CAPITULO 3
Tabata está com 14 anos e conhece Enzo.
-Tabata a sabe tudo. Só não sabe parar de meter seu nariz onde não é chamada!
A voz de Pam ecoou pelo salão comunal. Tabby havia derrubado alguns livros, sem querer, perto de uma rodinha de meninas de pé no meio da grande sala comunitária. Sem querer enquanto os juntava ela ouvira a conversa delas e acabara se tornando o alvo deles todas. Agora com os livros presos ao peito, abraçados fortemente, ela ergueu o queixo desafiadora.
-Eu não estava me metendo! Nem ouvi o que disse!
-Pois eu duvido! É uma enxerida! – Pam gritou vermelha de ódio, sendo apoiada pelas amigas magricelas e vestidas de maneira muito semelhante umas das outras– Tabby-a-sabe-tudo!
Elas se juntaram naquele desagradável coro, e ela olhou em volta notando que era o centro da atenção de toda a sala lotada. Não havia ninguém para apóiá-la.
Nenhum amigo. Nenhum amigo. Essa constatação a desarmou e fez a única coisa digna que soube. Saiu correndo em direção ao retrato da mulher gorda.
Era quase nove horas da noite e o castelo estava começando a ficar escuro. Precisava dormir cedo se quisesse estar atenta as aulas da manhã seguinte, mas não subiria a seu dormitório enquanto Pam e suas amigas não estivessem dormindo.
Não se importava com a opinião delas. Falassem o que quisessem. Ela era superior.
Superior e sozinha, pensou, sentindo os olhos arderem.
Entendia o mundo como um adulto, e o entendia desde que era muito pequena, mas não entendia como uma dor tão intima poderia ser tão terrível.
Era inveja, ela sabia. Inveja por ser perfeita nos estudos. Inveja de pertencer a uma família feliz. Inveja pelo tio e pais famosos.
Só inveja que fazia com que todos a desprezassem. Eram jovens e imaturos, incapazes de lidarem com esse sentimento de forma madura. Eles queriam agredir e destruir tudo aquilo que não sabiam lidar, e infelizmente ela era o alvo.
entende-los porem, não era o bastante. Pois ela conhecia a pior conseqüência desse sentimento tão horrível de inveja: a rejeição.
Era uma pessoa agradável. Sim, ela era. Não tinha duvidas disso. Era simpática, estudiosa, até bonita, se pensasse num padrão mais normal de beleza.
Então porque as pessoas tinham que odiá-la tanto???
Doía terrivelmente ver que apesar de entender o que se passava com suas colegas, ainda assim ela chorava por isso. Todas as malditas noites quando se deitava para dormir ouvindo-as falarem mal em suas costas, entre sussurros nas camas ao lado da sua.
Seus olhos estavam nublados pelas lágrimas que corriam, e ela mal viu o corredor chegar ao fim, na pressa de chegar à sala de transfiguração onde pretendia se esconder.
Na sua corrida pelo refugio perfeito, ela não viu algo vir apressado na sua direção.
Deu uma tremenda trombada em algo maior que ela e caiu para trás sentada, com os livros espalhados por todos os lados.
Engolindo um soluço de frustração ela fechou os olhos com força tentando apagar a imagem de alguém a sua frente, vendo-a chorar. Era o que faltava, virar a piada de toda escola! Bem, a piada preferida da grifinólia ela já era!
-Está tudo bem? – um rapaz alto.
Era o que ela conseguia ver entre as lágrimas de raiva, um cara bem alto. Ele estendeu a mão em sua direção, mas ela ignorou e levantou-se sozinha, olhando para os livros espalhados por todos os lados a seu redor.
-Olha, desculpa, eu estava com pressa para chegar à sala comunal e não a vi passar. Eu... – ele parou de falar quando ela não respondeu e olhou em volta, notando os livros. – Eu te ajudo.
-Não precisa – ela disse ríspida, descontando nele sua frustração, limpando o rosto das lágrimas e olhando finalmente para ele.
Era como ver o sol depois de muitos dias de chuva. Ele tinha os olhos mais incríveis que ela já vira na vida. Verdes como a grama quando a primavera chegava.
Estava tão concentrada que quase morreu e vergonha quando ele apanhou um dos livros e estendeu a ela. Era o ultimo que faltava.
-Aqui. Não quer ficar sem ele quer? – ele sorriu.
Ele sorriu como nunca vira alguém sorrir antes. Merlim. Merlim. Merlim.
Era um sorriso lindo. Cativante, intenso, verdadeiro.
-O-Obrigada – ela disse baixo, imaginado que ele deveria estar pensando que ela era a garota mais mal educada do mundo.
-Está indo para...lá? – ele apontou o lado oposto do corredor – Não está meio tarde para passear pelo castelo?
-Eu...só queria um lugar para pensar – ela deixou escapar sentindo-se estúpida como suas colegas de quarto.
-Porque está chorando? –ele perguntou olhando para ela com intensidade.
-Não estou chorando! – se colocou na defensiva.
-Calma, eu só queria ajudar- ele afastou-se ofendido.
-É...só que... – olhou além dele sem saber como dizer – Estavam rindo de mim de novo.
-Quem? – ele a viu baixar a cabeça e olhar para os sapatos, triste.
-Minhas colegas de dormitório. Elas sempre riem de mim. “Tabata-a-sabe-tudo”. – doeu repetir aquele apelido maldoso.
-Ah, então é você a sabe tudo - ele disse sem pensar, notando seu olhar magoado – É, foi mal. – ele deu de ombros – Eu já ouvi falar desse apelido, mas os garotos não sabem muito do que acontece nos dormitórios femininos. – ele deu de ombros – Acho que nunca nos falamos nas aulas, mas eu já te vi.
-É, deve ter visto. – olhou novamente para ele, pensando sem querer em como ele era bonito. Cabelos escuros, cortados curtos e o queixo quadrado e forte, sem contar aqueles olhos profundos e o sorriso. Era injusto.
-Me chamo Enzo Macnamara. – ele estendeu a mão em sua direção.
-Tabata Wesley -ela respondeu de má vontade, sem responder ao seu comprimento.
-O cérebro da grifinólia – ele brincou – Devemos alguns pontos a você esse ano.
-Eu preciso ir – ela disse se animo para conversar.
-Para se esconder? -ele disse rápido antes que ela fosse embora.
-Não é da sua conta! – ela revidou magoada e ainda por cima com raiva dele.
-Porque não volta comigo para a sala comunal? Não precisa se esconder de ninguém!
-Eu não quero continuar com a briga. – ela deu o braço a torcer – Se eu subir para o quarto elas não vão me deixar em paz!
-Então não sobe. Não deve nada a ninguém! -ele disse indignado – Nunca vão respeita-la se ficar se escondendo em salas vazias para sempre!
-E o que sugere que eu faça? – ela sentiu os olhos arderem novamente.
-Pode ficar comigo enquanto faço os deveres... – ele sorriu de lado, passando a mão pelos cabelos sem notar o quanto esse pequeno gesto captava sua atenção a ponto de quase não ouvir o que ele dizia – Sabe, eu sou meio fraco em rumas...
-Rumas são opcionais – ela disse curiosa – Porque escolheu?
-Porque eu jogo quadribol e todo mundo diz que não tenho cérebro so porque sou bonito.
Sua sinceridade a pegou de surpresa. E pela expressão dele, pegou-o também desprevenido.
Os dois olharam para lados opostos, sem saber o que dizer.
Tabby acabou sendo a primeira a dar o braço a torcer.
-Já fez a transcrição que a prof.Velga pediu?
-Eu comecei - ele disse em tom de culpa.
-Eu não fiz ainda – mentiu, pois afinal a fizera em quinze minutos durante o almoço daquele dia.
-Podemos fazer juntos, se você não preferir ir para a sua sala vazia, claro.
Ela sorriu, pois era inevitável não sorrir diante do sorriso dele. Concordou com um movimento tímido da cabeça e os dois começaram a andar pelo longo corredor sem presa.
Era difícil não olhar para ela. Enzo observou calado enquanto ela escrevia em seu pergaminhos com letra caprichada. Ela tinha o rosto redondo e afinado, a pele muito branquinha de quem pega pouco sol. Isso realçava seus olhos azuis e intensos, com grandes poças de água, e os lábios rosados e cheios eram cativantes. Mas o que mais o encantava era a forma como ela olhava, com tanta sinceridade, mesmo na sua magoa, ainda assim havia total sinceridade.
Ela tinha os cabelos presos num rabo de cavalo, e eram crespos, mas com cachinhos que o faziam ter vontade de enrolar os fios em seu dedo. Umas mexas caiam de sua prisão sobre o rosto, e concentrada no trabalho de rumas, ela apenas as deixava ali, sem se importar com elas.
-O que foi?
Ela perguntou notando seu olhar fixo sobre ela. Ele olhou para seu nariz arrebitado e aquele olhar superior, e teve vontade de rir.
-Porque está rindo? – ela ficou na defensiva.
-Fazer dever com você é covardia – ele achou uma desculpa esfarrapada, que não deixava de ser total verdade –Me sinto um trasgo estúpido.
-Posso dar uma olhadinha? – ela apontou seu pergaminho que estava pela metade. Passou os olhos rapidamente sobre o papel e devolveu a ele – Está correto. Não sei porque se acha estúpido. – ele a olhou como se a razão fosse obvia.
Tabby suspirou ruidosamente, olhando em volta, e então baixou o tom ao mínimo possível.
-Eu sei isso tudo desde os meus cinco anos. – ele arregalou os olhos de surpresa e ela continuou – Só estou cursando a escola porque meus pais acham que devo ter uma vida bem normal, com das outras crianças. Eu sei que sou diferente, eu entendo, e aceito. Até gosto. – sorriu tímida – o problema são as outras pessoas. Como elas lidam com aquilo que não é igual a elas. Mas isso não muda o que eu sou. Sou inteligente, bem mais que a maioria. É só isso. Assim como você é bonito... – corou ao dizer -...mais bonito que a maioria – tentou não olhar para ele – as pessoas ficam assustadas e se afastam de mim, ou se aproximam interessadas no que posso oferecer. Deve acontecer com você também.
-Eu só fui aceito no time porque a capitã, Aleya queria ficar comigo – ele disse em tom de segredo – Depois da primeira partida todos entenderam que eu jogo bem. Sou um ótimo apanhador, mesmo assim ainda ouço piadinhas e vez ou outra, ela tentar ficar, sabe...por pressão. – ele deu de ombros.
Tabata se viu pensando em como era boba. É claro que ele tinha que ter uma namorada.
-Você está ficando com alguém? – ele perguntou e ela o olhou envergonhada.
Maneou a cabeça em negativa, torcendo as mãos embaixo da mesa nervosa. Não podia dizer que nunca ficara com alguém. Ele a acharia estúpida e ingênua.
-Eu também não – ele confessou – As meninas da grifinólia são meio estranhas. Mas até acho uma menina da corvinal interessante – ele sorriu de lado, e ela desviou os olhos, com uma sensação ruim ao ouvir isso – Mas ela tem namorado.
-Disse a ela o que sente? – perguntou corajosa. Ele negou – Acha que ela diria não para você?
-Não vale conquistar alguém só por ser...
-...bonito? – ela sugeriu sorrindo.
-...ou inteligente? – ele provocou fazendo-a rir.
Pertinho deles Pam e suas amigas passaram com o olhar fixos nos dois. Pam jogou os longos cabelos lisos e louros para trás e ergueu o nariz arrogantemente, enquanto as amigas entravam em uma nuvem de cochichos maldosos.
-Não ligue para elas – ele sugeriu olhando com raiva para elas.
-Eu não ligo mais – ela deixou escapar e corou.
Ele sorriu e ela não pode afastar os olhos por mais que quisesse. Seus olhos intensos miraram os dela com tanta verdade que ela sentiu vontade de rir, alegre.
-Acho que não vou terminar isso hoje –ele acabou dizendo, desviando a atenção para o pergaminho.
-Quer que eu....? – ela estendeu a mão, disposta a ajudá-lo e retribuir o tanto que ele fizera por ela naquela noite, tirando-a de sua miséria e trazendo um pouco de alegria e confiança.
-É tentador...mas não. – ele disse suspirando – Obrigada, mas não.
-Posso conferir depois...se quiser....
-Isso é razoável – ele deu de ombros - Mas não dá. Vão dizer que sou seu amigo para ter os deveres prontos! – ele disse banalmente.
-Você não é meu amigo – ela disse automaticamente, sem pensar.
A forma como ele a fitou foi desconcertante, até que sorriu e disse:
-Então saia daqui, minha inimiga!
Ela tentou não sorrir, mas era impressionante como a simples sombra do sorriso dele era capaz de faze-la sorrir.
Sem achar uma boa resposta, ela voltou à atenção para seu dever, notando que ele fazia o mesmo com o seu. Vez ou outra ela sentia o olhar dele sobre ela e ficava corada, rezando secretamente que ele não notasse.
Haviam passado alguns minutos silenciosos até que um barulho ensurdecedor anunciou a decida de alguns alunos do dormitório masculino. Eram os garotos do quadribol, imbecis adolescentes na puberdade, pensou Tabby, com um rápido olhar de longe. Eles cruzaram a sala comunal como uma manada de búfalos andando em bando e destruindo tudo em seu caminho.
-Hei, Enzo! - o mais alto e corpulento gritou do outro lado da sala, indicando que viesse se juntar a eles.
Tabby observou calada quando ele ergueu o pergaminho numa muda negativa.
Ela afastou rapidamente os olhos para que ele não percebesse que ela se importava se ele ficava ou não.
-Aí, cara – Brendon aproximou-se junto com os outros garotos,e Tabby quase pulou quando eles foram sentando-se em volta deles com a maior naturalidade – Deveres?
-Rumas – Enzo confirmou.
-É? – Outro garoto louro disse monossilábico.
-Feito – disse outro moreno bonitinho que ela sabia vagamente ser o goleiro – Que atraso, meu.
Ela estava achando confuso entende-los, e curioso, como àqueles vídeos do canal de documentários da vida animal que sua mãe sempre assistia na TV trouxa.
-Essa é Tabata – Enzo disse com naturalidade tentando pegar seu pergaminho de volta. – Minha amiga.
-E aí? – um deles lhe deu um cutucão. – Brendon.
-Oi – ela disse corando envergonhada.
Houve uma seqüência de nomes que ela jamais lembraria na vida.
-A gente vai levar o bundão do Ikki na enfermaria amanhã – aquele garoto louro reclamou com o pé sobre a mesa – Ficar resfriado dois dias antes do jogo deveria ser contra a lei, cara! Que saco! Sem zagueiro, contra a Sonserina!
-Talvez Madame Polfrey o libere a tempo – Enzo tentou ser otimista.
-Ah, claro. Ele nem consegue levantar da cama! – Brendon lamentou.
-Droga – Enzo suspirou e sorriu para ela triste.
-Eu posso pedir uma poção contra gripe e dizer que é para mim – ela sugeriu, antes que pudesse conter a própria língua. Eles a olharam de olhos arregalados – Madame Polfrey sabe que não perco aula, mesmo doente. Ela nem perguntaria nada.
-Garota, eu te amo! – Brendon gritou assustando-a – Acha que pode fazer isso?
-Ela ainda deve estar acordada – ela disse estranhando ser o alvo de tantos olhares.
-Eu te levo – o garoto louro disse levantando-se. – Vamos?
Ela concordou e olhou para trás, como quem pede socorro e Enzo deu de ombros.
Ela não sabia o que dizer, mas o garoto, que descobriu chamar-se Tiago como seu primo, falava pelos dois. Era fácil conversar com eles, ainda mais que aparentemente amigos de Enzo, eram amigos de todo o time.
Quando voltaram Enzo tinha arrumado os materiais dos dois e levantou-se encantado pela poção em sua mão.
-Amanha ele vai estar bem melhor e pode jogar no sábado – ela disse sorrindo de leve enquanto pegava seus materiais e se afastava para a escada que levava ao dormitório feminino.
-Boa noite – ele disse alto e ela virou-se acenando antes de subir apressada.
Em seu dormitório, todas haviam deitado e pareciam dormir. Ela sentiu-se na beirinha da cama e sorriu.
Então era assim a sensação de ter amigos.
Pena que fora só um momento.
Subitamente triste ela deitou-se, mesmo vestida e fechou os olhos.
Naquela noite ela sonhou com seu amigo de olhos verdes.
Na manha seguinte ela esperou suas colegas saírem para descer para as aulas. A sala comunal estava vazia.
Ela pretendia correr para não se atrasar quando ouviu uma voz e se assustou.
-Vai ter que levantar mais cedo – Era Enzo que dizia irritado – Eu sempre levanto bem cedinho. Não dá para desperdiçar um dia desses dormindo!
-Eu não estava dormindo! – ela se defendeu.
-Vem, vamos correr, ou perderemos as melhores tortinhas! – ele a incentivou.
Os dois correram como loucos, e chegaram aos grandes portões da sala arfantes e corados. Mais calmos eles entraram e andaram apresados em direção a mesa da grifinólia.
Enzo indicou um lugar e ela ficou confusa olhando de esguelha para o lugar onde ela sempre sentava, entre duas colegas CDFS que pareciam não ligar por ela estar perto. Mas hoje seria diferente. Havia dois lugares vagos em meio aos garotos do time, e Enzo sentou-se animado, falando sem parar.
-E aí, sabe tudo? – Brendon chamou alto, do canto da mesa e ela arregalou os olhos.
-É o jeito deles dizerem que gostam de você – Enzo sussurrou em seu ouvido, notando seu desconforto.
-Eu também gosto deles...eu acho... – ela olhou incerta, o tal Ikki, recuperado, comendo com a boca aberta a sua frente.
-Só não goste demais - ele brincou, até ser atingido por um pedaço de pão voador e todos começarem a rir.
Seguiu-se uma onda de palavrões que a deixaram horrorizada, mas o riso veio tão fácil que ela estava dolorida de tanto rir quando eles deixaram o café em direção a sala de aula...
FIM
P.S: Vai ter NC no proximo capitulo. |