Narcissa Malfoy ensinou Flora e Felipe a reduzirem o tamanho de seus pertences para conseguir acomodar tudo em uma pequena mala, a fim de tornar a viagem mais prazerosa. Promete levar os cães assim que forem liberados pela quarentena imposta pelo aeroporto internacional. Felipe não deixara Draco confundir os fiscais para liberar os cães, pois não gostava de tirar proveito do fato de ter poderes, ainda que sob o protesto dos filhos.
Chegar à plataforma 9 3/4 da estação de King’s Cross só não fora mais difícil porque Draco proibira Scorpius de fazer graça para enganar os primos. Draco começou a colocar em dúvida sobre o quão saudável era essa aproximação do filho com os primos, pois a cada dia que passavam juntos, aumentava sua rebeldia e disposição para piadinhas.
Draco entrega a Felipe uma velha chaleira, toda amassada, lhe explicando que se tratava de uma chave de portal, que os levaria direto para Hogsmeade e estava pronta para funcionar dois minutos após a partida do trem. Ainda faltava meia hora.
A plataforma já estava cheia, estudantes barulhentos e alegres encontrando-se em todos os lugares. Pais e mães tentavam arrancar dos filhos algo além do “tchau” de despedida, mas quando tentavam fazer recomendações, os filhos evaporavam no meio da multidão. Flora observa isso, o que a alegrara: pais e filhos eram os mesmos em todo lugar do mundo. Sem sombra de dúvida. O seu mais velho já havia se despedido antes de passar pelo portal da plataforma, para evitar o famoso “beijinho da mamãe” na frente dos futuros colegas. Sua filha, mais amorosa, encontrava-se em pé, abraçada a ela, como que para esticar o tempo de estarem juntas ainda mais. Quando se dá conta, Ricardo, já dentro do trem, lhe acena com uma mão, enquanto simula chifres com a outra, por trás da cabeça de Scorpius, que se vira para ele e, ao invés de começar uma discussão, aprova com a cabeça enquanto fala sorrindo: “vai ter troco”. Era mais uma promessa do que uma ameaça.
Harry Potter se aproxima deles neste momento, comentando com Draco que nunca viu seu filho agindo assim antes, que se não fosse pelo cabelo, diria que era um Weasley. Draco lhe olha no fundo dos olhos e pede:
- Sem exageros, Potter. Aqui você não é meu chefe.
Flora e Felipe observam o quanto o comentário desagrada Draco. Flora não consegue ficar quieta, tenta amenizar:
- Acho que o Scorpius foi contaminado pelo bom humor brasileiro, ele e Ricardo se descobriram nestes últimos dias que passaram juntos.
- Flora, Felipe. Como vão? (Pergunta Harry, fingindo não os ter visto até o momento).
Ginny se aproxima, junto com Ron e Hermione.
- Seu filho se tornou um dos meus melhores clientes nos últimos dias. E não adianta pedir para ignorar as encomendas via correio, pois sou, acima de tudo um comerciante. (Comenta Ron Weasley, sorrindo e estendendo a mão para Flora, Felipe, Draco e Astoria, que prepara o seu mais amarelo sorriso e lhe retribui o cumprimento).
Hermione adianta-se:
- Não sei se você se lembra de mim, Hermione Granger. Vou passar alguns dias a trabalho em Hogsmeade na próxima semana...
- Espero até lá já ter uma casa para recebê-la para um chá. Nunca me esqueceria de nenhum de vocês, passamos momentos muito intensos juntos. (Flora observa Harry engolir em seco e continua) Durante a minha primeira e, espero, última batalha.
Todos concordam que seria melhor que fosse mesmo a última. Ouvem um ruído e todos olham para o grande relógio da estação: o trem partiria em dois minutos. Lia se despede dos pais e olha, sem saber o que fazer, para o grande trem. Neste momento a mão de Lily Potter, filha de Harry e Ginny a conduz para dentro do trem.
Flora volta-se sorrindo para Ginny, a cabeça levemente inclinada para o lado, comenta:
- Muito gentil sua filha. Lia ainda está um pouco assustada, mas não quer demonstrar. Não gosta de voltar atrás em suas decisões, como eu. E o pedido para ir para Hogwarts partiu deles. Ricardo não tem problemas em se adaptar, faz amizades com facilidade...
Draco a interrompe, indicando que a chaleira estava mudando de cor, logo deveria transportá-los até Hogsmeade. Eles se despedem rapidamente e Flora segura com força Yan junto do próprio corpo, notando, no último instante os olhos verdes que olham intensamente dentro dos seus. Harry.
Chegam a Hogsmeade e são recebidos por Neville e Hannah. Os dois os convidam para conhecer sua nova casa, em uma rua lateral, próxima do correio do vilarejo. Era uma casa muito graciosa. Um portão em ferro trabalhado com gavinhas e pequenas flores dando um aspecto muito delicado. Era pintado de verde claro, combinando com as trepadeiras que cobriam os baixos muros que haviam em torno da casa. A casa era igualmente verde, um tom mais escuro, com grandes janelas e uma pequena varanda em frente. Hannah os convida para entrar, mas Flora distrai-se olhando a casa ao lado, em que se lia uma placa de vende-se. Era uma casa térrea, cor-de-rosa, janelas brancas e um jardim muito florido na frente. Os muros, igualmente baixos, pareciam ser uma continuação da casa de Hannah, que, percebendo o interesse de Flora, comenta:
- Esta é a casa que comentei com você, que estaria à venda, ao lado da nossa. Como pode observar, parece ter sido reservada para vocês. Que tal darmos uma olhada nela após o almoço?
Flora e Felipe concordam. O pequeno Yan dá voltas correndo em torno da casa dos Longbottons, tentando avistar o castelo de Hogwarts. Nos fundos da casa ele consegue ver as torres mais altas, apontando o céu, por trás de um morro. Imediatamente anuncia:
- Se tiver algum quarto na parte de trás da casa rosa vai ser o meu!
Eles espiam o quintal da casa vizinha por cima do muro (mais alto nos fundos que na frente da casa) onde era possível ver algumas árvores, possivelmente uma macieira e um grande pinheiro, além de um grande gramado.
- UAU! Felipe, quero esta casa. Os cachorros e as crianças vão adorar...
- Sei que são eles que vão adorar, querida. Mas depois do almoço decidimos isso, tudo bem? Estou com muita fome.
Felipe a abraça com carinho. Às vezes a esposa parece não ter mais que sete anos.
Hannah preparara um almoço simples, porém muito saboroso. Após a refeição, Neville, Felipe e Yan saem para conversar com o dono da casa vizinha, além de conhecer melhor o vilarejo. Flora cuida da limpeza da cozinha para que Hannah pudesse descansar, enquanto conversam. A conversa com Hannah flui como se fossem velhas amigas.
Mas a imagem daqueles olhos verdes não lhe sai da cabeça. Não compreende porque o chefe dos aurores poderia ainda ter algum interesse nela. Ele deveria ter percebido que ela era sincera e não representava ameaça alguma. Pensa em comentar com Hannah, mas depois desiste, lembrando o que lhe dizia sua mãe: “você é escrava das palavras que fala, mas dona das palavras que cala”. Talvez fosse melhor guardar para si suas impressões, sempre havia a possibilidade de ser mal compreendida.
Os homens voltam, trazendo a chave da casa rosa. Flora esquece-se até mesmo de tirar o avental e corre encontrar Felipe no portão. Ele comenta:
- É melhor você gostar desta, pois não há outras casas disponíveis nas redondezas.
- Eu não tenho dúvidas que vou gostar. Além de tudo, ela é rosa, cor preferida da Lia.
Falando isso, olha no relógio. Hannah comenta que as crianças já deviam estar a meio do caminho da escola.
A casa era tudo o que Flora havia imaginado e um pouco mais. Haviam nela alguns móveis antigos deixados pelo antigo morador, além de um piano, que a deixara mais encantada ainda, como se isso fosse possível:
- É mesmo tudo real, Felipe? Pode ser nossa? Tem o quarto da Lia, o dos meninos no fundo, o nosso todo charmoso, com flores na janela. Parece ter sido feita sob encomenda, nos meus sonhos.
O marido balança a cabeça, confirmando. Ela sabe que ele também havia gostado. Yan vem correndo do quintal, divertindo-se com um gnomo preso em seu boné.
- Mãe, olha isso!
Neville comenta que depois pode ensinar a acabar com a infestação, mas Flora acha que não seria necessário, pois os gnomos pareciam tão inofensivos.
Passam o restante da tarde organizando a casa, guardando seus pertences. Felipe conta para Flora que havia fechado o negócio antes mesmo de conhecer a casa por dentro, pois como era a única opção, eles ficariam com ela e fariam as modificações necessárias com o tempo.
Ao final da tarde, Neville segue para a escola, a fim de recepcionar os alunos. Hannah convida os vizinhos para jantar, que pedem a ela se poderiam fazê-lo na varanda dos fundos da casa. Assim puderam avistar a escola e participar, em pensamento, do momento mágico que aconteceu na vida dos filhos.