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4. A primeira marca.


Fic: A Marca de Uma Lágrima.


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4. A primeira marca


- Oi, Hermione! Nem telefonei pra você ontem porque... — Gina chegou na classe atrasada, como sempre. O professor já estava entrando, e Hermione só teve tempo para uma frase:
— Eu tenho uma coisa maravilhosa pra te contar, Gina.
— É? Eu também tenho uma novidade que vai fazer você cair dura, Hermione!
— Depois a gente fala.
Física! Uma matéria nova, como tudo deveria ser novo naquele início de curso colegial. Tinha jeito de matemática. Naquele momento, porém, o que Hermione precisava era de uma boa aula de literatura, com poemas de Harry Pessoa, ou Vinícius, ou Eduardo Alves da Costa, ou João Cabral...
Draco, naquele momento, também estaria assistindo a sua primeira aula no segundo ano, e Hermione pensou em fingir que não entendia a tal da física para, mais tarde, tomar algumas aulas particulares com ele. Sempre o primeiro da classe, não foi isso que lhe disseram? Mas não era sobre física que a menina gostaria de conversar com Draco. Ah, não era não!
A professora procurava conquistar a classe, fazendo-se simpática e engraçada. Simpática até que ela era, mas decididamente não era engraçada.
Distraída, Hermione deixava a caneta deslizar pelo caderno. Devia tomar notas, mas as palavras que lhe entravam pelos ouvidos chegavam totalmente transformadas às pontas de seus dedos.
—...a física estuda a relação que existe...

Neste físico de um deus grego,
numa intensa relação,
eu, pálida e bêbada, tremo,
e me afogo e me sufoco,
entre loucura e paixão...

—... entre a matéria e a energia...

Quero fundir meu corpo
no teu corpo junto ao meu.
Nos teus braços serei cega
pra que sejas o meu guia.
Nós seremos a matéria,
nosso amor será a energia...

—... a energia afeta a matéria...

Se esse amor me modifica,
me transforma, me edifica,
se ele afeta tanto a mim,
também te transformará.
A energia desse amor
afetou-nos para sempre,
e a matéria que hoje somos
outra matéria será...

—... e a matéria afeta a energia...

Seremos dois novos amantes
pelo amor energizados,
transformados,
mas em quê?
Quem eras antes de mim?
Quem sou depois de você?

—... esse processo de transformação é o objetivo.

No meu seio serás meu
para o uso que eu quiser.
Nos teus braços me abandono,
ao teu lado sou mulher...


***


O sinal veio interromper a aula e o poema. A aula seguinte seria de inglês, e a classe se dividiria, misturando-se a grupos de outras séries, de acordo com o nível de conhecimento de cada aluno. Hermione estudava inglês há tempos e, por isso, fora selecionada para a turma mais adiantada.
Pensou em entregar o poema a Draco. Destacou a folha do caderno e guardou-a cuidadosamente dentro do fichário. Nem assinou. Assinar para quê? Não havia duas pessoas no mundo que pudessem dizer o que estava dito naquele papel.
Acenou para Gina, que no inglês ficara numa turma mais fraca, e correu para a sala, pretendendo conseguir um lugar bem no fundo, onde pudesse recolher-se à sua idéia fixa. A idéia maravilhosa de Draco.
Draco!
Foi a primeira imagem, em carne e fascinação, que surgiu diante dos olhos de Hermione. Draco sorriu lindo, lindo sorriso, lindo Draco, e a menina vacilou por um momento.
Pronto. Estava sentada na primeira carteira, longe de Draco e ao alcance da respiração do professor de inglês.
Tonta! Agora nem podia olhar para Draco sem chamar a atenção. Mas ele estaria olhando para ela. O tempo todo. Até podia sentir o calor daquele olhar em sua nuca. Cerrou os olhos e recebeu a atenção de Draco como se fosse um beijo. Um beijo suave, longo e quente. Um beijo de Draco.
— I think we could begin by reviewing the defective verbs. Of course, during the holidays you forgot most of your English, didn't you?
À frente de Hermione, o professor iniciou a aula, falando com aquele mesmo tom amistoso de todo início de ano letivo. Em poucos dias, ele, na certa, estaria aos gritos, pedindo silêncio em português.
Por cima do ombro de Hermione, a mão de um colega passou-lhe furtivamente um papelzinho dobrado. Com todo o cuidado, para que o professor não notasse, a menina desdobrou o papel no colo, por baixo da carteira. Foi como se um anjo tivesse surgido de camisola azul e trombeta de ouro para anunciar-lhe o paraíso.

Priminha querida, preciso muito falar com você. Onde poderemos conversar sossegados? Te adoro! Draco.

— It's easy, isn't it? But you mustn't forget that there's no rule to help you use those verbs...
"Ele quer falar comigo... comigo!", pensou a menina, sentindo-se quase febril. Rabiscou rapidamente quatro palavras — me encontre no laboratório — em uma folha de caderno, dobrou-a e passou para o colega de trás.
— You must practice, in order to know which tense has to be employed without the need of...
A torrente de palavras estrangeiras perdeu o sentido para Hermione, enquanto as palavras de Draco penetravam-lhe como se fossem vírus caindo em suas veias, misturando-se ao seu sangue e indo infectar-lhe o coração.
"Neste momento, ele deve estar igualzinho a mim, pensando em mim... Vamos pensar juntos, um no outro, Draco. Será como se estivéssemos de mãos dadas.”
Num repente, Hermione baixou a cabeça e beijou o bilhete. Ao olhar novamente para aquela letra apressada, notou que uma marca redondinha tinha acabado de borrar a palavra adoro. Era a marca de uma lágrima. De felicidade.
— Eu também te adoro, meu amor... — balbuciou ela, apertando o bilhete contra o peito.


***

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