Barão Sangrento
Atravessei eras. Provei do cálice de muitas. Menos do teu, Helena. E isso me corrói por dentro. Sou uma besta sem alma, sou apenas um demônio. Daqueles que suga tua vida em instantes, daqueles que te persegue, oh dama-tentação. Como eu quero abusar de teu corpo. Quero tomá-lo só para mim. Quero te corromper, quero te beber, quero te rasgar... Quero ver teu corpo nu estraçalhado! Teu sangue descendo... Oh, como isso só aumenta minha cede. Tu temias-me, bela dama, e temias-me corretamente. Trancava-lhe numa sala qualquer de teu castelo e tentava te ter, mas você sempre me impedia. Acho que sabias o que eu era lá no fundo. Então rezava... Tua reza e teu crucifixo... Tua fé me deixava um tanto fraco. E tu sempre conseguias escapar. Oh, Helena, por mais que tente, não podes ganhar de mim. Um dia, sucumbistes ao desejo. Onde estava tua fé naquele exato momento? Eu, que queria lhe descobrir, lhe provar, consegui. Oh, dama, que coisa prazerosa! Rasgar teu sexo... Provar de teu mel. Foi então que eu descobri teu sabor... O que havia dentro de você. Tua hora estava chegando...
Dama cinzenta
Oh, demônio-barão, rasgava-me lentamente. A dor me tomava, mas ainda assim, continuavas a me estocar. Teu hálito de vinho, tabaco e sangue, encontrava o meu. Teus beijos impediam meus gritos... Minhas súplicas. Corrompia-me violentamente... Ardentemente... Lentamente... E eu, continuava submissa em teus braços. Em nome do pai, do filho e do espírito santo, como é bom o gosto do pecado! Mas logo senti tuas presas roçarem meu pulso, e soube que o demônio iria atacar. Olhei fundo em seus olhos, e vi que não era apenas desejo. Seus olhos demonstravam algo mais além. Corri, sabia o que viria em seguida. Rumei para a floresta próxima ao meu castelo. Temia a morte. E ainda mais uma morte tão insana. Mas ele se aproximava, cheio de sede, e eu continuava a me distanciar. O medo me tomava. O desespero... Deus! Imploro tua salvação! Barão sangrento! Imploro por piedade!
Barão Sangrento
Ensandecido, a loucura me persegue tanto quanto eu a ti dama fugitiva. Não pode mais tua fé me enfraquecer, pois agora já sucumbiste. Tornei-me sedento ao te provar, busco saciar-me depois de ferozmente te macular, e mesmo cego de desejo pediria perdão se suficiente fosse para no teu corpo mais uma vez penetrar, porém dessa vez seria minhas presas a perfurar tua alva pele.
De tantos cálices, és tu com tua reza que me fascinam, tu dama, desperta o que mais demoníaco pode existir no meu corpo, há tantas eras sem alma.
E teu erro ao entrar na floresta, se torna tão grave quanto ao de se perder em meus braços, pois nesse rústico lugar despertasse instintos suprimidos, e a morte se aproxima mais rápida do que o sangue que corre em tuas veias. Eu irei descobrir o que mais há dentro de você.
Dama Cinzenta
Impetuoso caçador de sangue... Fizeste-me tua baronesa num momento insano. E agora sou obrigada a fugir da fera que revelastes ser, ainda marcada e atordoada do teu último arroubo selvagem. Refugio-me na floresta, pois não há lugar mais lógico para uma caça que desejou seu caçador.
A dor lacerante que emana do meu corpo é a prova de minha fraqueza, e à medida que de ti afasto-me, ainda não é o bastante. A cada passo você parece ainda mais perto, ao mesmo tempo em que o vejo mais longe. Imploro-te piedade, e rezo ainda mais fervorosamente para que mais uma vez minha fé aplaque tua crueldade, porém sei que meu futuro a ti pertence, e meu futuro é a morte.
Seja o fim num leito de folhagens, seja numa poça de sangue drenada de minhas veias, minha morte ainda será por tua fera oculta.
Sevo-Barão será que finalmente te despistei ou será que um imã pra tua sede me tornei? Por fim, me encontro só. Pelo menos essa ilusão me encanta por doces segundos, antes que suas presas novamente me achem, e na minha jugular tu começasses a embeber-se, minando minhas forças, extraindo minha vida.
E no meu crucifixo seguro enquanto mergulho num leve devaneio, extasiada assim, minh’alma abandona meu corpo, aspirando para que adentre o reino a qual tanta devoção apliquei. E antes da ultima oração, minha vida se esvai.
Barão Sangrento
Oh, Helena, bebi-te enfim. Mas paguei um preço realmente caro, por isso. Teu corpo, que me pertenceu, jaz agora aos meus pés... Cinzento e sem vida. Oh, minha dama cinzenta... O tempo mal se passou e eu já sinto saudades de teu toque e de teu cheiro. Mas a morte, que sugou todo mel de teu doce hálito, não teve efeito sob tua formosura. E isso me enlouquecia ainda mais. Talvez não fosse apenas desejo, talvez tivesse algo a mais. O dia amanhecia, e com isso, a luz do sol se aproximava. Minhas pernas não se mexiam, eu sabia que deveria fugir, mas ainda assim... Beijei-te, como nunca fiz antes. Oh, minha amada, perdoe-me por deixar meu demônio interior falar mais alto. Perdoe-me por tudo o que te fiz. Naquela hora, a luz do sol atingiu minha carne, que começou a queimar instantaneamente. Oh, dor! Quão intensa és! Reduzi a cinzas rapidamente, assim pagando por todos os pecados que cometi.