Vermillion
Capítulo I
-Mas que merda, Blaise! - Eu já tinha perdido as contas de quantas vezes eu tinha dito isso a ele. – Já te falei mil vezes para não me incluir em nada relacionado ao Potter e ao Weasley!
Em meus 25 anos de vida eu aprendi: Tem certos amigos que te fodem tanto que você passa a não precisar de inimigos. Com Zabini é assim. Que amigo mais filho da puta que eu tenho. Depois que ele resolveu se engraçar pro lado da Weasley fêmea, vive com essa história de ajudar o Weasley lerdão e o heroizinho de merda que é o Potter. Será que não dá pra perceber que eu não ligo a mínima pra nenhum deles?
Toda vez é a mesma coisa, um investimento aqui, outro ali. E no fim das contas eu não vejo nem a cor do meu dinheiro de volta. Tudo isso pra ajudar o Ministério bruxo e seu grupo de aurores de merda. Após o fim da guerra contra Voldemort, o ministério bruxo perdeu muitos de seus investidores e patrocinadores que bancavam os gastos absurdos das missões dos aurores porque, no fim das contas, a maioria desses investidores estavam mesmo era ao lado de Voldemort e não contra ele. Então acabaram sendo presos, mortos, ou simplesmente desapareceram sem deixar rastro.
Com todas essas perdas financeiras, o ministério quase ruiu. Mas o meu dinheiro salvou o mundo bruxo. Não consigo evitar um sorriso de escárnio ao pensar nisso. Nem todo o dinheiro de Potter seria suficiente para impedir que o Ministério caísse. Afinal de contas, toda sua fortuna não chega nem a um décimo da minha. Sim, minha fortuna desde que Lúcio foi condenado ao beijo do dementador. Não que realmente o dinheiro me importe. Só preciso do suficiente para manter minha adega cheia de Whiskies de boa qualidade. Mas pra minha mãe ele importa muito.
-Ah qual é, Draco! – Ouvi a voz de Blaise. Ele já estava me irritando. – É em prol de salvar vidas!
-Você sempre com o mesmo discurso! – Estava cansado daquela mesma ladainha.
-Eu sei que você adora o campo de pesquisas! - E adorava mesmo. Quanto mais descobertas acerca do mundo mágico, mais satisfeito eu ficava. – Essa será a maior pesquisa de todas.
-Segundo quem? – Perguntei, mas já sabia a resposta.
-Potter. Ele disse que estão tentando achar a cura para algo realmente grande.
- Nossa! – Retruquei, irritado. – Você agora é praticamente um seguidor do Potter.
- Não é isso, Draco. – Ele tentou. – É algo realmente sério.
-E você nem sequer sabe do que se trata?
-Não. Quero dizer, sim, eu sei, mas... É assunto confidencial. Mesmo eu sendo seu melhor amigo, eu não posso te contar. Sinto muito!
-Mas que merda, Blaise! Eu não estou entendendo porra nenhuma! – Soltei, irritado.
-Eu sei, foi mal, cara, mas realmente não posso dizer. – Ele argumentou. – Só preciso que confie em mim.
-Eu não sei não, Blaise... Isso tudo está me soando muito estranho. – Tinha algo mais naquela história toda. Que pesquisa super secreta era essa que necessitava de tanto dinheiro? Meu dinheiro?!
-Draco, somos amigos desde sempre. – Ele começou, olhando-me fixamente. – Você sabe que eu nunca te meteria em furada. – Ponderei por uns instantes, olhando-o fixamente. Sempre havíamos confiado um no outro. Não havia razão para que fosse diferente dessa vez.
-Está bem, Blaise. – Suspirei resignado. – Eu darei o dinheiro.
----------------
A minha condição para emprestar toda aquela quantia, era que eu estivesse presente na reunião de iniciação daquele projeto. Pouco me importava que fosse confidencial. Eu daria o dinheiro, mas queria participação ativa em tudo possível. E também havia um pouco de satisfação em olhar para cara do Potter e ter que vê-lo admitir mesmo que indiretamente que precisava de mim.
Era por esse motivo que tinha ido à reunião onde estavam presentes Potter, Weasley, Zabini, outros dois aurores sem importância, e a insuportável da Weasley fêmea. Era incrível como nos detestávamos. Não consigo entender porque Blaise tinha que escolher logo ela. Éramos obrigados a conviver, mas estava mais do que claro o quão difícil isso era pra ambos. No fim das contas, nossos encontros se tornaram inevitáveis, então fingíamos não notar a presença um do outro, exatamente como naquele momento.
Quando eu achava que a reunião já estava chegando ao fim, as grandes portas da sala se abriram e então eu senti o perfume. Aquele perfume que poderiam se passar milhares de anos, mas que eu nunca esqueceria. Era doce, um cheiro de avelãs, cacau... Não sei ao certo, mas o fato é que eu reconheceria em qualquer lugar, não importava quantos anos passassem.
Os passos eram firmes, curtos. O salto da bota preta tocava o assoalho antigo, causando um insuportável “toc-toc”. Às minhas vistas, surgiu uma mulher alta, cabelos ligeiramente escuros e compridos, lisos da raiz até as pontas. Os óculos de sol que ela usava impediam que eu visse os olhos que estava por trás daquelas lentes escuras. Estava mais magra do que eu me lembrava, mas não importava. Eu a reconheceria mesmo com cabelo diferente, corpo diferente. Era o mesmo cheiro, a mesma postura...
-Boa tarde. – E a mesma voz. – Desculpem meu atraso!
Amaldiçoei todos os antepassados de Blaise mentalmente. Ele era mais do que um simples filho da puta. Um amigo da onça, isso sim. Como ele podia ter feito aquilo? Deixar-me no escuro quanto a presença dela. Justamente ela. A pessoa que mais me irritava no mundo. A pessoa que mais me importava no mundo. Vi quando ela sentou ao lado do Weasley. Segurei o impulso que tive de levantar dali e ir embora, e simplesmente fingi que não estava surpreso com a chegada dela. Não poderia fraquejar diante deles.
Ela retirou os óculos escuros, libertando finalmente aqueles olhos castanhos para minha visão. Nossos olhares se cruzaram por um instante e vi que havia muito guardado ali. Leves marcas arroxeadas circundavam seus olhos. Olheiras. Ela parecia extremamente cansada e vulnerável. Senti vontade de cruzar aquela mesa, abraçá-la, tomá-la em meus braços e dizer o quanto havia sentido sua falta, mas despertei de meus devaneios apenas para provocá-la mais uma vez.
-Ora, ora, Granger... – Comecei, sem me conter. – Que bons (ou maus) ventos a trazem de volta à Inglaterra?
-Não que isso seja da sua conta, Malfoy... – Uma resposta direta. Atrevida. Nada havia mudado. – Mas vim aqui para ajudar nas pesquisas. Pelo visto você continua metido em tudo.
-E pelo jeito você continua insuportável. – Rebati. Era incrível como ela conseguia me tirar do sério em menos de cinco minutos.
-Escute uma coisa, Malfoy... – Ela recomeçou, mas foi interrompida por Blaise.
-Olha, se vocês não se importam, temos algo realmente sério para resolver aqui. – Ele começou, tentando acalmar os ânimos. – Bem vinda de volta, Granger.
-Obrigada, Zabini.
-Bom, continuando de onde paramos... – A voz de Potter soou.
--------------------------------
-Seu filho da puta! – Amaldiçoei-o enquanto empurrava-o contra a parede do corredor. – Por que não me falou? Por que não me disse que ela viria?
-Solte-me, Draco! – Ele disse firme. – Merda! – Senti um leve empurrão e logo ele estava livre de minhas mãos.
-Você vai me explicar essa história direitinho Zabini!
-Está bem, está bem... – Ele disse, resignado. – Eu não te disse nada porque sabia que isso influenciaria na sua atitude. Você nunca teria aceitado se soubesse que ela viria.
-Você está totalmente certo quanto a isso! – Disse ainda muito irritado. – Mas que merda, Blaise! O que ela está fazendo aqui?
-Ela veio ajudar nas pesquisas. Você sabe melhor do que ninguém que ela é a pessoa mais inteligente que conhecemos. Será muito últil nesse caso. Supere isso, Draco! – Como se fosse fácil. – Esqueça a Granger de uma vez por todas e pronto!
-Você não sabe do que está falando! – Rebati, com raiva.
-Então engula isso e aprenda a conviver com ela, pois ela vai estar aqui durante todo o tempo que as pesquisas durarem.
-Você diz como se fosse fácil. – Argumentei e então ouvi aquela voz extremamente irritante atrás de mim.
-E é fácil. Olhe para nós dois. Já são dois anos de convivência e nos detestamos, mas ainda assim coexistimos. – Como eu detestava essa ruiva.
-Eu não estava falando com você, Weasley. Suportar você é uma coisa. Agora ter que conviver com vocês duas ao mesmo tempo é demais. – Disse, olhando fixamente nos olhos dela.
Virei as costas para os dois e fui embora. Meus passos largos e rápidos era um reflexo de minha ansiedade, raiva, confusão. Eram muitos sentimentos ao mesmo tempo, que me deixavam desnorteado, desconcertado. Precisava de um bom Whiskey, uns cigarros e bastante tempo para pensar. Pensar em como agir dali pra frente, em como não me render a ela novamente.
Mas antes que pudesse alcançar o saguão principal eu a vi novamente. Caminhava um pouco mais à frente, despreocupada. Foi então que eu reparei melhor. Não era pouco. Ela estava muito mais magra. Suas roupas escuras como nunca antes tinham sido. Os cabelos chegavam ao meio das costas e nenhum sinal dos cachos castanhos. Seu andar ora firme, ora vacilante parecia mais lento do que o normal. A maneira como seu quadril se moviam me fez pensar em coisas que despertaram uma fúria em mim. Passei por ela encostando meu braço levemente no dela. Não me desculpei, não olhei para trás. Apenas entrei numa lareira e deixei as chamas verdes me engolirem.
-------------------------
Depois de uma longa noite sem sono, preparei-me novamente para comparecer a mais uma reunião sobre as pesquisas que começariam ainda naquela semana. Sabia que teria que encará-la novamente, mas dessa vez eu já estava preparado para o que viria. Quando cheguei ao ministério, todos já estavam lá. Blaise e Gina num canto mais afastado, cochichando sobre algo. Potter como sempre afundado em papéis burocráticos. Alguns outros aurores conversavam sobre trivialidades. E sentados juntos estavam o Weasley pobretão e ela. Pareciam estar num papo agradável pois ela sorria. Peguei-me observando aquele sorriso que um dia me fizera tão bem.
Sentei-me do outro lado da mesa, evitando olhá-la. Esperei pacientemente até que Potter começasse a reunião. Dessa vez eu saberia exatamente o que estava acontecendo. Sobre o que exatamente começaríamos a pesquisar, qual tipo de doença tentaríamos curar. Parecia-me muito esquisito que dessa vez os aurores estivessem metidos numa pesquisa conta alguma doença. Isso era papel dos medibruxos. Por que raios eles estavam investigando isso? Eles teriam que me contar caso contrário minha participação se encerraria ali. Eu estaria fora, juntamente com todo o meu dinheiro. Algumas partes financeiras discutidas, algumas aplicações resolvidas e eu decidi que era hora de me pronunciar.
-Eu gostaria de esclarecer uma coisa... – Comecei, evitando olhá-la. – Do que exatamente estamos falando? – Vi que causei certa surpresa em muita gente naquela sala.
-Do que está falando, Malfoy? – Foi o Weasley que se pronunciou.
-É muito simples. Eu quero saber todos os detalhes dessa pesquisa, com o que estamos lidando, tudo! – Comecei seguro.
-Já dissemos que isso é assunto confidencial, Malfoy. – Potter interferiu.
-Pois bem. Ou me contam, ou eu estou fora. E quando digo eu, me refiro a todo o meu dinheiro também.
-Nós já conversamos sobre isso, Draco. – Foi a voz de Blaise que ouvi.
-Mudei de ideia, Blaise. – Retruquei impaciente. – Já estão me escondendo coisas demais. – Disse as últimas palavras direcionando meu olhar para ela. Havia um misto de sentimentos que eu não conseguia identificar passando pela mente dela a julgar pelas suas expressões faciais.
-Malfoy, não podemos falar sobre isso. – A voz do Potter me chamou atenção.
-Então não haverá dinheiro. – Fui firme em minha decisão.
-Deixa, Harry. – A voz dela se fez presente na sala. – Acho que ele tem razão. – Desde quando nós concordávamos em alguma coisa? – Conte a ele a verdade. – A verdade... Essa eu realmente queria ouvir.
-Pois bem, Malfoy. – Potter começou e eu não ousei interromper. – Temos uma doença correndo solta.
-Que tipo de doença? – Perguntei interessado.
-Os curandeiros que lidaram com os casos disseram que é algo no sangue. – Foi a vez de Weasley se pronuncia. – Uma deformidade nos compostos sanguíneos que trazem complicações para os órgãos vitais até que depois de certo tempo eles começam a falhar.
-E aí a pessoa morre. – Foi a voz dela que finalizou. Era tudo muito esquisito, muito difícil de entender.
-Mas como eu nunca soube de tal doença? Nunca houve nada publicado, nem mesmo sobre as mortes. Quantas pessoas já morreram até agora? – Perguntei, sobressaltado.
-Muitas. – Foi Zabini quem respondeu. – Mas demos um jeito de abafar junto ao ministério para que não houvesse pânico.
-Como assim? As pessoas precisam saber com que estão lidando para que haja algum meio de... não sei, prevenção! – Disse, irritado. – Há quanto tempo isso está acontecendo, afinal de contas?
-O primeiro caso que descobrimos foi há pouco mais de dois anos. – Outro auror que não sei o nome me disse. – E de lá para cá ocorreram mais. Tivemos um intervalo grande entre o aparecimento de uma vítima e outra. Apenas um mês após a morte de uma vítima, é que aparecia outra pessoa com os mesmos sintomas.
-Exatamente. – Disse Potter. – No início achamos que não era nada demais. Não associávamos uma morte à outra, pois tinham um intervalo bem grande entre elas. Os curandeiros ficaram mais atentos a tudo quando os casos foram se repetindo mais e mais vezes. E por isso estamos aqui. Temos que achar uma cura. – Não sabia o porquê, mas tinha algo que eles não estavam me dizendo. Toda a questão da doença fazia sentido, mas o que não fazia sentido era o que um grupo de aurores estava fazendo metido naquele assunto.
-E vocês poderiam me explicar o que os aurores tem a ver com tudo isso? – Minha pergunta era direta. – Até onde eu sei isso é trabalho para medibruxaria não para aurores.
-E aí que vem a parte mais interessante. – Senti a ironia no tom de voz da ruiva. – Não é uma doença comum. Alguém está contaminando as pessoas.
-Como alguém poderia contaminar outras pessoas? É uma espécie de vírus?
-Não é um contágio acidental. – Foi a voz de Granger que ouvi.
-Malfoy... – Potter começou. – Temos um assassino a solta.
-Assassino? – Perguntei incrédulo.
-Sim, ele ataca as vítimas com uma seringa. Injeta algum tipo de droga no sistema sanguíneo delas e a partir daí elas começam a morrer lentamente. – Foi Blaise quem falou. – É tudo que sabemos.
Era muita informação de uma vez só. Então quer dizer que havia uma doença degenerativa do sangue, que matava lenta e silenciosamente? E que era causada por um agressor em comum que injetava algum tipo de composto nas vítimas e esperava que elas morressem para só então atacar mais alguém. Isso tudo era tão doentio. Era como se a pessoa aproveitasse cada segundo da destruição de sua vítima.
-Eu quero participação ativa em tudo. – Minha voz saiu sem que eu nem ponderasse direito.
-O que está dizendo? – Foi a ruiva quem perguntou.
-Vocês procuram esse agressor e eu comando as pesquisas pela cura. – Era simples e prático. Afinal quem melhor do que eu para achar a cura para qualquer coisa.
-Essa parte de pesquisa está nas mãos de Hermione. Ela se especializou em medicina trouxa e sabe tudo sobre ervas e compostos naturais.
-Não sei como a medicina trouxa ajudaria nesse caso. E, além disso, eu me formei curandeiro. E sempre fui o melhor em poções, até melhor que Snape, diria. E vocês sabem perfeitamente disso. – Minhas armas eram muitas.
-Mas você nunca exerceu sua profissão, Draco. – A voz de Zabini foi ouvida.
-Nunca é tarde para começar.
-Mas Malfoy, Hermione veio dos Estados Unidos unicamente para isso. – O pobretão falou.
-Eu não me importo em dividir meus conhecimentos com ela. Se ela não se importar em dividir os dela comigo, é claro. – Dessa vez direcionei meu olhar para ela. Sua expressão era enigmática. – Então, Granger. O que acha de trabalharmos juntos? – Dispensei a ela meu melhor sorriso no canto dos lábios. Será que eles ainda tinham algum efeito sobre ela?
-Por mim está bem, Malfoy. – Quanta seriedade.
-Ótimo, então. Começaremos amanhã. – E me levantei sem que ninguém tivesse tempo de dizer mais nada.
Cruzei as portas pesadas e sumi pelos corredores. Imaginando como seriam meus dias dali pra frente. Ter que conviver com ela, trabalhar com ela, me relacionar com ela. Não conseguia decidir se aquilo era bom o ruim, mas estava disposto a pagar pra ver, literalmente. Naquela noite não dormi. E tinha a sensação de que as próximas seriam a mesma coisa.
----------------------
O dia amanheceu cinzento, chuvoso. Tomei meu café com extrema rapidez, ansioso por começar aquelas pesquisas. Ao chegar no Ministério, todos já estavam lá. Todos os outros aurores e ela. Não ficamos discutindo nada naquele dia. Havia começado a hora de colocar em prática todos os aspectos discutidos nas reuniões anteriores.
-Bom, estamos disponibilizando a vocês um pouco do sangue retirado do corpo das vítimas pouco antes de morrerem. – Potter começou, olhando diretamente para mim e para ela. – Enviaremos todos para o laboratório do St Mungus, onde vocês trabalharão.
-Espere um pouco, Potter. – Pronunciei. – Não vejo o porquê de trabalharmos no St Mungus se eu mesmo possuo um laboratório muito mais moderno e completo do que o do hospital. Sem dúvidas seria muito mais fácil para nós dois que trabalhássemos lá. – Era verdade. Como eu sempre havia gostado de poções, eu tinha um laboratório só meu.
-O que você acha disso, Hermione? – Ele perguntou a ela.
-Por mim tudo bem. Quanto mais dispositivos a nosso favor tivermos, melhor.
-Pois então enviarei os frascos para lá agora mesmo. – Potter continuou. - E então vocês poderão começar. Pode providenciar isso pra mim, Gina?
-Claro. Agora mesmo. – Disse a ruiva, saindo da sala em seguida.
-Bem, vocês podem começar então. – Assenti e levantei-me, direcionando-me à saída. – Quanto aos aurores, precisamos nos organizar em grupos para que possamos investigar a fundo os passos do nosso assassino.
Foi a última coisa que ouvi potter dizer antes de sair da sala. Cruzei o corredor rapidamente ouvindo os passos dela atrás de mim e a respiração profunda e pesada. Diminui a velocidade do meu andar até que ficamos lado a lado. Seguimos em silêncio para o saguão de entrada do Ministério para que pudéssemos aparatar. Quando finalmente chegamos na área permitida para aparatação nossos olhares se cruzaram. Estendi minha mão para ela para que ela me seguisse, afinal de contas ela não sabia onde ficava meu laboratório.
-Posso? – Perguntei. Ela assentiu com a cabeça e então segurei sua mão com força. Seu toque era frio, mais frio do que eu me lembrava. Estava um pouco trêmula também. Mentalizei nosso destino e aparatamos.
Ao chegarmos no laboratório a surpresa dela foi inevitável. Era todo equipado com os mais modernos dispositivos. Frascos com ervas, poções e outros componentes se espalhavam pelas estantes. Eu tinha trabalhado arduamente para transformar aquele lugar no que ele era agora. Foram dias de pesquisa, compras...
-É maravilhoso. – Ela disse, e seus olhos castanhos se acenderam.
-Obrigada. – Era sincero. Eu sabia que ela estava deslumbrada com tudo aquilo. Sempre havia sido uma sabe-tudo intragável.
Foram alguns minutos examinando tudo. Por vezes ela soltava exclamações surpresas e me perguntava onde eu havia conseguido tal componente, tal erva. Passamos alguns minutos sem nos lembrar do passado, apenas conversando sobre assuntos profissionais. Quando o assunto terminou, aquele desconforto voltou a se instaurar entre nós. Ficamos algum tempo sem nos olhar, mas logo os olhos castanhos se fixaram nos meus.
-Você está diferente. – Falei.
-As pessoas mudam. – Ela disse displicente.
-Por que mudou o cabelo? – Perguntei. Não que eu não gostasse de como estava agora. Mas aqueles cachos castanhos eu nunca esqueceria.
-Enjoei. – Uma resposta simples e curta.
Não consegui conter meu impulso de tocar os fios escuros. Senti seu corpo estremecer quando minha mão tocou de leve seu rosto pálido. Coloquei uma mecha de seu cabelo para trás da orelha e continuei a olhá-la, sem descolar minhas mãos dela. Observei as olheiras que tinham se tornado sempre presentes ao redor de seus olhos.
-Você parece cansada. – Falei um tanto preocupado, um tanto curioso.
-Eu estou. – E dizendo isso, eu a vi fechar os olhos.
Aproximei meu rosto do dela. Nossos lábios quase se tocando. Aspirei aquele perfume que tanto me enlouquecia. Fechei meus olhos também e aproximei-me ainda mais, roçando a ponta do meu nariz levemente no dela. Entreabri meus lábios, pronto para beijá-la, senti-la, mas um estalo alto nos afastou. Ao olharmos para a direção do barulho vimos uma caixa de papelão lacrada em cima da mesa. Aproximei-me e vi o bilhete escrito pelas letras finas e constantes. “Divirtam-se.” Que ruiva filha da puta! Essa sim sabia como estragar um momento.
-Acho que está na hora de começar a trabalhar. – A voz suave dela surgiu atrás de mim e assenti. Não havia mais o que fazer, algo muito mais grave estava a nossa espera.
----------------
Os dias foram passando e nossas pesquisas avançando. Era muito melhor trabalharmos lado a lado. Dividíamos nossos conhecimentos acerca da medicina bruxa e trouxa. Estávamos realmente fazendo descobertas interessantes com relação aos compostos encontrados no sangue das vítimas. Mas uma coisa me preocupava. Ela.
A cada dia que passava ela me parecia mais cansada. Suas olheiras cada vez mais evidentes. E muitas vezes seus pensamentos pareciam desconexos. Tinha algo acontecendo com ela, eu tinha certeza. Mas não adiantaria perguntar, ela nunca me diria. Então passei apenas a observar.
Mas foi num dia em particular que eu constatei que tinha algo muito errado acontecendo. Enquanto cortávamos algumas ervas para fazer uma mistura, acidentalmente me cortei. Não foi nada sério. Apenas um filete de sangue escorreu de meu dedo ferido. Mas o que foi realmente estranho foi a reação dela. Imediatamente afastou-se de mim. Parecia estar lutando consigo mesma. Sua respiração tornou-se acelerada.
-Está tudo bem, Granger? – Perguntei, aproximando-me.
-Fique onde está. – Sua voz também parecia diferente, mais... grave. E então eu vi um lampejo diferente tomar conta dos olhos dela. Ela olhava fixamente para o sangue escorrendo de meus dedos. De repente ela sumiu. Aparatou. Desapareceu, deixando-me ali. Confusão, preocupação, receio. Tudo isso passava por minha mente ao mesmo tempo enquanto eu limpava meu machucado e fazia um curativo.
----------------------
No dia seguinte ela não apareceu. E nem nos outros três dias. Fiz poucos avanços sem a ajuda dela e já estava prestes a procurá-la. Sabia que ela estava ficando na casa da Weasley. Relutaria em ir até lá por causa da ruiva se esta morasse de fato em seu próprio apartamento, mas como eu sabia que ela e blaise estavam praticamente morando juntos no apartamento dele resolvi arriscar uma visita a Hermione, saber o que estava acontecendo. Decidi passar no Ministério primeiro para informar meus recentes avanços e saber como estava a busca pelo culpado.
Estava bem próximo à sala do Potter quando eu ouvi aquela voz fraca e doce dela. Parei no mesmo instante ouvindo atrás da porta da sala do Weasley. Entendia pouco do diálogo que eles travavam, mas o pouco foi suficiente para me intrigar ainda mais.
-Eu te disse que isso não ia dar certo, Hermione. – Ouvi o pobretão falar. – Você precisa!
-Eu sei disso, Rony. Só que não quero. – Acho que ela estava chorando. – Eu não aguento mais. – Não aguentava mais o que?
-Não aguenta mais o que, Granger? – Não consegui me conter e entrei na sala, revelando-me.
-Há quanto tempo está aí fora, Malfoy? – O pobretão perguntou.
-Tempo suficiente. – Direcionei-me a ela. – Não aguenta mais o que, Granger?
-Isso não é da sua conta. – Ela respondeu-me com dureza.
-Sim, é da minha conta a partir do momento que você passa a prejudicar o nosso trabalho. – Mentira. Eu queria saber o que estava acontecendo com ela.
-Se é essa sua preocupação, pode ficar tranquilo. Voltarei ao trabalho hoje mesmo. – Mágoa? Raiva? Orgulho? Não sabia o que se passava na cabeça dela. Eu não tinha mais o que dizer diante daquilo.
-Espero que sim. – Foi o que falei antes de sair dali. Milhares de coisas passavam por minha cabeça. Que diabos estava acontecendo com ela?
------------------------
Naquele mesmo dia como prometido ela voltou ao trabalho. Chegou encharcada da chuva que caia. Explicou-me com poucas palavras que chegado até ali por método trouxa de transporte, uma vez que Harry havia lacrado todos os canais de aparatação e redes de flu para uma investigação mais profunda.
-E por quanto tempo ficarão fechados? – Perguntei.
-Não sei. Alguns dias talvez. É tudo que eu sei. – Pra mim não haveria muitos problemas. Eu também era adepto ao modo trouxa de locomoção. Eu gostava bastante de carros e muito frequentemente eu os usava em vez das vias bruxas de locomoção. Por sorte naquele dia eu tinha decidido sair de carro em vez de aparatar. Não teria problemas pra voltar pra casa.
Praticamente não nos falamos durante o resto do dia. Focamos no trabalho, nas poções. Poucas palavras eram trocadas diante de um experimento e outro, mas nada de muita importância. Estávamos exaustos no fim do dia. Ela parecia ter tentado fazer tudo em compensação aos dias que esteve ausente. E eu para não ficar para trás me esforcei também. Mal parei para comer. Já passava das dez da noite. Estava cansado e faminto.
-Por mim chega. – Disse. – Estou indo embora. Quer uma carona? Estou de carro.
-Não sabia que você usava métodos trouxas de locomoção, Malfoy. – Ironia. – Mas não, obrigada, sei me virar sozinha.
-Não seja orgulhosa, Granger. – Insisti. – Está chovendo. E eu não mordo. – Falei as últimas palavras bem próximo do ouvido dela e percebi o quão desconcertada ela tinha ficado.
-Está bem. – Ela assentiu e saímos dali.
O trânsito estava uma merda. A chuva atrasava tudo, mas também havia a questão de que muitos bruxos estavam tendo problemas de locomoção bruxa e provavelmente estariam usando métodos trouxas. Depois de quase uma hora conseguimos chegar no apartamento da Weasley, um trajeto que demoraria quinze minutos no máximo. Observei a janela, tudo escuro.
-Obrigada. – Ela estava assim desde que voltara para a Inglaterra: Poucas palavras. Fria. Eu a vi sair do carro e atravessar a calçada na chuva em direção ao prédio. Não me contive, saí também da proteção do meu carro e fui atrás dela.
-Granger! – Gritei e ela parou. Alcancei-a com poucos passos. – Por quê? Eu só quero entender por que!
-Eu não estou entendendo, Malfoy! – Ela disse, fingindo-se de desentendida. Chovia torrencialmente e provavelmente éramos os únicos ali fora naquelas condições.
-Não se faça de burra, Hermione! – Aquele nome pronunciado por mim tanto tempo depois. – Por que você foi embora? Por que você me deixou?!
-Eu... eu não sei o que te dizer! – Mesmo com o rosto marcado pelas gotas de chuva eu percebi que ela chorava.
-Eu larguei tudo por você! Eu mudei por você! – Continuei exasperado. – E você me abandonou! Me deixou sozinho! Foi embora como uma covarde sem ter tido nem coragem de me dizer o motivo!
-Eu... sinto muito, Draco! – Ela disse.
-Por que não respondeu às minhas cartas? NUNCA?! – Gritei. Estava descontrolado. – Não tinha acabado pra mim!
-Perdoe-me! – Ela disse em meio a soluços.
-Por que não teve coragem de dizer na minha cara que estava tudo acabado? Por que você fugiu sem nem me dizer adeus? – Aquilo estava guardado dentro de meu peito por dois longos anos sem ela.
-Eu não podia, Draco... Eu não conseguiria! – Ela disse, afastando-se alguns passos.
Penetrei profundamente nos olhos castanhos e vi o quão profundo eram. Não resisti. Eu nunca conseguia resistir a ela. Diminuí a distância entre nós e puxei-a pela nuca. Beijei-a como se nunca tivesse feito aquilo. Senti sua língua extremamente quente em minha boca e estremeci.
Quanto tempo tinha passado sem aqueles beijos, sem aquele toque. Não me importei com a chuva. Não me importei de estarmos no meio da rua, encharcados. Precisava senti-la uma vez mais. Passaram-se alguns minutos que poderiam ter sido horas, e então ela pôs fim ao beijo. Fiquei alguns segundos vidrado nos olhos castanhos, e vi que eles tinham algo diferente. Uma tonalidade mais rubra. Era como se uma aura vermelha circundasse-os.
-Seus olhos... – Eu disse meio confuso. Ela afastou-se bruscamente de mim.
-É melhor você ir embora. – Disse séria para em seguida virar-se e correr na direção do prédio.
-Espere! Granger! – Chamei em vão, pois logo o portão se fechou e ela sumiu atrás dele.
------------------------------
A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi servir-me uma dose dupla de Wisky de fogo. Estava confuso, perturbado. Lembrava-me dela no passado. Tão diferente, tão pura, tão minha. E contrastava essa imagem que eu tinha com a de hoje. Tão distante, tão fria, tão... Tão animal. Algo de muito estranho tinha acontecido com ela durante esses dois anos em que esteve longe. Algo muito errado.
O passado veio a minha mente como um raio. Nosso envolvimento, nossos encontros, nossos beijos, nossas loucuras nas noites frias e solitárias. A paixão enlouquecedora que nos movia e fazia com que todo o resto fosse quase insignificante. Nossas diferenças ficavam de lado quando estávamos na cama Eu estava disposto a esquecer de tudo que nos separava só para ficar com ela, sempre com ela.
Nossos encontros haviam começado no final do nosso último ano letivo em Hogwarts. Voldemort havia sido derrotado pelo Potter, com a ajuda do pobretao e a dela. No ano seguinte todos nós voltamos ao colégio para completar os nossos estudos, já que havia sido quase um ano inteiro de batalhas que interromperam nossa formação acadêmica. Nós dois éramos monitores, ajudávamos na restauração da escola que havia sido praticamente destruída durante a guerra. Passamos a conviver cada vez mais e foi aí que vieram os beijos. Não sei por que nem como, mas uma noite não resisti à vontade de beijá-la. Ela não me repeliu, pelo contrário, correspondeu prontamente aos meus toques, minha língua ávida pela dela, minhas mãos nos cachos castanhos que já não mais existem.
Foi numa noite mais fria do que o usual que senti seu corpo no meu pela primeira vez. Estávamos fazendo a última ronda daquele dia quando ela parou diante de uma janela para observar a lua cheia no alto. Beijei-a. Numa sala de aula escura, entre livros e tinteiros ela se entregou a mim. E naquele momento eu soube que ela não seria de nenhum outro homem. Eu não permitiria. Seria somente minha. Minha Hermione. Ainda sinto os efeitos colaterais daquela noite em meu corpo todas as vezes em que paro para pensar. Sinto um calor subir-me pelas veias ao menor pensamento sobre seu corpo tão perfeitamente encaixado no meu.
Formamos-nos, saímos de Hogwarts e começamos juntos a estudar medibruxaria. Adquiri um apartamento e passei a morar sozinho. Continuamos a nos encontrar às escondidas. Por causa de minha mãe que nunca aceitaria e por causa dos babacas dos amigos dela que também não admitiriam nosso relacionamento nunca. Passávamos nossas noites ora em meu apartamento, ora na casa dos pais dela. Ainda sorrio ao lembrar sua expressão de pavor quando eu aparatava na casa dela no meio da noite, lançava um feitiço silenciador no quarto, para logo em seguida rasgar suas roupas e possuí-la ali mesmo. Eu não me importava em estar na casa dela, não me importava que os pais dela estavam dormindo no quarto ao lado. Nada pra mim importava desde que eu estivesse com ela.
Eu concluí meus estudos, ela não. Uma noite ela decidiu ir embora do meu apartamento alegando que os pais dela desconfiariam se ela não dormisse em casa. Tentei argumentar, pedi para que ficasse, mas ela se negou. Deu-me um beijo rápido nos lábios e aparatou. Depois disso, nunca mais voltou. Ficamos quase três semanas sem nos falar pois ela não aparecera, e quando fui procurá-la, descobri através da Weasley que ela tinha ido embora. Se mudado para os Estados Unidos para estudar. Nenhuma carta, nenhum bilhete, nada. Ela simplesmente abandonou-me sem me dizer pra onde iria, nem por que.
O meu problema com Gina é exatamente esse. Não nos odiamos desde o primeiro momento que nos vimos. Nem de longe. Ficamos até bem próximos no começo do relacionamento dela com Zabini. Ela sabia sobre meu envolvimento com Hermione. E até nos incentivava. Mas no dia em que fui procurá-la, pedindo ajuda, pedindo uma simples explicação sobre a ida de Hermione, ela me negou. Disse que o melhor que eu tinha a fazer era esquecer, deixar para lá, pois nós dois nunca daríamos certo de qualquer maneira. A raiva que eu senti dela naquele instante perdura até hoje. Por isso não suporto sua presença. Por isso nos ignoramos tão fortemente.
Beber não tinha sido uma boa ideia. Só fui lembrar-me disso quando estava quase no final da garrafa. Toda vez que eu bebia, me tornava agressivo, impaciente, até um pouco violento, admito. Mas o pior de tudo era a sensação de poder fazer tudo. A impulsividade também era um fator a ser contado. Muitas pessoas poderiam julgar essa sensação de liberdade como boa, mas eu não. Eu sabia que quando eu fazia coisas, movido pelo álcool, quase sempre me arrependia. Mas naquele momento eu não conseguia ser tão racional. Apenas levantei-me com raiva do sofá e joguei o copo na parede, estilhaçando-o.
Meu carro estava estacionado de qualquer maneira na porta do meu prédio. Bebida e direção não era uma combinação muito boa, mas eu não me importei. Já passava de uma da manhã, então as ruas estavam vazias. Rapidamente cheguei em meu destino. O porteiro me conhecia por ser amigo de Zabini, então me deixou passar.
Parei de frente para o número 405 e toquei a campainha. Uma, duas, três vezes... nenhuma resposta. Decidi apelar para magia. Com um feitiço destranquei a porta e adentrei o apartamento. A escuridão tomava conta da sala de estar. Imaginei que ela estivesse no quarto dormindo, portanto fui direto para lá, mas quando estava na metade do corredor, passando pela cozinha eu ouvi um barulho vindo de lá. Virei na direção de onde escutara o barulho e distingui sua silhueta num canto da cozinha.
Ela estava sentada no chão. Encolhida. Suas mãos seguravam um objeto que mesmo à meia luz eu distingui como sendo uma caneca de ferro. Ela não parecia ter notado minha presença. Engolia vorazmente todo o conteúdo da caneca. Não conseguia ver seu rosto, por isso chamei-a:
-Granger. – Arrisquei, receoso.
Seu corpo sobressaltou-se com o susto e ela deixou a caneca cair, derrubando um líquido escuro e viscoso no chão. Com a penumbra do local não consegui identificar o que era. Vi quando ela pôs-se de pé depressa, mas permaneceu de costas pra mim.
-O que você está fazendo aqui? – Sua voz estava diferente, como no dia em que me machuquei no laboratório. – Vá embora! – Era mais um pedido desesperado, com respiração entrecortada. Aproximei-me dela e toquei seu braço. Ela se afastou novamente e pôs as mãos no rosto. – Vá embora! Agora! – Não era mais um pedido. Seu tom de voz se alterou e logo ela estava gritando.
-O que está acontecendo com você?! – Perguntei, exaltado, puxando-a pelos braços.
-Por favor, saia daqui! – Ela parecia chorar. – Você não pode me ver dessa maneira...
-De que maneira? – Perguntei, forçando-a a se virar pra mim.
E então eu vi. Seu rosto não parecia o mesmo. Suas feições estavam duras. Sua expressão era feroz. Seus lábios estavam sujos de um líquido escuro, rubro. E seus olhos... O castanho profundo tinha dado lugar a um vermelho intenso.
Vermillion.
Por um momento fiquei assustado, petrificado, confuso... Ela aproveitou que eu tinha aliviado a pressão em seu braço e libertou-se de mim, correndo para longe em seguida. Ouvi o barulho da porta do quarto ao bater no andar de cima do duplex, e despertei de meu transe momentâneo. A primeira coisa que fiz foi acender a luz da cozinha. Olhei diretamente para o líquido viscoso derramado no chão e senti meu coração falhar por um segundo. Sangue.
Vermillion.
Tomado pela confusão, mas ao mesmo tempo pela preocupação e uma pontinha longínqua de curiosidade, segui os passos dela na direção do quarto. A porta estava trancada, obviamente, mas ela ainda estava lá dentro, eu podia sentir. Afinal de contas, Potter ainda não tinha liberado as redes de flu nem os canais de aparatação.
-Granger! – Chamei do outro lado da porta. Nenhuma resposta. – Hermione, abra essa porta! – Pedi impaciente.
-Vá embora! – A voz dela me parecia mais suave. – Por favor, vá embora!
-Eu não vou embora enquanto não conversarmos. – Disse, sentindo a raiva crescer dentro de mim. Que mania ridícula ela adquirira de fugir dos problemas. – Abra essa porta, Granger! – Mais uma vez não obtive resposta. – Muito bem, você pediu... – Arrombei a porta ao modo trouxa. Nem pensei em pegar minha varinha no calor do momento.
Encontrei-a sentada no chão, logo abaixo da janela. Sua cabeça estava apoiada em seus joelhos e ela chorava. Havia uma mancha de sangue em sua calça jeans, provavelmente adquirida quando ela derrubara a caneca na cozinha. Sua aparência era tão frágil, tão diferente de minutos antes. Senti vontade de abraçá-la, socorrê-la, confortá-la, mas não me atrevia a fazê-lo. Não sabia qual seria sua reação, não sabia ‘que diabos’ estava acontecendo com ela.
-Granger... – Comecei receoso. – Olhe pra mim... Por favor. – Pronunciei as últimas palavras num tom mais brando, menos raivoso ou irritado.
Ela levantou a cabeça lentamente. Sua expressão já havia suavizado, seus olhos estavam de volta à tonalidade normal e lágrimas percorriam o caminho por sua bochecha até morrerem em seus lábios. Cheguei mais perto dela e abaixei à sua frente.
-O que está acontecendo com você? – Perguntei tentando ser mais afetuoso o possível. – Acho que você tem algumas coisas a me dizer...
-Não há nada a ser dito. – Seu tom era seco e sua voz ainda estava embargada por conta do choro.
-Mas é claro que há! – Insisti. Nesse momento, ela levantou-se raivosa. Seu tom de voz se alterou imediatamente, chegando à beira do grito.
-Você não viu? – Disse enquanto olhava pra mim. – Não deu uma boa olhada? – Uma mistura de ironia e raiva. – Eu sou uma merda e uma aberração! Transformei-me num monstro! – Ela chorava e gritava descontrolada. – Vá! Saia correndo! Vá para longe de mim!
-Se eu me lembro bem, foi você quem fez isso da última vez. – Eu disse sem me conter. – Eu não costumo fugir dos meus problemas.
-Preferia ter um monstro como eu ao seu lado? – Ela rebateu inconformada.
-Eu preferia que você tivesse me contado a verdade, que tivesse sido honesta comigo! – Desabafei.
-Qual verdade? – Os gritos iam morrendo. – Que eu vou morrer? Que estou morrendo? – Aquelas palavras foram como um soco na boca do meu estômago. Fiquei paralisado por alguns segundos, tentando digerir aquelas palavras.
-O que... O que você disse? – Perguntei incrédulo.
-Isso mesmo que você ouviu Draco! – Meu primeiro nome. A dureza daquelas palavras. – Agora, por favor, saia daqui e me deixe morrer em paz.
-Não! Não seja idiota! – Retruquei, aproximando-se dela. – Você não vai morrer! Eu não vou permitir. – Vi que ela não conseguiu conter um riso de escárnio. Continuei caminhando contra ela, fazendo com que seu corpo ficasse entre mim e a parede. – Não agora! Não esta noite!
Com desespero, puxei sua nuca e beijei-a. Senti o gosto de sangue nos lábios dela, mas não me importei. Eu raramente me importava com alguma coisa quando estava com ela. Senti seu corpo estremecer quando pressionei sua cintura e puxei-a para mais perto ainda de mim, colando nossos corpos. Aprofundei o beijo. Logo minhas mãos estavam na barra de sua blusa, arrancando-a de seu corpo magro.
Parei de beijá-la apenas para contemplar seus seios por baixo do tecido do sutiã. Pareciam-me menores do que eu me recordava, mas não importava. O que importava era que ela seria minha uma vez mais. Direcionei minhas mãos para o botão de sua calça jeans e desabotoei-a. Com a ajuda dela, empurrei o tecido para baixo, libertando suas pernas, que apesar de mais finas ainda continuavam bem torneadas. Seus olhos pareciam estar em chamas. O tom avermelhado voltara a tomar conta do castanho, brilhando de desejo.
Vermillion.
Tomei seus lábios com desespero, ardor. Seu corpo parecia arder contra o meu. Direcionei os beijos para o pescoço, colo, até chegar em seus seios. Com um clique, desabotoei o sutiã e logo este estava no chão junto com as outras peças de roupa. Os mamilos rosados eram uma tentação deliciosa então, abocanhei-os com vontade. Ouvi o gemido alto, rouco que ela deixou escapar quando os suguei sem delicadeza.
Nossas bocas se encontraram novamente e senti suas mãos quentes desabotoarem minha blusa com rapidez. Logo esta estava ao chão junto com as roupas dela. Meus sapatos e calça tiveram o mesmo destino. Puxei-a com força e empurrei seu corpo em cima do colchão. Não havia delicadeza em meus atos. Havia uma saudade desesperadora de ter seu corpo sob o meu, sobre o meu...
Poucos minutos depois, nossos corpos estavam completamente nus. Senti sua intimidade junto à minha e não resistindo mais, penetrei-a. Com força, sem aviso, com desespero. Hermione deixou escapar um grito de prazer que só me enlouqueceu ainda mais. Nossos corpos moviam-se juntos, numa dança ritmada pelo prazer. Senti quando ela forçou seu corpo sobre o meu e as posições foram invertidas. Ela estava por cima agora.
Vi uma expressão feroz, quase animalesca se formar no rosto dela enquanto rebolava seu quadril em cima de mim. Seus seios movendo-se no ritmo de suas investidas, seus lábios entreabertos e os olhos cor de fogo não me permitiram resistir mais. Soltei um grito extasiado quando liberei meu gozo dentro dela. Senti seu corpo estremecer e se contorcer em espasmos quase ao mesmo tempo em que o meu.
Soltei um murmúrio de protesto quando ela saiu de cima de mim e deitou ao meu lado. Sem palavras, abracei-a. Ela não me repeliu, o que me confortou. Seu corpo se ajustou ao meu como se fossemos um só. Como eu havia ansiado por aquilo. Afaguei os cabelos escuros e senti falta dos cachos rebeldes. Senti um líquido quente em meu peito e soube que ela estava chorando. Abracei-a com mais força ainda tentando confortá-la de alguma maneira. Eram tantas as perguntas que eu tinha a fazer, tantas dúvidas a esclarecer. Mas sabia que aquele não era o momento. Mesmo diante de todas as incertezas, eu sabia que não poderia mais deixá-la ir embora, não conseguiria.
Minha mente transportou-me de volta à nossa conversa de anteriormente. “Eu estou morrendo”, ouvi-a dizer em minha mente. De repente todos os meus questionamentos anteriores retornaram. Fui tomado por um sentimento que eu conhecera muito pouco até então. O medo. Medo de perdê-la novamente.
-Eu acho que já ficou bem claro que eu não vou a lugar nenhum. – Eu disse chamando sua atenção. Seu choro já tinha cessado. – Então, talvez eu mereça algumas explicações. – Ela levantou seu rosto na minha direção.
-Você tem razão. – Disse com calma. – Vamos tomar alguma coisa.
-Tomar o que? – Perguntei sem entender.
-Qualquer coisa que contenha álcool!
Estranhei ouvi-la falando aquilo. Sem dúvidas ela havia sofrido mudanças drásticas para chegar ao ponto de render-se ao álcool, coisa que ela tanto detestava. Vesti minha calça e estendi minha camisa social para ela que aceitou prontamente. A imagem dela só de calcinha e camisa me excitou. Ponderei seriamente jogá-la na cama de novo e não sair de dentro dela pelo resto da noite. Mas tínhamos coisas sérias a discutir, então contive meu desejo, sabendo que não conseguiria ficar assim por muito tempo.
Ao chegarmos na cozinha o sangue ainda estava lá, derramado. Ela estancou de imediato e pude perceber seus olhos ardendo em chamas. Vi quando ela prendeu a respiração, talvez fosse por causa do cheiro. Tecnicamente, humanos não conseguem sentir o cheiro de sangue, mas depois de tudo que eu tinha presenciado naquela noite, não ousava duvidar de mais nada.
-Pode me dar um minuto? – Ouvi sua voz por entre a respiração ofegante. Não questionei-a, apenas me virei para sair dali.
-Estou te esperando na sala. – Falei antes de cruzar a porta.
Fui direto para o mini-bar que ali havia. Servi-me de uma dose generosa de firewhisky, enquanto esperava por ela. Alguns minutos depois ela apareceu. Não sei o que havia feito com o sangue... Se tinha limpado, se tinha bebido, se tinha guardado... Preferia não pensar nisso. Não conseguia imaginá-la lambendo o piso frio da cozinha até a última gota. Havia um lado feroz nela, animal, cuja origem eu desconhecia, mas esperava conseguir algumas respostas satisfatórias durante nossa conversa. Ela me olhou e não consegui decifrar seus sentimentos através de sua inexpressividade. Ofereci um copo com um pouco do líquido âmbar que foi aceito por ela em silêncio. Sentamos de frente um pro outro e foi ela quem começou:
-Bem... – Pude perceber a dúvida em seu olhar. – O que quer saber?
-Tudo que estiver disposta a me contar. – A resposta mais sincera que eu podia dar. Não queria pressioná-la, mas ao mesmo tempo ansiava por saber cada mínimo detalhe de sua vida enquanto estivera longe.
-Bom, eu nunca quis que você soubesse... – Ela começou, tendo minha total atenção. – Mas já aconteceram tantas coisas... E além de tudo, já está chegando ao fim. – Fim? A que fim ela se referia? Nosso fim? Seu fim? Fim desse pesadelo?
-Do que você está falando? – Perguntei pesaroso.
-De mim... – Sua voz era seca. – Estou morrendo, Draco.
Continuação da fic: http://fanfic.potterish.com/menufic.php?id=43350
Posto a segunda parte depois que a Josy me autorizar! ;)