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12. Vinganças e Esperanças


Fic: Hermione, meu amor ATUALIZADA!


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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O dia seguinte amanheceu perfeito, com sol, céu azul e brisa fresca, perfumada de outono.
Hermione tomou banho e lavou os cabelos, então ficou em dúvida sobre o que vestir. Comarc certamente iria buscá-la de carruagem, mas ela gostaria muito que fossem ao piquenique a cavalo, cavalgando lado a lado, como acontecera algumas vezes, no passado. Decidida, retirou do armário um traje de montaria amarelo-claro.
Estava pronta, quando ouviu a carruagem de Comarc parar diante da casa, bem embaixo das janelas de seu quarto. Mas obrigou-se a atravessar o quarto de um lado para o outro dez vezes, antes de sair e dirigir-se para a escada.
Comarc, no vestíbulo, observou-a descer, olhando-a com franca ad¬miração. Ela estava linda naquele traje amarelo, a blusa de seda, branca com bolinhas amarelas, aparecendo pela abertura do casaco justo e curto. No pescoço, pusera um lenço do mesmo tecido da blusa, amarrado de lado, com as pontas flutuando sobre o ombro.
— Como pode estar linda assim, sendo ainda tão cedo? — ele perguntou, quando ela desceu o último degrau.
Hermione reprimiu o impulso de atirar-se nos braços dele, li¬mitando-se a sorrir.
— Bom dia — cumprimentou. — Não podíamos ir a cavalo, em vez de usar a carruagem? Temos excelentes animais, e você poderá escolher qualquer um.
— Se você for a cavalo, terá de ir sem mim — Comarc observou. — Precisarei da carruagem para levar algumas moças que mor¬rem de medo de cavalgar. Mas Harry está lá fora e certamente a acompanhará até o local do piquenique.
Hermione sentiu um nó de desapontamento e alarme formar-se na garganta. Não podia acreditar que Comarc estava fazendo aquilo com ela. Como fora ele quem a convidara, sua obrigação era acompanhá-la. E a desculpa que dera não fora das melhores. Ele não ia levar "algumas moças que morriam de medo de cavalgar”, pois Lavender era a única que se encaixava nessa descrição.
Cada vez mais aborrecida, Hermione refletiu que, deixando-se substituir por Harry no papel de seu acompanhante, Comarc estava deixando claro que não sentia ciúme algum. Na noite anterior, ele percebera que ela tentara enciumá-lo, e agora mostrava que o ardil não surtira efeito.
Com enorme força de vontade, Hermione conseguiu dar de om¬bros e sorrir.
— Cavalgar vai ser adorável. O dia está lindo demais para que eu me contente em ficar presa numa carruagem — comentou.
— Harry a acompanhará — Comarc repetiu, observando-lhe o rosto sereno. Então, acrescentou secamente: — Suponho que vo¬cês dois já sejam bastante íntimos para se chamarem pelo primeiro nome, não?
Hermione desviou o olhar para a porta e viu Harry à espera, lá fora. Cerrou os dentes com força para controlar a raiva que sentiu.
— Seu pai com certeza não se importará, se ele usar um de seus cavalos — Comarc concluiu, saindo. Desceu a escada, trocou algumas palavras com Harry e subiu na carruagem. — Cuide bem de minha garota! — gritou, quando já se afastava.
Ligeiramente pacificada, Hermione sentia-se também confusa. Depois de tê-la entregue a outro acompanhante, numa atitude de duvidoso cavalheirismo, Comarc a chamara de "minha garota", em tom de brincadeira, mas inconfundivelmente carinhoso.
Seus pensamentos foram interrompidos pela voz que ela tanto odiava:
— Bom dia.
Harry estava parado no vão da porta. Engolindo todas as respostas grosseiras que poderia dar ao simples cumprimento, ela olhou-o com desdém, notando a imaculada camisa branca, aberta no pescoço, a calça de montaria cinzenta e as botas pretas.
— Sabe realmente cavalgar? — perguntou friamente.
— Bom dia — ele repetiu, sorrindo.
Hermione não respondeu e, caminhando com altivez, passou por ele, saindo para a luz brilhante da manhã. Pouco importava se aquele homem desprezível a seguisse, ou ficasse onde estava.
Desceu a escadaria e tomou a trilha que levava aos fundos da casa, na direção do estábulo, percebendo que Harry ia logo atrás. No meio do caminho, porém, ele passou a sua frente e parou, bloqueando-lhe a passagem.
— Trata todos os cavalheiros que lhe roubam um beijo com tanta animosidade, ou apenas a mim? — indagou com um sorriso.
Ela o fitou com contundente escárnio.
— Em primeiro lugar, não o considero um cavalheiro. Em segundo, não gosto do senhor. Agora, por favor, saia do meu caminho.
Ele não se moveu, observando o rosto dela em silêncio.
— Por favor, saia da frente e deixe-me passar — ela persistiu.
— Se me conceder alguns instantes, eu gostaria de pedir des¬culpas por ontem à noite — Harry disse em tom calmo. — Não consigo me lembrar da última vez em que me desculpei por alguma coisa, e me sinto um tanto desajeitado.
Que animal arrogante e convencido ele era, Hermione pensou. Achava que aplacaria sua raiva com um simples pedido de des¬culpas, depois de todas as liberdades que tomara?
— Desajeitado, ou não, não o desculparei — declarou. — Ago¬ra, saia da frente.
O rosto masculamente lindo refletiu irritação, e Hermione per¬cebeu o esforço que ele fazia para controlar-se. Achando que poderia precisar de ajuda, ela olhou para o estábulo para ver se havia alguém à vista. Timothy estava no cercado, segurando Cru¬zamento Perigoso pelas rédeas, e o cavalo prendia sua atenção, pateando no mesmo lugar, tentando libertar-se.
Uma idéia passou pela mente de Hermione, e ela viu sua chance de vingança no temperamental garanhão preto. O sorriso que dirigiu a Harry era fascinante e genuinamente alegre.
— Minhas maneiras também não deixaram de ser reprováveis — concedeu, procurando parecer contrita, mas mal contendo a vontade de rir. — Se pedir desculpas, aceitarei.
Fez uma pausa, à espera, então notou que Harry parecia suspeitar de sua repentina mudança de atitude.
— Mudou de idéia? — perguntou depressa. — Não quer mais se desculpar?
— Não, não mudei — ele respondeu, erguendo o queixo dela com um dedo. — Sinto muito tê-la assustado, ontem à noite. Não tive a intenção de magoá-la e gostaria que pudéssemos ser amigos.
Hermione reprimiu o impulso de dar um tapa na mão dele, enquanto fingia refletir sobre a proposta.
— Se vamos ser amigos, precisamos ter algo em comum. Con¬corda, sr. Porsham? Eu, por exemplo, adoro cavalgar. O senhor é bom cavaleiro?
— Sou — ele respondeu, submetendo-a a um frio olhar avaliador.
Ansiosa por ver-se livre do escrutínio dos olhos verdes, Hermione passou por ele, rumando para o estábulo.
— Mandarei que lhe preparem um cavalo — disse, olhando por cima do ombro.
Harry teria de montar aquele animal indócil, ou admitir que tinha medo de tentar. De qualquer maneira, seu ego monstruoso sofreria um sério abalo, e Hermione, satisfeita, disse a si mesma que ele merecia aquilo e muito mais.
Correu o resto do caminho, e estava ofegante, quando apro¬ximou-se de Timothy. Olhando furtivamente para trás, viu Harry andando em sua direção, a poucos metros de distância.
— Arreie Cruzamento Perigoso — pediu ao cavalariço-chefe num cochicho. — O sr. Porsham insiste em montá-lo.
— O quê? — o homem espantou-se, olhando para Harry. — Tem certeza?
— Absoluta — afirmou Hermione, rindo baixinho, enquanto Timothy levava o cavalo para dentro do estábulo.
Vendo que Harry parara no lado de fora do cercado, foi juntar-se a ele, extremamente contente consigo mesma.
— Mandei que lhe preparassem o melhor de nossos cavalos — anunciou.
Harry observou-lhe o rosto sorridente, mas sua atenção foi desviada por um tumulto no interior do estábulo. Duas pragas violentas, proferidas por um cavalariço, foram seguidas de um grito de dor, então Cruzamento Perigoso saiu para o cercado a toda velocidade, arrastando um rapaz que tentava contê-lo e jogando-o contra a cerca. Outro cavalariço aproximou-se, mas foi rechaçado a coices.
— Este cavalo é maravilhoso! — Hermione comentou, lançando um olhar de lado para Harry.
Não teve tempo de ler o que se passava no rosto dele, pois naquele momento o animal correu para o lugar onde os dois encontravam-se e virou repentinamente, erguendo as patas tra¬seiras. Hermione saltou para trás, um segundo antes de o coice atingir a cerca com grande estardalhaço.
— Ele é... há... muito voluntarioso também.
— Estou vendo — Harry concordou, desviando o olhar do garanhão nervoso e suado para o rosto dela.
— Se tem medo de montá-lo, é só dizer — ela avisou, com fingida generosidade. — Podemos escolher um cavalo mais ade¬quado... como... Ameixa Doce. É uma égua velha, que já não corre muito, mas pelo menos é mansa.
O rosto de Harry exibiu uma expressão de repulsa, e Hermione achou que seria muito mais humilhante para ele aparecer no pi¬quenique montado numa égua que, de tão idosa, já não era mais usada por ninguém.
— Timothy! — ela chamou e, quando o homem apareceu, in¬formou: — O sr. Porsham prefere montar Ameixa Doce, então...
— Não — Harry disse a Timothy, interrompendo-a. — Vou montar o garanhão. Prepare-o, por favor.
Virando-se para Hermione, lançou-lhe um olhar de gélida reprovação.
— Isso vai demorar — ela disse, impávida. — Se me disser onde é o piquenique, irei na frente e...
— Não. E se pensa que vai ter o prazer de me ver estendido no chão, pisoteado pelo garanhão, pode esquecer. — Harry fez um gesto na direção de Khan, que estava sendo conduzido para fora do estábulo por um jovem cavalariço. — Monte seu cavalo e mantenha-o junto à cerca, fora do meu caminho. Vou ter muito o que fazer, para poder me preocupar com você.
O fato de ele, arrogantemente, afirmar que seria capaz de do¬minar Cruzamento Perigoso apagou o traço de culpa que Hermione sentira momentaneamente. Ela montou Khan e levou-o para a extremidade mais distante do cercado. Enquanto esperava que acabassem de arrear o mal-humorado garanhão, Hermione tirou o lenço do pescoço e usou-o para amarrar os cabelos na nuca.
Cavalariços, faxineiros do estábulo e jardineiros correram para o cercado, enfileirando-se ao longo da cerca para ver o que acon¬teceria, quando o garanhão reapareceu, conduzido por Timothy e dois rapazes. Os três seguraram a cabeça do animal, enquanto Harry falava com ele em tom calmo, deslizando a mão por seu pescoço. Hermione, lembrando-se de que aquela mesma mão afa¬gara-lhe o seio, encheu-se de raiva.
Harry pôs o pé no estribo, então ergueu-se, passando a outra perna por cima do cavalo, acomodando-se lentamente na sela, evitando fazer qualquer movimento brusco. Mas, a despeito de toda a cautela, Cruzamento Perigoso sacudia-se e pateava, que¬rendo escapar dos homens que o seguravam.
Devido à altura de Harry, os estribos haviam ficado curtos, e Timothy precisou soltá-los um pouco, deixando-os mais com¬pridos. Por um momento, enquanto isso era feito, Hermione pen¬sou que o cavalo fosse livrar-se da carga indesejável, pois cor¬coveou de modo selvagem.
Ela riu, esperando que Harry se declarasse derrotado e de¬sistisse de montá-lo. Em vez disso, ele pegou as rédeas, e os cavalariços soltaram o animal, saindo da frente rapidamente.
Harry concentrou toda a atenção em Cruzamento Perigoso.
— Calma — disse em tom apaziguador, afrouxando as rédeas ligeiramente.
O cavalo sacudiu a cabeça com violência, tentando tomar o freio entre os dentes, movimentando-se pelo cercado, primeiro ameaçan¬do empinar, depois baixando a cabeça bruscamente para fazer o cavaleiro cair para a frente, passando por cima de seu pescoço.
— Quieto... Está tudo bem... — Harry continuava a falar baixo, acalmando-o, segurando as rédeas de modo a segurá-lo, sem mantê-lo sob controle brutal.
Atônita, Hermione viu o garanhão ir perdendo a agitação, até permitir que Harry o fizesse ir de uma ponta a outra do cercado a trote ligeiro. O cavalo esticara as orelhas para a frente e parecia estar gostando de ser dominado, até que Harry roçou-lhe o flanco com o chicote, querendo incitá-lo a galopar. No mesmo instante, ergueu a cabeça, tentando empinar.
— É o chicote, senhor! — Timothy avisou. — Esconda o chicote! É a única coisa que está perturbando o garanhão.
Por um momento, Hermione esqueceu sua antipatia por Harry Porsham. Como excelente amazona que era, não podia fingir que não se impressionara com o que acabara de ver. O modo corno ele dominara Cruzamento Perigoso causara-lhe uma ad¬miração respeitosa, e ela não tentou esconder isso, quando o ca¬valo trotou em sua direção. Sorriu, pronta para elogiar o desem¬penho de Harry, mas ele olhou-a friamente, entregando-lhe o chicote que tanto desagradara o animal.
— Sinto tê-la desapontado — ele disse. — Da próxima vez que desejar pregar uma peça em alguém, procure outra pessoa.
— Seu monstro! — ela sibilou, furiosa, erguendo o chicote, que cortou o ar, quase batendo no ombro de Harry e atingindo o flanco de Cruzamento Perigoso.
Com verdadeira fúria, o cavalo disparou em direção à cerca, como se fosse atravessá-la, então, no último instante, de maneira incrível, saltou por cima, tomando o freio entre os dentes, total¬mente fora de controle.
— Oh, meu Deus! — Hermione exclamou, vendo cavalo e ca¬valeiro em desabalada carreira pelo campo aberto. Envergonhada e arrependida de sua infantil tentativa de vin¬gança, virou o rosto para não ver o que fatalmente aconteceria, apenas para defrontar-se com Timothy, que se aproximara cor¬rendo, vermelho de raiva.
— Foi isso o que aprendeu na França? — o homem gritou. — Causar dano às pessoas? Sem falar que agora nunca mais nin¬guém montará aquele cavalo, sua menina tola!
Afastou-se e montou um animal trazido por um dos ajudantes, pronto para sair em perseguição do selvagem garanhão. Hermione não teve tempo de explicar que não pretendera atingir o cavalo. Virando-se na direção tomada por Cruzamento Perigoso, viu ape¬nas uma pequena mancha no horizonte. Não havia como saber se o cavaleiro continuava na sela, ou se caíra. Olhando em volta, notou o olhar de reprovação de todos os criados. Não suportou a idéia de ficar ali, alvo daquela muda acusação. Levou Khan para fora do cercado, preparando-se para partir, e só então per¬cebeu que não sabia para onde ir.
Fez o cavalo parar, desanimada. Teria mesmo de ficar e arcar com as conseqüências de sua conduta abominável. Harry teria caído? Seria trazido de volta numa maca? Se ele estivesse ferido, ela teria a obrigação de prestar-lhe toda assistência que pudesse.
Pensou em levar Khan para o estábulo, então mudou de idéia. Podia ser que Harry conseguisse dominar Cruzamento Perigoso e trazê-lo de volta. Ela esperava sinceramente que isso aconte¬cesse, mas nesse caso seria horrível enfrentá-lo. Só de imaginar sua ira, muito justa, na verdade, estremecia de medo. Então, to¬mou uma decisão.
— Covarde! — xingou-se baixinho.
Guiando Khan por um atalho, tomou a direção da casa dos McLaggen, onde alguém poderia informar-lhe onde seria o piquenique. O cavalo parecia impaciente por ir mais depressa, mas Hermione não estava com vontade de correr, de modo que o manteve a passo lento. Sentia-se uma pessoa detestável. Por que comporta¬va-se tão mal, desde que pusera os pés na Inglaterra? Como se odiava por ter se entregado a rompantes de raiva, como costu-mava fazer na infância! Recriminou-se longamente pelas boba¬gens que cometera, até que o último problema que se arranjara voltou-lhe à mente. Como redimir-se daquela calamidade? E se o cavalo se ferisse de tal maneira que precisasse ser sacrificado? De qualquer modo, estivesse o animal ferido, ou não, seu pai ficaria furioso, nunca lhe perdoaria mais aquela insensatez.
O pai! Pela primeira vez, em toda sua vida, ela vira aprovação nos olhos dele. E arruinara tudo! Richard a repreenderia dura¬mente por ter maltratado um cavalo, e quando ela explicasse que pretendera atingir o cavaleiro, não o animal, ele ficaria ainda mais furioso. Não, o pai não podia saber. Os criados não conta¬riam, mas talvez Harry Porsham contasse, a não ser que ela lhe implorasse para guardar segredo.
Suas tristes reflexões foram interrompidas por um tropel de cas¬cos logo atrás. Ela se virou na sela para olhar e viu Harry ainda no lombo de Cruzamento Perigoso, que, mesmo espumando de cansaço, aproximava-se velozmente. Sentiu o impulso de fugir e ergueu o chicote para fazer Khan sair a galope, mas pensou melhor e deixou o cavalo continuar a passo. Precisava ser corajosa, enfrentar o homem, admitir a culpa, mesmo porque de nada adiantaria negar.
Harry emparelhou com ela, e Hermione olhou-o, notanto tanta raiva em seu rosto que estremeceu. Com um movimento elegante, ele inclinou-se e agarrou a rédea direita de Khan.
— Pode soltar a rédea do meu cavalo — ela disse. — Não vou fugir.
— Cale-se! — Harry ordenou por entre os dentes.
Puxando de leve as rédeas de Cruzamento Perigoso, obrigou-o a andar lentamente para esfriar. Como segurava a rédea de Khan, Hermione não teve outra alternativa a não ser acompanhá-lo a passo lento.
No pesado silêncio que se prolongou, desconfortável, ela ten¬tou pensar em algo para dizer, algo que quebrasse a tensão entre eles, e só conseguia encontrar palavras de elogio pela habilidade com que Harry lidara com o garanhão. Mas o momento não era apropriado para isso.
No ponto onde se erguiam os restos de um antigo muro de pedras, perto do local onde haviam se encontrado, junto ao riacho, Harry saltou para o chão. Amarrou o cavalo em uma pedra saliente do muro, aproximou-se de Hermione, tirou-lhe a outra rédea da mão e prendeu Khan também.
— Desça — ordenou a Hermione, caminhando para o velho sicômoro no alto do barranco.
Ela, notando que ele continuava furioso, teve medo.
— Prefiro ficar aqui — respondeu em tom hesitante.
Ele tirou as luvas e jogou-as na grama, então tirou o casaco e sentou-se, apoiando as costas no tronco da árvore.
— Eu disse para você descer desse cavalo — lembrou-a rispidamente.
Com relutância, Hermione escorregou da sela, pondo os pés numa pedra alta e de lá saltando para o chão. Ficou parada ao lado de Khan, suportando o olhar gelado de Harry. Era óbvio que ele lutava para manter a raiva sob controle, e ela rezou para que conseguisse.
Notando que Harry fixara o olhar em sua mão direita, Hermione viu que ainda segurava o chicote. Abriu os dedos, deixando-o cair no chão.
— Acredito que existam muitas coisas que você goste de fazer, além de cavalgar — ele comentou com sarcasmo cortante.
Ela juntou as mãos, torcendo-as nervosamente.
— Vamos, não seja tão tímida — ele prosseguiu. — Muitos prazeres a divertem, certo? Você adorou me ver humildemente pedindo desculpas, não é verdade?
Hermione concordou, movendo a cabeça, então encolheu-se ao notar a fúria que sua resposta acendeu nos olhos dele. Tentou corrigir-se, abanando a cabeça depressa.
— Não, não negue — ele disse em tom de comando. — Você adorou. Assim, posso presumir que, além de cavalgar e de ouvir os homens pedir-lhe desculpas, você também gosta de usar o chicote. Estou errado?
Como ela poderia responder? Lançou um olhar para Khan, ansiando por fugir dali.
— Nem tente — Harry avisou-a.
Hermione ficou onde estava. Se fugisse, ele a alcançaria, e talvez ficasse mais irado ainda. Além disso, se Harry desse vazão a toda sua raiva ali mesmo, talvez não contasse ao pai dela o que acontecera.
— Você disse que, para sermos amigos, precisaríamos ter algo em comum. Queria que gostássemos das mesmas coisas, não?
Hermione engoliu em seco, movendo a cabeça num gesto afirmativo.
— Pegue o chicote! — ele ordenou.
Um arrepio de medo percorreu o corpo de Hermione. Em toda sua vida, nunca se defrontara com uma raiva tão controlada, nem tão obstinada. Abaixou-se e ergueu o chicote com dedos trêmulos.
— Traga-o aqui — Harry instruiu.
A percepção fulminante do que ele pretendia fazer deixou-a paralisada.
— O que prefere, entender-se com seu pai, ou comigo? — ele prosseguiu. — Vamos acertar as coisas agora, entre nós, ou terei de levar ao conhecimento dele tudo o que aconteceu?
Aterrorizada, Hermione considerou suas duas alternativas: so¬frer punição física pelas mãos daquele homem que desprezava tanto, ou desenterrar a antiga hostilidade entre ela e o pai. Na verdade, não havia nada de bom para escolher.
Em vez de dar a seu algoz o prazer de vê-Ia tremer de pavor, fez o que fazia na infância, em circunstâncias semelhantes: ergueu o queixo, assumindo uma aparência de total indiferença. Altiva, caminhou até Harry e estendeu-lhe o chicote, como uma rainha oferecendo a espada a um cavaleiro numa cerimônia de consa¬gração, os desdenhosos olhos castanhos desafiando os dele, de um verde gelado.
— Agora, nós dois vamos compartilhar de seus divertimentos favoritos: cavalgar, usar o chicote e ouvir desculpas. Você vai “cavalgar" minhas pernas, eu usarei o chicote, e você pedirá des¬culpas. Entendeu as regras do jogo?
Hermione olhou para o chicote preto na mão dele, depois para o implacável rosto bronzeado, não se dignando a responder.
— Deite-se de bruços em meus joelhos, Hermione — ele co¬mandou, estendendo a mão para ajudá-la.
Em seu pavor, sem pensar, ela a aceitou. Ajoelhou-se ao lado de Harry, fitando-o com ódio indisfarçado. Ele fez um gesto de cabeça, indicando as próprias pernas.
Afundando-se num mar de vergonha, Hermione colocou-se na humilhante posição. As coxas duras pressionaram-se contra seu estômago revoltado e, olhando para o chão, ela viu um besouro sair da grama, a centímetros de seu nariz.
— Vou parar de bater quando você pedir desculpas, não antes — ele avisou.
Ergueu o braço, e ela imaginou, aterrorizada, quanta proteção lhe ofereceria as saias do traje de montaria, então teve a resposta, quando o chicote sibilou no ar, desceu sobre as camadas de tecido e atingiu sua carne tenra. Harry fez uma pausa, esperando que ela se desculpasse.
Hermione cerrou os dentes. Ele poderia bater-lhe até deixá-la inconsciente, que ela não pediria desculpas. Nunca! O braço dele subiu, o chicote desceu sobre as nádegas dela. Outra pausa...
Os golpes sucederam-se. Através de ondas de dor aguda, Hermione contava: três, quatro, cinco. A essa altura, estava soluçando e, na sexta vez em que o chicote atingiu-a, estremeceu, deixando escapar um grito. Harry esperou.
— Pare! — ela gritou, então amaldiçoou-se pela fraqueza, pois notou que ele atirara o chicote para o lado.
Segurando-a pelos ombros, Harry virou-a, sentando-a no colo. Hermione tentou escapar, mas ele abraçou-a, prendendo-lhe o rosto contra o peito. Lágrimas, mais de fúria impotente do que de dor, corriam pelo rosto dela, molhando a camisa que ele vestia. Como se consolasse uma criança, Harry afagou-lhe os cabelos.
Passaram-se vários minutos, até que ela se acalmasse. Então, ele ergueu-lhe o rosto, forçando-a a encará-lo.
— Odeio você! — Hermione murmurou, fitando-o através de lágrimas provocadas pela enorme raiva que sentia.
— Eu sei — ele replicou mansamente.
Ela notou que não havia triunfo nem satisfação nos olhos dele, de modo que não havia nada para atiçar sua ira. Confusa, desviou o olhar, enxugando as faces com a mão.
— Olhe para mim — ele ordenou em tom gentil.
— Não! Se olhar, sou capaz de arrancar seus olhos com as unhas!
— Você está com mais raiva de si mesma do que de mim — ele comentou.
— Está completamente enganado! Quanto quer apostar? — ela retrucou, mas sentiu a raiva abrandar-se, quando olhou para Cru¬zamento Perigoso e viu o negro corpo acetinado coberto de suor.
Fora por milagre que o cavalo não se ferira, que o cavaleiro fosse bastante hábil para manter-se na sela e consciencioso o su¬ficiente para ir atrás dela, em vez de levar o animal de volta naquele estado e contar tudo a Richard.
Harry tinha razão. Ela estava com ódio de si mesma pela lou¬cura que cometera, embora seu arrependimento fosse causado mais pelo pensamento do que poderia ter acontecido com o animal, do que com o homem. Percebeu, finalmente, que Harry esperava por seu pedido de desculpas e, como não houvesse nada que ela pudesse querer mais do que livrar-se dele, decidiu render-se.
— Eu não queria causar mal ao cavalo, mas a você — declarou sem emoção. — De qualquer maneira, reconheço que foi um ato infantil, irresponsável e perigoso, pelo qual mereci ser punida como criança.
— Obrigado — ele disse, quase com ternura.
Errar, ser castigada, sentir remorso e por fim ser perdoada era uma seqüência de fatos que Hermione não conhecera na infância. Todas as vezes em que pedira desculpas ao pai, ele apenas des¬lanchara numa nova tirada de repreensões, sem mostrar que a perdoara, e ela esperara que Harry agisse do mesmo modo. Olhou-o, incapaz de acreditar no que via e sentia. Os olhos cor-de-jade estavam repletos de calor, e ele sorria com genuína com¬preensão. De súbito, ela teve a sensação de que os dois eram amigos íntimos, com um vínculo especial a uni-los. Perplexa, no¬tou que isso varria todos os sentimentos negativos para longe.
— Lamento profundamente o que fiz e...
— Chega — Harry interrompeu-a suavemente. — Já está tudo esquecido.
Hermione soube, quando o viu inclinar a cabeça, que ele ia beijá-la, mas, em vez de esquivar-se, ofereceu a boca, de certa forma esperando ter uma prova de seu perdão.
Os lábios dele roçaram os dela numa longa carícia terna, que nada exigia.
Mesmo quando o beijo aprofundou-se, ela sabia que poderia livrar-se, se quisesse, que ele não a impediria. Mas não queria. Ergueu as mãos, deslizando-as pelo peito dele, subindo-as, até entrelaçarem-se na nuca larga.
Harry puxou o lencinho que prendia a massa de cabelos castanhos, e as mechas sedosas tombaram, livres. Ele tomou o rosto dela entre as mãos, ergueu a cabeça e olhou-a nos olhos.
— Você é uma doçura — murmurou.
O coração de Hermione pareceu parar, então bater mais depres¬sa, quando ele novamente apossou-se de seus lábios. Os beijos sucederam-se, longos, provocantes, sensuais, fazendo a cabeça dela girar. Então, Harry, com movimentos sedutores, conseguiu que ela entreabrisse os lábios, e sua língua ávida penetrou, ex¬ploradora, enquanto ele acariciava-lhe as costas, descendo as mãos até onde o chicote a atingira, amenizando o ardor com movimentos lentos.
Ondas após ondas de loucas sensações percorriam Hermione da cabeça aos pés, fazendo-a tremer e agarrar-se ainda mais a ele. O mundo oscilou, quando Harry deitou-se na grama, levan¬do-a junto. Então, ele se virou, inclinando-se sobre ela.
— Não... não podemos... — Hermione murmurou num débil protesto.
A boca máscula esmagou a sua novamente, silenciando-a com um beijo devorador, a língua inquieta provocando a dela, até conseguir a resposta ardente que desejava.
Ele gemeu, apertando-a com força nos braços, de modo que seus corpos se tocassem, e interrompeu o beijo por um instante, apenas para que seus lábios a acariciassem na orelha, na face, no pescoço, e voltassem à úmida boca entreaberta.
Uma das mãos fortes traçou uma trilha ardente, descendo pelo peito dela, tateando, puxando as saias para cima, introduzindo-se por baixo, apalpando os relevos macios. O toque dos dedos ou¬sados em sua pele arrancou Hermione do entorpecimento da pai¬xão, trazendo-a bruscamente de volta à realidade. Moveu a cabeça freneticamente, querendo livrar-se, sentindo que ele passava a outra mão por baixo do casaquinho, abria-lhe a blusa, puxava o corpete para baixo e acariciava-lhe os seios.
— Não — ele ordenou num sussurro trêmulo, beijando-a no¬vamente com sofreguidão, enquanto afagava-lhe um seio, erguen¬do-o na palma da mão, excitando o mamilo com o polegar, até que o pequeno botão se levantasse, rijo e orgulhoso.
De repente, sem nenhum aviso, parou.
Zonza, sentindo-se fora do mundo, Hermione viu-o erguer a cabeça e fitá-la nos olhos.
— Se não pararmos agora, minha pequena, ficarei envolvido demais para poder voltar atrás — ele explicou com voz estra¬nhamente enrouquecida.
Beijou o topo de um seio, depois o outro, e puxou o corpete para cima, cobrindo-os. Deitou-se ao lado dela, apoiado num cotovelo, correndo um dedo pelo contorno do rosto aveludado, lentamente.
Adorava o espírito de Hermione, seu frescor. Ela era um recipiente de paixão quente que apenas despertava, estava pronta para ser tomada. Era tudo o que ele imaginara que seria, e muito mais: voluntariosa, doce, dona de um temperamento flamejante, imper¬tinente, inteligente, um tesouro de contrastes excitantes. Seu tesouro.
Hermione deixou-se acalentar pelo calor do sorriso preguiçoso com que ele a fitava. Erguendo a mão, colocou-a no peito mus¬culoso. Harry cobriu-a com a sua, pressionando-a na altura do coração descompassado.
Ela prestou atenção aos sons e movimentos da manhã outonal, sonhadoramente. Um esquilo saltou de um galho para outro do sicômoro, levando uma noz que armazenaria para o inverno. In¬setos invisíveis emitiam ruídos suaves, em tosca harmonia. Um dos cavalos pateou, impaciente. Deitada ao lado de Harry, sem vontade de se levantar, Hermione perguntou-se por que nunca notara como ele era extraordinariamente bonito.
— Precisamos ir — ele observou, arrancando-a do devaneio. — Estamos atrasados e vamos ter de dar muitas explicações. — Riu da expressão de desapontamento que passou pelo rosto dela, plan¬tando um beijo no relevo de um seio. — Menina fogosa e travessa!
Corando, ela sentou-se, começando a arrumar os cabelos.
— Claro que precisamos ir — concordou, pondo-se de pé e endireitando as roupas.
Ele ergueu-se também e estendeu a mão para segurá-la, mas Hermione afastou-se rapidamente. Quando ela ia montar, Harry segurou-a pelo pulso e abraçou-a por trás, puxando-a contra o corpo.
— Minha pequena... — ele murmurou, roçando os lábios no pescoço dela. — Vai chegar o dia em que abraçarei você por muito mais tempo e de maneira muito mais íntima. Prometo.
Hermione mal podia acreditar no que ouvira. Depois de cha¬má-la de "menina fogosa", Harry prometia saciar-lhe o desejo com mais intimidades. Como ela pudera esquecer que aquele homem não tinha moral e era extremamente convencido? Livrou-se do abraço, girando para encará-lo.
— Acha, mesmo? — perguntou com todo o desdém que lhe permitia sua humilhante confusão.
Harry dirigiu-lhe um sorriso cobiçoso.
— Sem dúvida — respondeu.
— Não tenha tanta certeza assim — ela replicou, pegando as rédeas de Khan.
Harry ergueu-a sem nenhuma dificuldade e colocou-a na sela, então afagou-lhe a coxa.
— Onde é o piquenique? — indagou Hermione com voz trêmula.
— Na campina entre a casa de McLaggen e a minha - ele ex¬plicou, caminhando na direção de Cruzamento Perigoso. Montou rapidamente, e Hermione observou-o, desejando afas¬tar-se o mais depressa possível, colocando o máximo de distância entre os dois.
— Então, nos encontraremos lá — avisou em tom alegre, in¬citando Khan a sair a galope.
O vento batia em seu rosto quente, refrescando-o. Ele a chamara de fogosa e tivera motivos para isso, o que a deixara mortificada. Como pudera pernlitir que Harry a beijasse daquela forma, que a tocasse de modo tão íntimo? E o miserável achara que ela ficara frustrada, pois tivera a desfaçatez de prometer-lhe mais intimidades! Onde estavam seu orgulho, sua noção de certo e errado, que não a haviam ajudado a esquivar-se dos lábios e das mãos dele? Ela ardera de desejo, e Harry percebera. Certamente era um especia¬lista em fazer com que as mulheres o desejassem.
Depois de uma curta cavalgada, Hermione avistou ao longe os amigos reunidos para o piquenique, as roupas coloridas ponti¬lhando o cenário verde formado pelas colinas suaves. Mesmo à distância, ela conseguia dizer qual daquelas pessoas era Comarc. Oh, como ele a desprezaria, se soubesse o que acabara de acon¬tecer junto ao riacho. Seria a ruína dela, tanto aos olhos de seu adorado Comarc, como de todas as outras pessoas.
Olhando para trás, Hermione viu Harry, que a seguia uns quinze metros atrás.
— Quer apostar uma corrida até lá? — gritou, desejando chegar logo ao local do piquenique, mas sem parecer que fugia de alguma coisa.
— Acha que tem chance? — ele provocou. — Dou-lhe essa distância de vantagem. Vá!
Hermione pensou em rejeitar a oferta condescendente, mas pon¬derou que ganhar de Harry Porsham seria muito bom, fossem quais fossem as circunstâncias. Inclinando-se sobre o pescoço de Khan, apertou-lhe a anca com um calcanhar, e o animal disparou em desabalada carreira.
Quando se aproximava da campina, olhou para trás. Surpresa e desgostosa, viu que Cruzamento Perigoso encurtara bastante a distância. Achou que ainda poderia ganhar, mas perdeu toda a esperança, quando o garanhão alcançou Khan e ultrapassou-o, chegando na frente.
Um cavalariço ajudou Hermione a descer do cavalo. Ela arru¬mou as saias e, fingindo haver esquecido a presença de Harry, começou a andar.
— Ganhei — ele arreliou com um amplo sorriso.
— O cavalo da senhorita correu com uma pedra no casco, senhor — o cavalariço que estivera examinando uma das patas dianteiras de Khan disse a Harry.
Hermione ia usar isso como desculpa por haver perdido a cor¬rida, mas desistiu, pois Comarc aproximava-se dela.
— Onde, em nome do céu, vocês dois estavam? — ele indagou.
— Tivemos problemas com o garanhão — respondeu Harry, descendo calmamente para o chão.
Com ar cético, Comarc olhou do enorme cavalo preto, que parecia tão calmo, para o rosto vermelho de Hermione.
— Fiquei preocupado com você — declarou.
— Ficou? Não precisava — ela respondeu num murmúrio, certa de que a culpa que sentia transparecia em seus olhos.
Ele a levou até onde estavam Luna e Ronald Weasley e sentaram-se no cobertor estendido no chão, ficando de frente para Lavender e Neville.
Harry aceitou um copo de vinho que um criado ofereceu-lhe e sentou-se num outro cobertor, entre Parvati Patil e outra moça, que estava acompanhada de um rapaz. Hermione viu o enorme sorriso de satisfação de Parvati, refletindo que a jovem seria muito bonita, se não tivesse os olhos perpetuamente estrei¬tados num trejeito de malicia.
— Se estavam apostando corrida, você perdeu, Hermione — ela comentou com um brilho de ódio nos olhos.
— Estávamos apostando, e ela perdeu — confirmou Harry com uma risadinha.
— Acontece que meu cavalo estava correndo com uma pedra no casco — Hermione defendeu-se. — Além disso, eu ganharia facilmente, se estivesse montando o garanhão.
— Se montasse aquele cavalo, mocinha, agora estaria na cama, talvez gravemente ferida — ele observou, sorrindo.
— Sr. Porsham, eu seria capaz de lidar com Cruzamento Pe¬rigoso e ter um desempenho melhor do que o seu — ela replicou.
— Se tem tanta certeza, avise-me, quando quiser uma revanche, que eu montarei um de meus cavalos, e você montará o garanhão.
— Trato feito — ela disse, aceitando o desafio. — Mas terá de ser uma corrida sem obstáculos. Esse animal ainda não sabe saltar.
— Pelo que me lembro, ele saltou várias cercas, hoje — Harry comentou em tom seco. — Mas que seja como você quiser.
— Hermione, você não está abocanhando mais do que pode engolir? — perguntou Comarc, olhando-a com preocupação.
— Claro que não. Vencerei sem dificuldade — ela garantiu, lançando um olhar vingativo para Harry.
— Está planejando usar calça e montar como homem? E estará descalça, para melhor manter-se no lombo do cavalo, quando ficar de pé em cima dele? — Parvati alfinetou maldosamente.
Como se houvessem combinado, todos começaram a falar ao mesmo tempo, mas Hermione ouviu trechos do que a invejosa dizia a Harry. De acordo com aquela horrível criatura, ela fora uma vergonha para o pai, escandalizara a vila, fora uma des¬miolada completa.
Os criados começaram a distribuir cestas com frango frio, pre¬sunto, pão, queijo e frutas. Hermione decidiu esquecer o veneno destilado por Parvati e aproveitar o que restava do dia. Virou-se para Luna, querendo participar da conversa entre ela e Ronald.
— Hermione e eu fizemos uma aposta, quando éramos pequenas — a amiga contava ao marido. — A primeira de nós que se casasse teria de pagar à outra cinco libras, como prêmio de consolação.
— É verdade! — exclamou Hermione. — Eu tinha esquecido.
— Como fui eu quem convenceu Luna a casar-se tão depressa, cumpre a mim pagar o prêmio — disse Ronald, piscando joco¬samente para Hermione.
— Com certeza — ela concordou. — E espero que Luna deixe que o senhor a convença a fazer muitas outras coisas.
— Também espero — afirmou o barão com tanta ênfase que Hermione desatou a rir.
Comarc inclinou-se para ela, que o fitou, ainda rindo.
— Vai me deixar convencê-la a fazer algumas coisas também? — ele indagou.
Era quase uma declaração, e Hermione ficou tão surpresa que mal podia acreditar que ouvira direito.
— Depende — ela respondeu num murmúrio, sem conseguir desviar os olhos dos dele.
Uma lufada de vento alvoroçou-lhe os cabelos, e ela, num gesto automático, pôs a mão na nuca, procurando o lenço que os prendera.
— É isto que está procurando? — perguntou Harry, tirando o lenço do bolso e entregando-o a ela.
Hermione viu o rosto de Comarc fechar-se numa expressão de desagrado e, com um movimento brusco, arrancou o lenço da mão de Harry. Corou, sabendo que aquele homem insuportável deliberadamente fi¬zera todos perguntarem-se como o lenço fora parar em seu bolso e a tecerem conjeturas sobre o real motivo do atraso dos dois.
A idéia de vingar-se, castigando-o cruelmente, encheu-a de satisfação, e ela imaginou como seria delicioso atravessá-lo com uma espada, ou estourar-lhe a cabeça com um tiro de pistola, ou, ainda, enforcá-lo numa árvore.


No fim da tarde, quando os últimos amigos partiram, Comarc disse a um dos cavalariços que montasse Khan e o conduzisse de volta para casa, então ajudou Hermione a subir em sua bonita carruagem. Pôs os cavalos em movimento, e pouco depois o veí¬culo percorria a estrada poeirenta. Manejando as rédeas habil¬mente, ele permanecia em silêncio, parecendo aborrecido.
— Comarc, você está zangado comigo? — Hermione perguntou, temerosa.
— Estou, e você sabe por quê.
Ela sabia e sentia-se dividida entre a preocupação e a alegria. Seria possível que Harry houvesse fornecido a Comarc o impulso de que ele necessitava para declarar-se? Durante todo o dia, Comarc mostrara-se inconfundivelmente ciumento.
Quando chegaram diante da casa dela, ele parou a carruagem e passou um braço pelo encosto do banco.
— Acho que ainda não lhe disse como você está linda.
— Obrigada — ela respondeu, surpresa e feliz.
— Virei vê-Ia amanhã de manhã, às onze horas, para conver¬sarmos sobre isso.
— Sobre como estou linda? — Hermione brincou.
— Não. Sobre o motivo de eu estar zangado.
Ela suspirou.
— Seria melhor falar do outro assunto.
— Você gostaria mais, com certeza — ele concordou com uma risadinha, saltando do carro e virando-se para ajudá-la a descer.
Comarc chegou às onze em ponto, na manhã seguinte. Hermione parou na porta da sala de visitas, quase incapaz de acreditar que ele de fato fora a sua casa só para vê-Ia, realizando seus sonhos de tantos anos! E estava incrivelmente bonito, rindo de algo que Lady Anne dissera.
— Gosto desse rapaz — a tia cochichou ao passar por ela, retirando-se da sala.
O céu estava azul, e uma brisa gentil brincava com os cabelos de Comarc, enquanto ele e Hermione percorriam a estrada campestre, na carruagem confortável, rindo e conversando, parando de vez em quando para admirar um trecho mais bonito da paisagem que se estendia dos dois lados. Algumas árvores já trocavam o verde do verão pelos tons dourados e alaranjados do outono, e para Hermione tudo era magnífico.
Comarc mostrava-se encantador e divertido, tratando-a como se ela fosse uma boneca de frágil porcelana, e não a mesma garota que costumava passar de uma aventura calamitosa para outra. E ela tomava o maior cuidado para não dizer nada que o fizesse lembrar a menina travessa e ousada. Mesmo após tantos anos, ela ainda corava ao lembrar como tentara beijá-lo e pedira-lhe para que a esperasse, na noite em que se despedira dele, antes de partir para a França.
Almoçaram com a mãe de Comarc, e, embora Hermione houvesse repelido a idéia, a princípio, a refeição transcorreu de modo muito agradável.
Após o almoço, atravessaram o gramado, andando até a orla do bosque. Por sugestão de Comarc, Hermione sentou-se no balanço que pendia do galho horizontal de um enorme carvalho.
— Por que você e Porsham demoraram tanto para chegar ao local do piquenique, ontem? — ele perguntou sem nenhum preâmbulo.
Hermione deu de ombros, tentando mostrar-se despreocupada.
— Porsham quis montar o garanhão, e tivemos problemas.
— Acho muito difícil acreditar nisso, Hermione. Tenho cavalgado com Porsham e sei que ele sabe lidar com cavalos muito bem. E o garanhão pareceu-me muito dócil, ontem. Portanto, diga-me o que realmente aconteceu.
— Comarc, pelo amor de Deus! — ela exclamou, quase suplicante. — Você sabe que alguns cavalos são totalmente imprevisíveis e podem causar problemas ao mais experiente cavaleiro.
— Então, se aquele garanhão é tão difícil de controlar, pode me dizer por que concordou em montá-lo, numa corrida contra Porsham?
—Oh, isso... Bem, ele me provocou tanto, que não pude resistir. — Por entre os cílios, ela lançou um olhar para o rosto de Comarc, que mantinha uma expressão séria e duvidosa. O mais aconse¬lhável, então, era mostrar-se ofendida e indignada. — Se quer saber, não suporto aquele homem, e acho horrível você estar me interrogando desse jeito. É injusto, além de impróprio. — Inesperadamente, ele sorriu.
— Nunca imaginei que um dia fosse vê-Ia preocupar-se com o que é próprio ou impróprio. — Sem aviso, puxou-a do balanço para seus braços e murmurou: — Como você é linda!
Hermione prendeu a respiração, pensando tolamente, sem parar: "Ele vai me beijar, ele vai me beijar!" Estava tão nervosa que sentiu um desejo histérico de rir, quando Comarc inclinou a cabeça, mas, ao primeiro toque dos lábios dele sobre os seus, o impulso estúpido desapareceu. Tentou manter as mãos abaixadas, porém, como se tivessem vontade própria, elas subiram, pousando no peito de Comarc. Conteve o impulso de abandonar-se totalmente, com receio de que ele a censurasse, se ela, sem recato, mostrasse toda a profundidade de seus sentimentos.
No entanto, Comarc não lhe permitiu fugir de um envolvimento intenso. Apertou-a nos braços, esmagando-a contra o seu peito, beijando-a com habilidade, a boca movendo-se com insistência sobre a dela, provocante, mas gentil, então faminta e exigente. Quando finalmente soltou-a, Hermione sentia as pernas fracas. Comarc revelara extrema prática em beijar. Não era à toa que se tornara tão requisitado por todas as moças das redondezas, e esse pensamento deixou-a um tanto triste.
Ele a observava com expressão satisfeita e confiante.
— Você beija muito bem — ela elogiou, esperando parecer bastante competente para poder julgar.
— Obrigado — ele agradeceu, deixando transparecer uma certa irritação. — Chegou a essa conclusão baseando-se na vasta ex¬periência que adquiriu na França?
Hermione voltou a sentar-se no balanço, sorriu e não disse nada. Dando impulso com a ponta dos pés, levou o balanço para trás. Na volta, foi agarrada por Comarc, que, pegando-a pela cintura, puxou-a novamente para seus braços.
— Sua menina irritante! — ele disse, rindo. — Se eu não me cuidar, ficarei mais louco por você do que qualquer um daqueles palermas de Paris.
— Eles não eram palermas — ela protestou, um instante antes de os lábios dele encostarem nos seus.
— Ótimo, porque eu odiaria estar em tão má companhia.
O coração de Hermione deu um salto.
— O que quer dizer com isso? — ela perguntou baixinho.
— Quero dizer que já estou louco por você — ele respondeu, beijando-a com sofreguidão.
Duas horas mais tarde, Hermione entrou em casa como se flu¬tuasse, perguntou pela tia e Sewell informou que Lady Anne encontrava-se no escritório, com o pai dela e o sr. Porsham.
Ela subiu a escada correndo. Não permitiria que nada, absolu¬tamente nada interferisse em sua felicidade, e ver Harry Porsham certamente teria o poder de estragar aquele momento maravilhoso.
Entrando no quarto, fechou a porta e jogou-se na cama, en¬tregando-se às lembranças daquela tarde adorável.


Lágrimas enchiam os olhos de Lady Anne, quando ela fez uma cortesia rígida ao duque de Griffindor, no escritório de Richard. Com passadas largas e determinadas, Harry saiu do apo¬sento, mas ela continuou parada no mesmo lugar, sentindo o coração apertado num nó de dolorosas emoções.
Richard afastou a cadeira e levantou-se, saindo de trás da escrivaninha.
— Eu não teria lhe contado tudo, agora, mas o duque achou que você devia saber de nosso trato. Espero não precisar lembrá-la de que prometeu manter segredo sobre tudo o que foi discutido aqui.
Anne encarou o cunhado, as lágrimas represadas apertando-¬lhe a garganta. Ergueu a mão, como se fosse falar, mas deixou-a pender, continuando calada.
— Devo admitir que não fiquei contente, quando a vi chegar da França com Hermione — Richard disse. — Mas já que está aqui, talvez possa ser bastante útil. Quero que mostre admiração pelo duque, na frente de Hermione. Ela respeita sua opinião e, quanto mais cedo sentir afeição por ele, melhor para todos nós.
— "Sentir afeição por ele" — Anne repetiu, incrédula. — Hermione odeia o ar que esse homem respira.
— Isso é um absurdo. Ela mal o conhece.
— Conhece-o o bastante para desprezá-lo.
— Então, conto com você para fazê-la mudar de opinião.
— Richard, você é cego? Sua filha está apaixonada por Comarc McLaggen.
— Comarc mal consegue evitar que sua propriedade desmorone. O que poderia oferecer a Hermione? Uma vida de criada?
— De qualquer modo, é uma decisão que cabe a ela tomar.
— Besteira! Cabia a mim tomar uma decisão, e tomei! Deixe-me explicar-lhe uma coisa, senhora. Assinei um contrato redigido pelos advogados do duque de Griffindor e recebi cem mil libras. Paguei meus credores e fiz melhorias na propriedade, gastando mais da metade desse dinheiro. Mais da metade — Richard enfa¬tizou. — Se Hermione se recusar a honrar o contrato, não poderei devolver a quantia que me foi paga, de modo que Harry poderia me acusar de fraude, roubo, sabe Deus mais o quê. Se isso não a preocupa, veja o outro lado da questão. Acha que Hermione seria feliz, casada com McLaggen, enquanto todos, num raio de cento e cinqüenta quilômetros, comentassem o fato de o pai dela estar apodrecendo numa masmorra?
Tendo desfiado seu discurso, marchou para a porta.
— Conto com sua colaboração, pelo bem de Hermione, se não pelo meu — disse antes de sair.



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Hallo!!

Ehhh, ae está mais um capítulo pra voces...
bem....er..."interessante" não?
hshausashaushuasuhaushasuhhuashuahshuas

vcs perceberam que quando Harry deita Mione na grama e vai por cima dela, o q ela diz?
ela diz "Não...Não podemos..."
ela disse que não podia...mas não que não queria...
*solta a pista no ar e olha pro ceu assobiando*
hsuahshaushuashuashuahushuashuhuashuahushuashua

Bom, postei so um cap hj, mas em compensaçao, talvez domingo eu poste outro, ou entao antes ate, viram como sou boazinha?
*cola um biscoito de polvilho na cabeça pra fingir que é uma auréola*
shaushuashuahusahus

Ahhh gente, no último dia 4 foi aniversário da uma grande, querida e super amiga minha...
ANA LUIZA
entao estou aki neste momento solene para homenagea-la....

PARABEEEENS AMIGAAA, TE AMO SUPER 'A LÓTI'
HUHSHUAHUSHUASHUAHUSHUASHUHUASUHAUSHHUAS


bom, eh isso ae, povooo

OBRIGADA PELOS COMENTARIOS, VIW?
COMENTEMMMMM MTOOOOO PLEAASEE

luv ya so much
=**
by~



E no próximo capítulo...

"Embalada pelo clima de descontraída afabilidade, Hermione ergueu os olhos para ele com um sorriso radiante.
— Está pensando no próximo movimento, ou arrependendo-se do anterior, meu senhor?
Harry deu uma risadinha.
— Você é a mesma moça que afirmou que nunca chamaria um homem de "meu senhor"?"

Só aqui, na Floreios e Borrões
nesta mesma fic, neste mesmo site...

=D

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