No sábado, o dia seguinte dos acontecimentos surpreendente, todos os participantes do jogo de conseqüências acordaram com uma tremenda dor de cabeça. Alguns, devido à grande quantidade de bebida ingerida. Outros, devido problemas futuros ou passados.
Scorpius Malfoy possuía um segredo, o qual somente Jesse sabia, mas não se lembrava. Ele havia cometido um pequeno deslize, mas não se arrependia do que havia feito. Rose Weasley era sem dúvidas uma garota encantadora e enlouquecedora, de um jeito quase torturante. Daquele momento em diante, ele teria que tomar muito mais cuidado para não passar do limite cabível à si e à sua consciência, que já começava a pesar.
Rose Weasley foi outra que acordou com dores de cabeças além da bebida. Passou a noite (ou melhor, manhã) toda acordando devido a pesadelos em que seus pais a expulsavam de casa e o restante da sua família a rejeitava por ter se deixado envolver com um Malfoy. Era algo errado, proibido, inconseqüente, impensado, seria simplesmente inaceitável assumir a si mesma que estava apaixonada por ele. Logo ela, que pouco tempo atrás havia pensado em iludi-lo. Como pode ser tão fraca? Idiota? Vulnerável? Ela chorava e se martirizava enquanto lembrava-se do que estava acontecendo. Estava sentada em sua cama, com as pernas dobradas e os braços apoiados nelas, segurando sua cabeça e tentando fazer pouco barulho. Jogou os cabelos para trás e olhou para o lado, onde Anne dormia calmamente. Quem a dera tivesse uma sorte daquelas, sossego, sem preocupações futuras. Rose estava mais do que preocupada, estava arrependida. Arrependida por ter bebido, por ter retribuído os beijos, por ter incentivado aquele erro, por ter se deixado aproximar dele, por ter cedido às investidas, por tudo que a levara até ali. Gostaria de esquecê-lo, gostaria que ele não a visse mais, mas parecia realmente impossível. Dali a algum tempo, eles se encontrariam no jantar ou no plano de um “sábado divertido” de sempre. Ela não queria vê-lo, senti-lo, ouvi-lo e nem tê-lo próximo a si novamente. Tudo em que pensava era na sua família. E nos arrependimentos do passado. Ela não poderia deixar tudo àquilo que a havia destruído no ultimo ano retornar. Não poderia e não deixaria.
A ruiva levantou-se sem fazer barulho, tomou um banho reflexivo, prendeu os cabelos em um rabo de cavalo no alto e colocou um vestido leve, pois era uma tarde relativamente quente. O sol iluminava o dormitório feminino do sexto ano da Grifinória, e a única que permanecia dormindo era Anne. Rose sorriu ao ver que a amiga possuía um sorrisinho satisfeito nos lábios. Andou até o criado-mudo ao lado de sua cama, apanhou um livro interessante que ela havia pegado emprestado na biblioteca e jogou-o dentro de uma mochila que continha algumas coisas das quais poderia precisar. Estava decidida a ler e espairecer, então deu um beijo na bochecha da amiga adormecida antes de rumar para o jardim.
Vários alunos estavam se divertindo por ali. Garotas riam e faziam charme sentadas à beira do lago. Garotos tentavam se exibir uns mais do que os outros. Alguns casais se divertiam e namoravam debaixo de algumas árvores. Era um dia realmente bonito, e, mesmo faltando poucas horas para o anoitecer, não havia nenhuma nuvem no céu fortemente azul. “Dormi demais e perdi um dia lindo”, pensava Rose, enquanto andava em direção a uma árvore que surpreendentemente não tinha um casal. Acomodou-se como foi possível e então pegou um pergaminho limpo, uma pena e o tinteiro, e começou a escrever uma carta para sua mãe. Desde que chegara à Hogwarts, ela não havia escrito nada para Hermione. Talvez fosse porque estava com os pensamentos tão ocupados que mal se lembrava de que havia uma vida fora dos portões do castelo, mas ela andava sentindo uma falta imensa de sua mãe. Dos carinhos, dos conselhos, das promessas de “vai ficar tudo bem”, do leite com bolachas antes de dormir, dos beijos de boa noite, de tudo. Não sabia nem o que escrever, então por fim, depois de mais um conflito interno, resolveu que iria contar sobre o seu problema para sua mãe. Disse-lhe na carta que havia se apaixonado por um garoto que provavelmente a faria sofrer, mas omitiu nomes e características. Não que sua mãe fosse ficar contra aquilo, não, jamais, Hermione era digna demais para tal feitio. Mas, ainda assim, Rose temia a reação dela. Contou tudo que conseguiu se lembrar, pediu para a mãe não se equivocar, relevou o quanto a amava e disse que sentia sua falta. Mandou beijos para o pai e o restante da família, lacrou a carta e a jogou dentro da mochila, para ir mais tarde ao corujal. Desistiu de ler o livro e optou por deitar-se na grama e pensar. Se distraiu tanto em seus devaneios que acabou pegando novamente no sono, e dessa vez, não teve pesadelos.
Quando Rose acordou, já havia anoitecido há muito e o jardim estava vazio. Olhou ao redor e, confusa, levantou-se e rumou ao castelo. Sua dor de cabeça já havia passado, mas agora uma surpreendente fome a consumia. Assim que adentrou o castelo, viu que era hora do jantar. Na verdade, era o fim do jantar, já que algumas das mesas já estavam sendo esvaziadas pelos alunos das casas. Passou os olhos pelo salão, e não identificando nenhum conhecido, andou até a mesa da Grifinória e comeu o que julgou ser suficiente. Depois de terminar, andou até o corujal e despachou sua coruja levando uma carta para sua mãe. Depois que a coruja sumiu de vista na noite, foi até o seu Salão Comunal e ficou sentada na poltrona próxima a lareira, lendo o livro que estava em sua mochila. Nenhum de seus amigos próximos estavam por ali, então ela não se incomodou de ficar sozinha. Terminou de ler o livro, conversou com alguns colegas e riu das palhaçadas de alguns garotos, fez o dever de poções que havia sido cobrada e já passava muito da meia noite quando resolveu subir ao seu dormitório. Não tinha um pingo de sono, então foi tomar mais um banho pois estava suada. No momento exato em que saiu do banheiro, a porta do dormitório se abriu e uma Anne risonha adentrou.
- Ah, aí está a margarida! – Comentou e depois riu de si mesma. – Por onde esteve? Todos sentiram sua falta na bagunça de sábado à noite.
- Estava pensando.
- Ei, por que todo esse desânimo? O que aconteceu? Pensei que fosse estar feliz hoje... – Perguntou parando de rir e fitando Rose seriamente.
- Estou confusa Annita.
- Com o quê?
- Não vou conseguir cumprir o combinado de “não se afunde por garotos, eles te esquecem em pouco tempo”.
- Ta gostando dele, não ta?
- Muito.
- E quais os problemas nisso? Vai que ele é diferente, vai que ele é o cara certo pra você?
- Quais os problemas? Você quer em ordem alfabética ou pode ser aleatoriamente mesmo?
- Ah, vá se danar, não pode ser tão ruim.
- Minha família toda, tirando o Alvo e a Lily, odeiam os Malfoy. Os Malfoy odeiam minha família, tirando o Alvo que vive com eles praticamente. Eu conheço Scorpius desde o primeiro ano, e ele sempre foi um galinha-descarado-bagunceiro-que-ilude-garotas-inocentes-como-eu.
- Inocente aonde, hein Srta. Weasley?
- Cala a boca e me deixa terminar, Srta. Candace. – Anne fez sinal de silêncio, incentivando a amiga a continuar. – Eu já me iludi com gente desse tipo, e você se lembra bem.
- É claro que me lembro, foram 38 ou 39 potes de sorvetes pra animar?
- 43.
- Isso, sabia que era, continue.
- Não quero isso de novo.
- Conversa com ele.
- De que jeito?
- E eu é que sei.
- Ele não entenderia.
- Pare de tentar desvendar o futuro, você ao menos acredita em Adivinhação.
- Posso arriscar.
- Ah, quem se importa com o futuro? O que importa é fazer coisas no presente para ter um passado bom de se recordar.
- Pois é né.
- Vou dormir, estou cansada e preciso da minha dose noturna de sonhos com o Alvo.
- Hmmmmmmmmmm.
- Não, espera, não esse tipo de sonho – Anne corou – Ah, você me entendeu.
- Enfim, eu vou dar uma volta, estou sem um pingo de sono.
- Isso são horas? Você vai tomar uma nova detenção. – Disse enquanto via Rose revirar algo em seu malão. – O que é isso?
- Alvo me emprestou o Mapa do Maroto faz alguns dias. – Ela guardou junto com sua varinha em um bolso do robe que vestia por cima do pijama. – Estou indo, boa noite. – Disse depositando um beijo na testa de Anne.
- Ei, espera, aonde você vai?
- Ver o céu.
- Torre de Astronomia?
- E onde mais seria?
- Boa noite, se cuida, te amooo. – Emendou a frase com um bocejo.
- Eu também me amo. – Foi retribuída com um gesto obsceno. – Também te amo sua feia.
Rose murmurou um “Juro solenemente não fazer nada de bom” e foi observando os corredores do castelo enquanto percorria o caminho até a torre mais alta da ala leste. Um “Lummus” foi suficiente para iluminar parcialmente o caminho à frente e permiti-la de enxergar o mapa. Não reparou enquanto andava, talvez porque só estava de olho nos corredores próximos a si, mas um outro alguém vindo do lado oposto do castelo seguia na mesma direção que a sua. Chegou ao corredor certo, subiu as infinitas escadarias e saiu no seu lugar predileto de toda Hogwarts. Talvez por sempre ter gostado do céu noturno e suas constelações, ou talvez porque para ela, o alto daquela torre expirava magia mais do que qualquer outra coisa. Não a magia bruxa habitual, mas algo tão surpreendente quanto, aquelas estrelas a melhoravam. Rose deitou-se em um tapete que tinha ao redor e conjurou algumas poucas almofadas. Começou a identificar as estrelas e não reparou que mais alguém estava em sua companhia.
- Sabia que é perigoso andar sozinha pelo castelo e se esconder em cantos há essa hora, Srta. Weasley? – Rose pulou de susto, pega desprevenida, e bateu a cabeça em um telescópio.
- Ai! – Foi a única coisa que conseguiu murmurar com as mãos na testa antes de levantar os olhos e ver quem lhe descobrirá.
- Desculpa o susto, ruivinha. Não resisti. – ele já estava ao seu lado, retirando suas mãos do local e vendo a testa vermelha da garota – Machucou?
Não foi nem preciso que ele a tivesse “socorrido”, pois antes mesmo de se aproximar ela já sabia que era ele. Antes mesmo de murmurar seu pedido de desculpas, ela já havia percebido que algo há mais aconteceria àquela noite. Sua sorte não a estava acompanhando há muito tempo.
- Boa noite, Malfoy. Não, não machucou. Ai – ela gritou quando ele apertou sua testa -, também não precisa ficar forçando minha cabeça, sai daqui. E sim, eu sei que é perigoso ficar andando por aí, mas eu sou monitora e tenho minhas exigências.
- Boa madrugada, você quer dizer. E que mané exigências de monitora, eu sou monitor e a única coisa que eu faço questão é o banheiro dos monitores, e nem sempre, a Murta costuma ir observar os meninos tomando banho por lá.
- Argh, mas que horror. – Rose fez uma careta e eles riram. – Deve ser super agradável dividir a banheira com uma fantasma virgem.
- Que de puritana não tem nada, vale constar.
- Sim, é claro, vou freqüentar mais o banheiro dos monitores pra ver se mais algum fantasma aparece por lá. Meu sonho de consumo é um banho com o Pirraça.
Eles riram e especularam mais alguns absurdos, antes de Rose lembrar-se o porquê de querer ficar sozinha.
- Afinal, o que está fazendo aqui?
- Eu é que pergunto, uma moça decente deveria estar aconchegada em seu dormitório.
- Quem foi que disse que eu sou uma moça decente?
- Há, e você ainda se entrega. – Ele bateu a mão em acusação e acabou derrubando um globo.
- Não fuja do assunto. Andou me seguindo? – Ele deu de ombros enquanto recolhia as coisas derrubadas.
- Estava sem sono, gosto de ver as estrelas.
- Ah, eu também.
- Claro que te encontrar aqui foi bem melhor do que ver só as estrelas. Ainda mais de pijama. – Mas ela não o escutou, já havia se deitado novamente.
- A lua está linda hoje, não? – Scorpius olhou ao redor, e a torre estava realmente iluminada pela grande lua.
- Eu gosto mais das constelações. Chega mais pra lá. – Ele disse enquanto se deitava ao seu lado.
- Mamãe costumava levar Hugo e eu para acamparmos quando éramos mais novos. Bem, a Anne, o Alvo e o James iam conosco às vezes, mas enfim. Eu conhecia diversas constelações, mas hoje em dia nem sei mais identificá-las.
- Eu conheço algumas poucas, como por exemplo a minha.
- Ah sim, eu sempre fazia uma careta quando Alvo identificava a constelação de Escorpião e me lembrava de você. – Eles riram.
- Me odeia tanto assim? – Ele virou-se e ficou deitado de lado, observando-a.
- Odiava.
- Não odeia mais?
- Veja, ali, é a Ursa Maior, não? – Ficou levemente corada, mas disfarçou enquanto apontava para algumas estrelas.
- Não mude de assunto.
- Não tenho mais motivos pra te odiar. – Ela deu de ombros.
- E por quê?
- Porque eu te conheci melhor. – Disse enquanto se virava também e o encarava.
- E bota melhor nisso.
- Ah, cala essa boca.
- Se eu calar a minha, terei que calar a sua também.
- Você não ousari... – Mas não terminou de falar, pois no instante os finos lábios dele já comprimiam os seus. Ela hesitou e tentou se afastar, mas em momentos como esses, a razão ao menos tentava discutir com seus instintos. Se beijaram calmamente, apreciando o momento, mas Rose repentinamente se afastou.
- O que foi que eu fiz? – Scorpius perguntou em voz alta enquanto observava Rose andar rápido até o outro lado da torre, se sentar a um canto e apoiar a cabeça nos joelhos.
- Não, ahn, desculpa, você não fez nada, a culpa é minha e... – Ela gaguejava tentando se desculpar.
- Ei, fica calma, foi só um beijo, eu não vou te pedir em casamento. – Ele riu, mas ela prendeu a respiração enquanto ele se sentava ao seu lado. – O que você tem, hein? Está estranha. Não só por ter fugido de um beijo meu, o que faz de qualquer garota uma aberração...
- Obrigada pela parte que me toca. – Ela o interrompeu enquanto bufava.
- Disponha. Mas, além de fugir, você passou o dia todo fora e não foi vista por ninguém, não foi no nosso encontro de sábado badalado, não jantou conosco, está toda calma, não me ameaçou de morte nenhuma vez até agora, fica mudando de assunto do nada, então, resumindo, algo estranho está rondando sua tamanha estranheza.
- Tamanha estranheza – ela o imitou de um jeito engraçado, que o fez rir, então ela suspirou e riu também. – Não tenho nada.
- Tem sim.
- Não tenho.
- Mas é claro que tem.
- Quer apostar?
- Eu sou bom em apostas.
- Duvido.
- Vai pagar pra ver.
- Tenho alguns galeões guardados pra reserva.
- Pode prepará-los pra mim.
- Aham, claro, senta lá.
- O quê?
- Nada não.
- Então ok, eu te forçarei a me contar o que aconteceu.
- E como faria isso?
- Veritaserum.
A boca de Rose se abriu em um O perfeito, demonstrando que foi pega desprevenida.
- Você não se atreveria. – Ela hesitou. – Não tem como conseguir...
- Sabia que é possível aparatar dentro do armário de poções do seu querido professor?
- Não quero te falar o que aconteceu, nem com Veritaserum e nem com um Cruciatus.
- Agora falando sério, eu estou preocupado.
- Não tem motivos, eu estou bem. – Ela se virou e deu seu melhor sorriso pra ele – Viu? – disse apontando para seu próprio sorriso.
- Sabia que não são sorrisos que demonstram felicidade? São os olhos. E os seus olhos me parecem tristes.
- Pare de bobagens, eu estou bem.
- Pode estar bem, mas não está feliz.
- Sorrisos disfarçam tristezas.
- Mas quem sabe observar alguém direito, percebe qualquer mudança.
- Que tipo de mudança?
- Normalmente, os seus olhos brilham de uma maneira intensa quando você me olha. Mas agora, eles estão sombrios, como se o que existe aí dentro e fazia o brilho existir, tivesse se apagado. – Ele passou o dedo em sua bochecha e recolheu uma lágrima que havia escapado da resistência de Rose. Ela ficou perplexa com tamanha sinceridade, mas se recuperou rapidamente.
- Não tem nada apagado, não tem nada diferente, sou só eu, a Rose, a “barraqueira”, a chata, a de sempre.
- Você não sabe mentir.
- Pare de me encher ou eu estuporo você daqui de cima.
- Está voltando ao normal...
- Vá dormir.
- Já que está melhorando, acho que já posso me aproveitar mais um pouquinho de você.
Ele se aproximou para beijá-la, mas reparou quando ela abaixou os olhos relevando sua tristeza.
- Você não está nada bem, Rose Weasley... – Ela não respondeu. – Vou tentar descobrir, e você me responde com um sim ou não, certo? – Ela afirmou com a cabeça. – Então, você brigou com alguém? – Ela negou. – Hm, está com saudades de alguém? – Negou mais uma vez. – Está doente? – Fez um sinal que foi interpretado como um “mais ou menos”. – Está decepcionada com algo ou alguém? – Ela afirmou. – Sentimentos transbordando do limite? – Mais uma afirmativa. – Gostaria de apoio ou algo do tipo? – Afirmativo. – Meu apoio lhe serviria? – Ele perguntou e elevou o queixo dela com uma mão, fazendo-a encará-lo. Ela não respondeu, e nem poderia, sua garganta estava seca e dolorida, e seus olhos brilhavam muito por culpa das lágrimas as quais ela insistia em prender. – Eu quero te ajudar.
O que aconteceu a seguir o deixou surpreso, e provavelmente deixaria qualquer pessoa que observasse a cena, boquiaberta. Scorpius só teve tempo de ver as lágrimas irromperem dos belos olhos azuis de Rose e escorrerem por suas bochechas coradas antes que sua visão fosse tomada por madeixas ruivas, no repentino abraço que recebeu. O corpo de Rose tremia um pouco, e ela chorava copiosamente, em silêncio. Malfoy ficou tão surpreso que, a principio, esteve sem reação. Após perceber que a garota estava agarrada a ele, pouco se importando dele vê-la chorar e inundando sua camisa, foi que ele passou os braços ao redor da garota e a pressionou contra si.
- Ei, psss, não precisa chorar – Ele fazia um carinho destrambelhado em seus cabelos, tentando confortá-la. – Eu estou aqui, vai ficar tudo bem, e se continuar chorando, vai ter rugas antes do tempo. – Ele a ouviu fungar uma risada, e se sentiu menos tenso. – Agora, limpe essas lágrimas e me conte o que acontece. – Ela recomeçou a chorar então. – Por favor, pare de chorar, estou ficando preocupado, sua ruiva maluca.
Ela se afastou um pouco, o suficiente para poder olhá-lo nos olhos. Mesmo com o rosto manchado, as bochechas mais vermelhas do que o normal, os grandes olhos azuis brilhando de uma maneira espetacular, os cílios com lágrimas penduradas, o lábio inferior tremendo e a aparência de tristeza, Scorpius podia jurar que nunca há havia visto mais bela. Ela tentou esboçar um sorriso para ele, piscou para livrar-se das ultimas lágrimas, olhou-o com toda a coragem que reuniu, e o beijou.
O beijo foi calmo e reconfortante, eles estavam abraçados no meio da madrugada, na torre mais alta de Hogwarts, iluminados pela lua, se beijando sem receios. Ficaram alguns minutos assim, até que Rose se separou dele, levemente ofegante.
- Quer mesmo saber o que eu tenho?
- Por favor.
- Medo.
Ele franziu a testa e juntou as sobrancelhas, digerindo a resposta.
- Medo?
- Exato.
- Medo do que?
- De ser abandonada. O maior medo que eu tenho nessa vida é a solidão. E eu sei bem do que estou falando, já experimentei antes.
- Mas, você não vai ser abandonada. Você tem uma família enorme, amigos que te amam, pessoas ao seu redor... Nunca vai estar completamente sozinha.
- Eu já sou alguém sozinha.
- Aonde, poderia me dizer? Porque sempre tem um grupo ao seu redor por aqui.
- Sou sozinha com meus sentimentos, com minhas emoções.
- Quer dizer, sozinha no sentido de não dividir nada com as pessoas?
- Acho que sim.
- E como tem medo de ser abandonada?
- Relacionamentos acabam, corações se partem, lágrimas corroem, as pessoas ficam solitárias.
- Você, por acaso, tem algum relacionamento lá fora? – Ele perguntou, temendo a resposta, lembrando-se de seu segredo, mas não acrescentou mais nada a pergunta.
- Eu... Tinha.
- E o que aconteceu? Quer falar nisso? Ou melhor, consegue falar nisso?
- Acho que consigo.
- Então, me conte a história.
- Bem, quando meus pais se casaram, eles compraram uma casa e se mudaram para um bairro trouxa, no centro de Londres. Mamãe teve a mim e ao Hugo, e nós continuamos morando na mesma casa, cercados de trouxas, usando nossa magia escondida. Papai queria se mudar para algum imóvel no Beco Diagonal, mas mamãe é uma nascida trouxa, gosta de ficar entre os seus.
“Eu e minha família sempre moramos no mesmo lugar, e convivemos bem com os outros ao redor. Temos amizades com os vizinhos, eu brincava com as crianças trouxas quando pequena, e era tratada com uma. Nós tínhamos uma vizinha, a Sra. Fings, que era sozinha, até a irmã se divorciar e mudar-se com os filhos para sua casa. A irmã dela tinha dois filhos: Allan e Victoire. Quando se mudaram, mamãe e eu fomos lá, exercer as regras da boa vizinhança, e eu acabei conhecendo-os. Allan Apply era dois anos mais velho do que eu, e Victoire não deveria ter mais do que três anos de idade. Eu estava no meu quarto ano.”
“Passado algum tempo, eu comecei uma amizade com Allan. Ele, após deixar a timidez de lado, se mostrou um bom companheiro para passeios e conversas, e em pouco tempo estávamos melhores amigos. Ele costumava ir à minha casa, eu freqüentava a casa dele, saíamos juntos todos os dias das férias, cheguei a levá-lo até A Toca para conhecer minha família, e, bem, nós estávamos próximos demais. Acabou que nós nos beijamos, em uma brincadeira lambuzada com sorvetes na pracinha, e aquilo ficou sério. Eu me apaixonei, ele dizia me amar, nós começamos a namorar e eu estava plenamente feliz, namorando meu melhor amigo.”
- Bela história. – Scorpius a interrompeu no meio da narrativa. Rose tinha os olhos fixos na lua, estava encostada a uma parede da torre.
- Nem tão bela assim. – Sua voz era sombria. – Continuando, eu comecei a namorá-lo, nós nos víamos e ficávamos juntos todos os dias, e eu o amava de um jeito inexplicável. Meus pais o adoravam, e a família dele me queria como integrante. Eu parecia mais feliz impossível, aproveitei o máximo que pude, mas Setembro chegou rápido. Eu deveria voltar para Hogwarts, então comecei a pensar no que ele faria. Bem, se ele descobrisse que eu sou uma bruxa. Temi, evitei, pedi ajuda às minhas primas, e elas não sabiam o que fazer. Optei por omitir sobre minha origem, e lhe disse somente que estudava em um colégio interno. Ele ficou um pouco abalado com a notícia, mas acabou se acostumando. Eu passei um ano inteiro mandando correspondências pela minha coruja para que minha mãe entregasse-as a ele, e o contato era realmente difícil. Passei os feriados de Páscoa, Natal e Ano Novo com ele, e quando terminei o ano letivo, voltei para dois meses ao lado dele.
“Naquele verão, nós estávamos realmente mais próximos do que nunca, fazendo planos, trocando promessas, jurando amores. Eu me senti mais segura do que nunca em relação a ele, então optei por contá-lo sobre minha mágica. Foi difícil, demais, e no começo ele não acreditou. Mas, após alguns feitiços simples, ele percebeu que não era uma brincadeira minha. Lembro-me até hoje da cara de espanto dele, e que comecei a chorar, então ele me abraçou e disse que me amava de qualquer maneira. Aquelas foram as melhores férias da minha vida, eu lhe contei tudo sobre o mundo bruxo, não tive mais nenhum segredo com ele, e estava tudo melhor do que nunca.”
- Bem, até agora eu não entendo bem o que o seu medo tem haver com isso...
- Eu passei as férias com ele, e chegou o tempo de voltar para a escola. Naquele ano, eu continuei mandando as cartas, mas agora pela minha coruja diretamente para ele. Ele prometeu que me escreveria, mas durante um ano inteiro, eu não recebi nenhuma resposta. Nos feriados, ele não estava em casa. Eu cheguei a pensar que houvesse se mudado, mas mamãe me afirmou que ele ainda morava ao lado. Comecei a ficar doente, de saudades, de preocupações, mil e uma coisa passando na minha cabeça, e eu preocupada com ele. O ano finalmente acabou, e eu pensei que iria reencontrá-lo. E reencontrei.
“Após uma semana de férias sem ele, eu já estava mais doente do que nunca, abatida, pálida, não dormia e nem comia direito. Mamãe estava decidida a me levar até o Sts. Mungus, quando ele apareceu me chamando no quintal de casa. Corri até ele, o abracei, chorei em seu ombro, disse que estava desesperada de saudades, que o amava mais que tudo, e ele ficou em silêncio, se separou do meu abraço e me chamou para dar uma volta. Eu aceitei sem hesitar, então fomos até a pracinha do primeiro beijo. Ele começou falando que não me amava mais, que a distância impedia as coisas, disse algumas coisas sem sentidos, e eu, babaca como sempre, tentava argumentar para ele não terminar comigo. Ele elevou o tom de voz, disse que havia encontrado alguém muito melhor do que eu, alguém normal. Eu chorava de raiva e tristeza, eu não o reconhecia mais, e então ele me chamou de anormal. Bem, foi a gota d’água pra mim.
- E o que aconteceu? Você o deixou ir embora, depois de tudo que ele te disse?
- Pensei na possibilidade...
- A Weasley que eu conheço não deixaria isso assim...
- E eu não deixei. Tenho um arquivo no meu nome no Ministério da Magia até hoje.
- O que foi que você fez com ele? – Scorpius tinha um sorriso travesso nos lábios.
- Digamos que eu conheça um feitiço muito bom para cortar algumas coisas.
- Você não...?
- Sim. – Ela sorria presunçosa – Exatamente isso.
- Você é terrível. – Ele deu um beijo na testa dela – Essa é a minha garota.
- Mas, enfim, entendeu a minha história? Mesmo com a bela vingança, e quase morte dele, eu sofri muito com aquilo. É como ver sua vida escorrer pelo ralo do banheiro.
- Sinto muito, mas ele era um imbecil. Depois de tudo aquilo, o que ele fez foi imperdoável.
- Eu peguei um trauma. De ser abandonada, de me apaixonar e ser trocada, substituída... Tenho medo de relacionamentos.
- E... Por que tudo isso veio à tona nesse momento?
- Porque... – a voz dela não passava de um sussurro – eu acho que estou ficando apaixonada.
- Sabe, eu também... Mas, não precisa pensar nisso agora. Vai ficar tudo bem, você vai resolver isso, e se fizermos as coisas de um jeito certo, vamos evitar sofrimentos.
Ela sorriu para ele, e então o abraçou como amigo. Mesmo estando apaixonada por ele, mesmo estando desesperada, o abraço dele lhe trazia um conforto extremo.
- Obrigada. Por tudo.
- Estou aqui pra tudo, boba.
Ela bocejou, então repousou sua cabeça no ombro dele.
- Está com sono, não? – Ele perguntou, enquanto ela coçava os olhos com as costas da mão, igual a uma criança.
- Um pouquinho... – emendou com outro bocejo.
- Quer ir pro salão da Grifinória? – Ela negou com a cabeça.
- Quero ficar aqui.
Eles ficaram encostados nas almofadas que Rose havia conjurado mais cedo, observando as estrelas, até que Rose finalmente adormeceu, encostada no peito de Scorpius. Ele sorriu, deixou-a pegar no sono, e então colocou a mochila dela nas costas e a pegou no colo. Não poderia levá-la até a Grifinória, pois não tinha a senha, e nem até as masmorras, pois senão, no dia seguinte, Hogwarts inteira estaria comentando. Lembrou-se então dos quartos de monitores-chefes, e se dirigiu até lá. Os quartos também ficavam na área leste do castelo, então rapidamente Scorpius chegou. Ele não tinha a chave do quarto de Rose, e as portas eram enfeitiçadas para não abrirem sem a permissão do dono, nem mesmo com um Alohomora. Ele suspirou, então abriu a porta do seu próprio dormitório e depositou Rose na cama de casal.
Tomou um banho para refletir, voltou ao quarto e sentiu o cansaço bater em si. Estava realmente longe das masmorras, e cansado demais ao ponto de voltar para lá. Rose dormia calmamente, como um bebê. Scorpius já ia conjurar um colchão no chão para si, quando ouviu Rose o chamar.
- Scorpius... – era suspirou, sorrindo enquanto dormia.
- Estou aqui.
- Fica aqui comigo... Tá frio.
E, bem, ele não poderia recusar um pedido. Desistiu do colchão e foi deitar-se com ela, que abraçou seu corpo no mesmo instante. E assim, eles dormiram juntos pela primeira vez, sem nenhuma maldade no ato, somente pensando em seus passados... E em seu futuro.
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N/A: Oi gente! Como prometido, aqui está o capítulo. Chato, eu sei, até demais pro meu gosto, mas eu precisava explicar sobre os medos da Rose, pra vocês ficarem sintonizados nos próximos acontecimentos. Foi bem reflexivo, mas prometo que o próximo capítulo está um pouquinho melhor. Na verdade, reservo brigas e conflitos pros próximos episódios, surpresas e tals, acho que tá certo. To quase no meio da fic ~emoção~ e estou MUITO feliz com todos os comentários. Vocês são maravilhosas, mesmo. Obrigada por tudo, posto o mais rápido que puder agora. Beijos de uma Grifinória muito feliz. s2