O tempo em que meu pai ficou quieto apenas me olhando, foi tempo suficiente para me deixar irritada. Eu tinha ficado tanto tempo imaginando a reação dele, mas nunca pensei que ele poderia ficar estático, segurando o folheto do mesmo modo. Meus olhos pulavam dele para a mesa e da mesa para mim mesma no espelho, mas eu só queria voltar para o rosto dele e ver a boca se mexer para dizer qualquer coisa. Àquela altura eu aceitaria de bom grado até uma briga.
- Você devia dizer alguma coisa – eu sibilei.
Minha própria reação era estranha. Por mais que eu quisesse que ele dissesse alguma coisa, para brigar comigo ou me abraçar para dizer que aceitava a situação, eu não queria que ele dissesse nada, porque qualquer coisa que ele dissesse era um passo atrás na minha decisão. Eu ter colocado aquele assunto na mesa era um passo para trás, realizei segundos depois. Ron finalmente largou o folheto sobre a mesa baixa e suspirou. Eu esperei, sem conseguir respirar.
- Sua mãe contou como ela me disse que queria a separação?
- Não – eu respondi e me surpreendi comigo mesma de nunca ter tido a curiosidade de saber como tudo tinha acontecido. Eu sabia que ela não gostava mais dele e que isso causou uma guerra; quanto ao resto, eu nunca quisera saber.
- Ela me disse que não gostava mais de mim e que nosso casamento não daria mais certo – ele dizia aquilo sem olhar para mim. – E depois, quando eu não queria mais ouvir as desculpas dela, ela gritou na sala que amava Draco Malfoy e que queria ficar com ele.
Eu gelei, porque o sentido das palavras era exatamente o mesmo.
- Vocês são muito parecidas, Rose, não somente em personalidade – ele continuou, baixando a voz e assumindo um tom que eu não conseguia identificar. Tive medo de que ele fosse irônico ou que me desprezasse. Eu não conseguiria lidar com aquilo. – Eu devia ter imaginado que depois de dois meses vivendo com ele, você voltaria apaixonada... O que esses albinos têm?
O tom da última sentença era aluado, como se ele realmente acreditasse que os Malfoy tinham algo a mais. Eu apertei as sobrancelhas e meu pai, enfim, levantou o olhar para mim. Nada do que eu tinha imaginado tinha acontecido ainda; nada de brigas, nada de rompimentos e nada de lágrimas. Ainda, eu disse a mim mesma, no tom pessimista que eu usava sempre que o assunto era esse.
- Não é assim, pai – eu comecei, tentando encontrar palavras certas para defender o meu ponto de vista. Agora era a hora em que eu não tinha ensaiado e que as coisas sairiam improvisadas. Nas minhas conversas hipotéticas, meu pai nunca continuaria uma conversa depois de eu contar a verdade.
- Como é, então? Você odiava esse rapaz e depois de passar um tempo com ele, descobriu o quão sensível e o quão doce ele pode ser. Você muda de opinião e se descobre apaixonada. Desiste dele por uma série de motivos e depois muda de idéia sobre a desistência – Ele parecia magoado e eu senti meu coração quebrar em mil pedaços. – Me diga que ele não foi preso e que você vai usar essa viagem para tentar esquecê-lo.
- Eu não mudei de idéia sobre a desistência – me defendi, tendo a impressão de que eu soava um pouco incoerente. – Eu só quero que isso fique claro, pai, estava doendo manter essa mentira de que não tinha acontecido nada de importante em Oxford. Eu gosto dele, mas se isso significa abrir mão da minha família, eu fico sem Scorpius.
- Porque tem que significar abrir mão de alguma coisa?
O tom dele era tão casual que me deixou sem fala. Minhas sobrancelhas se apertaram e abri a boca para falar, mas não consegui pensar no que dizer. Eu tinha certeza de que aquilo não significava que ele me apoiaria, mas eu não consegui entender porque ele lançou aquela pergunta na mesa.
- Como?
- Você acha que não conseguiria dosar os dois?
- Pai, isso é – eu comecei, mas eu não soube definir com o que aquelas palavras pareciam. – Não sei, parece que você está me dizendo para seguir em frente com os dois ao invés de escolher um lado... As duas coisas nunca se encaixariam. Aliás, você não deveria ter explodido com a notícia?!
- E cometer o mesmo erro duas vezes? – ele jogou a pergunta na mesa e não esperava uma resposta. – Rose, sua mãe e o Malfoy me pegaram de surpresa, assim como você está fazendo agora, mas ao contrário de três anos atrás, eu não posso simplesmente ignorar você e seguir em frente, porque eu sou seu pai.
Eu respirei fundo esperando a próxima frase.
- Eu não apoio. Pode ter certeza de que se esse menino aparecer na minha frente, eu vou ignorá-lo, porque eu não o conheço e não vou com a cara daquela família, a isso essa sua relação com ele não vai me forçar – Ron disse, por fim, com as orelhas ficando vermelhas e voltando ao normal a medida que as palavras iam sumindo. – Mas eu não posso escolher de quem você vai gostar e proibir se você se apaixonar, porque você é esperta e sabe cuidar de si mesma... E ainda acho que você foi totalmente equivocada e um pouco infantil ao achar que proibição e retaliação seriam a opinião geral dos Weasley.
Ele ergueu as sobrancelhas e eu me senti aliviada, apesar de ainda sentir a nuvem pesada pairando sobre aquela conversa. Meu pai aceitava o meu sentimento por Scorpius? Era maduro, adulto e praticamente impossível. Nada parecido com qualquer uma das reações que eu imaginava vindas dele.
- Você acha que ninguém aprendeu nada com aquela guerra estabelecida quando sua mãe e eu nos separamos? – a pergunta era retórica, novamente. – Eu aprendi e sei que ela também. Sinceramente, não sei de onde vem esse seu achismo sobre sua própria família.
E ele parecia bravo ao dizer essa última frase. Parecia magoado com a minha decisão e com a figura que eu tinha feito deles. Agora, eu achava que a notícia não seria tão ruim quando dada aos Weasley, mas também não passei a achar que poderia levar Scorpius para o almoço de domingo.
- Eu amo você, filha, e acho ótimo que você tenha encontrado alguém para gostar e ser correspondida. A vida não é nada sem esse sentimento. – ele disse como o maior entendedor do assunto, apenas me confirmando que tinha arrumado a tal namorada. Não pensei em entrar nesse assunto porque ainda estávamos na pauta: Weasley apaixonada por Malfoy. – Sua mãe sabe disso?
- Não, eu não tive coragem de contar – eu expliquei, pronta para deixar sair cada sílaba sobre aquele caso. Estava me sentindo mais leve por colocar aquilo para fora com alguém que eu considerava tanto. Eu nunca dissera nada disso para ele, mas meu pai se tornou alguém mais do que meu herói naquele momento. – Eu achei que a reação dela fosse ser pior do que a sua, mas pelo que foi visto aqui a tempestade Hermione pode não passar de uma brisa boba.
- Mas, Rose, o Malfoy? – ele disse de repente, depois de alguns segundos de puro silêncio. Achei que ele continuaria no assunto da minha mãe saber ou me dizer como contar para ela, no meu mais doido devaneio, mas ele se tornara o pai que eu tinha nas conversas hipotéticas. – Você não conheceu ninguém melhor em Oxford? Um trouxa?
- Pai! – eu ralhei e vi as orelhas dele começarem a ficar vermelhas de novo.
- O que esse garoto tem que outro garoto não teria para oferecer a você? – eu preferi entender a pergunta como retórica. – Você é esperta, garota, você tem o cérebro da sua mãe e... Oh, esquece, talvez seja esse o ponto.
Ele parou e desviou o rosto, encontrando nossos rostos no espelho.
- Eu não apoio, mas não posso proibir e eu tenho certeza de que todos os outros membros dessa família enorme vão levar as coisas do mesmo jeito que eu – ele disse para o meu reflexo, enquanto eu me limitava a lançar um meio sorriso estranho por entre as lágrimas secas. – Você não vai abrir mão nem da sua família e nem do garoto, mas eu tenho a impressão de que esse assunto ainda vai render muitas saias justas.
- Eu sei – eu disse, parando para pensar naquilo. Eu não tinha outra alternativa. Sem qualquer um daqueles dois fatores, eu me sentiria vazia. Saias justas me pareciam bônus quando comparadas ao vazio.
- E tenha em mente que se esse garoto magoar você, eu o faço sofrer das piores maneiras possíveis, não pense que eu não tenho meus meios – eu baixei os ombros, dando um meio sorriso menos torcido dessa vez, mas o rosto dele era muito sério. – Eu não estou brincando.
- Ele não vai me magoar – eu garanti. – Eu é que o magoei e agora eu tenho que consertar toda essa bagunça antes que eu viaje para longe.
- Você vai, mesmo tendo sido adiantada?
- É claro, pai – eu garanti, achando aquela pergunta o cúmulo. – Eu passei dois anos esperando entre inscrições, aperfeiçoamentos e essa carta. Como eu posso dispensar isso agora?! É só começar a arrumar as malas mais cedo.
Eu sorri e ele me acompanhou, mesmo que o sorriso dele fosse mais pesado e difícil que o meu. O silêncio voltou a se instaurar na mesa e eu encontrei naquele intervalo, o tempo de me recompor, porque meu rosto estava vermelho e meus olhos inchados. Até aquele momento, eu não tinha sequer pensado que estávamos em um restaurante e que havia pessoas ao nosso redor. Nós já tínhamos terminado de comer, mas Firas não tinha se atrevido a chegar até a mesa e nos levar a conta. Guardei o envelope do Instituto Teller na bolsa e me virei para meu pai.
- Você está bem? Não vai ter um ataque cardíaco?
- Quem sabe depois, em casa, quando eu entender isso direitinho – ele me disse, buscando a carteira e chamando Firas, que veio cuidadoso até a mesa. – Não sei se você quer contar para todos, mas eu não vou dizer nada para seus tios.
- Obrigada, pai – eu disse, já pensando no que demandaria falar com minha mãe sobre isso. Pensei no final de semana que viria e na notícia que viera no envelope. Boas desculpas para uma viagem até Oxford. Eu só esperava que Scorpius quisesse me ver, porque de nada valia toda essa conversa com meu pai e a conversa que eu queria ter com a minha mãe se ele não estivesse lá por mim quando eu implorasse por desculpas.
Meu pai me levou até o Ministério e se despediu de mim com um abraço apertado e hesitante. Ele não estava feliz, não tinha aceitado aquela situação, estava fervendo de raiva, eu podia sentir, mas manteve-se quieto, calmo. E eu sabia por quê. Porque ele não queria brigar comigo e me afastar dele. Eu também não queria me afastar, eu apenas queria que as coisas ficassem bem entre nós, daí a minha escolha pela família, mas se ele concordava em me deixar tentar conciliar, porque não tentar?
No caminho para o meu setor, para a segurança da minha mesa de trabalho, eu cruzei com os inúmeros funcionários do Ministério da Magia inglês no salão principal do prédio. Por mais incrível que parecesse, naquele dia, o saguão estava mais cheio, com uma presença muito maior de jovens com papeis nas mãos e sorrisos nervosos nos rostos. Eu localizei um cartaz na parede que me fez tocar minha testa com a mão e abrir um sorriso gigantesco.
- É hoje! – minha voz saiu fina e meus olhos buscaram a cabeça loira de Scorpius ao redor, porque naquele primeiro dia de setembro aconteciam as provas para os Aurores. E aquilo ainda significava que Scorpius tinha cumprido suas provas de N.I.E.M.s durante a manhã.
A primeira coisa na qual pensei foi buscar minha mãe e perguntar por ele, aproveitando para colocar aquela verdade para fora ali mesmo, no ambiente menos propício, porém eu enxerguei a cabeça loira sozinha em um canto, ao lado de uma lareira. Não esperei por mais nada, apenas corri na direção de Scorpius com a maior velocidade que os meus saltos me deixavam correr. Durante toda a manhã eu tinha me sentido uma alienígena com os saltos altos da bota de couro, porém, naquele momento, meus pés pareciam descalços.
- Olá – eu disse quando me aproximei o suficiente para ele conseguir me ver e raciocinar que aquela era eu. Ele estava diferente, vestindo roupas formais e usando o cabelo puxado para trás.
A cada dia que passava, Scorpius parecia ainda mais com seu pai e naquele dia em especial, eu parecia enxergar Draco em minha frente com seu terno escuro destacando a palidez da pele. A única coisa que diferenciava Scorpius de seu pai era o brilho dos olhos azuis e a expressão de insegurança em seu rosto. A tal insegurança vinha por conta dos exames, eu tinha certeza, e me arrependi terminantemente de tê-lo abandonado antes desse dia. Ele precisava de alguém para segurar sua mão e dizer que ele conseguiria.
Ou não, eu me corrigi quando os olhos se tornaram rasos e me olharam com uma mágoa que eu sentia corroer meus ossos. Naquele momento, ele pareceu querer a companhia de qualquer um, menos a minha.
- Olá – a voz era tão pálida quanto sua pele.
- Como foram os N.I.E.M.s?
- Seis Ótimos e dois Excede Expectativas – ele me disse, deixando o rosto mais leve. – Me disseram que é satisfatório para os exames de Auror.
- É claro que diriam “satisfatório” – eu rugi. – Deviam ter dito que isso é ótimo, que é maravilhoso! Eu consegui sete Ótimos e um Excede Expectativas e eles me disseram que eu poderia prestar qualquer exame e me inscrever em qualquer vaga de emprego que seria aceita sem hesitação.
- É porque você não é uma Malfoy.
Ele virou-se para olhar para frente e eu me coloquei na parede ao lado dele. Tinha o quadril nos ladrilhos opacos e observava a multidão no mesmo ritmo dos olhos dele, então ele percebeu juntamente comigo que as pessoas passavam olhando para aquela dupla improvável: Weasley e Malfoy.
- Eu consegui a bolsa para o País de Gales – eu anunciei, tentando me distrair daqueles olhares. Eu imaginava que depois de contar a verdade para o meu, eu me sentiria corajosa para gritar a verdade para o mundo, mas eu ainda hesitava. Principalmente por conta da postura dele.
- Que ótimo, Rose – ele disse com um sorriso ganhando seu rosto de nariz torto. Por um segundo eu achei que ele iria me abraçar, porque seu corpo se mexeu rapidamente na parede, mas ele parou. – Sua mãe vai ficar muito feliz!
- Obrigada – agradeci, retribuindo o sorriso, mas me mantendo dura na parede. – A única notícia ruim é que a viagem foi adiantada e vai acontecer no mês que vem... Minha mãe vai ficar metade feliz.
- Ah – ele bufou, com um som anasalado. – Ela está sem você há um mês e a coisa vai bem. No País de Gales ainda se pode usar o Pó de Flú e a Aparatação.
Eu me virei para olhar para ele e percebi que nossos ombros estavam colados, que nossos rostos estavam hipnotizados olhando um para o outro e que a atração apenas crescia entre nós. Tinha se tornado impossível respirar e, como mais cedo com meu pai, as palavras me deixavam enjoada e ganhavam minha garganta como um grito de libertação.
- Eu conversei com meu pai hoje – eu comecei e ele piscou mais rápido, sabendo exatamente sobre o que eu tinha conversado com meu pai. Eu não precisava completar, mas eu tinha que fazer com que ele ouvisse aquelas palavras que nos colocavam no mesmo saco. – sobre nós.
Havia uma tensão incrível entre nós quando eu terminei minha frase. Eu queria saltar sobre ele, abraçá-lo e deixar que todos ali soubessem o que eu sentia e o que eu estava disposta a arriscar por conta daquele sentimento, mas eu tinha que esperar uma resposta dele. Eu tinha que esperar Scorpius separar os lábios finos e dizer as palavras que eu queria ouvir. Eu torcia que ele as dissesse.
- E ele? – o tom era casual, como se nunca tivéssemos brigado antes.
- Não aceita, não apoia e não gosta de você. Não gritou, não quis me matar e nem pretende colocar a família contra mim, mas prometeu acabar com você se eu me magoar nesse relacionamento – eu disse, sorrindo com metade da boca, num alívio que era gigante. – Eu disse que eu tinha magoado você, por isso eu quero pedir desculpas. Pela milésima vez.
- Então, quer dizer que se eu quisesse segurar a sua mão agora, aqui no meio desse saguão cheio de gente, você não me evitaria? – ele perguntou, se virando para mim na parede e ficando com o rosto tão perto que eu não vi mais necessidade alguma de responder aquela pergunta com argumentos poderosos. Eu só queria jogar meus braços sobre ele e foi o que eu fiz.
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N/A: Oi meus queridos, atualização rápida essa semana! Eu consegui terminar esse capítulo há algum tempo e mal conseguia esperar para publicá-lo porque eu achei que esse é decisivo, que marca uma nova fase na fic. Que está acabando, não se assustem, eu não menti quando disse que faltavam cinco capítulos, aquela vez. A coisa é que eu não conseguiria desenvolver o final em mais cinco capítulos e a fic vai se estender um pouquinho mais, talvez chegue aos 33, 34 capítulos. Bem, muito obrigada pelos comentários no capítulo anterior, meninas vocês são o meu combustível literário, HAHAHAHA! Só senti falta de mais comentários dos leitores que comentavam antes e dos que nunca comentaram. 56 leitores e 6 comentários broxam a gente, com o perdão da palavra. Mesmo assim, eu amo todos vocês e espero que gostem do capítulo, porque tentei dar o melhor desfecho que consegui pensar. Acho que as coisas tomariam esse rumo mesmo. Acho que já escrevi demais, comentem minha gente, nesse capítulo é bem importante que rolem comentários! Besitos