Um ano e meio depois...
-Mais velocidade filhote... não vai conseguir sequer me tocar com esse nível...
-Certo, certo... - respondi, sem ouvir realmente o que ele tinha dito, estava concentrado em coisas mais importantes, como por exemplo, tentar sobreviver a onda furiosa de ataques de Laio.
Era rápido... Muito rápido. Os punhos dele cortavam o ar, mirando no meu rosto, no meu peito e no meu estomâgo, as regiões onde provavelmente causariam mais danos, eu desviava como podia mas por diversas vezes levei socos de raspão, e eles deixavam um grande hematoma por várias horas onde acertasse. O movimento dos braços e das pernas dele enquanto lutava deixavam borrões no ar, confundindo a minha visão, e a velocidade insana produzia um zumbido irritante que me distraia, era surreal manter uma luta como aquela por muito tempo, e o pior é que eu sabia que ele estava pegando leve comigo.
Dei um pulo pra trás, tentando sair do seu alcance pra recuperar o folêgo, e como geralmente fazia, ele não me seguiu, apenas relaxou a postura, os ombros caíram e ele colocou as mãos no bolso da calça, sorrindo divertido. Eu bati as mãos no chão e me joguei mais pra trás ainda, caindo a vários metros daonde ele estava, arfando e suando bastante, já tinha quase dois anos e eu nunca tinha acertado sequer um soco nele. Eu poderia ser paciente, mas depois de dois anos lutando diariamente você começa a se frustar...
Laio tinha me mostrado sua aparência humana - acreditem ou não, aquele velho dragão podia assumir uma forma humana - quando eu o questionei a respeito do que ele pretendia me ensinar, afinal como uma serpente alada do tamanho de uma casa poderia me ensinar a lutar?! Eu não poderia ter ficado mais surpreso, não entendia a dimensão dos poderes dele, mas não podia ser mais evidente que Laio não era em nada parecido com os Dragões de Gringotes, que era apenas feras brutas e burras. Eu até me sinto envergonhado por ter confundido os dois, quando me lembro daquele dia.
Como humano, Laio era bem parecido com Sirius fisicamente, ele tinha feições divertidas, mas que quando sérias ficavam assustadoras, os cabelos compridos eram negros como carvão, e os olhos eram verdes, mas não da cor dos meus, era um verme azulado, que parecia ondular quando você olhava diretamente pra eles, como se estivesse olhando para o próprio oceano, do alto. Ele também mantinha uma barba rala no rosto, a pele era curtida pelo sol, e as mãos eram cobertas por finas cicatrizes, como as mãos de um velho pescador.
Mesmo nessa aparência menos impressionante, ao encara-lo eu podia ver a sombra do dragão do oceano, o brilho ameno dos olhos escondia a sua verdadeira natureza, era isso que ele era, uma fera selvagem incrível, não importa que forma assumisse.
Me concentrei, focalizando todo o ambiente ao meu redor, o que era importante numa luta, Laio tinha me ensinado a tirar o maior proveito possível do terreno em que eu me encontrava, havia várias armas que eu poderia usar contra meu inimigo - ele tinha me dito - só o que eu precisava fazer é encontra-las. Tentei ver alguma brecha na postura por onde pudesse atacar, o que éra meio patético, por que ele estava com ambas as mãos nos bolsos, sorrindo tranquilamente. Conclui que éssa éra a melhor oportunidade que eu teria de "derrota-lo".
Só pra deixar claro, quando lutavamos, faziamos assim: Laio ganhava quando eu estivesse exausto demais pra continuar, e eu ganhava se conseguisse toca-lo, nem que fosse meramente de raspão. Até hoje eu tinha ganhado três lutas... em setecentas, não era uma média muito boa, mas não ia deixar que isso me desencorajasse, tudo o que eu precisava é que ele piscasse... Seria a qualquer momento.
Quando suas pálpebras desceram, inclinei meu corpo pra frente, e corri. Aquela éra uma técnica muito interessante pra se correr, você usava o próprio vento pra se manter de pé, e como corria com o corpo muito inclindo pra frente e os braços jogados pra trás, a aerôdinamica te permitia alcançar quase o dobro da velocidade que alcançaria correndo normalmente. Claro que se manter naquela postura era complicado, mas era uma lição que eu já tinha dominado a algum tempo, o problema agora éra usar isso ao meu favor, e ganhar essa luta.
Eu estava a mais ou menos sete metros distante dele, e consegui percorrer essa distancia em menos de um segundo, o tempo exato que Laio precisou pra piscar... É, ainda estava muito lento. Ele abriu completamente os olhos no instante em que meu soco ia acerta-lo bem no meio do nariz, eu ia conseguir!
Não... alarme falso.
Ele desviou tranquilamente do soco, ainda com aquele sorriso divertido que estava me dando nos nervos. Não me permiti ficar nervoso, por que isso só abriria brexas na minha postura, e deixaria as coisas ainda mais difíceis, numa luta você tinha que ficar de cabeça fria. Tentei outro soco e Laio desviou de novo, sem fazer o menos esforço, mesmo ainda estando com ambas as mãos nos bolsos da calça, e só ficar inclinando o corpo pra se proteger dos meus ataques. O ritmo daquela luta era surreal, a cada segundo eu dava dez socos, ou seja, um soco a cada décimo de segundo, e era ainda mais insano que ele tivesse aquela facilidade absurda pra desviar. Poderia atacar se quizesse, mas parecia querer me testar, então só ficava desviando.
Eu ficava alternando entre sequencias rápidas de socos, e chutes com força, que passavam inofensivamente na frente do seu rosto, ou então abaixo do seu corpo, quando ele pulava pra se esquivar. Nesses casos ele tinha que usar as mãos e bloquear meus ataques, por só naquele instante em que ficava no ar, incapaz de se defender, eu podia ataca-lo dezenas de vezes.
O suór pingava da minha testa, os cabelos estavam molhados, mas mesmo assim continuavam arrepiados, agora que estavam mais longos caídos pra trás, tapando minha nuca. Laio continuava tranquilo, a respiração lenta e leve, como se ele estivesse sentado num poltrona lendo, nem parecia que estavamos lutando a mais de quatro horas sem parar. Enquanto iamos lutando percebi que a maneira que meu tutor se desviava estava nos guiando diretamente para o oceano, cada vez mais longe das areias da praia, o que era um problema, por que no oceano as poucas chances que eu tinha de toca-lo se esvaiam pra zero.
Tentei mudar de posição mas não tinha maneira, se parasse o ritmo dos ataques nem que fosse por um segundo Laio começaria a me atacar, e aí estaria perdido, já que eu estava bem cansado. Se chegasse no oceano estaria mais que perdido, minha única chance era tentar aquilo... Seria difícil, apesar de dominar aquele movimento em treinos, numa luta real seria diferente, Laio não teria o obséquio de permanecer parado enquanto eu tentava mata-lo, como uma árvore faria.
Joguei o corpo para a direita, e girei a perna com força em direção a sua cabeça, um chute cruzado daqueles racharia o trondo de uma árvore, e se eu acertasse um ser humano comum, provavelmente esmagaria completamente seu cranio e seu maxilar, além de transformar o cérebro em carne moída. Mas tudo o que Laio fez foi segurar minha perna e me jogar pra trás. Apoiei as mãos no chão e virei um mortal de costas, caindo de pé a mais alguns metros dele. Como antes, tudo o que ele fez foi colocar as mãos no bolso.
Respirei fundo, de olhos fechados pra regularizar as batidas do meu coração, que estava descontrolado devido ao cansaço, sabia que Laio não me atacaria até que eu não investisse novamente, e agradescia por isso, senão nunca conseguiria dominar de maneira correta aquela técnica.
Relaxei o corpo todo, respirando fundo, arqueei um pouco as costa, e entrei na postura primária do estilo de Taijutso que Laio havia me ensinado. Vi seu sorriso diminuir um pouco, e ele tirar as mãos dos bolsos, parecendo mais concentrado na luta que antes, só isso já me fez ganhar o dia todo. Separei as pernas, flexionei os joelhos e estendi os dois braços, os punhos abertos e a músculatura relaxada ao máximo.
-Yoake no chugoke ryu...
O sorriso de Laio aumentou de uma maneira mais diferente, em vez de tranquilo, era um sorriso de desafio, a alegria feroz que ele sentia ao lutar, que eu sentia ao lutar. Não havia percebido que sempre sorria como ele enquanto lutavamos. Ouvi um rugido profundo no interior da minha mente, era como se o meu patrono acordasse e abrisse os olhos, parte dos seus sentimentos tomando os meus, deixando minha visão tingida de vermelho, os meus sentidos duas vezes mais sensíveis, a mesma certeza que quando transmutei aquele monte de capim no cofre da minha família, a certeza quando eu jogava com a minha vida. Eu ia conseguir...
Inclinei o corpo, e simplesmente desapareci no ar, produzinho um zumbido baixo, estava três vezes mais rápido que antes, três vezes mais conciente, três vezes mais forte, três vezes mais vivo...
-...Amanhecer do Dragão Chinês!
Meus punhos dispararam em direção a cabeça, ao pescoço, ao peito e ao estomago do meu tutor, cinco, sete socos a cada centésimo de segundo, era uma velocidade insana, impossível pra um ser humano atingir, tão rápido que um observador externo mal conseguiria ver os meus braços, eles seriam apenas borrões no ar, como se eu tivesse mil braços e estivesse usando todos eles pra acertar o dragão do oceano.
(N/A: Juukenhou Hakke - Rokujuuyon Shou - É praticamente o mesmo ataque, peguei emprestado do Neji)
Mas mesmo assim não era o suficiente, ele ainda desviava dos meus golpes, eu nem ao menos conseguia acerta-lo. Aquela técnica éra a postura primária do estilo do dragão chinês, o taijutso que Laio estava me ensinando. Ela consistia em atacar com a musculatura relaxada ao máximo (o que era diferente de ficar com os braços desfalecidos), aumentando e muito a velocidade e a precisão dos golpes, já que os múculos não ficavam retesados como normalmente ficariam antecipando um ataque.
Mesmo assim, só isso não queria dizer nada, a peça central naquela técnica é usar o que Laio havia chamado de "força explosiva", um único instante antes do soco acertar o alvo, eu bombeava uma quantidade concentrada absurda de força nos punhos, com isso podia acertar um golpe mortalmente veloz e preciso, e ainda muito poderoso, sem me cansar demasiadamente. Esse éra o "Yoake no Chugoke Ryu", o Amanhecer do Dragão Chinês...
Meus ataques forçaram Laio mais e mais pra trás, até mesmo ele estava tendo dificuldades em defender, com minha velocidade triplicada, e isso me animou. Ou pelo menos até ele sorrir da mesma maneira divertida de antes, as ondas da maré já banhavam seus calcanhares.
Laio estava no oceano.
Tentei pular pra trás novamente, mas antes mesmo que conseguisse arquitetar esse pensamento, senti o frio me paralizar completamente. A água salgada do mar estava subindo lentamente pelas minhas canelas, congelando e me prendendo no chão, em questão de minutos eu estava com gelo completamente formado até a altura do pescoço, com os braços e as pernas presas, e só a cabeça de fora. Olhei pro meu tutor da maneira mais feroz que eu consegui, enquanto ele apenas riu tranquilamente.
-Com isso são... setecentas e trinta e nove derrotas, contra... três vitórias! - ele disse rindo descaradamente - Meus parabéns...
-Teve uma vez que empatamos também - eu disse, tentando recuperar o pouco de dignidade que eu ainda tinha, Laio quase engasgou e começou a gargarlhar mais ainda, e então percebi que tinha acabado de ferrar com o resto da minha dignidade.
-Verdade, verdade... Teve uma vez que nós empatamos - ele enxugou uma lagrima enquanto ria - Já que eu ganhei, você pode...
-Fazer o jantar?! - disse, sabia que ele ia pedir isso mesmo.
-Exatamente, bem... Até daqui a poco filhote!
Laio deu as costas e em um segundo já subia alto no céu, na sua forma original de dragão do oceano. Suspirei cansado, a postura primária me deixava tonto por alguns minutos, e ainda me cansava mais que o normal, iria precisar esperar algum tempo pra poder sair daquele gelo... Bem que ele podia ter me tirado dali antes de partir...
Quando consegui me concentrar o suficiente, derreti o gelo, era bem mais difícil por ter sido o Laio a conjurar, então demorou alguns minutos, em que testei meu arcenal de palavrões naquela serpente superdesenvolvida. Nós costumavamos viajar de ilha em ilha, nos quatro oceanos e as vezes passavamos algum tempo no continente, visitando cidades que eu só conhecia através dos mapas que ele me dava pra estudar, por ser um mago, éra fácil memorizar as coisas, então uma breve olhada nos mapas já era suficiente pra guardar o nome de várias cidades e outros detalhes, como consequencia eu conhecia vários oceanos ali como a palma da minha mão, ou em outras palavras, quase tão bem quanto Laio.
Lutavamos todos os dias também, além de diversos outros exercícios físicos pra me manter perfeitamente em forma. O resultado éra que o garotinho magrelo, fraco e com pele pálida que fugiu de Azkabam e depois veio parar numa terra desconhecida, em outro mundo, não existia mais. Com doze anos, eu estava alto pra minha idade, não era exageradamente forte, mas meus músculos eram muito definidos, com os treinos constantes não restava sequer uma grama de gordura no meu corpo. A pele pálida também haia sido substituida por um tom saudável de canela, embora não fosse tão escura quanto a pele de Laio, quem quer que olhasse meus olhos diriam que estavam mais vivos e brilhantes que nunca, escandalosamente verdes, por baixo dos cabelos negros compridos e desalinhados, que me davam uma aparência selvagem.
Caminhei sem pressa pela areia da praia, estava só com uma calça um pouco larga de pano escurecida, que usava quando estava lutando, ou voando. Ela protegia o interiror das minhas coxas das escamas afiadas de Laio, elas poderiam te machucar bastante, se você não soubesse como monta-lo... Ainda achava irônico, mesmo depois de tanto tempo. Meu sobretudo branco da Ordem de Merlin estava pendurado no galho de uma árvore, junto com uma camisa de linho branca, a adaga de prata, o grimório e a bolsa com moédas, prendi ambas no cinto e depois de vestir a camisa, vesti o sobretudo e corri, me distanciando da praia onde o sol já descia, se escondendo atrás do mar, pintando todo o horizonte com um tom morno de vermelho e laranja.
Não corri muito rápido, tinha muito tempo e ainda estava cansado do treino, mas mesmo o lento pra mim seria muito rápido pra qualquer outra pessoa, teóricamente falando, toda aquela luta, todas as técnicas, a minha força e velocidade, era impossível pra um ser humano comum alcançar aquele nível de poder.
Pra um ser humano "comum"... Treinamento fisíco não foi a única coisa que Laio me ensinou...
Era uma magia muito antiga, perdida no tempo e que só os Dragões daquele mundo conheciam, portanto sómente eles poderiam ensinar pra alguém. Ela consistia em transformar, permanentemente, partes do seu corpo no corpo de um dragão. Ossos, músculos, órgãos... Cada mudança lhe dava habilidades especiais. Agora, com meus doze anos, eu tinha todo o sistema ósseo, incluindo a mandíbula e a arcada dentária, alguns órgãos e todos os músculos de um dragão. Isso me dava toda a força física e resistência que um dragão possuia, além dos meus sentidos serem imensamente mais aguçados que os de um ser humano normal, não como as bestas ignorantes do meu mundo, mas como um verdadeiro dragão do oceano.
O nome daquela magia era "Dragonslayer", a magia caçadora de dragões... E o nome não era a toa.
Me surpreendi quando Laio disse que me ensinaria aquela magia, por que segundo ele, éra a única coisa no mundo que poderia mata-lo. Isso não exa nenhum exagero, eu conhecia os efeitos daquela magia, e sabia que tinha sido feita com o único intuito de matar dragões. Acho que foi naquele momento que passei a confiar incondicionalmente nele...
Por que essa magia foi criada, ou por que ele iria me ensinar, ele não me contou. Disse que não era necessário que eu soubesse, e não insisti no assunto. Já estava escurecendo a medida que o sol se deitava no leito do mar, e a floresta ficava ainda mais escura e sombria, as folhas farfalhavam ao vento que soprava forte, espalhando o cheiro das flores e das folhas molhadas pela chuva. Eu adorava esse cheiro, e adorava a chuva, chovia constantemente no oceano, e eu tinha me acostumado de tal maneira a chuva que sentiria falta se ela se demorasse a cair.
A floresta também tinha diversos outros cheiros, o cheiro do limo, o cheiro de madeira dos troncos das árvores, o cheiro da terra e das frutas nas árvores. Depois pegaria algumas frutas, mas primeiro precisava pegar algo... maior...
Continuei correndo, até me embrenhar completamente na floresta, de forma que não consiguia nem mesmo ver o céu lá de baixo, as copas altas da mata fechada formavam um ambiente fresco e bem ventilado, mas que seria abafado em dias de muito calor.
Parei por um momento de correr, tentando farejar algum animal, naquele momento não encontrei nenhum, e foi só dez minutos depois que senti o cheiro delo molhado, não havia rastros no chão da floresta, nem mesmo uma folha quebrada que pudesse denunciar sua passagém. Sorri com isso, ele estava vindo diretamente pra mim.
Corri pra pegar impulso, e pulei bem alto, indo direto para um pinho sem galhos, agarrei numa falha do tronco e firmei os pés, pulando ainda mais alto, e pra trás, agarrando um galho retorcido e bem alto da árvore que ficava ao lado da que eu havia pulado primeiro, o cheiro estava se aproximando, então tudo o que eu tiha que fazer era esperar.
Pouco depois um porco selvagem passou embaixo de mim, farejando alguma coisa no chão, ele era bem grande, quase o tamanho de um cavalo, a pele enrugada era de um tom avermelhado, como se ele tivesse rolado na terra, o que não deixava de ser verdade embora não fosse esse o motivo daquela cor. As presas proeminentes eram envergadas e amareladas, a esquerda estava quebrada e por isso era menor que a direita. Reparando bem, o lado esquerdo da cabeça dele estava cheio de cicatrizes, como se ele tivesse levado uma ferida feia ali durante uma briga, a orelha esquerda dele tinha um pedaço faltando, e havia algumas cicatrizes no lado de seu focinho, devia ter perdido uma luta por uma fêmea, e por isso era um desgarrado. Melhor assim, ninguém sentiria falta dele...
O javali exilado provavelmente havia encontrado o meu rastro, por que olhou ao redor tentando encontrar o dono daquele cheiro, rosnando baixinho em tom de ameaça pra quem estivesse invadindo seu território. Se fosse um animal mais inteligente, como um puma ou uma pantera, que também existia naquele mundo e principalmente em ilhas gigantes como aquela, no oceano leste, elas teriam fugido no mesmo instante. O dragão do oceano era bem temido naquele lugar, e com o tempo, o cheiro do mar também havia impregnado na minha pele.
Não entendam errado, elas fugiriam de mim da mesma maneira se me vissem, não éra só por causa do cheiro. éra o espírito, o olhar, mesmo entre as folhagens uma gazela reconhece um lobo pelo brilho dos seus olhos, éra o mesmo principio.
Quando o porco selvagem estúpido estava bem embaixo de mim, ainda procurando um possível inimigo, me soltei do galho, caindo bem encima dele que começou a se debater furiosamente, tentando me tirar dali, mas era inútil. Podia mata-lo com magia se quizesse, ou com alquimia, ou com a adaga, mas não via graça nenhuma nisso. Eu prefiria caçar com as mãos nuas, achava que assim seria mais justo. Bem... Não era justo de qualquer modo, mas éra o mais próximo de justo que eu conseguia deixar, pra eles...
Agarrei as presas curvadas do animal, forçando sua cabeça pra trás, e pisando na curva do seu pescoço com força, forçando-a pra baixo, de um jeito que me deixava de pé encima dele, tentando derruba-lo enquanto ele pulava e escoiceava desesperadamente. Os olhinhos míudos e suínos brilhando vermelhos de puro ódio, o peito enorme e poderoso subindo e descendo pelo esforço, porcos selvagéns como aquele ficavam enormes, em algumas regiões selvagéns de Fiore, eles podiam ficar quase tão grandes quanto um rinoceronte seria, mas não existiam rinocerontes naquele mundo. A curva do pescoço dele era larga o suficiente pra duas pessoas se sentarem nela, o focinho triangular que arfava e ofegava exausto era do tamanho do meu tronco, mas não importava realmente.
Continuei puxando e forçando a cabeça enorme dele pra trás, pelas presas, sem no entanto fazer muito esforço. O porco continuou se debatendo descontroladamente, até que foi ficando mais e mais cansado, quando cansou de se debater, caiu esgotado de lado, respirando profundamente, deixei que ele puxasse algumas golfadas de ar, e então puxei seu pescoço com toda a força para o lado de uma vez, ouvindo o estalo seco do osso se partindo.
A luz deixou os olhos do javali enquanto ele morria, o pescoço inchou ate ficar quase tão largo quanto a cabeça, e um filete abundante de sangue comelou a escorrer pela boca entreaberta do animal, manchando a grama de vermelho. Andei calmamente até a traseira do animal, e o peguei pelas patas, arrastando a alguns metros dali, até um abeto retorcido, com um tronco baixo o suficiente pra o que eu pretencia fazer.
Do próprio pelo grosso e sujo do animal, trasmutei uma corda expessa, que amarrei nas suas patas traseiras e em seguida passei pelo galho baixo da ávore, pendurando o javali de ponta cabeça, ele era tão grande que seu casco quase tocava o galho, enquanto o focinho ficava a apenas sessenta centímetros do chão. Depois comecei a cavar, usando as mãos nuas, a terra que estava debaixo da cabeça do javali, abrindo um buraco bem grande e largo, fazia tudo sem o auxílio de magia, com excessão a corda que eu havia conjurado, por que nesse caso não havia outra solução memso.
Quando estava bem pronto, da maneira que Laio tinha me ensinado, retirei o punhal de prata do cinto, e passei bem de leve pelo pescoço do animal, abrindo um corte profundo por onde um mar de sangue e suco gástrico começou a jorrar, enchendo o buraco que eu havia cavado, e se infiltrando lentamente no solo.
Fazia tudo sem expressão nenhuma no rosto, no começo eu achava nojento, mas esse é tipo de coisa que você se acostuma rápido a fazer, eu precisava limpar o javali pra poder come-lo, e pra isso precisava limpa-lo primeiro. Quanto a mata-lo, isso nunca me incomodou na verdade, eu não tinha as mãos exatamente limpas, como se diz, elas eram manchadas com o sangue de várias pessoas, e as vezes eu tinha pesadelos com elas.
Mas nunca havia matado sem absoluta necessidade, sempre foi pra sobreviver, ou pra proteger algo precioso pra mim. Laio tinha me dito uma vez que as raposas caçavam coelhos, coelhos que tinham filhotes que morreriam de fome sem seus pais pra alimenta-los, mas se as raposas não caçassem esses coelhos, seus filhotes morreriam de fome, por não ter o que comer. Era um dilema sem solução, que me levava a única conclusão que a natureza era egoísta, não havia igualdade, quem tinha meios de sobreviver sobrevivia, quem não tivesse, morria. Simples assim.
Quando todo o sangue do javali tinha escorrido, de forma que só algumas gotas esporadicas de sangue pingassem pela fenda no seu pescoço, e o corpo dele tivesse murxado consideravelmente, escalei até o galho onde o tinha amarrado, e cortei a corda, segurando o imenso javali e jogando mais pra frente, longe da banheira de sangue e ácido estomacal que tinha se formado.
Só até aquele ponto já havia feito trabalho suficiente pra deixar dois homéns fortes exaustos, mas eu mesmo não estava muito cansado, e se estava éra por causa do treino intenso que tinha completado antes de vir pegar comida.
Com a carcaça seca, restava o trabalho de limpa-lo, corta-lo e desossa-lo, mas essa era a parte fácil. O punhal de prata que tinha pego do meu cofre, no Gringotes, era bem mais afiado do que um bisturi, além de ter todas as vantagéns que laminas feitas pelos duendes tem, apenas uma breve passada eu já conseguia separar os membros do porco selvagem gigante, depois abri seu estomago, tirei o baço, os órgãos que não serviam pra comer, e depois a maioria dos ossos pequenos, deixando só os maiores que mantinham a forma da carne.
Quando a carne do javali estava picada em grandes pedaços, espalmei as mãos e de um pouco de grama e terra transmutei um saco grande, onde coloquei com cuidado o que eu iria me ser útil. Os órgãos que serviam pra comer, como o coração, os rins e o fígado ficaram por cima, as costelas, anca e o resto da carne ficaram enbaixo. Fexei o saco, e deixei encostado numa árvore, precisava limpar a bagunça que havia feito ali.
De longe, na escuridão, já podia ver o brilho de vários olhos me observando, olhos famintos que haviam sentido o cheiro de sangue e estavam ansiosas por uma refeição, hienas. Elas não ousariam se aproximar até eu ter partido dali, por isso trabalhei tranquilamente, podia contar sete pares de olhos brilhantes em meio a escuridão, a mais corajosa delas estava a cerca de oito metros de mim, mas toda vez que eu a encarava ela gania e corria pra junto das outras.
Todo o sangue e suco gástrico que tinha escorrido e enchido o buraco já havia sido absorvido pelo solo da floresta, então juntei toda a terra que havia escavadoe tampei o buraco, senão o primeiro animal que enfiasse o focinho ali acabaria se queimando com o ácido estomacal do porco selvagem, e um focinho queimado se tornava inútil, e um animal com um focinho inútil não duraria muito numa mata como aquela, eu não queria que isso acontecesse, por isso precisava ser cudiadoso.
Também havia a enorme cabeça do javali, as patas dianteiras e traseiras, o rabo, o baço, as tripas, os pulmões e diversos outros órgãos que não serviam, incluindo alguns retalhos de couro e carne ruim, das costas do animal, que era dura demais pra comer. Recolhi a corda que havia transmutado, e piquei toda a carne que havia ficado ali em pedaços do tamanho de punhos pequenos fechados, deixando apenas o cérebro pequeno do animal ali, junto da carne empapada de sangue.
Antes de sair dali, peguei um desses pedaços e joguei para as hienas, que começaram a pular e brigar pela carne, enquanto eu estivesse ali elas não se aproximariam, e mesmo que eu dormisse elas se manteriam longe. Recolhi o saco de carne de porco selvagem às costas, e corri de volta pelo mesmo caminho que havia vindo, as outras coisas que eu precisava estariam mais às margens da floresta.
Nem mesmo um minuto havia se passado depois que sai de lá, e as hienas já estavam aglomeradas no monte de carne e órgãos que havia deixado ali, que rapidamente foi diminuindo, as mais fortes se alimentaram primeiro, e o que sobrou foi para as mais fracas. Uma delas ainda tentou cavar no locar onde tanto sangue havia sido derramado, farejando o que talvez fosse mais alimento, mas como estava muito fundo no solo, ela acabou desistindo.
Lenha era fácil de se conseguir, e frutas também, de forma que pouco depois de ter terminado com o javali, eu estava voltando para a praia, com um enorme saco cheio de carne de porco selvagem, outro saco menor com frutas e um pouco de lenha, amarrada com corda feita de pelo de javali. Seria peso demais até mesmo pra três homéns fortes carregarem, visto que o saco com carne éra maior do que eu, mas não precisava de muito esforço pra carregar todo aquele peso. Lembrei do esforço que tinha tido no começo do treinamento, quando não conseguia fazer sequer cinco flexões sem cair exausto, e sorri comigo mesmo... Estava fazendo progresso.
A carne podia estar picada, mas ainda precisava ser limpa, o que não era problema já que eu estava na beira da praia. O sol já havia se posto e logo ficaria bastante frio ali, perfeito pra se dormir na companhia de uma fogueira crepitando devagar, Laio não era mais que um pontinho escuro no céu azul marinho, dava pra ver ele subir sempre muito alto no céu, e descer como uma flexa em direção ao oceano. Eu gostava de vê-lo brincar, daquela maneira ele parecia tão livre e despreocupado, durante aquele tempo todo havia sido um pai pra mim...
Lembrei de Sirius, que também havia sido um pai pra mim, durante os três anos que passei estudando magia em Azkabam, e agora Laio, que me treinava fisicamente pra me deixar ainda mais forte. Nunca perguntei por que ele havia decidido me treinar, e tinha a impressão de que se perguntasse, ele não me diria, eu já havia mencionado que era bastante objetivo quando precisava, e se ele queria me deixar mais forte, não via razão pra ficar o incomodando com questões sem importância.
Limpar também não era difícil, eu podia fazer muito mais rapidamente se usasse magia, bastava uma transmutação, ou um mero feitiço, e tudo estaria pronto, mas gostava de fazer as coisas da maneira mais demorada, esfregando a carde com a água salgada do mar, até que todo o sangue e areia estivesse saído. A sensação era diferente, uma pessoa que não entendesse nada da anatomia de um javali poderia limpa-lo com um feitiço, mas daquela maneira, eu precisava saber como esfregar, e ter o cuidado de limpar direito pra retirar o excesso de sal da carne, também precisava ter cuidado com os órgãos pra não deixar hematomas neles, além de saber temperar corretamente cada pedaço de carne, e como prepara-lo corretamente, tudo isso te deixava com uma sensação diferente, satisfatória.
Com a carne bem limpa e devidamente temperada, eu arrumei a lenha pra assar, também havia diferentes maneiras que eu podia fazer isso, de acordo como a lenha estivesse arrumada, ou qual fosse a lenha, o fogo queimaria com mais ou menos intensidade, ou então produziria mais ou menos fumaça, pra defumar a carne. Algumas madeiras quando queimavam liberavam um aroma que ajudava a temperar e dar um gosto diferente pra carne, na mesma medida que se eu assasse aquela carne em uma madeira inadequada o gosto não seria dos melhores. Havia centenas de maneiras de fazer uma centena de coisas, Laio tinha me ensinado muita coisa, ainda me impressionava com tudo o que ele sabia... Como Sirius, ele era muito inteligente...
Havia uma bolsa descansando placidamente ao lado da árvore nodosa onde tinha deixado o Manto da Ordém de Merlin de tarde, nela eu carregava os temperos, algumas roupas e outras coisas que usava enquanto ficavamos em ilhas como aquelas pra treinar, era um saco ter que ficar transmutando tudo o que eu precisasse, então transmutava dinheiro e simplesmente as comprava enquanto passavamos por cidades no continente. Não era uma coisa exatamente justa, mas eu não ligava muito pra esse conceito tão abstrato, talvez se alguém conseguisse definir perfeitamente justiça pra mim eu parasse de fazer essas coisas... talvez...
Enfim, tirei dessa bolsa um canecão de ferro, e deixei mais a beira da fogueira que tinha arrumado, pra fazer um pouco de café. Tinha empilhado a lenha de maneira que o fogo assasse a carne mais por fora, mas deixasse o interior mal passado, apenas um pouco mais que cru, Laio apreciava o gosto do sangue quente na sua comida. A principio eu tinha achado isso repulsivo, mas com o passar do tempo acabei gostando, eu tinha o estomâgo de um dragão mesmo... literalmente.
O cheiro da carne assando e do café fervendo chamou a atenção do dragão, que de pronto planou até a praia e pousou suavemente na areia, se espreguiçando e exibindo uma fileira de dentes cor de marfim, que poderiam rasgar metal. mesmo depois de tanto tempo ainda tinha pensamentos com aqueles dentes...
-Esta pronto garoto...?
-Paciência... - respondi, virando a carne pra assar do outro lado.
-Eu tenho paciência... - ele respondeu levemente ofendido.
-Claro, claro... - ele roscou baixinho em ameaça, me fazendo rir. Já tinha visto aquele dragão ficar imóvel por horas, mas quando sentia cheiro de carne assando não conseguia ficar um minuto em silêncio.
Laio se deitou ao redor da fogueira, protegendo o fogo do vento com o seu corpo, ele era uma criatura curiosa, tanto que as vezes eu pensava que tivesse duas personalidades. As vezes o olhar dele ficava ameno, cálido e um pouco triste, outras vezes ficava rabugento, resmungando consigo mesmo como um velho. Eu não me importava de ouvi-lo resmungando, desde que nunca o visse zangado, tinha a impressão de que poucas coisas ao redor sobreviveriam se Laio se zangasse, e não confiava que eu fosse uma delas.
Quano a carne ficou pronta retirei uma porção pra mim, e logo depois, com uma só bocada, o imenso dragão comeu todo o resto, sem nem se preocupar com o espeto de madeira que sustentava a carne acima da brasa. Ele se remexeu todo e fez um som que, se não fosse muito mais assustador, pareceria um ronronar prazeiroso, enquanto mastigava a enorme quantidade de carne e engolia.
-Eu te ensinei a cozinha... Como é possível que você faça isso melhor do que eu?! - ele perguntou, mais pra si mesmo do que pra mim, parecia tão intreigado com isso que ri comigo mesmo.
Depois de comer todo o resto dos órgãos, que fritavam encima de uma pedra plana, e a maioria das frutas que eu havia pego, ele deitou a cabeça na areia fria da praia, respirando lentamente. Eu também tinha terminado de comer e estava saboreando o café, que estava coando até agora a pouco. As areias nas praias já tinham esfriado completamente, exceto as que estavam ao redor da fogueira, que ainda estavam um pouco quentes, a brasa ainda ardia, tudo o que havia restado do fogo que queimava até poucos minutos atrá, e a noite já havia caído completamente, bem fria como sempre era no Oceano Leste.
-Olhe bem as estrelas filhote... - Laio murmurou de olhos fechados.
Ainda sentado, me recostei nele e coloquei o capuz, olhando pras constelações daquele mundo, tão parecidas com as do meu. Apesar de ser um lugar tão diferetne, o céu ainda era igual, as estrelas brilhavam como brilhariam em Londrez... Fiquei pensando se em Hogwarts elas também brilhariam assim, tão bonitas, Sirius havia me contado uma vez que as estrelas sempre brilhavam com mais vontade naquele céu, como se gostassem de lá...
-Unicórnio... - eu apontei, e Laio abriu uma fresta do olhos pra olhar.
-Orion... esta vendo? - ele respondeu, indicando pra cabeça uma constelação mais a Oeste.
-Sim...
Me recostei ainda mais nele, bocejando, estava com sono do dia de treino exaustivo. As escamas de Laio eram quentes e agradáveis, apesar de duras, e eu não demorei pra cair no sono ali mesmo.
Depois que ele havia dormido, o dragão o olhou com mais atenção, sorrindo ternamente. Se orgulhava dele, mais do que se orgulhava de qualquer filho que já tivesse tido, filho com humanas, ou filhos de criação, aquele garoto éra o mais incrível deles, e não por ser o mais genial, ele era o mais incrível por ter sofrido tão mais que os outros, e ainda sim ser capaz de sorrir com tanta doçura, apesar de ter apeans doze anos, o jeito que ele falava as vezes era quase paternal.
-Shukako... - o dragão murmurou ao vento, sua voz era tão profunda que parecia vir do fundo dos leitos da terra, do mar - Eu queria ter um pouco mais de tempo com esse garoto... Não tenho muito mais pra ensina-lo, mas queria passar mais tempo com ele...
O vento não lhe trouxe nenhuma resposta, não esperava mesmo que trouxesse, mas a Terra onde ele estava deitado pareceu se aquecer levemente, como se estivesse conciente do seu lamento, e o consolasse. Imerso nesses pensamentos, Laio enrolou seu corpo de serpente em torno daquele filhote, e adormeceu.
Acordei com algo rugindo irritado no meu ouvido, a principio pensei que fosse Laio, quando percebi que o rosnado vinha do interior da minha cabeça, uma outra ponta de conciência estava tocando a minha e me incitando - seria mais correto dizer me ameaçando, mas eu achei que pareceria estranho - a acordar o mais rápido possível.
-Certo, certo... Acordei, acordei...
-Falando sozinho filhote?
Olhei para o Lado e vi a cabeça do dragão repousando placidamente na areia morna da madrugada, o sol estava nascendo, e ele observava isso tranquilo, o brilho do sol refletico nos seus olhos verdes, e no oceano, o efeito era mais ou menos o mesmo nos dois lugares, o que realçava a sensação de estar se olhando pro oceano quando se estava vendo os olhos daquele velho dragão.
-Arian... - eu murmurei, e ele fez um som que parecia um resmungo, apenas dando a entender que tinha entendido.
Depois de chegar em Fiore, e passar os primeiros meses de treinamento, eu tinha procurado pesquizar, no Grimório, sobre as peculiaridades do meu patrono, como o fato dele parecer possuir uma personalidade própria. Eu acabei descobrindo que o patrono que, técnicamente, foi inventado a mais de trezendos atrás é apenas uma cópia mal feita de uma magia antiga de Avalon, muitos dos feitiços atuais vieram de Avalon, incluindo algumas técnicas de alquimia, transfiguração e outros usos pro Manah, chakra, magia, chame como quizer...
O feitiço original éra um pouco diferente, esegundo as anotações de Estige, havia sido criado pelo próprio Merlin, o original, era um feitiço de convocação que criava uma forma física feita puramente de mágica, muito mais real e palpável que a sombra expectral do patrono comum, esse patrono podia falar normalmente, e tinha uma personalidade própria. Aparentemente só os magos da Ordem de Mérlin e outros magos poderosos conseguiam usar esse feitiço, outros bruxos comuns, que não conseguissem usar magia sem um catalizador apropriado, podiam trazer apenas um fantasma do seu patrono para essa realidade, só que esse fantasma seria apenas uma representação barata, sem vontade própria e incapaz de fazer outra coisa que não carregar a intenção do usuario.
Aparentemente só esse traço de utilidade éra tão extremamente útil que mesmo um feitiço de convocação incompleto como o "expecto patrono" foi tido como a maior descoberta do século, e um dos feitiços mais brilhantes que já foram criados.
O feitiço original e completo não tinha uma fórmula, o que fazia dele extremamente difícil de ser realizado, mesmo pra um mago, estendi a mão e concentrei, em vez de um pensamento feliz, a própria excencia e conciência do lobo que agora parecia ansioso na minha cabeça.
Uma luz fantasmagórica foi saindo da minha mão, de entre os meus dedos, e o corpo de um lobo, feito de chamas azuis claro e globos oculares inteiramente verme esmeralda se formou no ar, a cauda, as patas, até as orelhas mexiam normalmente, crepitando como chamas geladas que não queimavam. Era a mesma presença que eu havia invocado ao fugir de Azkabam, só que não estava tão furiosa como naquela hora, ele cheirou as coisas ao redor dele, e depois começou a correr atrás do próprio rabo.
-Ainda não esta completo... - murmurei comigo mesmo.
Laio apenas olhava com estranheza o lobo de fogo ficar brincando na praia, não cessei a magia de imediato, deixei que ele corresse livre por alguns minutos, a conciência dele ainda era muito nublada, e ainda não conseguia falar, apenas rugia ou rosnava baixinho, tentando me mostrar o que queria dizer pelos seus sentimentos.
Aquele encanto, mesmo incompleto e talvez por isso mesmo consumia muita energia, muito mais do que um patrono normal, então logo cessei o feitiço e o fogo se extinguiu em pleno ar. A presença familiar do lobo voltou a prencher um canto da minha própria conciência, que até o momento parecia estar dormindo, e ganiu um pouco triste, mas me incitando a continuar tentando, até completar o feitiço. Não precisava que ele me dissesse isso, estava determinado a aperfeiçoar todos os feitiços, e o patrono éra o número um na minha lista.
Me levantei, jogando meus braços pra trás e me espreguiçando, meu tutor não se levantou de imediato, continuou deitado preguiçosamente na areia, ao lado da fogueira agora já completamente apagada.
-Vamos lutar de novo hoje, Laio?
-Não que não queira de derrotar de novo - ele riu da própria piada, enquanto eu fazia uma careta - Mas não, pode tirar o dia de folga pra fazer o que quizer, vamos a Seagate.
-No Oceano norte? - perguntei animado, a um tempo queria conhecer aquela cidade, e agora, que os ciganos provavelmente estariam por lá, seriaperfeito.
-Sim garoto... Com saudade das meninas da cidade?
Corei com o comentário dele, e como tinha me acostumado, puxei o capuz por cima dos olhos, fazendo uma careta enquanto aquele velho dragão gargalhava. Na última cidade que tinhamos visitado, Hargeon, eu tinha comentado com ele, enquanto almoçavamos, que tinha achado a garçonete bonitinha (eu só tinha doze anos, apesar de tudo)... Ele estava me zoando por isso até agora.
Quando iamos até as cidades Laio ficava em sua forma humana, uma dragão chamaria muita atenção em lugares como aqueles, e sempre tinham alguns tolos que achavam que podiam conquistar um pouco de fama ou fortuna - ou ambas - encima deles.
Antes de sairmos, fui fazer o meu exercicío matinal, ou como chamava no começo, sofrimento matinal. Antes eu tinha que dar uma volta em torno da ilha em que estavamos correndo, hoje já tinha que dar seis, e isso por que as ilhas sempre iam ficando maiores a medida que meu treinamento ficava mais pesado.
Eu corria em torno da ilha o mais rápido que eu podia, por que estava ansioso pra ver as águias gigantes do norte, a minha postura tão inclinada que se eu diminuisse muito a velocidade cairia de queixo no chão. os braços jogados pra trás pelo próprio vento que passava ao meu redor. A magia dragonslayer que Laio havia me ensinado era muito útil, mas o esforço físico pra domina-la era monstruoso, eu não podia simplesmente mutar partes do meu corpo para o corpo de um dragão e não esperar consequências, se minhas partes humanas fossem demasiado fracas, isso enfraqueceria as partes dracônicas também, além de que minha energia estaria constantemente se esvaindo pra manter a união, o que me deixaria mais fraco.
Por esse motivo Laio me treinou tão duramente aquele ano, antes de ter sequer uma célula de dragão no meu corpo eu conseguia passar horas fazendo flexões ou abdominais, conseguia correr devagar o dia inteiro sem ficar muito cansado, e conseguia levantar mais peso do que seria possível pra um garotinho de onze anos, independente do tamanho ou força dele. Claro que aquilo tudo também não seria possível sem um pouco de magia.
A maioria dos dragonslayers eram órfãos, e eram treinados desde muito jovéns pra dominar aquela magia, já eu estava treinando a apenas um ano e meio, e por alguma razão Laio enfatizava que só "fazer" não era o bastante, eu tinha que ficar dominar completamente qualquer seção de exercicios que ele me passasse, cumprir qualquer tempo e conseguir aprender qualquer técnica. Havia tanta urgência na voz dele que eu as vezes pensava se ele não sabia de algo que estava me contando. Mas no fundo não importava, mesmo que fosse isso, não tinha sentido ficar me preocupando, sabia que ele não me contaria a menos se achasse que devia contar.
É claro que no começo eu não era tão maduro pra discernir as coisas, estava acostumado com treinamentos mentais fáceis, e apesar de saber a importância da parte fisíca, não dava muita atenção a ela, imaginava que servisse apenas pra ampliar minha energia, e não que pudesse usar num combate real.
Nisso resultou a minha primeira e única briga com Laio... Eu me lembro até hoje...
Estava cansado de fazer flexões... não aguentava mais...
-Laio... eu não consigo!
-Força pivete! Onde acha que vai chegar assim?! Você é uma vergonha! - o dragão urrou, estava zangado, flexionava as unhas constantemente sobre a rocha aos seus pés, abrindo talhos fundos nela, mas não parecia perceber o que estava fazendo...
Ri comigo mesmo ao lembrar daquele tempo, achava que ele estava pegando pesado demais, de maneira desnecessária...
Senti a pata enorme dele me pressionando contra o chão, eu estava encharcado de suór, não conseguia fazer mais nenhuma, mas ele insistia que eu continuasse, não conseguia ver a importância daquilo.
-Eu estou cansado! Droga! - gritei.
Senti a pata me pressionando ainda mais, já estava se tornando doloroso.
-Faça! Senão te esmago pirralho!
-Eu não consigo!
-Não estou te dando opção! Faça!
Naquela época, não entendia o quão necessário seria pra mim dar aquele passo, nunca teria conseguido nada se não passasse por aquilo...
-Sua determinação só vale isso pivete?! Ouça bem o que vou dizer... Você é fraco!
-Eu não sou fraco - gritei furioso, podia sentir as lágrimas queimando meus olhos, mas não iria chorar.
-Então prove! Discipline seu próprio corpo! Se não consegue vencer nem a si mesmo, como espera vencer seus inimigos?!
Um simples teste... ou não tão simples assim...
-Eu vou estar te esperando numa ilha a trinta quilometros a Oeste - ele me disse, se levantando encima de mim e me olhando sériamente - Domine sua própria determinação, e venha me procurar, se em três dias você não vier, nunca mais vai me ver na sua vida...
O abalo no vento quando ele decolou me jogou de volta no chão, eu queria adormecer, estava morrendo de aiva daquele dragão idiota, mas não conseguia deixar de ver sentido nas palavras dele, e isso parecia aumentar ainda mais a minha raiva, raiva essa que me mantinha bem acordado, apesar de estar exausto.
"Determinação..."
Se você não sabe pra onde quer ir, como espera escolher o melhor caminho?! Eu queria salvar Avalon, mas não tinha a mínima ideia do por que devia fazer isso. Motivos vagos não te levam a lugar nenhum, o "certo pelo certo" não passava de fantasia, se você não tiver um um motivo real pra alimentar sua determinação, não pode progredir.
Essa foi a lição que Laio me ensinou naquele dia...
-Vamos garoto... - Laio disse, a voz ecoando como uma trovoada.
Pulei no seu pescoço, e apertei meus joelhos contra seu corpo alongado com tanta força que faria um cavalo gemer de dor, mas ele nem mesmo parecia sentir, as costas dele eram lisa, apesar das escamas, e não tinham os espinhos pontiagudos que havia no dorso dos dragões de gringotes. O corpo de Laio era feito pra deslizar através das águas e do céu, contornando as ondas de ar, e não passando através delas, por esse motivo, com uma simples batida de asas e um ondular gracioso do corpo de serpente, ele subia mais de vinte metros no céu, planando tranquilo numa corrente de ar ascendente.
Eu tenho diversas recordações que nunca vou esquecer, como quando conjurei o patrono pela primeira vez, em Azkabam; ou então a primeira vez que vi o céu, após ter fugido; a primeira vez que vi o mar, naquela colina onde conheci o Dragão do oceano... Mas a mais incrível delas, a mais inesquecível era voar, cruzar o mundo e os oceanos nas costas dele, eu não tenho como descrever a alegria selvagem que eu sentia com isso, éra a melhor coisa do mundo...
Me inclinei mais pra frente, rindo como se fosse a primeira vez, enquanto ele atravessava as nuvéns me deixando encharcado, o que deveria me deixar tremendo de frio apenas me refrescava. Os joelhos travados me mantinham no lugar, imóvel, então eu soltava os braços e gargalhava enquanto Laio cortava os céus velozmente, rindo tanto quanto eu, a velocidade era incrível, era como mergulhar para o vazio, como cair em pleno ar sem nada pra te segurar, só que ainda mais rápido.
Ele parecia sentir a minha alegria e fazia acrobacias enquanto voava, girando em torno de si mesmo, dando piruetas, rodopios, mergulhos praticamente verticais e voando de costas, me fazendo ficar de cabeça pra baixo, o que deveria ser nauseante era o ápice da diversão. Não havia nada, nada mesmo mais divertido do que voar com Laio, era simplesmente a melhor sensação do mundo, você esquecia de tudo, o que importava era a sensação de liberdade que aquilo proporcionava.
Não percebi em quão pouco tempo eu passei a apreciar aquela sensação, sabia que se fosse encarcerado de novo seria meu fim, eu simplesmente não saberia mais como viver longe daquela imensidão azul e verde, minha natureza tinha perdido os seus limites e se misturado aquilo, eu era o céu e o mar, eles faziam parte de mim.
Por vários minutos Laio continuou brincando no ar, até que parou e estabilizou o vôo, deslizando tão calmamente pelo vento que eu podia sentir a sua respiração, ele contorceu o pescoço, como se estivesse virando a cabeça e disse:
-Abra os olhos filhote... veja...
Fiz como ele disse, agora nós voavamos com calma, e o vento não mais iria ferir as minhas retinas. A vista lá de cima era familiar, mas nem por isso menos deslumbrantes, éra o tipo de coisa que quanto mais você observava, mais incrível ia ficando.
O mundo visto das costas de um Dragão... era lindo.
O oceano era tudo o que se via, se estendendo aos quatro cantos, e cercado de montanhas no horizonte, onde começava o continente. Lá de cima eu podia ver as ondas, bem maiores do que pareciam vistas do chão, a ilha onde estavamos até agora era apenas uma mancha minúscula completamente verde que ia ficando pra trás, enquanto outras, as vezes verdes, outras amarronzadas, iam aparecendo, grandes e pequenas. Haviam muitas ilhas no oceano leste...
O sol também éra diferente lá de cima, ele éra dourado, em vez de amarelo, e não era mais quente como se imagina que é. A própria terra refletia o calor do sol, o deixando abafado e seco, lá de cima ele éra ameno, cálido e muito agradável, como estar num banho quente, amolecia o seu corpo e te deixava com sono, relaxado... Levando suas preocupações embora.
-Durma filhote... - Laio disse serenamente, a voz deze sempre ficava mais profunda enquanto voava - Não vou te deixar cair...
Nem pensei em questionar, soltei o aperto dos joelhos e me deitei nas costas de Laio, abraçando seu pescoço e mergulhando num torpor que logo seria substituido pela inconciência. Podia sentir os músculos do dragão contraindo e relaxando a medida que respirava, e também ouvir as batidas poderosas e ritmadas do seu coração, boambeando litros e litros de sangue pelo corpo escamado.
Estava feliz... simplesmente isso.