Disclaimer: Harry e todos os seus personagens pertencem à JK e à WB, mas se a mim pertencessem, eu teria demitido Steve Kloves e o processado por ter subestimado a amizade entre o Harry e o Ron.
~o~
- Harry! Harry, acorda!
- O que foi? Quem está aí? Ginny? – Ron achou graça do amigo, desorientado e assustado. Harry havia escorregado para o lado oposto da entrada da barraca e dormia desajeitadamente quando Ron o acordou para trocarem o turno de vigia.
- Não, não é a Ginny. Acorda, vai deitar na cama, você tá com folha seca no cabelo. – Harry se levantou, massageando o pescoço e sentindo o corpo dolorido pelo mau jeito.
- Tô todo dolorido. Vou me sentar no chão na próxima vigia. É muito ruim esse banquinho. – Ron riu da cara amassada do amigo. Ele sabia do que Harry estava falando, o ruivo daria tudo por um banho quente e uma cama aconchegante.
- Harry, antes que você vá, queria pedir um favor.
- O que é?
- Bom, é que... – Ron sentiu-se repentinamente nervoso e desconcertado. – amanhã é o aniversário da Hermione, queria saber se a gente pode deixar de usar essa coisa pelo menos por algumas horas. – Disse Ron, apontando para o medalhão. Harry olhou com curiosidade para o amigo, achando estranho o pedido.
- Por quê?
- Não sei se você percebeu, mas esse medalhão influencia o humor da gente. Eu sempre tenho a impressão que tem um dementador por perto quando estou com ele no pescoço.
- Você tem razão. Essa coisa é maligna, a gente deveria ter imaginado que poderia nos afetar. – Harry tirou do pescoço e ele e Ron ficaram encarando o horcrux.
- Se existe realmente algo que eu odeie, é esse medalhão.
- Eu também! – Mais um minuto inteiro até Harry falar de novo. – E por que você não quer usar amanhã?
- Porque eu acho que a Hermione merece um dia normal, se é que posso dizer isso. Pelo menos um dia em que a gente não fique deprimido o tempo todo.
- Me diz uma coisa, como é que você sabe que amanhã é o aniversário dela?
- Lembra do jornal que você trouxe quando estávamos perto de Bristol? Então, dizia na data 13 de setembro. Desde então estou contando os dias.
- Entendi. Bom, acho que não tem problema a gente deixar de usá-lo durante o dia. O que você acha de eu ir ao povoado aqui perto e tentar pegar alguma coisa pra ela?
- Pode ser. Se você achar que não tem problema, por mim tudo bem.
- Não tem problema nenhum Ron, a Hermione merece. Sem ela, duvido que a gente estaria com esse medalhão nas mãos. – Eles olharam mais uma vez para o horcrux. – Mas você vai ter que usá-lo até o amanhecer.
- Droga!
- Eu sei.
- Bom, vai pra cama. Quando o dia nascer a gente combina tudo direito. Vai ser legal ter um dia diferente por aqui.
- É verdade! Boa noite, Ron!
- Boa noite, Harry!
~o~
O fim do verão se aproximava, e Hermione começava a sentir o tempo mudar e os dias ficarem mais agradáveis. As noites de calor intenso em que ela mal conseguia se cobrir com um lençol ficaram para trás; o outono se avizinhava e a promessa de dias menos insuportáveis fez com que ela abrisse os olhos sentindo o ânimo renovado.
Mesmo sem saber exatamente como destruir o medalhão e sem ter a mínima ideia de onde estavam as outras partes da alma de Voldemort, Hermione tentava ser positiva e otimista. Logo eles destruiriam os horcruxes e Harry derrotaria Voldemort e ela poderia ter sua vida de volta.
Como se fosse fácil!
De qualquer forma, ela tentou não sucumbir à depressão aparente dos últimos tempos. Depois de toda preocupação que teve com Ron, agora ela começava a se inquietar com a falta de avanço na caça aos horcruxes. Ficar mudando de lugar diariamente e não ter uma única perspectiva de ação estava deixando os três amigos estranhos. Claro que não era apenas a preocupação, ela se sentia oprimida e sem esperança alguma durante as horas que usava o medalhão.
Ela estava cansada.
Hoje, pela primeira vez depois de vários dias, Hermione voltou a pensar nos pais. Eles certamente estavam bem e protegidos. Pensou também nos Weasley e em como agora tinham de sustentar uma mentira para que não fossem perseguidos pelo novo regime.
A vida estava um caos. E o que prometia ser um bom dia, transformou-se em questão de alguns minutos em mais um promissor dia repleto de melancolia, tristeza e desesperança. Ela saltou da cama; lavou-se e trocou de roupa. Procurou por Harry e Ron, mas eles não estavam por perto. Ela se preocupou, mas resolveu acreditar que eles talvez estivessem procurando algo para preparar no almoço, ou talvez tenham ido, novamente, à fazenda que fica do outro lado do vale.
Hermione sentou-se na entrada da barraca, abriu Os Contos de Beedle, o Bardo e silenciou suas preocupações.
- Feliz aniversário, Hermione! – O livro caiu no chão e Hermione soltou um gritinho de surpresa. Ron se assustou e sacou a varinha, olhando ao redor.
- Você enlouqueceu, Ron! Se você faz isso de novo, talvez eu tenha um ataque do coração. – Ela apertava uma das mãos contra o peito, estava pálida.
- Desculpe, não queria te assustar. – Ron abaixou-se, pegou o livro e esperou Hermione se acalmar. – Desculpe, fui um idiota, desculpe mesmo.
- Não, não precisa pedir desculpa, só não me assuste assim da próxima vez.
- Tudo bem, não vou fazer isso de novo. – Hermione notou que Ron segurava algo muito parecido com um embrulho na mão.
- O que é isso? – ela perguntou e apontou para o pacote.
- Ah, hmmm... bem, é que... hmmm...
- Diz o que é, Ron. Não é possível que você vai ficar enrolando.
- Não é isso, bem é que...
- Francamente!
- Ah, é pra você. – Ele esticou o braço. Ron segurava um pequeno buquê de flores silvestres de um campo que ficava a norte de onde eles estavam. Hermione havia dito a ele duas semanas antes, quando encontraram um campo perto da saída de Liverpool, que aquelas eram as flores favoritas dela e de sua mãe.
- Ron! Oh meu Deus! – Ela se jogou sobre ele, o apertando num abraço esquecendo até de pegar o presente. – Obrigada! – Ron deu dois passos para trás e desajeitadamente retribuiu ao abraço, meio surpreso e totalmente perdido. O que ele deveria fazer agora?
- É, bem, é que você disse que gostava delas, e como não posso te dar um presente de verdade, achei que gostaria. Eu as encantei para não morrerem muito rápido. Acho que elas vão ficar conservadas por algumas semanas.
- Eu... espera aí, como você tem certeza que hoje é meu aniversário? Claro que faz pouco tempo que estamos acampando, mas mesmo assim a gente não tem muita ideia da passagem do tempo aqui.
- Lembra aquele jornal que o Harry trouxe semana passada, a data nele dizia 13 de setembro. Quando vi, me lembrei do seu aniversário e vim marcando os dias, por isso sei que é hoje.
Hermione não sabia o que estava sentindo. Não entendia o que estava acontecendo e principalmente, não acreditava no que acabara de ouvir. Ele contou os dias para o aniversário dela. Ele se lembrou do aniversário dela. Ela não sabia o que estava sentindo, porque se fosse agir como queria, ela talvez não estaria ali, em frente à barraca olhando para ele com uma cara, que ela tinha certeza, totalmente cômica.
- Hermione, o que foi?
- É que... – Mais uma vez ela não se conteve. E dessa vez não o abraçou apenas por gratidão pelo buquê, ela o abraçou por ter se lembrado dela, por estar ali com ela e... por que depois de dias de agonia e incerteza, ele proporcionou, mesmo que pouco tempo, a emoção de um verdadeiro dia de aniversário. – Obrigada!
- Er... hmmm... de nada!
Eles ficaram em silêncio por algum tempo. Hermione ainda sem saber o que dizer, ou pensar ou sentir. A verdade é que ele fez seu dia mudar de novo e ela não tinha a mínima ideia de como agradecer.
- Lendo o Beedle, né?
- É, quero entender porque Dumbledore o deixou pra mim.
- Eu acho que ainda me lembro de todos esses contos. A mamãe lia pra mim e pra Gin quase todos os dias antes de dormir. Fred e George nunca gostaram muito, então a gente ficava um tempo ouvindo a mamãe contar. Babity Rabbit é o meu favorito.
- Eu gosto do conto dos três irmãos. É uma história até bem complexa, especialmente considerando que é uma história pra crianças.
- Ah, não acho que seja. Sei lá, eu nunca vi muito nesse conto. De qualquer forma, não sei por que você e o Harry não conheciam esses contos.
- Ron, crescemos com trouxas, esqueceu?
- Não, não esqueci. Mas para alguém que parece ter lido toda a biblioteca de Hogwarts, eu fiquei surpreso em saber que você nunca tinha ouvido falar do Beedle. O Harry tudo bem, a gente quase não lia nada mesmo.
- O que nunca foi bom pra vocês.
- Sem sermões, por favor!
- Não é sermão. Só acho que ler ajuda mais do que ficar jogando Quadribol.
- Há controvérsias.
- Ron!
- Hermione!
Eles se olharam e caíram na gargalhada. Era bom rir pela simples vontade de rir. E ambos perceberam como sentiam falta desses momentos comuns que eles quase nunca valorizavam quando estavam em Hogwarts.
- Hermione, o que sua mãe lia pra você? Tem algum Beedle no mundo dos trouxas?
- Claro, o nome dele não é Beedle, mas ele é tão famoso quanto.
- Quem ele é?
- Hans Christian Andersen.
- Oi?
- Esse é o nome dele.
- E isso é nome?
- Claro que é, Ron!
- Nome estranho. Mas o que ele escrevia?
- Ora, história para crianças. O Patinho Feio e A Pequena Sereia são os mais famosos. Minha mãe gostava de ler Branca de Neve e os Sete Anões, A Bela Adormecida e Pinóquio. – Ron olhava para Hermione como se ela estivesse falando de criaturas que ele jamais tinha visto antes.
- Nomes esquisitos.
- Os do Beedle também são e nem por isso fiz essa cara de quem está com medo de algum bicho desconhecido.
- E quando você tiver filhos vai contar essas histórias pra eles também?
Ok, que pergunta é essa? Hermione foi pega de surpresa, jamais pensou em ter filhos antes. Não porque não quisesse, mas porque não tinha muito tempo pra isso. Além disso, jamais se imaginou falando sobre esse assunto com Ron. Mas é claro que ela contaria os contos bruxos e trouxas.
- É claro Ron, claro que contaria os dois.
- Ah tá, seus filhos vão ser piores que você então. – Ele tentou disfarçar, mas não escondeu a provocação na voz.
- Engraçadinho! - Ela retrucou e riu da situação.
- Tô preocupado com o Harry, já era pra ele ter voltado.
- Que horas ele saiu?
- Antes das oito.
- O sol já está alto, deve ser perto das 10. Vamos procurar por ele?
- Mas como Hermione, ele tá com a capa.
- Ah... – preocupação e desapontamento eram os sentimentos dos dois no momento.
Por que o Harry tinha que sumir desse jeito, pensou Ron. Ele disse que não ia demorar.
- Ei, alguém aí pode me ajudar? – Harry deixou a capa escorregar para o lado, revelando as mãos ocupadas. Uma garrafa de suco, um bolo de chocolate e outras guloseimas.
- Harry, onde você achou isso tudo?
- Caminhei pela cidade, Hermione. Consegui pegar isso tudo em vários lugares e... – Hermione o olhava com reprovação. – Calma, eu deixei o dinheiro lá, ok?
- Ah tá, melhor assim. Mas por que pegou isso tudo?
- Não é óbvio? Foi ideia do Ron. Ele disse que, pelo menos por hoje, a gente poderia ter um pouquinho menos de preocupação e um pouco mais de normalidade. Eu até concordei em não usar o medalhão.
- Foi ideia sua? – Hermione olhava para Ron com uma expressão de total perplexidade e um brilho encantado nos olhos.
- Er... bom, foi. – Ele estava vermelho. Ele combinou tudo com o Harry, menos a parte crucial. Afinal, ela não precisava saber que foi dele a ideia. Hermione abriu um sorriso radiante.
- Ron, obrigada! Eu não sei como te agradecer por isso. Não sei se terei condições de agradecer.
- Hermione, vou ficar bem feliz se a gente tiver um dia legal aqui. Tem sido difícil achar algum motivo pra ficar feliz ultimamente, mas acho que essa é a ocasião ideal. A gente não pode esquecer pelo que está lutando, não é? Ano que vem vamos fazer uma baita festa de aniversário pro Harry e pra você.
- Otimista, você!
- Sem medalhão é mais fácil ser otimista.
- Verdade.
- Ei, eu sei que o papo tá bom, mas será que a gente pode comer? Tô faminto.
- Potter, pensei que você fosse comer algo antes de correr atrás disso tudo.
- Até parece, Weasley! Se eu fosse comer, não ia poder desfrutar de nada aqui.
- Não sabia que você era guloso.
- Olha quem fala.
Os amigos riram. Aquele estava realmente prestes a se tornar um dia memorável em meio ao caos das perseguições e falta de notícias.
Hermione observava Harry e Ron conversando, animados como nos dias em que apenas falavam de Quadribol. Ela sentiu uma nostalgia intensa; sentiu falta dos amigos de Hogwarts e também dos pais, mas dessa vez não era um sentimento amargo e triste. Pela primeira vez em dias, ela conseguia entender por que estava acampando e pelo que estava lutando.
- Ei, parem de brigar, acho que temos muito o que fazer com esse excesso de doces.
Os três riram. E fizeram o possível para viver um dia feliz. O único dia feliz dos últimos tempos. O último dia feliz em muitos que ainda viriam.
~o~
Enfim um novo capítulo! Perdoem-me pela demora, não queria ter demorado tanto, mas tenho tido dias bem ocupados aqui no trabalho, então realmente não deu tempo.
Bom, esse capítulo nasceu da ideia de que pelo menos uma vez antes de o Ron ir embora, eles tiveram um momento ameno, sem o peso da responsabilidade. Afinal, eles eram apenas adolescentes, não é? De qualquer forma, espero que haja sentido e que vocês comentem, deem retorno. É importante pra eu saber se eu preciso ou não mudar alguma coisa, ok?
Obrigada por lerem e até a próxima! \o