Deixei o pão de lado, e me escorei mais na parede, descendo gradualmente até que estava quase deitado. Sirius levantou uma sobrancelha e quando foi perguntar eu murmurei:
-Tem três mil, setecentos e oitenta e quatro pedras nessa cela... Eu já contei várias vezes...
Ele sorriu, também colocou a refeição inacabada de lado, se aproximou e disse com gentileza:
-Já deu nome a elas?
Eu tinha dito aquilo pra ele durante o meu segundo ano em Askabam, e me lembrava perfeitamente de tudo, a cena estava gravada a fogo na minha mente junto com uma coisa que eu havia percebido naquele dia, um fato simples e perigosamente possível.
Se não houvesse conhecido Sirius, eu teria enlouquecido. Teria perdido minha sanidade e minha própria natureza dentro daquele inferno, eu simplesmente não seria mais eu mesmo, seria como estar morto.
Então agora, que Sirius não estava mais comigo, e eu estava preso de novo, o que me impediria de perder minha sanidade?! O que me manteria vivo...?!
Me levantei, igonrando a tontura e corri até a porta, a esmurrando com força, o barulho dos socos do metal, dos meus gritos e do choro enchia e fazia eco naquele cofre. Percebi que não adiantaria nada socar a porta, então dei dois passo pra trás e comecei a lançar maldições freneticamente contra ela, mas também não adiantava. Nada do que eu fazia dava certo, a porta continuava intecta, sem um arranhaão sequer. Depois de ficar completamente esgotado e exausto, dei dois passos pra trás antes de cair de costas no chão, meu corpo todo doía, e nesse momento eu amaldiçoei profundamente o fato de ser um mago, por que parecia que cada neorônio meu estava empenhado em me fazer sentir com o máximo de clareza possível toda dor, todo desconforto, tristeza e raiva que queimavam meu peito por dentro.
Podia parecer tolice, mas só nesse momento eu me lembrei que estava num cofre, e deitado, eu pude observar ele melhor. O teto era de rocha escura, coberta de limo, e havia estalactites proeminentes e perigosamente pontudas que apontavam diretamente pra baixo, de suas pontas pingavam esporadicamente gotas de água, que conseguiam se infiltrar pela rocha até aquela profundidade absurda, muito abaixo do metrô e dos outros cofres.
E o que parecia mais tolice ainda, só depois de passar alguns minutos que estava observando as estalactites no teto, me dei conta que se deveria ser um cofre, deveria ter alguma coisa dentro. Fiz força pra me levantar, já que não tinha mais nada pra fazer até que provavelmente morresse de fome, e olhei ao redor.
Até hoje eu me pergunto como meu queixo continuou no lugar, por que parecia que cairia no chão tamanha a surpresa que eu tive.
Pra ficar claro, pense no cofre de ouro do tio Patinhas, sabe, aquele pato?! Imagine o grande cofre onde ele guardava sua riqueza, com montanhas de ouro, pedras preciosas, baus com reliquias que custariam os olhos da cara de qualquer um. Imaginou?! Agora multiplique aquilo por dez... melhor, por cem. Você deve conseguir imaginar mais ou menos como era a cena que eu estava observando agora. Por mais que parecesse estranho eu fiz essa comparação mentalmente mesmo, e ainda deu tempo de fazer mais quatro antes de eu conseguir balbuciar alguma coisa, imaginei uma caverna com um dragão e montanhas de ouro, imaginei também que seria assim a caverna dos quarenta ladrões, também pensei em piratas guardando o tesouro das suas pilhagens e pensei no Bil Gates, mesmo não entendendo ao certo por que.
Eram comparações ridículas, apesar de cabíveis na situação, e eu decidi usar pra tentar mostrar a maneira que um mago pensava, somos realmente muito ligados a devaneios...
Montanhas e mais montanhas moedas brilhantes de ouro abarrotavam os cofres, algumas tão altas que alcançavam os estalactites daquele cofre que devia ter a altura de um prédio de quatro andares. Fiquei com medo que uma dessas montanhas desabasse sobre mim, por que, no mínimo, doeria bastante. Não havia prata nem cobre no cofre, apenas galeões de ouro, e moedas maiores que lembravam as espanholas, no tempo dos piratas, andei cambaleando, ignorando quase inconcientemente a dor por causa da enorme surpresa e estupefação, e apanhei uma dessas moedas na mão. Ela era irregular, provavelmente feita manualmente, o que na minha opinião a deixava ainda mais interessante, e tinha uma caveira nela, se você já assistiu "Piratas do caribe" sabe bem do que eu estou falando.
Comecei a caminhar pelo cofre, e encontrei algumas montanhas - estava errado chamar aquilo de pilhas - de moedas que pareciam ainda mais antigas, também eram feitas de ouro, mas eram menores, e tinha um rosto escondido por trás de uma barba enorme e cabelos compridos gravado nelas, embaixo uma inscrição "Júpiter". Girei a moeda nas mãos fascinado, do outro lado havia um rosto mais magro, com a mesma expressão altiva que estava um pouco irreconhecível por causa das falhas no metal, um nariz um tanto grande e uma coroa de louros, em volta do rosto a inscrição: "Senatus Populusque Romanus"que eu reconheci como o lema de roma, "O senado e o povo". Aquela éra uma moeda do tempo do império romano, o rosto de nariz gordo era o imperador, Julius Caesar...
Passei horas contornando as montanhas, havia coisas valiosas de todo o tipo, espadas de diferentes épocas, escudos ornamentados com pedras preciosas enormes, cálices, tapetes persas antigos, murais, diamantes e rubis e outras pedras preciosas espalhados em pilhas, rolos do mais fino tecido, seda trançada com fios de ouro, mas nada menos valioso que ouro maciço. A quantidade e o valor de cada pequena moeda ali era surreal, parecia que todo o ouro do mundo estava acumulado naquele cofre enorme, era tão grande que eu não conseguia nem ao menos ver as paredes laterais, que estavam cobertas em escuridão.
Depois de um bom tempo eu me sentei no chão, estava sorrindo bastante, uma sombra de loucura tampava o brilho dos meus olhos. Não... Eu não estava deslumbrado com o ouro, ou estava feliz por estar rico, era uma coisa muito mais simples que isso, que de tão deprimente, me fez rir, na verdade eu dei trela de tanto rir, uma risada histérica e completamente desprovida de humor.
Eu iria morrer de fome, em meio a montanhas de ouro.
Lembrei de um rei da mitologia grega, que uma vez Sirius comentou comigo. O nome dele éra Midas, e era um homem ganancioso, um dia invocou Dioniso e pediu que ele lhe concedesse um desejo. Dioniso, astuto, concedeu um desejo a Midas, que pediu que tudo o que ele tocasse se tornasse ouro, o Deus, sorrindo, lhe concedeu isso.
Midas, encantado com seu dom, passou a tocar tudo o que encontrava, as colunas de mármore do seu palácio, os pratos, paredes, tapaçarias, o chão, tudo se transformava em ouro maciço. A sua felicidade durou até que, por engano, tocou em uma escrava, que se transformou imediatamente numa estátua de ouro, a comida se transformava em ouro ao tocar seus lábios, as lágrimas viravam ouro líquido quando ele chorou em desespero, até que morreu de fome, deitado entre o ouro. Era muito ironico, eu ia morrer da mesma forma, e não tinha como sair dali, eu estava completamente preso, até que daqui a dez anos, os duedes viessem, talvez, conferir o meu cofre.
E assim o tempo passou...
Eu calculava o tempo que estava ali pelo grau da minha fome, já que não era possível saber se era dia ou noite. Imaginei que se tivesse passado uma semana, no mínimo, quando estava a ponto de achar o meu próprio braço apetitoso. Eu não fazia nada a não ser encarar o teto, que era mais interessante que as montanhas de ouro, (elas perdiam a graça depois de um tempo, acredite) ficava observando as irregularidades e a forma natural da rocha, a água pingava da ponta das estalactites afiadas e formava poças no chão, daonde eu bebia, o que de certa forma era ruim, por que se não tivesse água eu morreria mais rápido, e com um pouco menos de sofrimento.
As estalactites tinham sido formadas pela própria água, passei algumas horas imaginando quanto tempo havia demorado pra que gotas de água deformassem a rocha daquela maneira, e fiquei admirado que isso acontecesse, de certa forma era uma lição de vida... Pena que não valesse mais nada pra mim. Já tinha desistido de sentir raiva, de querer me vingar dos duendes e sequer de ficar de pé, não queria fazer nada, somente esperar que a morte viesse, como não fazia nada, demoraria mais pra morrer, amaldiçoei os deuses por isso, e por toda a minha vida miserável.
Não foi naquele momento que eu me lembrei das últimas palavras do meu padrinho, na verdade foi só o que eu julguei sendo alguns dias depois, estava tendo alucinações e vi ele mesmo repetindo pra mim:
"Procure o livro... procure o livro..."
Não entendi que livro era esse, mas a lembrança jogou adrenalina no meu sangue, e me fez voltar a realidade, senti com ainda mais força meu estomago se comprimir e meus músculos reclamarem por terem de se mexer, minha aparência estava horrível, estava tão magro que minhas costelas apareciam de forma muito proeminente, assim como os dedos e os cotovelos, e provavelmente no meu rosto também, devia estar quase como se cobrissem uma caveira com um pouco de pele, os poucos quilos que havia ganho na semana que passei com Sirius já tinham-se ido embora. Os meus olhos insanos e fundos corriam de um lado a outro, minha ampla mente dividida entre o livro e comida, infelizmente a parte que se dedicava a pensar em comida estava ganhando.
Continuei a percorrer o meu cofre, ainda achava graça quando pensava desse jeito, não conseguia acreditar que eu fosse rico, com todo aquele ouro, provavelmente uma das pessoas mais ricas do planeta, mas não tinha nem menos sinal do maldito livro. Pode parecer estranho, mas apesar de passar um bom tempo, umas quarenta e oito horas percorrendo o cofre, contornando montanhas de ouro, eu não conhecia o cofre todo, parecia incrível, mas era verdade. Aquele lugar era bem maior do que um shoping seria.
Não tinha muito interesse em qualquer livro que fosse, mas continuei percorrendo aquela maldita extenção apesar da dor e da fome que faziam meu corpo implorar pra parar, meu pensamento era mais ou menos esse: "Já que eu vou morrer mesmo, foda-se". Ri com isso, quando sabemos que vamos morrer e ainda temos um tempo pra pensar, temos apenas duas opções, ou ficar louco ou achar engraçado. Comigo tinha acontecido as duas coisas.
Com o passar do tempo, a fome foi ganhando espaço na minha mente, e a clareza dos meus pensamentos diminuiam gradativamente, parecia que levava minutos pra mim mover as pernas pra dar mais um passo, só mais um, e então seria um a menos, apesar disso eu não parava. Me sentia culpado, chateado, irritado, mas curisamente não sentia ódio. Tinha medo de sentir aquilo de novo, ainda mais depois de quase ter odiado meu padrinho, apenas estava irritado por que ainda não tinha morrido. Podia acelerar aquilo, havia dezenas de punhais, espadas e outras similaridades a cada meio metro naquele lugar, eu podia simplesmente cortar meus pulsos, ou perfurar meu coração, podia partir uma estalactite com um feitiço e faze-la cair encima de mim e me despedaçar, mas ainda estava conciente o suficiente pra que minha autropreservação me impedisse de cometer suicídio. Essa autopreservação era outra coisa que me irritava.
Quando estava a ponto de perder os sentidos, joguei a cabeça pra trás e berrei:
-Maldito livro! Apareça logo seu bastardo desgraçado!
Depois disso eu planejava cair e finalmente morrer em paz, mas não foi exatamente isso o que aconteceu...
Senti um arrepio na coluna, juntamente com uma magia muito antiga percorrer as paredes, o teto e as pilhas de ouro daquele cofre, era como se ele acordasse de um longo sono, como se o cofre estivesse vivo, e eu fiquei estupefato ao pensar aquilo, a estupefação quase me fez esquecer o meu estado decrépito, quase...
A magia pulsava e se remexia, de duas coisas eu tinha certeza, ela era muito antiga, e muito, mas muito poderosa. As paredes brilharam levemente e algumas moedas despencaram do alto das imensas pilhas e rolaram até o chão, fazendo algum barulho em meio aquele silêncio sepulcral, e uma luz muito forte brilhou por um segundo, me cegando, até que diante de mim estava uma esfera límpida feita puramente de luz,
Senti minha própria magia se aquecer e o lobo rugir na minha conciência, eu podia sentir a sua presença, e uma pontada de seus próprios sentimentos, por que com certeza não eram meus, me perguntei como isso era possível, sentir um patrono daquela maneira, mas como provavelmente não conseguiria resposta nenhuma, comecei a seguir a esfera de luz, que se remexia no ar insistentemente, girando ao meu redor e me guiando, quase como se estivesse viva.
Ela contornava montanhas de ouro, e me levava cada vez mais pro fundo do cofre, um lado que eu ainda não tinha percorrido, e duvido que pudesse achar o caminho sem ajuda. As moedas das pilhas ali eram diferentes, apanhei uma pra examinar, ela era muito bem feita, com detalhes muito bem desenhados e entalhados, o rosto na moeda era tão bem desenhado que dava quase pra ver o brilho nos olhos dele, um sorriso discreto num rosto barbado, sombrancelhas medianas e um olhar inteligente, não havia inscrições, girei a moeda e no outro lado havia a imagem de um leão, um belo leão diga-se de passagem, a juba espessa e tão bem representado que os pelos pareciam até brilhar. Pode parecer bobagem, e talvez fosse, mas o brilho dos olhos daquele leão era o mesmo do senhor na outra face da moeda. A luz se agitou de uma forma histérica a minha volta, quase como se estivesse indignada por ser ignorada, e eu me apressei a segui-la, colocando a moeda no bolso da calça, sem perceber realmente que tinha feito aquilo.
A luz continuou me guiando pelo que pareceram horas, aquele maldito cofre parecia não ter fim e eu estava com a sensação que logo não conseguiria mais andar e cairia inconciente, dessa vez não acordaria mais. Antes estava torcendo pra isso acontecer de uma vez, mas agora me parecia uma coisa terrível, de alguma forma era de extrema importância que eu chegasse de uma vez onde aquela luz estava me levando. Não como se minha vida dependesse disso, mas algo muito mais profundo e urgente que isso.
Quando não aguentava dar mais um passo sequer, a luz parou de repente, flutuando na minha frente, apesar de estar morrendo de fome, e meus sentidos não estarem claros o suficiente pra fazer uma avaliação muito exata, eu lembro nitidamente do calor que a luz provocava na minha pele, como formigava a minha coluna e eriçava os meus pelos, a brancura impecavel da luz, éra cálida, e parecia amenizar um pouco o meu desconforto, era uma magia muito singular...
A esfera fez um movimento muito caracterísico pelo ar, era como se estivesse apontando pra frente, me incitando a continuar, o que eu fiz sem pensar muito. Ali as montanhas de ouro paravam, deixando um caminho livre de pedra (o que era difícil encontrar por que quase todo o chão do cofre estava coberto de ouro) por onde eu segui, depois de hesitar mais um pouco e levar um empurrão da esfera de luz, ou melhor, um gesto que se pareceria bem com um empurrão. Contei vinte passos, até que cheguei no que seria a parede do cofre, havia uma saliência ali, um espaço de mais ou menos dois metros de largura por três de altura, seria mais ou menos um bom lugar pra colocar um armário embutido...
Deixei de lado as comparações idiotas que ficava fazendo involuntariamente e tentei enxergar o que havia ali, se a luz não tivesse me guiado eu provavelmente nunca teria achado aquele lugar, mesmo se soubesse que deveria procurar algo assim. As montanhas de ouro e obejetos impossibilitava que eu pudesse me localizar no cofre, e o fato de ser simplesmente enorme, e o livro estar escondido num espaço tão pequeno, imerso em sombras de tal modo que a mais de cinco metros eu nem veria direito a depressão na parede também dificultavam a tarefa de encontrar aquele maldito livro.
O que me surpreendeu foi que alguém "quizesse" acha-lo. Havia um pedestal pequeno e bem simples ali, feito de algo branco que me lembrou gesso, ou mármore, eu tinha pegado o livro na mão com cuidado, por que parecia que ele se desfazeria em pó à menor pressão, e agora o encarava um tanto incrédulo. A esfera de luz que tinha me guiado até ali fez um gesto no ar que me lembrou uma despedida e desapareceu, pode ser tolice, mas éra quase como se estivesse feliz e satisfeita por ter me levado até ali.
O livro, ou caderno, sei lá como chamar por que não parecia exatamente nem um nem outro, era surpreendentemente leve, além de velho, muito velho e insignificante, pelo menos à um primeiro exame, mas não foi isso que me chocou. Quando o segurei, eu senti aquele mesmo arrepio na espinha, de quando a cela brilhara, podia estar errado, mas eu tinha a sensação que mesmo um bruxo normal, que não conseguisse sentir magia, conseguiria sentir aquela energia se abalando no cofre, pulsando naquele livro, por um instante imaginei estar com um coração batendo as minhas mãos, mas ignorei esse pensamento, primeiro por que era repugnante, e depois por que não era sangue que o livro pulsava, era poder, pura e simples magia, o mais estranho era que, apesar de completamente diferente, era muito parecida com a minha própria magia.
O livro estava coberto de poeira, esse era outro aspecto que o fazia parecer insignificante, passei a mão pra espalhar a poeira, e um simbolo na capa velha de couro gasto me fez ficar estarrecido por um minuto, um minuto inteiro, antes de ter qualquer reação. Num vermelho um tanto gasto, havia um simbolo que conhecia muito bem, um pentagrama vermelho, com um dragão também vermelho enrolado nele, os olhos do dragão pareciam seguir magicamente os meus.
Mas não... não era possível...
Merlin!
O livro se tornou imensamente pesado num instante, em que eu o larguei e dei um pulo pra trás, assustado. Ele caiu no chão com um baque surdo, mas não era mais simplesmente um livrinho pequeno e feio.
Era simplesmente enorme, o maior livro que alguém poderia sonhar em ver na vida. Tinha pelo menos um metro de comprimento, e meio metro de largura, com no mínimo, trinta centimetros de altura. A capa era feita de couro amarronzado, com biqueiras de ouro nas pontas (eu passei tantos dias só vendo ouro, que ficou fácil de reconhecer) e o simbolo que agora reluzia vermelho sangue, sem nenhuma falha. Intacto, perfeito. Os olhos do dragão me pareceram familiares, como se eu já tivesse visto aqueles olhos antes, por incrível que pareça eram os mesmos olhos do leão.
Caminhei meio inseguro até o livro, como se ele fosse pular e me morder, depois de ver ele crescendo daquele jeito não parecia mais tão impossível, e o fato de Sirius ter me dito que uma vez lançaram um livro que realmente fazia isso me deixou ainda mais tenso. Me ajoelhei, pronto pra saltar pra trás a qualquer reação inesperada e toquei a capa, senti o mesmo abalo na minha magia, o mesmo arrepio na coluna, era quase como se estivessemos nos reconhecendo, por que também senti um pulso mais forte na magia que desprendia daquele livro, e era muita magia, uma magia muito especial, antiga e poderosa.
Tinha quase certeza que não conseguiria abir a capa daquele livro, por que parecia ser bem pesada, num dia normal talvez conseguisse, mas no meu estado decrépito, nem pensar. Mesmo assim tentei, impelido pela curiosidade e por algo a mais, um sentimento de urgência, o mesmo que me fez andar quando eu queria deitar e morrer, e surpreendentemente foi fácil levantar a capa, ela parecia não pesar nada, nem mesmo uma grama, como se fosse feita de puro ar.
A primeira página estava em branco, o que não me surpreendeu por que todos os livros eram assim mesmo, as folhas eram amareladas e tinham aquele caracteristico cheiro de papel envelhecido, que eu achava muitissímo agradável. Sem perder tempo virei a folha, e a segunda também não tinha muita coisa, o mesmo simbolo que estava na capa do livro, no mesmo tom intenso de vermelho, mas que curiosamente não ardia nas minhas retinas, logo abaixo uma simples inscrição, feita a mão, com uma caligrafia elegante e inclinada.
"Ao herdeiro do Grande Merlin, aos Perewell e aos Potter"
Eu entendi perfeitamente o que aquela pequena e óbvia inscrição queria dizer, não seria um mago se não entendesse, mas era tão incrível, tão impossível e tão extraordinário que deixei a informação de lado, guardei no fundo da minha cabeça pra quando conseguisse lidar com ela, da mesma maneira que tinha feito quando percebi que tinha matado minha própria família, por pior que ela fosse.
Virei a página de novo, mas não havia nada escrito nela, apenas um desenho estranho no centro da página, feito com linhas grossas e com tinta negra. Curioso, levei o dedo até ele, pra seguir o contorno das linhas quase que de maneira inconciente, apesar de ser incompreensível, era estranhamente facinante, como se quizesse dizer alguma coisa a mais.
Quando meu dedo tocou a tinta, senti um calor repentino, e o simbolo brilhou profundamente, me fazendo cair pra trás com o susto, por que eu estava ajoelhado e apoiado encima do enorme livro. A explosão de luz durou apenas um segundo, e onde antes havia o simbolo havia uma folha em branco no Grimório, éra como se toda a tinta tivesse escorregado do livro e estivesse tomando forma, uma esfera de tinha negra que começou a ficar gradativamente branca. flutuando na minha frente, tão branca quando a mais pura neve, essa esfera começou a se alongar, e fluir no ar como se fosse um lençol de água que brilhava, me impedindo de ver no que ela estava se transformando.
Antes de se transformar completamente ela brilhou mais forte, e então caiu lentamente encima da página em branco, conforme caía, a luz ia se apagando gradativamente, deixando um amontoado de tecido imaculadamente branco na minha frente.
Aquilo era incrível, o modo como brilhou, como a tinta escorregou do papel e tomou forma, não era nenhuma magia que eu conhecia. Mas ao ver um amontoado de tecido inútil na minha frente eu fiquei inesperadamente muito puto, num dia normal não teria, mas eu estava pra morrer de fome num cofre enorme abarrotado de muito ouro, tanto ouro que precisaria de um navio pra carregar, e aquela porra de livro me um monte idiota de pano?!
-Desgraçado, me de comida em vez dessa merda!
Não esperava que acontecesse, mas aconteceu. O cofre de novo pulsou como se estivesse vivo, e aquela mesma esfera de luz apareceu, dançando a minha volta como se estivesse radiante por eu ter pedido algo pra ela, mesmo que fosse daquele jeito mal educado. Ela rodopiou em torno de mim, que estava pasmo, e depois brilhou mais forte, sumindo logo em seguida, e o cofre tornou a mergulhar no silêncio.
Olhei pra onde a esfera tinha sumido, e o que vi me deixou ainda mais puto, se é que era possivel, aquele cofre só podia estar zoando com a minha cara. Primeiro me dava um monte de tecido inútil, e depois um punhado de capin, eu não era um cavalo pra comer capin, o que ele esperava, que milagrosamente o capin se transformasse em comida e...
E...
Fiquei por mais alguns instantes observando o capin, então praticamente voei encima dele como se estivesse num cofre cheio de capin e aquilo fosse uma moeda de ouro, em vez de ser o contrario. Cai de joelhos e rezei, rezei pra todos os deuses que ainda desse certo, que eu conseguisse fazer aquilo no estado em que estava.
Senti ele rugindo dentro de mim, como se estivesse me dando coragem e me impelisse a tentar, minha nuca arrepiou com isso e senti como se fossem meus uma faceta dos seus próprios sentimentos, e isso me arrancou um sorriso que eu chamaria de sádico, eu ia conseguir, tinha certeza disso.
A maior parte da minha mente estava nublada, eu não conseguia pensar direito e fazer aquilo não seria fácil como sempre, mas tinha que tentar, era isso ou deitar e esperar pela morte. Foquei os pensamentos, tentei eliminar tudo ao meu redor, foi mais difícil do que eu estava acostumado, e eu fiz tudo com o máximo de zelo que possível, sabia que se falhasse uma vez não teria volta, eu estava no meu limite, não teria uma segunda chance. Concentrei toda a energia que me restava, mantendo no meu próprio corpo apenas o estritamente necessário pra que continuasse vivo por mais alguns minutos, se eu errasse, seria esse todo o meu tempo de vida.
Como Sirius havia me ensinado, canalizei minha magia pra dentro e em volta da grama, pude sentir cada molécula ligada uma na outra por energia. Quebrei essa ligação e quase deixei escapar a enegia, o que resultaria na minha morte certa, minha mente estava mais nublada, dificultando a tarefa que estava fazendo, e minha vista estava escurecendo. As molécuas se embaralharam, numa combinação inconpreensível, e eu as forcei a se moverem, refazendo a ligação aos poucos, com o máximo de cuidado que eu tinha, lembrei de Sirius quando usou alquimia em Azkabam, agora sabia como ele havia se sentido, e se ele tinha conseguido, eu também conseguiria.
Parecia que haviam se passado horas, mesmo sendo apenas um minuto, ou menos. Meu coração batia a um ritmo assustadoramente lento, e minha respiração estava curta, irregular e pesada, podia sentir meu corpo todo adormecendo, não ia aguentar mais, ia perder os sentidos, e aí seria o fim.
Até que senti aquele cheiro...
Meu corpo inteiro tremeu, e eu abri os olhos, minha vista clareando de repente, ignorando tudo ao redor, focando naquilo que exalava aquele cheiro maravilhoso, sublime, perfeito. No chão, onde antes estivera a grama, tinha um pedaço grande, macio, quentinho e saboroso de pão.
Pulei nele sem nem pensar no que estava fazendo, a energia que usaria pra pensar estava usando pra me mexer, peguei o pão na mão com ambas as mãos, e olhei pra ele por alguns instantes, como se eu estivesse segurando um Deus encarnado num bebê, sem esperar mais, enterrei meus dentes nele. Ainda bem que não era realmente um bebê.
Enquanto comia, eu me sentei, mastigando com voracidade mas cuidado ao mesmo tempo, senti algo molhar no meu rosto e percebi que eu estava chorando, eu estava chorando de alegria, e minhas lágrimas deixaram o pão salgado, mas nem por isso menos saboroso. Meu coração estava martelando com tanta força no meu peito que chegava a doer, mas era uma for maravilhosa, agradeci a qualquer Deus que quizesse ouvir por poder estar comendo, por estar vivo pra isso, por poder respirar, por poder sentir. Não importa quanto tempo eu perca descrevendo ou fazendo comparações daquele momento, mas sei que nunca senti uma alegria tão forte, exceto, talvez, quando observei o céu com meu padrinho, você não conseguiria imaginar como eu me senti, não levando uma vida tranquila e farta, por mais discutível que seja, não se comparava a minha, e você não conseguiria sentir o que eu senti, por isso vou dizer apenas que enquanto comia, as lagrimas não pararam nem um segundo de rolar, eu estava chorando de felicidade, minhas mãos tremiam e eu arfava, tentando conter os soluços.
Depois que comi, a inconciência me abraçou, e eu dormi tranquilo pela primeira vez em muito tempo, por que sabia que iria acordar mais tarde.
Quando acordei, eu sentia fome, mas não era aquela fome monstruosa e que me consumia por dentro que estava sentindo antes, era simplesmente... Fome, uma fome muito forte pra padrões normais, pra mim, bem suportável. Pensei em pedir mais grama pro cofre pra fazer alquimia e comer de novo, mas a curiosidade me impediu, o livro ainda estava no mesmo lugar de antes, (eu não esperava realmente que se movesse, mas tinha as minhas duvidas) me acerquei dele, ainda meio inseguro mas não tanto quanto antes, e percebi que ele ainda estava na mesmo página em que tinha o deixado quando punhado de tecido apareceu do nada.
Percebi que tinha me esquecido daquele punhado de pano, que estava largado onde eu o tinha deixado antes de comer. Caminhei até ele e peguei, estendendo no ar o que se revelou como uma espécie de manto, um sobretudo branco feito neve, que parecia ser grande de mais pra mim. O que me deixou intrigado foi o calor que eu senti ao tocar nele, éra uma magia extremamente parecida com a minha, mas era muito mais antiga, e insanamente mais poderosa, e por alguma razão, não parecia humana.
Vesti o sobretudo, apesar dele ser bem maior que eu, mas quando o tecido descansou nos meus ombros, seu tamanho tinha mudado, estava exatamente do meu tamanho, caindo como uma luva no meu corpo. Ele era quente, e muito confortável, como se tivesse sido feito especialmente pra mim. Deixei isso de lado e voltei ao livro.
A próxima página estava escrita em latin, um latin antigo que achei um pouco difícil de ler a principio, mas que logo me acostumei. Era a mesma caligrafia elegante da frase de antes, numa tinha negra fosca, mas não era a pagina toda, parecia mais como um prólogo, ou uma nota do autor. Parei de ficar imaginando coisas inúteis e comecei a ler, me surpreendendo em cada linha que lia:
Avalon esta em ruínas, as brumas envenenaram a Terra, encobriram o céu, e empobreceram nosso grande reino. As sacerdotizas e druídas falharam com seu dever sagrado, e abandonaram nosso país. Eu sei que também não terei mais salvação.
Mas enquanto meu coração bate, resolvi relatar nesse grimório toda a história de Avalon, escrita pela mão da minha ordém, a antiga ordem de Merlin, conselheiros reais e Magos supremos. Eu sou o último dessa ordem. Meus próprios filhos me abandonaram e fugiram da ilha, o rei enlouqueceu, os principes se suicidaram, e as princesas renunciaram sua antiga honra, servindo em bórdeis agora, pelas cidades destruídas.
Óh, lembranças dos campos de trigo brilhando como ouro ao raiar do sol me assolam, não há vento, não há mais chuva, essa terra esta morta, nada mais nos resta da antiga glória de Avalon, Dannu foi esquecida, e a Terra morreu junto com sua memória.
Desde Eras ancestrais, nós louvamos Dannu, a gentil mãe terra, ela abençoava as plantações e coroava nossos reis, sobre sua proteção, Avalon prosperava. Mas o povo ficou ganancioso, eles queriam mais, queriam ouro, fama e glória além das que lhes era devida. Eles buscaram aumentar o poder das Brumas, e recorreram as sacerdotizas pra isso.
A Grande Mãe avisou-nos do perigo, mas não lhes demos ouvido, as sacerdotizas, puras e sagradas, foram seduzidas por promessas de ouro e glória, e abandonaram seu dever sagrado, abandonaram sua castidade, e renunciaram a sua mãe. Usaram seus poderes pra aumentar os poderes das Brumas, buscando tornar aquela Terra impenetravel, imperceptível, e para a nossa desgraça, elas conseguiram.
Mas não foi só exercitos inimigos que as Brumas exilaram pra fora de nossa querida terra. As sacerdotizas em seu ato de tolice, induzidas pelos reis tolos e arrogantes da Era presente, criaram uma gaiola em volta da ilha, o sol já não brilha e a brisa a muito não sopra, as chuvas se manteram longe, e a terra esta morrendo, e junto com ela, nossa mãe. Dannu esta sendo assassinada lentamente por suas próprias filhas, suas mais intímas e em quem mais confiava. E minha maior vergonha, é que não fiz nada pra impedir.
Eu fui o último Merlin dessa terra, estou velho, e não tenho muito tempo. Pretendo gastar todo o resto dos meus dias escrevendo esse Grimório, na esperança de um descendente do Grande Merlin voltar a por suas mãos nele, e possa trazer o sol e a paz de volta a nossa Terra. Não me atrevo a rezar para a Grande mãe, não consiguiria encara-la, e só espero que ela se apiede de mim no final.
Nós precisamos de um rei. Precisamos de Merlin.
Nesse Grimório esta contido toda a magia dos antigos e sábios conselheiros de Avalon, e o manto sagrado dado de presente ao primeiro Merlin, todo o conhecimento e experiência de dezenas de gerações, desde Eras imemóriais até os tolos Reis do presente. Espero, do fundo da minha alma, que seja de ajuda.
Estige.
Fiquei alguns minutos pasmo com aquilo, enquanto uma pequena faceta da minha mente ficava irritada por que coisas que me surpreendiam pareciam acontecer a cada meia hora naquele lugar, mas eu não podia evitar, simplesmente não podia acreditar no que eu estava lendo, não fazia sentido, era impossível... Não éra?!
Não, não era, e eu acreditei naquilo, por vários motivos, alguns simples e outros que eu não fazia ideia, que não passavam de sensações, mas aquilo era verdade, eu quase podia ver a pessoa que havia escrito aquilo, podia sentir a culpa, a vergonha e o desespero dele em cada linha, era quase tangível a tristeza nas suas palavras.
Fiquei enfeitiçado por aquele livro, ignorei a fome e continuei lendo, página por página, demorava horas pra ler cada página, por que era simplesmente enorme, havia dezenas de ilustrações, o livro começava pelo principio, contava como lenda a história do primeiro Melin, uma história um pouco diferente da que Sirius havia me contado, pelo menos no começo, o resto era mais ou menos o mesmo. O Livro, ou melhor, Grimório, representava o nascimento de Merlin, filho da própria Dannu, a mãe Terra, ou como era chamada entre os gragos e romanos, Gaia, a mãe de Cronos, e avó de Zeus. A personalidade descrita era completamente diferente da Gaia que eu conhecia, era maternal, carinhosa e suave nos seus atos, nunca se zangada e era tão paciente que até o próprio tempo se curvava em frustação diante da sua sabedoria.
Dannu havia dado a luz a Merlin, mas não havia menção de quem seria seu pai. Nas lendas que eu conhecia, Sirius havia me contado que ele era tido como o filho de um succubus, um demônio, e que viria ao mundo pra causar uma grande desgraça, o que notoriamente, não aconteceu.
O resto mencionava com mais riqueza de detalhes a vida conhecida me Merlin, o fato dele ser mandado pra morte quando criança, e de profetizar uma guerra entre dois dragões, um vermelho que simbolizava os bretões e um branco, de acordo com ele, os saxões. Sua profecia se cumpriu, ele disse que o Dragão branco ficaria a frente no começo, mas o vermelho sairia triunfante ao final, o que se revelou verdade, quando Vortigern foi morto e o trono tomado por Ambrosius, depois Uther e então o grande Arthur. Que finalmente venceu os saxões.
O restante falava sobre como Merlin criou o lugar que depois foi chamado de Stonehenge, sobre a paixão de Uther por Igraine, e sobre como Merlin o ajudou a possui-la, se ele concordasse em dar seu filho a ele, como aprendiz. Sobre um pouco do treinamento do rapaz e sobre como obteve Caliburnius, retirando-a da pedra em que estava incrustada, seu brilhante reinado, como quebrou Caliburnius e adquiriu Excalibur, da dama do lago, uma das aprendizes de Morgana, que no livro era retratada como líder das sacerdotizas da lua, que criaram as brumas no passado pra que Avalon não se intrometesse mais nas guerras do mundo.
Depois que terminei de ler isso, pedi mais um pouco de grama para a esfera luminosa, agora de um jeito educado. O cofre pulsou de novo e a esfera novamente apareceu dançando em torno de mim, antes de sumir e deixar no chão um monte de grama, que sem demora transmutei em pão e comi.
Esse ritmo se seguiu pelo que depois eu tomei como meses, toda a história da descendência de Merlin estava descrita no Grimório, cada Merlin e seus nomes, além de seus filhos e esposas, feitiços antigos de Avalon, os poucos conflitos internos que já ocorreram, a cultura de Avalon, que era bem próxima a romana, mas tinha um toque celta e gaulês, como se fosse a origem dessas três culturas, que se ramificaram da principal, feitiços e fórmulas antigas, explicadas com uma riqueza incrível de detalhes. Eu passava horas praticando feitiços ofensivos e defensivos, cada um com suas singularidades, que seriam tremendamente úteis num combate.
Estige, que era o nome do Merlin que havia escrito o livro, também falava sobre meditação e rituais, um tipo diferente de magia, era parecida com poções, mas não se usava propriedades mágicas de certas Ervas, frutos e flores como esta usava, ela usava desenhos, alguns parecidos com os circulos de transmutação da alquimia que tinham o mesmo efeito de direcionar e moldar magia de uma forma diferente, mas também havia outros distintos. O elemento principal era o pentagrama, ele parecia ser o mais básico do básico nos rituais Merlinianos, como o livro os citava, também usavam velas, alguns sacrificios de sangue e outras coisa que a primeira vista pareciam macabras, mas depois se tornavam simples.
Naqueles meses eu havia ignorado a questão principal, que era como fugir daquele lugar, o Grimório me distraiu a ponto de quase esquecer disso, eu comia o pão que fazia por alquimia e bebia água que pingava das estalactites, fazendo poças em meio ao chão que havia ali, ou então enchendo cálices e urnas de ouro que eu havia espalhado ao redor, pra poder beber quando quizer. Achei aquilo meio ironico - beber água e comer pão, encima do ouro - mas já havia desistido de observar o quão cômica e deprimente era a situação. Até que um ritual me chamou a atenção, levantando a questão principal de volta a minha mente. Como eu fugiria dali.
O ritual era de movimentação, um ritual de transporte, que poderia me tirar dali. Fiquei animado com isso, exceto quando lembrei da estranha esfera luminosa que sempre providenciava o que eu pedia, e parecia cada dia mais feliz e satisfeita consigo mesmo, senti um pouco de pena mas desviei os meus pensamentos pra um rumo mais pratico. Sair dali, e procurar Avalon. Essa era a minha meta.
O ritual levou algum tempo pra ficar pronto, não por ser complicado mas por que eu tive que limpar um pouco o chão do cofre do ouro que havia ali, e também desenhar o grande simbolo, o mais exatamente possível. Muitos rituais Merlinianos precisavam de luz da lua pra serem feitos, e eu agradeci aos Deuses por aquele ser muito mais simples que isso.
Ele podia me levar pra qualquer lugar, e só precisava de um simbolo de base, um grande pentagrama com alguns simbolos mais elaborados em torno dele, velas nas cinco pontas da estrela, (taí outra coisa bem comum nos rituais daquele livro) e um sacrifício em sague do invocador, só uma gota já era o suficiente, não eram necessárias fórmulas mágicas, por que o próprio simbolo direcionava a magia. Como não era um feitiço, seria impossível fazer isso diretamente, já que eu não via nem podia sentir pra onde direcionar a energia, diferente da magia comum e da alquimia. Por esse motivo, mesmo sendo um mago eu necessitava de um catalisador mágico.
Quando estava pronto, peguei o Grimório, que a menor menção de ser levantado encolheu, assumindo novamente a aparência pequena, e guardei num outro bolso interno da capa, que parecia ter sido feito só pra guardar o grimório, por que tinha um fecho e era bem seguro. Além dele peguei também uma adaga com lamina prateada, que podia ser útil mais tarde, e o prendi na lateral do cinto.
Óbviamente, peguei também um punhado de galeões, não mais do que umas vinte mordas. Transmutei um saquinho e guardei comigo, num outro bolso interno da capa, ela parecia ter quantos bolsos eu precisasse, e nunca ficava suja, além de ser muito mais resistente que qualquer armadura. Era uma boa vestimenta.
O círculo já estava pronto, apenas faltava as velas, que transmutei de algumas moedas de ouro... Não, eu não senti a menor pena de fazer isso, depois de passar meses ali, tinha passado a odiar aquilo e qualquer coisa da mesma cor.
-incendio... - murmurei sem ao menos olhar pras velas, os pavius irromperam em chamas e eu andei ao meio do círculo.
Ele era bem simples, então não vou perder tempo tentando dar efeito ao texto, tudo o que eu tinha que fazer era canalisar minha magia como se fosse aparatar, imaginando o lugar pra onde devia ir. Sirius havia me ensinado a fazer isso, ele disse que era bem difícil do começo mas me pareceu surpreendentemente fácil, segundo ele, magos eram especialistas em feitiços que exigiam concentração, por isso eu havia me saído tão bem no patrono. Como eu comentei antes, manter um pensamento na cabeça e excluir o resto era tremendamente fácil, o passo mais simples e importante que já havia dado.
Senti um puxão no umbigo, e então era como se o mundo ao meu redor tivesse virado do aveço, eu estava no meio do vazio, sentia como se estivesse num carro a duzentos por hora, e por pura idiotice resolvesse colocar a cabeça pra fora, além de uma vertigem no estomago e um pouco de tontura. Mantive a imagem da floresta na cabeça com facilidade, até que senti o puxão se suavizar, e eu ia materializar de novo no mesmo lugar que tinha acordado ao fugir de Azkabam.
Isso é... Ia...
Senti um outro puxão e um toque diferente na magia do ritual, como se alguma coisa estivesse interferindo. Meus pensamentos ficaram nublados, e eu perdi a conciêcia, sentindo minha cabeça martelar mesmo enquanto dormia, outro ponto ruim em ser um mago, você nunca dormia realmente, ainda tinha uma partezinha insignificante da sua mente que se preocupava em ficar ligada o tempo todo, e essa faceta me dizia que não tinha me materializado na floresta, não... Era um lugar que, apesar de ser parecido com onde eu queria ir, era completamente diferente, por um fato extraordinario, apesar de muito, mas muito simples.
Não era mais o meu mundo.