perguntar o endereço para Hannah, pois como o vilarejo era pequeno, acreditava que se perder para encontrar um mercadinho seria um bom modo de conhecer o comércio local. Ao sair, pega a bolsa com documentos, um pouco de dinheiro e a varinha, que agora já fazia parte dela, mesmo imaginando que não seria necessária.
Segue em direção oposta a que chegaram no dia anterior, pois queria conhecer o restante da pequena rua. Era uma rua residencial, nada de diferente de tantas outras em que havia andado em seus 37 anos de vida.
Voltava pela mesma rua, uma vez que acabava em um campo, para tentar a sorte pelo lado oposto. Havia chegado à rua principal, quando avista Harry Potter saindo do correio.
Toma fôlego e se aproxima dele.
- Bom dia, Sr Potter, não esperava encontrá-lo aqui.
- Na verdade, nem eu esperava ter que vir a Hogwarts hoje. Acabo de chegar de lá. A profa Minerva havia pedido para que eu desse uma aula inaugural de defesa contra as artes das trevas, para incentivar e introduzir o novo professor, meu amigo Viktor Krum. Não pensei que seria já no primeiro período de aulas...
- Ahn... certo. Estou indo ao mercado, fazer algumas compras para o almoço.
- Posso acompanhá-la?
- Ah, bem, sim. Eu e Felipe já nos instalamos aqui, conseguimos uma casa ao lado da dos Longbotton. Seria um prazer receber você e a Ginny lá, tomar um chá... E...
Ela olha para ele como se tivesse lembrado de algo muito importante. Ele pergunta:
- Será um prazer. Alguma coisa que queira perguntar ou falar para mim?
- Na verdade, tem sim. Algumas coisas: agradecer por sua declaração ao Profeta Diário. O senhor foi incrível, realmente. Ajudou muito, todos estão nos recebendo muito bem agora. Obrigada.
- De nada, foi um prazer. Mais alguma coisa?
- Ah, sim. (Flora abaixa os olhos com ar tristonho). Quando vi meu tio pela primeira vez estávamos no cemitério para o enterro de uma amiga muito querida. Ele teve alguma coisa a ver com sua morte?
- Temo que tenho que dizer que sim. Na realidade, foi Goyle. Quando eles foram ao Brasil à sua procura, Lucius, que se sentia muito poderoso na época por conta da possibilidade de retomar o poder com a sua ajuda, resolveu levar um dementador junto com ele, para, por assim dizer, ser mais persuasivo. Ele conseguiu descobrir seu endereço comercial e, como você não estava lá, tentou persuadir sua amiga a contar onde poderia encontrá-la. Mas, ao que tudo indica, ela se recusou e Goyle a torturou usando a maldição Cruciatus algumas vezes. Então, enquanto Goyle “cuidava” de sua amiga, Lucius vasculhava sua sala. Foi aí que aconteceu: Lucius deixou Goyle sozinho com sua amiga e o dementador. Ele nunca aprendeu a conjurar um Patrono, de modo que o dementador ficou descontrolado e acabou “beijando” sua amiga. Quando eles beijam, na realidade, sugam a alma da pessoa. Ao ouvir o som do beijo, Lucius correu ao encontro deles. Porém já era tarde demais. Tiveram que matá-la.
Flora abafa um grito de horror com as mãos sobre a boca. Fica alguns minutos em silêncio, ainda em choque. Os olhos cheios de lágrimas. Harry abaixa os olhos e lhe dá alguns tapinhas nos ombros, um tanto incerto se isto seria permitido. Flora, por fim, acaba falando:
- Que horror! Por minha causa... Ela realmente não merecia isso, era uma grande amiga.
Depois fica mais alguns minutos em silêncio. Harry aguarda e então pergunta:
- Mais alguma coisa que deseja saber?
- Ah, sim, de fato. Na verdade é um pedido.
Harry a olha com curiosidade. Ela enxuga as lágrimas e, soluçando um pouco, continua:
- Vou explicar: minha tia Narcissa contou que tenho outra tia, Andromeda. Não conheci meus pais biológicos, mas hoje nem lamento por isso, creio que tenha sido melhor assim. Mas queria conhecer o restante da família, saber sua história... Você a conhece?
- Sim.
- Eu sabia que deveria conhecer, já que conhecia todo o resto da família... Pelo que entendi, esta tia Andromeda fazia parte da parte boa da família...
- Não há dúvidas sobre isso. Conheço sua tia Andromeda. Seu marido foi perseguido e morto por ter nascido trouxa. O restante da história acredito que seja ainda mais chocante para você. Tem certeza que quer mesmo saber?
- Com certeza mais algum horror praticado por meus pais... Porque não?
- Na batalha de Hogwarts, sua mãe... Muito estranho falar que Bellatrix era mãe de alguém...
- Não a escolhi como mãe, nem Voldemort como pai, não pedi para nascer... Mas preciso saber, quero compreender...
- Ok, tudo bem. Bellatrix envolveu-se em um duelo com a própria sobrinha, filha de Andromeda, mãe do meu afilhado, Ninfadora Tonks Lupin...
- A própria sobrinha? Quem era Bellatrix? Não tinha coração?
- Naquele momento de sua vida ela era obcecada por Voldemort e tudo o que ele acreditava, para ela, era lei. Não poupava ninguém, muito menos aqueles que se opunham ao regime que Voldemort estava implantando. (Harry julgou melhor não confirmar o óbvio: Bellatrix não tinha coração, nunca teve).
- Que horror! Continue, por favor...
- Andromeda casou-se com Ted Tonks, um nascido trouxa, isso por si só já era uma afronta para a família. Ninfadora casou-se com um lobisomem, Remo Lupin, e ambos combatiam Voldemort abertamente, eram integrantes de uma organização chamada Ordem da Fênix... Que me lembro, já lhe falei sobre meu padrinho, Sirius Black, também morto por Bellatrix, que era sua prima... Ter o mesmo sangue não era empecilho para Bellatrix, ainda mais que estas pessoas que ela matou pouco ligavam para o sangue.
- Como assim?
- Digo isso por causa da denominação que existe sobre sangue-puro, aqueles bruxos que vêm de linhagem inteiramente bruxa há séculos. Seu pai, Tom Riddle, era filho de uma bruxa com um trouxa, então era considerado mestiço. Informação que naturalmente ele omitia. A família Black tinha essa obsessão por sangue-puro, de modo que as escolhas de Andromeda e Ninfadora chegavam a soar como ofensivas para eles. Meu padrinho também não tinha esse tipo de preconceitos, fugiu de casa por não compactuar com o modo de vida dos Black e foi morar com a família de meu pai enquanto frequentavam a escola. Ele também foi o primeiro Black a ser selecionado para a Gryffindor, o que destoava da família, inteira Slytherin...
- O sangue, o sangue... É inacreditável que a única coisa que me liga a essas pessoas seja o tão falado sangue, que no fim das contas não tem valor algum... Como posso ser filha deles se não temos nada em comum? Sempre soube que o sangue não dizia nada sobre a pessoa, mas havia dentro de mim uma ilusão romântica acerca de quem seriam meus pais biológicos. Não que eu não amasse meus verdadeiros pais, ou que não encontrasse semelhanças físicas com eles, os brasileiros que me educaram, me deram amor e fizeram de mim o que sou. Mas passei a infância sonhando em conhecer uma mãe que tivesse a minha cara, um pai que estivesse me procurando desesperado e arrependido por ter me dado para adoção... Sonhava com isso. Hoje sei que tenho as feições de Tom Marvolo Riddle e o corpo e cabelos de Bellatrix Black Lestrange. Que deles herdei o poder da magia, mas em nada os reconheço como pais... Ao mesmo tempo que não poderia viver sem tentar saber mais. Se tenho um grande defeito – ou talvez uma grande qualidade - com certeza é a curiosidade aguçada.
Harry sorri. Olha no fundo de seus olhos, Flora sem querer vê a imagem de um jovem de cabelos coloridos e uma senhora que lhe lembrou Narcissa. Desculpa-se, sabe que ele percebe o que ela havia feito. Ele sorri novamente, o descuido fora dele.
- Quem é o jovem de cabelos coloridos?
- Seu primo em segundo grau, filho de Ninfadora e...
- Neto de Andromeda, que deve ser a senhora que também vi na imagem perto dele...
- Isso mesmo. Você faz isso como poucos, de modo muito sutil, quase imperceptível...
- Desculpe, às vezes faço sem querer. Depois que descobri como fazer isso, acessar a mente das pessoas, o difícil é evitar. Você olhou tão diretamente nos meus olhos que foi automático. Desculpe, não é de bom tom sair por aí lendo a mente das pessoas...
- E o contrário, você consegue evitar?
- Acho que até hoje ninguém tentou. Quer ser o primeiro?
Os dois param, no meio da rua, Harry a encara. Era um bom legilimens e também um bom oclumente, com muito custo aprendera a controlar o fechar de sua mente, a ponto de conseguir selecionar as informações que lhe eram convenientes esconder ou mostrar.
Alguns instantes depois, Harry desiste. Não conseguia acessar nada daqueles lindos olhos. Ela pede que tente novamente, diz que não tentará se defender. Ele novamente mergulha fundo no azul dos olhos dela com tanta intensidade que não percebe a chegada de Felipe e Yan, justo no momento em que uma imagem começa a se formar em sua mente...
- Do que vocês estão brincando?
Flora abandona os olhos de Harry, beija o filho e abraça o marido.
- Oi, meus queridos, nem os vi chegando. Harry estava tentando usar contra mim mesma o truque de ver a memória do outro... Ah, desculpa, posso chamá-lo assim, Harry? É que no Brasil nós costumamos a chamar as pessoas pelo primeiro nome...
Felipe comenta, sorrindo:
- Ela é sempre tão espontânea, espero que isso não o incomode, Sr Potter.
- Podem me chamar de Harry, sem problemas.
Felipe volta-se para a esposa, continua:
- Onde você está indo?
- Estava procurando um mercado. Acabei encontrando Harry Potter e acho que me perdi na conversa.
- Acho que se perdeu mesmo, pois o mercado ficou para trás faz uns três quarteirões.
Flora então percebe que Felipe não estava gostando de sua atitude, de circular no novo vilarejo com um homem pouco conhecido dos dois. Felipe não costumava ser ciumento, mas cauteloso. Flora habilmente muda o rumo da conversa.
- E vocês, encontraram um bom local para o nosso estabelecimento?
Harry finge interessar-se pelo tal estabelecimento, mas ainda estava absorto nos olhos enigmáticos de Flora, que se vira para ele para explicar:
- Hannah nos deu a sugestão de montar uma loja e um curso de informática aqui, já que os bruxos precisam se atualizar em seus meios de comunicação. Como Felipe é professor nesta área, achamos uma boa idéia... Bem, vou deixá-los conversando, pois tenho que ir ao mercado antes que só consiga aprontar o almoço para a hora do jantar... Até outro dia. Yan, vem comigo agora?
O filho a acompanha até o mercado, contando, animado sobre o prédio que encontraram vago, ao lado de um bar chamado Cabeça de Javali.