Flora e Felipe tiveram longas conversas sobre deixar sua casa seus empregos e mudar para um novo mundo. Ambos concordavam que isso era como nascer de novo. Experimentariam.
Uma vez que Narcissa Malfoy lhe garantira que a origem do montante não havia sido ilícita, Flora havia resolvido aceitar a herança da mãe. Sentia-se em paz com o povo bruxo, agora que tinha conseguido evitar a tentativa de retorno das trevas, por meio da prisão de seu tio e demais comensais, ainda fixados em idéias arcaicas e preconceituosas de sangue-puro e desprezo aos trouxas... E realmente era bastante difícil abrir mão de montanhas de galeões: nem precisava saber o quanto valiam em reais, dólares, libras ou euros para saber que era mais do que ganhar na loteria... Com certeza tinha o suficiente para iniciar uma nova vida sem sacrificar as economias da família.
Com pouco tempo para resolver a mudança, embalar objetos de valor afetivo e algumas roupas, conseguir autorização para levar seus cães na viagem, despedir-se dos amigos e parentes (o marido tinha muitos irmãos, todos trouxas), a quem eles contaram a história de uma oportunidade de trabalho irrecusável no Reino Unido (depois pensariam em como contornar as possíveis visitas).
Fazem uma grande festa de despedida e Flora nem tem tempo de conversar com suas amigas bruxas. Sentia uma vontade incrível de compartilhar com elas o mundo bruxo, mas sabia que ainda não era o momento. Instalariam-se e depois as convidaria a fazer uma visita.
Em uma semana estavam de volta à casa da tia, que não os deixara se hospedar no Caldeirão Furado, por mais que tivessem insistido. Algumas idas e vindas ao Beco Diagonal e haviam comprado toda lista de materiais para Lia e Ricardo começarem o ano letivo. As crianças não cabiam em si de tanta excitação. Os meninos logo viraram fiéis clientes da loja de George e Ron Weasley. Não havia uma ida ao Beco que não resultasse em bolsos cheios de traquinagens. O primo Scorpius era quem mais gostava disso, seu pai não o deixava ir livremente a tal loja, por isso só conseguia comprar coisas escondido.
Flora estava feliz. Conseguia circular pelo Beco Diagonal sem ser apontada como herdeira de Voldemort, após a declaração que Harry Potter fizera no jornal, de que tudo não passara de um mal-entendido. Era melhor assim. Haviam poucas pessoas que a olhavam com estranheza, mas já não a evitavam. Os que sabiam a verdade, não comentavam abertamente, para não constrangê-la. Sentia-se muito bem. Não fosse pela insistência de Draco para que ela não procurasse Harry Potter para lhe agradecer pessoalmente, já que o primo lhe garantira que Potter não carecia de mais nada que pudesse lhe inflar o ego. Percebia que ela e o primo tinham idéias bem diferentes sobre o Sr Potter. Mas em respeito ao primo, não o procuraria.
Felipe estava cada vez mais ligado a Draco, que lhe ensinara muitas coisas, inclusive voar em vassouras. Felipe parecia ter nascido para voar, bem como seus filhos Ricardo e Yan. Eles abusavam das piruetas em pleno vôo, deixando Flora com o coração aos pulos, principalmente quando iniciavam uma formação em “v”, como patos selvagens, o que sempre precedia as inúmeras piruetas. Flora e Lia preferiam o solo e se deleitavam em ver a tia Narcissa ensinando feitiços domésticos e, por vezes, atrapalhando-se com eles, uma vez que não era acostumada a usá-los, uma vez que tinha muitos empregados. Em uma tarde, enquanto Draco, Scorpius, Felipe, Ricardo e Yan praticam vôo, ela distrai-se e comenta:
- Você aprenderia muito mais com minha irmã...
- Pensei que minha mãe fosse avessa ao trabalho doméstico. O pouco que ouvi de minha mãe não combina nada com afazeres domésticos...
- Não, não Bellatrix... Estou falando de sua outra tia, Andromeda... Não nos falamos há anos... Acho que estou ficando velha, já não vejo mais sentido no nosso afastamento, eu não deveria ter sido tão leviana, mas...
Astoria, esposa de Draco, que até o momento ouvia calada a conversa, dado que não se sentia confortável na presença de Flora, porque desde sua chegada a sogra a deixava em segundo plano, arrisca um palpite:
- A escolha do marido fala muito sobre a pessoa, a senhora não deveria se culpar assim...
- Pois eu acho que sempre devemos rever nossas posições, principalmente quando dizem respeito à família. Às vezes nos precipitamos em fazer julgamentos superficiais, principalmente enquanto somos jovens... O bom de estar viva é ter a oportunidade de mudar...
O comentário de Flora deixa Astoria desconfortável, ela deixa escapar um sorriso amarelo. A tia concorda com Flora:
- É, vou pensar... Está tudo pronto para o início do ano letivo?
- O material, os uniformes e as corujas estão... Eu e o Felipe é que não estamos prontos para nos separar dos meus filhos por tanto tempo. Talvez até por isso mesmo que as crianças estejam tão animadas... Se eu bem me lembro, quando tinha a idade deles adoraria morar longe dos meus pais, correr alguns riscos de vez em quando...
Flora sorri. A tia a conforta:
- Logo você se acostuma. De qualquer modo, pelo que entendi, vocês pretendem se estabelecer em Hogsmeade, não é mesmo?
- O mais próximo deles possível. Quando estive em Hogwarts conversei com a profa McGonagall sobre a possibilidade de estudar um pouco na biblioteca da escola. A idéia era fazer isso durante as férias, pois naquele momento ainda não imaginava que iríamos realmente nos mudar para cá. Essa era mais uma esperança que uma possibilidade...
- Nunca soube de nenhum caso de pais que obtiveram acesso livre à escola antes, se bem que o caso de vocês é não é comum... (Comenta Astoria, tentando, em seu íntimo, desanimar Flora).
- Se não tentar, como saberei?
Narcissa percebe uma certa indisposição no ar e resolve acabar com a conversa, anunciando a hora do jantar.
A família de Flora recolhe-se cedo, Draco, Astoria e Scorpius seguem para casa logo após o jantar, uma vez que no dia seguinte partiria o trem para Hogwarts e Hogsmeade.