Capítulo 2
Modus operandi
Talvez pela necessidade de vê-lo mais uma vez, Ginny caminhou pelo bosque no dia seguinte, e no seguinte, e no que veio depois. Provavelmente ele não desejava falar enquanto ela estivesse acompanhada, o que tornava um encontro praticamente impossível, visto que Percy adorava ler sob a sombra do eucalipto e George e Fred costumavam nadar no lago todas as tardes.
Decidiu então que caminharia pela manhã, logo após terminar de ajudar sua mãe com os afazeres. Ainda não poderia falar com Gabriel, mas carregava consigo folhas de pergaminho para escrever suas palavras, na esperança de que ele as lesse. Queria se explicar, inventar qualquer coisa, desmentir o que os próprios olhos negros haviam presenciado. Queria ficar livre dos pensamentos obscuros que a haviam invadido, desde que o viu desaparecer entre as árvores.
Sentou-se às sombras dos velhos carvalhos e esperou. Ele disse que sabia onde encontrá-la. Seria uma pista para que ela deduzisse que ele desejava vê-la ali? Ou seria apenas delírios de uma mente que desejava, a qualquer custo, se ver livre de um problema?
“Bom dia, senhorita Weasley”, ela escutou o tom baixo e frio de Gabriel. Assustou-se. Mais uma vez não sentiu a presença do rapaz ao se aproximar. Sentiu-se vulnerável.
Ela acenou positivamente, como se permitisse que ele lhe dirigisse a palavra.
“Ainda fazendo penitência?”, perguntou, achando engraçado. Ginny assentiu. “Estou curioso”.
Ela pegou o pergaminho, a tinta e a pena e rabiscou apressadamente: “Por quê?”.
“Inteligente da sua parte. Um jeito estranho de se conversar, mas também vou me silenciar e responder à sua maneira”.
Ele sentou-se ao lado de Ginny e pediu a pena e o pergaminho. Escreveu a resposta para a pergunta e devolveu para que ela pudesse ler.
“Porque quero saber como é a sua voz”.
“O que você viu?”, ela escreveu.
“Várias coisas, Ginevra”.
“Como sabe o meu nome?”.
“Eu disse que iria descobrir”.
“Prefiro que me chame de Ginny”.
“Então me chame de Tom”.
Ela estacou ao ler a última frase. Tom. Tom? Por quê? Ele notou a dúvida estampada na face sardenta da ruiva e pegou o pergaminho de volta para responder.
“Gabriel foi o nome que escolhi ao fazer os votos. É um nome que me foi dado para tratar dos assuntos do Pai. Meu nome de batismo é Tom Riddle”.
“Por que escolheu Gabriel?”.
“Porque Gabriel é aquele que anuncia”, falou em voz alta. “É o preferido de Deus e aquele em quem ele confia até mesmo a guarda dos portões do Éden”.
Ginny o encarou e ele sorriu de forma enigmática, como se a desafiasse a falar, quebrar os supostos votos de silêncio, mas ela estava cada vez mais inclinada a acreditar que ele sabia que o que a impedia de falar era magia. Uma poderosa magia.
“Gosta de histórias bíblicas?”, perguntou, voltando a escrever.
“Sim”.
“Já leu a bíblia?”.
“Sim”.
“Acredita em Deus?”.
Ao ler a pergunta Ginny o encarou mais uma vez, intrigada. Tom retribuiu o olhar, fitando-a diretamente nos olhos, como se tentasse ler sua alma e seus pensamentos. Ginny se sentiu transparente e não sustentou o olhar. O que responder? O que ele queria ouvir?
“Acredita?” perguntou em voz alta e ela acenou afirmativamente. “Não parece muito segura disso”.
“Nem você”, escreveu de volta. Tom sorriu.
“Talvez. Apenas a fé não é suficiente. Tenho perguntas demais e a fé não as responde da forma que eu gostaria”.
“Então por que se tornou padre?”.
“Justamente por isso”.
Mais uma vez ele percebeu que ela não entendia perfeitamente o significado daquelas palavras e ele tornou a pegar o pergaminho e escrever.
“Encontre-me após a missa de Domingo, no mosteiro, que te apresentarei aos meus motivos”.
“Espero que sejam bons”.
“São fortes”.
“Isso não significa que são bons”.
“Tem razão”.
“E se eu não aparecer?”.
“Você aparecerá”.
“O que te garante?”.
“Somos cúmplices”, falou com seu tom habitual. “E na justiça pregada pela Inquisição, quem denuncia ganha os louros, mesmo que tenha um pouco de culpa. O condenado ganha apenas a forca ou fogueira. O que você prefere?”.
Ela fitou o padre duramente. Chantagem. Ele não podia estar falando sério.
“Espero poder ouvir sua voz na ocasião, Ginevra. Acredite quando eu digo que sua voz me deixa curioso. Desejo descobrir se ela tem o mesmo poder que seus olhos me dizem que tem”.
Dizendo isso ele se levantou e bateu as folhas que grudaram na batina. Ela também se levantou e segurou-lhe a mão, beijando-a, pedindo por benção mais uma vez. A diferença é que desta vez ela se perguntava se Deus realmente a abençoava através das mãos daquele padre, que tinha olhos de morte e sorriso de medo.
Voltou para casa em seguida, perguntando-se durante todo o caminho se deveria compartilhar com alguém essa informação. Talvez um de seus irmãos pudesse ajudá-la, mas quem? George, Fred e Ron eram imaturos e impulsivos, seria muito pior. Percy seria perfeito, mas não confiava nele. Suspirou. Um fardo para carregar sozinha. Um fardo, talvez, pesado demais.
Abriu a cerca de madeira e entrou nos jardins mal cuidados. Seu vestido tinha as barras enlameadas quando chegou à porta da humilde casa e entrou, sem fazer barulho. Sua mãe estava na cozinha e seu pai consertava uma cadeira. Escutou alguns barulhos nos fundos da casa e deduziu que eram Fred e George. Não havia sinal de Ron ou Percy.
“Minha filha, venha aqui”, Molly chamou. Ginny se aproximou devagar. “Está imunda. Se não usasse saias poderia se passar por um moleque desleixado. Isso não são modos”.
Ginny apenas concordou. Não estava disposta a questionar qualquer coisa. Seria um desgaste muito maior tentar argumentar quando não poderia falar nada.
“Ainda não retirei o encanto de você, não?”, Ginny confirmou. “Aproxime-se”.
Molly falou algumas palavras e as repetiu duas vezes, primeiro tocando a testa da filha e em seguida a garganta. Ginny tossiu. Tossiu com força e respirou fundo. Não era uma sensação muito boa.
“Pronto”.
“Isso é horrível”, falou com a voz rouca.
“Era para ser horrível mesmo. Só assim aprendem a não brincar com o que não podem, se expondo mais do que o necessário”.
Ginny não precisava daquele castigo. Já estava em outro muito pior.
“Tente se recompor, porque Harry virá jantar conosco”.
Harry. Ele viria. Poderia falar para ele o que havia ocorrido, talvez entendesse. Ou não. Decididamente não. Harry não era muito paciente e iria tirar satisfações, mas não sem antes condená-la por não ter falado nada até então.
“Mamãe”, Ginny parou antes de seguir pelo corredor.
“Sim?”.
“O Bill já retornou para a vila?”, sua voz ainda estava ligeiramente rouca.
“Não sei. O retorno está previsto para hoje, mas realmente não sei se já chegou”.
“Posso ir até a vila, mamãe?”.
“Nem pense nisso, Ginny”.
“Mas eu preciso falar com o Bill”.
“Nada pode ser tão sério que não possa esperar até amanhã”.
“É sério sim, mamãe. Prometo voltar antes do jantar”, implorou.
Molly pareceu considerar e lançou um olhar a Arthur, como se pedisse ajuda, mas o homem apenas balançou a cabeça e sorriu.
“Não vejo problemas, Molly”.
A senhora Weasley respirou fundo. Ginny achou que ela iria explodir, pois estava ficando vermelha, mas quando falou sua voz estava controlada.
“Tudo bem, mas vai estar em casa antes de escurecer. Se chegar depois eu serei obrigada a deixá-la muda por tempo indeterminado”.
“Sim, mamãe”.
“Mas antes de sair, por favor, recomponha-se, menina!”, resmungou, voltando sua atenção aos seus afazeres novamente.
Ginny foi até o seu quarto. Era pequeno. Muito pequeno. Havia apenas uma cama um pouco torta, uma mesa de cabeceira e um baú, onde guardava os seus pertences. Na mesa havia uma bacia e uma jarra de água, que Ginny derramou para lavar o rosto suado.
Em seguida enxugou com o pedaço de pano que ficava amarrado na alça da jarra e soltou os cabelos para refazer a trança.
Quanto ao vestido, não havia muito a fazer, mas tentou retirar a lama, deixando apenas as manchas nas barras. Limpou os pés e calçou os sapatos. Em seguida, levantou-se apressadamente para puxar a capa feita de tecido não tingido, que estava atrás da porta.
Correu pelo corredor fazendo barulho e escutou a sua mãe reclamar mais uma vez de seus modos, quando já estava fechando a portinhola da cerca. Subiu na carroça e atiçou o velho cavalo, que iniciou um galopar constante e de velocidade moderada. Não demorou muito para avistar o vilarejo.
Continuou com uma velocidade mais baixa, tomando cuidado para não colocar a carroça no caminho dos comerciantes. Passou pela estalagem, pelo ferreiro e viu de longe o mosteiro. A arquitetura, que sempre lhe exerceu fascínio, agora lhe causava arrepios.
Ela parou a carroça e desceu com agilidade, amarrando-a junto a outras carroças de comerciantes, que agora levavam mantimentos e especiarias aos representantes da casa dos Habsburgo, a força política da vila. Vez ou outra olhava para os muros do palácio que pertencera a algum antigo senhor feudal, e se imaginava participando das festas da corte.
“Ginevra?”, ela escutou ele chamar. Precisou se controlar para não deixar que uma exclamação de susto lhe saísse por entre os lábios. “Ainda cumprindo penitência?”
Ela não sabia o que falar ou o que fazer. Apenas moveu a cabeça, indicando que sim.
“Uma pena, mas fico feliz em vê-la por aqui. Não imaginava que um novo encontro aconteceria em tão pouco tempo”.
Ginny se apressou em procurar alguma pena e tinteiro para rabiscar um pedaço de pergaminho que achou na carroça, mas não encontrou.
“Venha comigo”, ele pediu.
Ginny ficou parada. Tinha que encontrar Bill, precisava falar com o irmão, mas como explicar isso a Tom? Sua intuição dizia que o que tinha a fazer de melhor era continuar calada. Não queria saciar a curiosidade que ele tinha em ouvir a sua voz... Não naquele momento. Talvez por isso desistiu de pensar no que fazer e o seguiu para dentro dos jardins do mosteiro.
“Vi você pela janela da biblioteca”, falou por falar.
Ela continuou seguindo o rapaz, sem fazer nenhum gesto brusco, ou olhar para os lados. Se era para descobrir que motivos ele tinha para não denunciar a sua família, escutaria. Ouvir com toda a atenção que dispunha naquele momento, mas não conseguia entender, de forma alguma, o modo de agir de Tom. Padre Gabriel... Um servo do Senhor que parecia esconder muita coisa por trás de suas palavras bonitas e de seu rosto pacífico.
Para a sua surpresa, entraram na biblioteca. Estava vazia, silenciosa, e Tom parecia já saber disso. Caminhou calmamente até uma mesa mais isolada e puxou uma das cadeiras para que ela sentasse. Em seguida fez o mesmo, sentando-se de frente para Ginny, que o olhava com curiosidade. Tom a fitou.
“Tem alguma idéia de por que eu te trouxe aqui?”, ela balançou a cabeça, negando. “Sabedoria”, murmurou. “Conhecimento”, vendo que ela continuava sem entender, prosseguiu. “Foi apenas isso que me fez permanecer nesse mosteiro. A Igreja guarda conhecimento demais e eu os queria para mim. Precisava da sabedoria das páginas dos livros e manuscritos secretos para absorver as informações das quais eu necessitava”.
Ginny pegou apressadamente o tinteiro e a pena que estavam na mesa e puxou um pergaminho para se comunicar.
“E você conseguiu?”.
“Descobri muitas coisas”, escreveu de volta.
“O que descobriu?”.
“Tenha calma, porque te trouxe aqui para te propor um acordo”.
“Que tipo de acordo?”.
“Você me ajuda e eu não denuncio a sua família”. Sua caligrafia era firme e simples. Ginny escutou diversas vezes que a caligrafia podia dizer muito sobre as pessoas, mas a de Tom era misteriosa, assim como seus olhos, sua voz e seu sorriso. A firmeza e a simplicidade do traço faziam com que a pessoa não tivesse muito a extrair, a não ser sua objetividade.
Ginny encarou os olhos negros, em busca de qualquer sinal, mas frustrou-se ao perceber que não seria através dos olhos que conseguiria qualquer informação. Também não sabia se poderia confiar nas palavras, o que a deixava sem opções. Precisava seguir a sua intuição.
“O que deseja que eu faça?”, escreveu. Sua mão tremia e sua caligrafia refletiu isso.
“Apenas diga sim ou não”.
“Não vou responder se eu não...”, ele puxou o pergaminho antes que ela terminasse de escrever a frase, borrando a tinta.
“Sua resposta será sim, Ginevra”, ele sussurrou. “Você não tem opção. Minha proposta só te dá uma saída”.
E ele estava certo.
“Não tema nada”, ele continuou, ao ler o medo na expressão dela. “Nossa busca será por algo que nos foi tirado desde a criação do mundo. Não há mal algum em recuperar o que era para ser nosso”.
O tom monótono e frio de sua voz a incomodava. Era como se Tom sempre falasse algo óbvio demais, simples demais, fácil demais, mas que ela nunca conseguia entender em sua profundidade. Conhecimento. Sabedoria. Essa era a diferença. Ele os tinha. Ela não.
Ginny, lentamente, retirou a pena nas mãos de Riddle. Molhou na tinta e pegou o pergaminho, onde escreveu firmemente uma única palavra.
“Sim”.
N/A.: Agradeço todos os comentários até agora, e peço que comentem sobre esse capítulo também. Quero saber e fico muito feliz em descobrir a opinião de vocês. Se quiserem ler mais fics minhas basta acessar o http://fanfiction.net/~karlakollynew