Cinco horas da manhã e eu bolando na cama. A atitude que mostra que eu tô ferrado. Ferrado? Isso é pouco. Fodido é a palavra mais certa para eu usar agora. Mas aí você me pergunta por que. E eu vou responder desejando que fosse uma das minhas maravilhosas mentiras:
- Eu amo.
Não me julgue tão rápido caro leitor. Talvez amar uma garota não lhes pareça o fim do mundo. Mas pra mim é. Ainda mais quando essa garota é Rose Weasley.
Ah, já ia me esquecendo! E quem sou eu? Scorpius Hymperion Malfoy. Acho que agora você entenderá melhor minha situação de total incredulidade ao concluir esse terrível fato.
E se você faz o tipo romântico, sinto muito, mas minha história nada tem de romântica e muito menos termina com final feliz como seus contos de fadas superestimados.
Minha história na verdade começa antes de eu nascer, começa quando o meu sobrenome se tornou o que ele é hoje, símbolo de vergonha e alvo de escarnio. Tudo porque o meu avô teve a infeliz ideia de ser amiguinho do tal Mestre das Trevas da geração passada.
E infelizmente mesmo que eu não tenha porra nenhuma haver com isso eu sempre sofri as consequências e para completar o inferno eu tinha que me apaixonar logo por ela. A filha deles? Só sendo um retardado como eu mesmo pra fazer uma merda dessas. Quem são eles? Só alguns dos nossos maiores heróis.
Entenderam minha situação agora? Eu sou o neto e filho das pessoas que ajudaram na quase morte de milhares de pessoas, tanto trouxas quanto bruxos e ela, a filha daqueles que salvaram estas vidas. Meu sobrenome é sujo e indigno enquanto o dela reluz como ouro.
E é ai que me pergunto como pude deixar isso acontecer.
Só sendo muito filho duma puta mesmo para fazer algo assim.
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Eu dançava feliz ao lado de Katherine, nos movíamos bem juntos, não poderia reclamar de tê-la perto de mim, seu corpo no meu, sendo sincero era uma sensação muito ‘agradável’. Ela me sorria e sua boca se torcia um pouco com o movimento, devido as altas doses de bebida que ela havia tomado.
Seu corpo curvilíneo se esfregava no meu ao ritmo agitado da musica e ninguém percebia, estavam todos entretidos demais com seus próprios ‘divertimentos’.
- Vamos para um lugar mais tranquilo – ela me disse exalando álcool.
Tentei evitar uma careta para o hálito desagradável e sorri. Estava no papo. Ela estava chapada e cheia de amor pra dar. Por que eu recusaria? Não sou idiota. Não se perde uma oportunidade dessas.
Alvo passou por mim com Juno. Eles também dançavam, mas ao contrário de Kath, Juno se mantinha a certa distância e Alvo parecia bem conformado com isso.
Ele me sorriu. Ele estava sempre sorrindo. Não importava o que acontecesse. Voldemort poderia voltar da tumba e aparecer no meio da festa que ele não se afetaria. Continuaria sorrindo. Provavelmente iria continuar como se nada tivesse acontecido ou talvez até o convidasse para dançar uma Macarena.
Ri da minha própria piada e lancei o olhar sobre a enorme sala precisa, nosso atual ponto das baladas. Meu atual ponto para me dar bem. Olhei novamente para a garota nos meus braços. A noite seria boa, mesmo que provavelmente ela não se lembrasse pela manhã. Isso não me importava.
Já estava decidido a sair dali para o tal local mais tranquilo, que envolveria mais alguma coisa considerada ilegal segundo nossa diretora quando a vi entrar.
Passou pela enorme porta e olhou tudo curiosa. Ian, seu acompanhante a arrastou até o ponche. Saquei a dele na hora. Precisava de coragem, coragem que ele não tinha. Por isso a bebida. Senti uma certa pena dela. Ela merecia coisa melhor.
Puxei Kath, que andava cruzando as pernas mais que o necessário a locomoção e me aproximei da garota. Falei baixo o suficiente só para ela ouvir.
- Achei que conseguisse algo melhor – lancei um olhar debochado para o panaca entornando o segundo copo.
- Olha quem fala – disse Rose também debochada, mas olhando pra Kath – Essa tática de embebedar é ultrapassada sabia?
Sorri sincero. Adorava as respostas rápidas dela. Com ela valia a pena discutir.
- Seu caso é diferente só porque ele se embebeda sozinho?
Ian continuava emborcando os copos de ponche como se fosse água no deserto. Rose olhou para ele e percebi o descontentamento por eu estar certo. Ela odiava que eu estivesse certo.
- Tanto faz – soltou ela aborrecida – Viu o meu primo por ai?
- O panaca tá dançando com a Jumbo!
Ela me olhou brava, mostrando o desagrado pelo apelido ‘adorável’ de Juno.
- Ainda não sei o que ele viu em você para ser seu amigo – ela bufou baixinho.
- Melhores amigos – corrigi, sabendo que a irritaria mais.
Estava certo. Ela me olhou azeda. Ian se aproximou de nós. Percebi que Rose havia se arrependido de finalmente ceder uma chance pra ele. Ele me lançou um olhar amedrontado e eu sorri, o que o assustou mais. Rose apenas nos observou. Kath continuava ‘alegre’ demais para perceber alguma coisa ao redor.
- Bom, vou in... – ia falando quando uma voz me interrompeu.
Ninguém menos que Alvo. Ele estava no alto do pequeno palco falando em um velho microfone.
- Hora da troca galera!
Olhei para os lados rápido. A hora da troca chegara e eu ainda tava engatado ali com a Kath, bêbada e me desejando, com o pé de cana criadora de coragem do Ian e a rabugenta da minha ‘amiga’ Rose.
Ian se empolgou e puxou Kath para o meio das pessoas que dançavam. Olhei para Rose. Merda! E agora? A hora da troca era o momento em que os casais trocavam de par por pelo menos uma musica. Um dos costumes das nossas festas. Nem queira saber os outros.
Ela parecia tão infeliz com ideia de dançar comigo quanto eu e foi isso que me fez puxa-la para o salão.
- O que você pensa que está fazendo? – perguntou ela irritada.
- Te tirando pra dançar – dei a resposta óbvia.
- Eu sei idiota! Por quê?
- Hora da troca – suspirei pesaroso – fazer o que?
Ela puxou as mãos das minhas para sair, mas a segurei.
- Não – eu disse puxando-a para mim – Você não me aguenta por uma música? – me fingi magoado – Poxa! Será que sou pior que o pé de cana? – lancei meus olhos pra Ian arrastando Kath pelo salão. Deplorável.
- Ele não é um pé de cana – respondeu ela.
Tão Rose, defende-lo mesmo que ela concordasse comigo. Sorri mostrando minha incredulidade e ela respirou fundo.
- Ok – ela sorriu de leve – Hoje ele está empolgado.
Sorri também. Adorava quando ela admitia que eu estava certo.
Dançamos uns segundos sem abrir a boca. Um silencio incomodo. Olhei para o rosto dela. Odiava assumir isso, mas ela era linda. Rosto arredondado, pele cor de bronze com algumas sardas perdidas sobre o nariz. Os cabelos eram castanhos como os olhos, mas toda vez que ela se movia reflexos vermelhos apareciam.
Ela me olhou, me pegando no flagra, desviei os olhos e soltei a primeira coisa que veio a minha cabeça:
- Como vai o GEE? – jamais admitiria que estava a admirando.
Ela me olhou estranho. Ela era esperta. Sabia que a pergunta escondia algo, mas respondeu.
- Bem, sem você para atrapalhar.
- Atrapalhar? – eu perguntei irritado, afinal eu ajudara muitos alunos em situação difícil – Você não lida bem com concorrência mesmo né?
Rose me lançou um olhar mortal e não disse nada. Tô ferrado. Eis minha teoria. Quando uma garota te xinga, ofende e berra é normal, mas quando ela fica calada aí você deve se preocupar.
Fechei minha boca antes que ela começasse a me espancar por falar a verdade. Me concentrei na musica. Era uma baladinha romântica. Muito adequado, pensei.
Porem depois de alguns segundos não resisti mais e voltei ao ataque:
- Agora fala a verdade – falei no ouvido dela, dizendo a mim mesmo que era por que o som a impediria de ouvir se eu falasse de longe.
Ela não esperava que eu falasse e se assustou ligeiramente.
- Que verdade? – ela levantou a sobrancelha direita exageradamente, me fazendo rir.
Esse costume de levantar a sobrancelha demais ela herdou do pai, mas com certeza só ela consegue torna-lo um gesto tão charmoso. Claro que eu não vou achar um cara de meia idade com cabelos cor de fogo interessante. Merlim que me livre! Mas ela adicionava um olhar curioso ao ato que me deliciava.
- Que você morre de saudades da minha maravilhosa presença no nosso grupo de estudos! – é, eu sou cínico.
Ela riu de mim na hora. É, parece que ela sabe.
- Saudades? De você? – ela continuava com um sorriso divertido nos lábios – Acorda Malfoy. Sentir saudades suas é crime no meu código de conduta. E como você sabe, sou uma garota que segue as regras.
Eu ri, é claro que ela não admitiria algo assim, nem se fosse verdade. Mas adorava amola-la com a ideia de que ela se sentia atraída por mim e ela odiava esse papo. Vai ver por isso eu sempre persistia.
- Claro, garota das regras. Mas esse crime você não resiste a cometer. É algo superior ao seu autocontrole – eu me empolguei – Mas não se culpe tanto. É culpa minha.
- Culpa sua? – a sobrancelha dela subiu de novo.
Acho que ela nunca havia ouvido eu me culpar de algo antes. Nem mesmo do que eu era realmente culpado.
- É. Eu sou irresistível.
Achei que ela fosse rir, mas ela apenas ficou séria e me olhou nos olhos.
- Malfoy, como você é...
Ela me deu tempo para pensar. O que ela diria? Lindo? Gato? O cara dos meus so...
- idiota! – aí sim ela riu – Eu sou irresistível? Por favor!
O riso aumentava na garganta dela.
- Bom, pelo menos eu tentei – lancei um sorriso de lado.
Normalmente quando lanço esse sorriso as garotas se derretem, mas ela o ignora por completo.
- Tentativa inútil – respondeu ela explicativa – Nem mesmo você se culpar faria eu admitir que possuo algum sentimento positivo com relação a você. Sabe porque? Porque eu não possuo! Eu hein! Credo!
É, como eu disse. Ela sabe como me tocar fundo. Tão doce e delicada. Porque eu iria buscar uma garota que me agradasse, elogiasse e me desse carinho se eu tinha Rose Weasley me ofertando sarcasmo, ironias e ofensas gratuitamente?
Aquela dança estava sendo perfeita. Comecei a rir também.
- Um dia você vai assumir tudo que guarda no seu peito e eu estarei esperando querida Rose.
Esperei que ela novamente risse de mim, mas ela não o fez de novo. Será que preparava uma nova ofensa? Não. Ela não ia me ofender. Ela apenas me fitava curiosa, ou seja, com a sobrancelha quase unida aos cabelos.
Não entendi de imediato. Mas depois compreendi. Minha brincadeira saíra de minha boca séria demais para parecer sarcasmo. Eu não havia percebido, mas soltara aquilo como se dissesse uma verdade ou talvez uma das minhas mentiras nas quais eu realmente quisesse que acreditassem.
Ela buscava em meu rosto pistas sobre as intenções do que eu dissera, mas parecia não encontrar. Muito provavelmente nem eu sabia. Acreditava estar apenas brincando com ela, me divertindo. Mas agora começava a me questionar se eu era tão bom em mentir pra mim mesmo quanto era para mentir para os outros.
Antes que pudesse chegar a alguma conclusão uma mão tocou meu ombro, fazendo eu desviar meus olhos dos castanhos. Ian me fitava amedrontado, preocupado em me irritar. Panaca!
Senti vontade de manda-lo pastar. Mas afinal Rose era o par dele e eu não me importava com ela. Ou pelo menos não devia. Por isso passei a mão dela para ele enquanto ele me empurrava Kath de volta.
Kath me sorriu debilmente e percebi que ela nem havia notado a troca de pares. Olhei para o casal próximo de mim e vi o exato momento em que Rose se afastou caminhando para a porta seguida por Ian. Parecia que ele tentava convence-la a ficar, mas ela estava irredutível. Sumiu pela passagem antes que Kath começasse a por o jantar pra fora.
E esse foi meu fim de noite. Rose sumindo das minhas vistas seguida por um cara que eu sentia vontade de socar e uma garota vomitando uma gosma verde em cima do meus sapatos caríssimos.
Como disse, nada romântico e sem finais felizes.
Mas como não sou tão burro como a Rose pensa não pude evitar a conclusão óbvia que aquela noite me ofertara: EU A AMO.