Cap. 3 – Viciando-se
Dirigi-me ao jardim para apreciar o final da minha estação preferida.
Sentados no banco do jardim deparei-me com Gabrielle e um jovem rapaz aos beijos. Deveria ser Benjamin. Fleur já havia me falado dele algumas vezes. Era o rapaz com quem ela queria casar a irmã. O empecilho era a condição financeira dele.
–Gabrielle? – chamei.
Os dois se separaram assustados e me encararam.
–Hermione – ela disse mais aliviada.
–Sabe que é perigoso para vocês se encontrarem aqui – lhe informei preocupada – Não ponha tudo em risco. Da próxima vez marquem um lugar longe da casa. Caso Evan os visse, nem mesmo Fleur conseguiria convencê-lo de casar vocês.
–Eu sei – ela concordou cabisbaixa.
Estava calor. Uma tarde abafada. Era certamente contraditório visto que o inverno estava para chegar. Sentei-me ao piano da sala de música. Ele era preto e de calda média. Lindo. Ainda não o havia tocado. E admito que tinha saudade das minhas aulas de piano. Comecei a tocar algo. Sabia que minha mãe tinha ido a cidade com o Evan e eu poderia ter paz naquela tarde. Toquei algo contagiante. Despedia-me da estação que mais me trouxera surpresas.
Até que senti sua mão em meu ombro o que me fez parar.
–Não, não pare – pediu-me deslizando sua mão pelo meu ombro até se sentar ao meu lado.
Eu voltei a tocar algo mais suave, ela me sorriu e passou a tocar comigo olhando em meus olhos. Eu não sabia como ela era capaz de acertar as notas sem olhar para as teclas.
–Vamos Hermione – pediu divertida – Acompanhe-me.
Eu a encarei e no instante seguinte me perdi na melodia. Parei de tocar. Ela riu e parou também.
–Você conhece as notas tão bem quanto eu – disse me olhando – Só que se acostumou a identificá-las pela visão. Toque cada nota observando onde elas se encontraram e guarde essa imagem em sua memória – pediu.
E eu toquei cada nota olhando atentamente onde elas se encontravam.
–Agora feche os olhos e as toque.
E os fechei e toquei as notas atentando para a sua localização delas em minha memória visual.
–Ótimo! – sorriu-me satisfeita.
Ela depositou uma mão em cima de meus olhos e me mandou que tocasse algo. Eu posicionei meus dedos na primeira e última tecla do piano e deslizei os dedos até as primeiras notas da música que eu tocaria.
Concentrei-me e respirei fundo. Eu tinha a imagem do piano em minha mente, então comecei a tocar. A primeira estrofe fluiu com muita dificuldade. Passei do tempo nas notas diversas vezes. Bufei pelo nariz e recomecei após passar a estrofe mentalmente. Repeti-a. E de novo. Outra vez. Até que consegui tocá-la tão perfeitamente como se eu estivesse vendo o piano.
Terminei a música. Fleur retirou sua mão e me encarou sorrindo. Eu lhe sorri igualmente contente.
–Por que parou? – questionou com um sorriso – Toque!
E eu obedeci. De olhos fechados. Havia gostado do desafio.
Senti as costas de uma de suas mãos afagar minha face. Seus dedos desceram pelo meu pescoço e deslizaram para dentro dos meus cabelos. Sua outra mão escorregou para um de meus braços. Descendo e subindo até meu ombro. Seu toque era macio e desconcentrante. Uma mão seguiu pelas minhas costas até meu quadril e o apertou suavemente. Os dedos da outra tocavam o meu colo e ameaçavam percorrer o vale entre meus seios.
Eu já não sabia mais o que estava tocando. Na verdade, eu nem estava mais tocando. Havia parado não me recordava quando. Mas meus olhos ainda estavam fechados.
Senti sua respiração em meu pescoço. Muito próxima. Seu nariz roçou a minha bochecha cheirando-me. Foi até o meu pescoço onde ela depositou um beijo molhado. Seus lábios aproximaram-se do meu ouvido enquanto uma de suas mãos subia pela minha perna.
–Sinto falta do seu beijo – sussurrou me virando para ela.
Arrepiei-me. Minha respiração já estava descompassada e minha boca tinha ficado seca.
Sua mão subia o meu vestido apertando minha coxa. Seus lábios mordiscavam minha orelha. Seus dedos da outra mão brincavam com o contorno do meu decote ousado. Havia colocado aquele vestido consciente do que poderia acontecer. E ele causou o efeito no qual tinha pensado.
Senti um aperto mais forte em minha coxa. Abri os olhos e a encarei. Nunca havia visto aquilo nos olhos de ninguém com tanta intensidade como vi nos dela. Voluptuosidade, desejo, loucura.
Ela me tomou pelos lábios com voracidade e eu retribui com igual paixão. Suas mãos ainda percorriam o meu corpo com uma facilidade incrível. Uma delas parou em minha cintura quando Fleur começou a beijar meu pescoço. Busquei ar mas mesmo tendo separado meus lábios do dela eu não conseguia respirar direito. Sua mão subiu para um de meus seios e o afagou. Eu agarrei sua nuca e trouxe a sua boca de encontro a minha. Dessa vez nossas línguas puderam disputar por um espaço. Num confronto prazeroso.
–Fleur! – alguém a chamou.
Separamo-nos ao mesmo tempo e nos viramos para a porta. Era Gabrielle. Ela nos encarava com um olhar recriminador. Eu e Fleur não dissemos nada. Não por não termos o que dizer, mas porque arfávamos e eu sentia que não havia chegado oxigênio suficiente ao meu cérebro, o que me impedia de ver tudo com clareza.
–Se algum empregado as visse contaria tudo a Evan – disse-nos depois de longos minutos de silêncio.
–Eu sei, Gabrielle. – a irmã concordou – E talvez fosse melhor assim.
–Não seja estúpida! – bradou – Você acabaria não apenas com a sua vida, mas com a minha também. Espere que eu me case depois faça o que quiser!
–De que tem raiva? – ela perguntou tranqüila.
A jovem cruzou os braços, encarou o chão por algum tempo e voltou seus olhos para nós.
–Só não quero que te aconteça algo – falou preocupada – Não me importo que tenha um caso com Hermione contando que esteja feliz. Eu sempre soube que você não gostava de homens – deu um sorriso tímido e Fleur fez o mesmo – Mas não permita que isso acabe com a fachada que você tanto cultivou.
A irmã se levantou e foi até Gabrielle. Abraçou-a apertado e lhe disse algo em francês. A mais nova sorriu me encarando e se retirou fechando a porta. Fleur trancou-a logo após a saída dela.
–O que disse a ela? – perguntei curiosa enquanto fechava a calda do piano.
–Nada de mais – rebateu caminhando até a escrivaninha.
Apoiou-se na mesa, cruzou os braços e me encarou. Ela tinha um olhar penetrante. E talvez fosse ele que me fez caminhar inconsciente até ela.
Beijei-lhe o pescoço e a vi fechar os olhos. Desci as mãos até suas costas procurando os cordões da sua roupa. Ela descruzou os braços lentamente e apertou minha cintura com força enquanto tomava meus lábios com a boca. Os nós eram bem feitos e eu bufei por não conseguir tirá-los. Fleur se afastou me deixando intrigada, mas depois vi seu sorriso maroto e suas mãos se dirigirem as próprias costas. Vi-a deixar o vestido cair mostrando sua roupa intima.
Ela me puxou para um beijo e seus dedos percorreram meus cabelos descendo até os nós do meu vestido. Mais ágeis que os meus, eles os desfizeram com pouco esforço.
Senti-a me empurrar até o piano enquanto ocupava-me com sua boca agora ainda mais rosada pelos meus beijos urgentes. Observei um pouco o contraste de sua pele branca e seus cabelos loiros com sua boca vermelha quando encostei ao piano.
Ouvi a voz de Fleur vindo do quarto de Goulart. Aproximei-me da porta que se encontrava entreaberta e os vi pelo espelho da penteadeira.
–O senhor, meu marido, sabe do apreço de Gabrielle por aquele rapaz – a moça dizia seguindo-o – Um casamento seria bom para os dois. Eles se amam – dizia animada.
–E de que adiantará o amor quando eles tiverem contas para pagar? – rebateu.
–Mas minha irmã tem direito à parte do dinheiro de meu pai – lembrou-lhe.
Evan parou de andar e voltou-se para ela que também estacou e o encarou.
–Ela pode oferecer um bom dote – continuou – Sei que o jovem Benjamin saberia administrá-lo bem. Ele é um bom rapaz. Trabalhador. Honesto. Eles terão um bom futuro juntos.
Goulart pareceu analisá-la pela forma que a encarou: estreitando os olhos. Após alguns segundos ele falou, ainda com o mesmo olhar:
–Se é o seu desejo, então falarei com os Calmon amanhã mesmo.
–Obrigada, Evan – ela sorriu.
–Não me custa nada fazer as suas vontades – comentou com um sorriso galante, afagando seu rosto – Fica mais bonita quando sorri – e a beijou.
A mulher retribuiu. E isso fez com que algo crescesse dento de mim e tomasse o controle. Corri para o meu quarto quando as mãos dele começaram a tocá-la. Eu não agüentaria. Cometeria uma loucura. E Evan não poderia descobrir nada. Prometi a mim mesma que nem ela saberia. Eu já estava viciada.
Alguém bateu a minha porta à noite. Depois de todos terem ido dormir. Eu estava de camisola sentada a minha penteadeira a ler um livro sobre história.
–Quem é? – perguntei.
Caso fosse minha mãe, nós certamente discutiríamos. Eu não estava com paciência para aturar os seus caprichos.
–Sou eu – ouvi o seu sussurro – Posso entrar?
Parei e encarei a porta. Ainda sentia raiva pelo que Fleur fizera mais cedo. Eu ainda não a havia perdoado.
–Hermione? – disse entreabrindo a porta, preocupada com a minha demora na resposta – Está tudo bem? – perguntou entrando e fechando a porta atrás de si.
Encarei-a por alguns instantes e voltei a minha atenção para o livro. Ela se aproximou e parou ao meu lado. Certamente notara algo diferente.
–O que te ocorreu? – indagou passando uma mão pelos meus cabelos.
Levantei-me bruscamente. Mas ela me seguiu abraçando-me por trás e afagando minha barriga.
–Estou com saudades suas – sussurrou no meu ouvido – Você não me quer? – provocou subindo sua mão para os meus seios e afagando-os.
Respirei fundo e me afastei. Não seria assim. Ela não poderia ter nós dois.
Vi-a se aproximar.
–Pare, Fleur – pedi e ela parou.
–O que houve com você? – estava confusa.
–Eu a vi com o Evan – percebi seu semblante mudar.
–Você nunca entenderá? – questionou-me – Ele é meu marido. Não posso me negar a ele – justificava-se.
Mas continuei impassível.
–Você sabe que não pode ser diferente – afirmou e se aproximou de mim – Você sabe – insistiu, já próxima o suficiente para afagar meu rosto.
–Não, eu não sei – rebati séria.
–Hermione, certas coisas são inatingíveis, impossíveis – comentou.
–Mas não é por isso que não podemos querê-las – contrapus.