Cap. 1 – Produzindo o vinho
Odiei-me por consentir em ir morar na casa de um primo de minha mãe. Mas como poderia contradizê-la?A velha queria tanto se mudar da casinha que tínhamos em uma cidade pequena afastada de Londres. Onde todos me conheciam, onde eu tinha amigas e até mesmo pretendentes. Não que eu me importasse com esse último fato. Na verdade uma parte de mim sentia-se feliz por não ter que ser cortejada pela corja que todos os dias vinha me ver alegando que estava passando pela nossa casa. Como se eu fosse tão tola quanto as jovens da minha idade que caiam de amores por esses galantes. Minha mãe recriminava-me por eu não lhes dar atenção. E dizia-me que ficaria solteira se continuasse assim. Eu replicava lhe afirmando que era isso que preferia. Ganhei uma bofetada por causa disso.
Juro que tentei me fascinar por algum dos meus pretendentes mas eu simplesmente não conseguia. Não podiam me culpar por isso. Eu não era dona dos meus sentimentos. Eles é que me dominavam.
Esse fora um dos motivos de minha mãe para que nos mudássemos para a casa de Evan. Monderick era uma cidade em crescimento e ficava mais próxima de Londres do que a pacata Obredesh onde morávamos.
Tenho que concordar que a propriedade era encantadora. Uma casa grande e pintada de um leve tom salmão, o jardim continha árvores, flores e até mesmo um riacho mais adiante. Ao menos fora o que minha mãe me dissera. Podia se ver outras casas ao redor, com lindos jardins também. E uma estrada de pedra que levava para a estrada principal para adiante de um vilarejo de camponeses.
Está certo que não é uma cidade ruim na qual se viver e que eu adorei a idéia de ser tratada como uma condessa, já que Evan Goulart era sócio de uma fábrica de tecidos na capital. Uma das primeiras fábricas do mundo. Eu fiquei fascinada quando minha mãe me dissera isso. Sempre fui curiosa e gostei de aprender coisas novas. E o fato de Evan ser um dos poucos que sabiam como essa ''máquina de fazer tecido'' funcionava, me deixou extasiada. Queria conhecê-lo. Mas também é fato que este fora o motivo mais forte que me trouxe a este lugar. Longe de tudo que eu conhecia.
O chofer parou a carruagem e desceu, abriu a porta e ofereceu a mão a minha mãe que a aceitou de bom agrado. Eu tinha o rosto enfiado na janela observando uma senhora tentar juntar algumas galinhas mais adiante, seguindo o caminho para a estrada.
–Hermione? – minha mãe chamou.
–Senhora? – falei voltando-me para ela que já se encontrava fora do carro.
–Vamos! – ordenou.
Eu concordei com a cabeça e aceitei a mão do chofer. Reparei que tínhamos parado bem em frente à casa quando pus a cabeça para fora do carro. Um homem meio pálido, com pouca barba, cabelos pretos já com alguns fios brancos (deveria ter mais ou menos quarenta anos), alto, de olhos claros e um pouco acima do peso nos esperava em frente à porta.
–Evan, querido! – minha mãe sorriu indo até ele.
–Jane!Quanto tempo! – disse-lhe com um pequeno sorriso e curvando-se para beijar-lhe a mão.
–Sabe que quando o Jordan era vivo eu não poderia sair sem ele – explicava-lhe com um leve tom de preocupação. Minha mãe não poderia nem ao menos cogitar o fato de voltarmos a morar em Obredesh – Não era direito. Mas agora que ele não é mais vivo eu não pude negar sua oferta.
–Claro – concordou ainda com um pequeno sorriso.
–Está é Hermione – disse indicando-me com uma mão.
Eu o reverenciei e ele fez um aceno com a cabeça em troca.
–É uma bela moça – falou-me com gracejo – Creio que existam muitos marmanjos interessados em você – brincou.
Minha mãe sorriu enquanto eu permaneci séria. Não gostava que comentassem sobre esse lado da minha vida. E já bastava minha mãe importunando-me com seus comentários.
–Perdoe-a Evan – desculpou-se Jane – Hermione não gosta muito de ser cortejada – e olhou-me recriminadora. Eu revidei o olhar, ainda séria.
–É de se estranhar que uma jovem tão bem apessoada, como você deve ser, não goste de ser adulada pelo sexo oposto. Mas aqui em Monderick você há de encontrar alguém de seu agrado.
–Certamente – concordou minha mãe.
–Mas vamos entrar – ele falou abrindo a porta.
Adentramos em um grande salão com belíssimos móveis, ornamentos dourados ou de um marrom escuro, uma escada curva mais ao fundo, à esquerda, e uma lareira em frente às poltronas.
Uma senhora baixa e gorda, de olhos e cabelos escuros, presos em um coque, aproximou-se de nós com uma fisionomia sisuda. Ela curvou-se ao parar a nossa frente.
–Srª McBride, nossa governanta – Evan apresentou – Estas são Jane Granger e sua filha Hermione. Instale-as nos quartos de hóspedes que mandei que arrumasse.
–Sim, senhor – concordou – Lucian, traga as malas para dentro – ordenou ao motorista.
–Logo, logo, o almoço será servido – Goulart informou sorrindo a minha mãe – Instalem-se e descansem. McBride lhes mostrará a sala de jantar.
Minhas malas foram colocadas no quarto ao lado do de minha mãe. Não era tão luxuoso quanto o que ela estava, mas ainda sim era muito belo. Troquei de roupa e desci as escadas.
Não encontrei a governanta, contudo, ouvi vozes e as segui. Sem muito trabalho abri uma porta ao lado da cozinha e entrei. Todos já se encontravam sentados à mesa.
Evan sorriu-me.
–Hermione, esta é minha nora Gabrielle – disse-me indicando uma jovem loira de cabelos lisos, na altura do ombro, olhos claros e cerca de cinco ou seis anos mais nova que eu. A jovem me sorriu e eu retribuí forçadamente – Já esta é minha esposa Fleur – somente então eu percebi a mulher que se sentava à frente dele e ao lado de minha mãe.
Ela era jovem, talvez quatro anos mais velha que eu, cabelos loiros quase brancos, no meio das costas, lábios finos e definidos, olhos azuis, bem claros e pele também clara. Fleur encarou-me séria e eu me curvei antes de me sentar ao lado de Gabrielle.
É verdade que as duas eram muito parecidas mas Fleur possuía uma beleza séria, madura e até mesmo boçal. Era muito mais bela que a irmã. E somente no final da janta foi que eu percebi que a encarava mais do que deveria. Recolhi meus olhos e limitei-me a terminar a sobremesa enquanto minha mãe e Evan discutiam algo sem importância para mim.
Dirigimo-nos à sala de estar. Sentei-me ao lado de minha mãe e a conversa prosseguiu sem que eles percebessem que eu me retirei logo após.
Fui ao jardim. Ventava fraco por isso segurei a barra do meu vestido junto ao corpo. Ao longe duas crianças corriam para lá e para cá. Filhas de camponeses, eu deduzi. As árvores estavam quase sem folhas, seus galhos secos ficavam amostra. E eu particularmente adorava o outono. Era uma época onde as folhas mudavam de cor e se podia ver uma grande diversidade de cores. Mas a que eu mais gostava era das folhas vermelho-alaranjadas. Cheguei a encontrar algumas delas perto de uma ou outra árvore.
Retirei minhas sandálias e as coloquei perto de uma plantação de bromélias. Ergui meu vestido na altura dos joelhos e caminhei em cima das folhas caídas no chão. Eu adorava a sensação que as folhagens provocavam em meus pés. Sorri.
E quando me virei encontrei Fleur perto da casa a me observar. Recatei-me e me recompus, calcando minhas sandálias. Aproximei-me lentamente dela. Foi quando descobri que a sua presença me intimidava. Parei a sua frente e a olhei.
–Vejo que fugiu da conversa de seu primo com sua mãe – falou normalmente porém ainda séria.
Eu concordei com a cabeça.
–Você não sabe falar – perguntou com um leve tom sarcástico – ou gosta de ser anti-social?
Eu a encarei nervosa. Será que ela não percebia que me intimidava e que eu simplesmente perdia a fala?
–Não – eu sussurrei.
–Não o que? – questionou.
–Eu não sou anti-social ou analfabeta – respondi com mais firmeza na voz – Com a sua licença – e entrei na casa.
Senti seus olhos nas minhas costas até que eu passasse da porta e encontrasse Gabrielle fingindo estar interessada na conversa de minha mãe com Evan.
Mantive-me afastada de todos e até mesmo de minha mãe que se importava mais em estar com o primo. É verdade que eu vira Fleur poucas vezes naquela primeira semana e que seu olhar lançado a mim sempre era o mesmo: sério, assim como a sua feição.
Enquanto tomávamos café cheguei a me indagar se ela era feliz com o Goulart. Ri da minha dúvida. Estava claro que não era. Ele tinha quase o dobro da idade dela, era até apresentável porém desleixado. Já Fleur, Fleur era muito bela e doce. Parece loucura dizer isso, mas eu sinto que dentro dela há outra pessoa totalmente diferente da que ela externalizava. Alguém que não se mostra pelas circunstâncias e eu me senti tentada a saber o porque da sua real infelicidade.
Encarei-a discretamente. Eu não queria isto para mim. Uma vida fadada a futilidades e obrigações. Não era pedir muito ter um pouco de felicidade.
–Ah, Hermione! – exclamou Evan sorrindo – Um dos filhos dos Weasleys disse estar interessado em te conhecer.
Vi os olhos de minha mãe brilharem. Mas voltei-me a tempo de vê-lo sorrir como para me provocar. Como eu o odiei naquele momento!
–Tem certeza? – Jane interrogou excitada.
–Absoluta! – concordou – Ronald afirmou tê-la visto no jardim quando passava pela estrada há dois dias atrás. E posso lhes dizer que os Weasleys são uma família muito respeitada e bem cotada por aqui.
–Mais isso é ótimo! – minha mãe afirmou – Não concorda, minha filha?
Levantei-me da cadeira e me dirigi à porta para sair da sala de jantar. A mulher ergueu-se e me segurou pelo braço.
–Não seja mal educada! – Jane esbravejou.
Soltei-me dela bruscamente.
–E é a senhora que vem me pedir para ter educação depois de se intrometer na minha vida?! – gritei – Não hei de me casar para que tenha uma vida de rainha. Casar-me-ei por amor!
–Então não há de casar nunca! – replicou.
–Pois seria muito melhor do que deixar que algum infeliz acabe com a minha juventude! – e saí da sala.
Tranquei-me no quarto e a reneguei tantas vezes quanto era possível. Não saí de lá e ninguém me importunou até a noite cair. Ouvi batidas na porta. Ainda não queria ver ninguém e o ódio que sentia por ela e pelo Evan ainda era grande.
–Quem é? – perguntei num tom bravo.
–Sou eu, Gabrielle – disse-me uma voz branda, de início pensei que fosse Fleur. Desanimei-me ao ouvir seu nome.
Abri a tranca e a vi já de camisola, com os cabelos soltos e caídos nos ombros, me encarando.
Nós não costumávamos conversar, contudo ela era a pessoa com quem eu mais falava naquela casa.
–Eu poderia entrar? – questionou.
–Para que? – indaguei confusa e ainda segurando a maçaneta da porta.
–Minha irmã disse-me que gostaria de lhe falar.
–E o que ela quer? – questionei – Eu sei que não fui do agrado dela, Gabrielle. Mas isso é algo com o qual teremos que conviver.
–Apenas ouça-a! – a jovem pediu.
Eu poderia dizer que não. Seria certamente o mais sensato tendo como base os nossos confrontos. Mas eu estava com raiva e precisava tirar esse mal de mim. Talvez eu pudesse descontar nela tudo o que sentia.
Eu caminhei com Gabrielle até o chalé que ficava ao sul da casa. Ventava bastante e eu abracei a mim mesma segurando meu casaco junto ao corpo. A luz do chalé estava acesa e eu percebi, pela janela, um vulto se aproximar à porta.
Quando a porta foi aberta e eu pude vê-la segurando uma xícara de café em uma mão, Gabrielle retornou. Eu a vi se afastar.
–Entre, precisamos conversar – ela falou abrindo espaço.
–E desde quando você gostaria disso? – falei irônica ao entrar. Não sabia de onde arranjava força para confrontá-la, visto que ela sempre me amedrontava com a sua presença.
–Desde que percebi que você não é como pensei que fosse – respondeu-me suave após fechar a porta.
–O que quer Fleur? – indaguei de braços cruzados e com olhar desconfiado – Se foi o meu primo Evan que mandou que viesse falar comigo, poupe os seus esforços.
–Chamei-te porque eu quis – eu permaneci a encará-la.
Seu olhar era tão complexo que me fazia temer conhecer o resto. Ele me intimidava mas naquele momento também continha tristeza. A sua máscara estava caindo a minha frente. E eu não conseguia crer que ela continha-se para não desmoronar.
–Sente-se – disse indicando uma poltrona atrás de mim.
Há alguns minutos atrás eu recusaria. Talvez tudo não passasse de encenação e eu pagasse, depois, o preço por acreditar. Mas ao longo da conversa eu saberia identificar se aquela era a sua verdadeira face.
Nós sentamos quase uma de frente para a outra. Fleur tomou mais um gole do café antes de começar:
–Eu te repudiei não por você não ter me agradado de primeira, porque, na verdade, você pareceu boa aos meus olhos, mas pelo medo de perder o meu lugar – ela não me olhava nos olhos. A borda da xícara parecia-lhe mais interessante, visto que seu indicador deslizava sobre ela – Percebi o interesse do Evan em você logo que a vi entrar na sala de jantar no primeiro dia – continuou.
–Eu nunca o aceitaria – disse-lhe.
–Hoje eu sei disso – comentou erguendo seus olhos – Mas naquela época eu tinha que manter o meu lugar de esposa, não podia perdê-lo. Gabrielle precisa disso – olhei-a confusa. Estava claro que ela não o amava, mas o que sua irmã tinha que ver com seu sacrifício? – Preciso do dinheiro para o dote dela, para que ela possa se casar com alguém de seu agrado, para que ela não tenha que morrer como eu morrerei.
Senti pena dela, por isso evitei olhar em seus olhos. Sei que ela não aceitaria esse sentimento, ela era orgulhosa. Apesar de que viver ao lado de Evan ferisse seu orgulho todos os dias.
Nesse dia notei que ela não era como se mostrava e pude descobrir sua verdadeira face. Face que ela só mostrava para mim.