O grande problema de se fugir de Azkabam... bem, na verdade haviam muitos problemas, mas alguns deles se destacavam por serem realmente problemáticos. Todos os prisioneiros eram presos com grilhões de aço feito por duendes que tinham a propriedade de constantemente ir sugando sua magia, deixando o suficiente apenas pra que você permaneça vivo, esse grilhão estava ligado a uma bola bem pesada de metal, que dissipava essa magia no ar, os bruxos não tinham a menor ideia de como isso funcionava, mas compravam por que era bastante efetivo.
É claro que por ser um pirralho de dez anos, sem varinha e cercado por dementadores, eu não precisaria disso... Pelo menos era isso que os cárceres pensavam, e eu agradecia que fossem arrogantes a ponto de me dar uma chance de fugir.
O meu feitiço acertou o maior cárcere, o excapuzado, que caiu no chão com a sombra do seu último sorriso sádico ainda no olhar. O cárcere francês (eu havia o apelidado assim, pelo menos servia pra diferenciar um do outro) continuou sorrindo de um jeito meio sem vida, enquanto o corpo do seu parceiro caía no chão. Parecia que eu estava vendo as coisas em camera lenta, eu vi o guarda caindo enquanto o feitiço o acertava e vi uma sombra de incredualidade passar pelos olhos do cárcere, eu vi uma tensão no seu ombro quando ele fez menção de pegar a varinha e vi o ódio brilhar nos seus olhos, o sorriso se arreganhando numa careta deformada.
Mal ele tirou a varinha das vestes eu o desarmei. A varinha voou e veio parar em minhas mãos, enquanto os outros prisioneiros nas celas faziam escandalo, gritando a plenos pulmões: "Fuga de prisioneiros! Fuga de prisioneiros!". Sirius havia me contado que seria mais ou menos assim quando estavamos planejando tudo, eu não entendia o que eles tinham a ganhar com isso, mas o caso não era esse, como Sirius mesmo havia me dito depois. Não se trata de ganhar, quando um homem esta no fundo do poço ele não admite que ninguém a não ele saia de lá.
O frio no lugar aumentou de uma hora pra outra, como se a felicidade estivesse sumindo do mundo, curiosamente essa era uma comparação muito boa em meio as outras tantas ruins que tenho feito até agora, mal havia se passado um segundo desde que o guarda tocara o chão e o cárcere de fala macia estava se virando pra correr.
-Imóbilus!
Ele travou no lugar e caiu duramente no chão, a mandibula trincada e os olhos se mexendo furiosamente nas órbitas, já que era a única coisa que ele poderia mexer. Sem perder tempo joguei a varinha pra Sirius, e ele quebrou os grilhões que sugavam sua magia. Estava muito fraco pra fazer magia sem varinha, mesmo sendo muito mais forte que eu, e a varinha serviria melhor pra ele, já que no meu caso, se usasse uma provavelmente não conseguiria controlar, segundo Sirius, se usasse uma varinha sem primeiro aprender a reprimir os meus poderes não conseguiria impedir a liberação de magia, e provavelmente explodiria aquele andar inteiro. Por isso não me preocupei em recolher a varinha do guarda encapuzado, e nem em matar o cárcere mais gentil, seria imprudente deixa-lo vivo depois de tudo mas era isso ou perder mais tempo, e tempo era exatamente o que nós não tinhamos. Parecia frio alguém pensar dessa forma, ainda mais um garoto de dez anos, mas era questão de prioridade, primeiro eu sairia dali, depois ficaria decidindo se fizera o certo ou o errado, era muito mais fácil ponderar filosoficamente sobre as escolhas da sua vida tomando uma chicára de chá em frente a uma lareira que numa cela fria e suja de prisão.
Sirius se transformou num cachorro e passou por entre as grades, logo depois voltando a forma humana enquanto eu saía pelo portão da cela, que os cárceres deixaram aberta ao entrar. Essa éra a melhor oportunidade - mais exatamente, a única - que nós teriamos, então era melhor - pra nós - que desse certo. Por onde passavamos correndo o mais rápido que podiamos, os comensais berravam e batiam nas grades, denunciando a nossa posição aos dementadores, que estavam se aproximando por causa do frio surreal que estava ali, aurores também estavam aparecendo do nada, lançando feitiços que nós desviavamos com dificuldade, eu parecia estar vendo as coisas em camera lenta de tanta adrenalina descarregada no meu sangue, mas no fundo estava contente comigo mesmo.
-Eu disse que iamos conseguir Sirius! Eu te disse! - gritei enquanto desviava de feitiço estuporante e acertava um bombarda no peito do auror que quase me nocauteou. Sirius havia me falado da Ordem da fênix, e eu não reconhecia nenhum membro entre os vários aurores que já tinhamos derrotado... Não que fizesse muita diferença.
-Ainda não conseguimos garoto! A parte difícil vem agora!
-Então essa era a parte fácil?!
-Não tem parte fácil! - ele gritou com um meio sorriso que não combinava com a situação, mas que no entanto combinava perfeitamente com ele.
Viramos a direita ainda correndo como loucos, o frio endurecia meus músculos e ficava difícil de mexe-los. Durante aqueles três anos preso meus músculos tinham atrofiado, então correr era um esforço insanamente maior do que seria normalmente, a principal prioridade assim que fugissemos e estivessemos devidamente assentados, de acordo com o meu padrinho, seria me ensinar quadribol. Os presos continuavam fazendo barulho e os aurores continuavam aparecendo, eu queria evitar fazer um patrono por que exigia muita magia, então o ideal era escaparmos evitando os dementadores.
O problema é que isso era virtualmente impossível.
O ponto que mais dificultava e me dava raiva eram os prisioneiros idiotas que não calavam a boca, e ficavam esguelando como loucos denunciando aonde estavamos. Não haviam só humanos nas celas, criaturas que antes só se podiam ver o brilho vermelho dos olhos em meio as sombras agora gritavam e berravam, socando as grades das celas, vampiros, lobizomens, e dezenas de outros monstros que pareciam ter saído de um filme de terror contunuavam dificultavam a nossa fuga. Eu já estava sentindo uma pontada no peito de dor, e minhas pertas queimavam, mas eu mantia o ritmo sem diminuir nem um pouco, tinha a terrível sensação que se parasse nem mesmo por um segundo não conseguiria mais correr, e aí seria o fim. Sirius também parecia cansado, ele havia sido um homem muito forte, mas os nove anos sem fazer nada acabaram com o seu corpo, a longa barba negra e os cabelos desgrenhados e sujos como os meus caíam a frente dos seus olhso, que mostravam um misto de medo, urgência e um pouco do seu insano senso de humor, parecia que até nas piores situações ele conseguia encontrar algo engraçado.
Por um tempo apenas corremos e não apareceu mais nenhum guarda ou auror pra nos enfrentar, encontramos escadas e descemos por elas, até que vimos a razão da ausência dos aurores abaixo de nós. Azkabam era uma prisão considerada impossível de escapar, já que ninguém nunca havia feito isso antes, então o ministro da magia superestimava a competência do diretor, que dispunha de cada vez menos guardas pra monitorar os prisioneiros regularmente. Infelismente pra nós esse numero relativamente pequeno ainda era muito grande.
Em baixo da escada, apontando a varinha diretamente pra nós, havia sete aurores, todos com sorrisos arrogantes e doentes no rosto. Dei um passo pra trás nervoso no mesmo momento, enquanto Sirius fez uma expressão curiosa. Ele fez mencão de levantar as mãos e as bateu uma na outra com força, em seguida na parede, por um segundo nada aconteceu e os aurores olharam um pro outro rindo, até que o chão tremeu fortemente, parecendo um terremoto.
-Avada Kedavra! - gritaram vários aurores ao mesmo tempo, mandando vários jorros de luz verde na nossa direção.
-Reflexus Expelius! - gritei, estendendo as duas mãos pra frente.
Uma abóbada dourada se formou entre nós, era uma feitiço defensivo mais poderoso que protego, que eu havia aprendido, baseado numa técnica coreana que haviamos combinado com uma fórmula inglesa. As maldições imperdoaveis bateram no escudo e foram refletidas, acertando parte da parede que começava a ruir, Sirius estava ainda todo duro e sério, com o olhar vago enquanto mantia um fluxo de magia para a alquimia. As paredes todas ruiriam e começaram a flutuar, se moldando em torno de nós, soterrando os aurores e girando rapidamente, quase me fazendo cair enquanto uma cena nova aparecia na frente dos meus olhos:
Era pra estarmos no décimo quinto, ou décimo sexto andar da torre, mas agora estavamos bem abaixo, próximo a uma grade que mostrava o céu da noite. Perdi alguns segundos olhando deslumbrado pra aquele céu, mas antes que pudesse sequer entender que aquele pedaço negro de espaço era o céu, Sirius me puxou praque eu voltasse a realidade. Desatamos a correr por um corredor paralelo a entrada que ele tinha feito com alquimia, ele havia criado uma espécie de elevador, feito uma esfera de pedra e a impulsionando pra baixo através dos andares, eu fiquei pasmo quando percebi aquilo e gritei, ainda correndo como louco.
-Sirius! Isso foi...
-Íncrível, eu sei - ele sorriu radiante, mesmo que ainda correndo - Fuja agora, me elogie depois!
Continuamos correndo, descendo as escadas e acabando sem hesitação com todos que apareciam na frente, a única forma de conseguirmos escapar era não pensar em nada e correr o mais rápido possível, não era possível aparatar dentro da prisão, segundo Sirius Dumbledore em pessoa havia enfeitiçado aquele lugar, junto com vários outros professores de Hogwarts na época, por isso era considerada impenetrável, camadas e mais camadas de dezenas de feitiços diferentes com chaves diferentes, até mesmo Voldemort teria dificuldade pra entrar ali, e não o faria se tivesse outra escolha.
Quando chegamos na base da ilha, meus pés estavam congelando e eu não conseguia pensar direito, o frio era surreal, muito maior que o pior frio que eu jpa havia sentido antes, era como estar nadando num rio do polo norte só de cueca. Sirius pareceu sentir o mesmo tremer de desespero percorrer sua espinha mas se manteve firme, e me puxou com ele, me impulsionando a andar cada vez mais, por mais difícil que fosse.
-Bombarda Máxima!
Ele apontou a varinha pra entrada improvisada por onde tinhamos saído e a fechou de novo, nos daria uma pequena parcela de tempo, mas teria que ser o sufuciente.
Eu estava morto de medo e não me lembro ao certo do que aconteceu naquele momento, não passou de alguns minutos mas pareceram horas, Sirius tentou fazer várias vezes um patrono pra espantar os dementadores, por que com eles ali ele não conseguiria aparatar, eu lembro de ver um cão de luz esbranquiçada correndo por entre os dementadores e logo depois sumindo, lembro de ver meu padrinho cair de joelhos, a expressão muito pior do que exausta, e lembro de ter desobedecido ele, peguei sua varinha antes de ter o treinamento correto.
Me lembrei de tudo, de todas as lembranças felizes e todas as lembranças boas que eu tinha. Vi a mim mesmo sentado numa lareira com Sirius comigo, ou então nós almoçando juntos, vi a mim mesmo entrando em Hogwarts e Sirius me dando os parabéns, dizendo que estava orgulhoso de mim, e rindo comigo. A maior parte das lembranças eram apenas sonhos e fantasias, mas como eu fui descobrir depois, não importava a lembrança. Importava o sentimento.
Abri meu fluxo de magia e o direcionei pra varinha, ao mesmo tempo em que gritava:
-EXPECTO PATRONUM!
Senti meu corpo queimar como se metal derretido corresse nas minhas veias em vez de sangue, como se a minha própria magia estivesse me corroendo por dentro. Era tanta energia, tanto poder, muito mais do que eu já sonhei em ter alguma vez. Senti a varinha despedaçar nas minhas mãos em estilhaços minusculos por não aguentar um fluxo de magia tão grande, e um jorro de luz subir aos céus iluminando toda a ilha, até as estrelas brilharam mais fortes quando um enorme lobo feito de fogo azul correu entre os dementadores. Os que estavam mais longe fugiram no mesmo instante, enquanto os mais próximos simplesmene queimaram e desapareceram, sendo destruídos pela presença grandiosa daquele ser, o lobo percorria os céus, deixando um traço enorme de fogo atrás dele, a luz era como se uma estrela cadente estivesse passando bem encima de nós, era uma explosão de poder que Sirius olhou maravilhado, eu não podia acreditar que tinha conjurado aquilo, simplesmente não fazia sentido. Os olhos dele eram verdes como os meus, e queimavam, deixando rastros verdes de labaredas pelo ar, era como estar diante de um Deus, eu simplesmente não tinha comparação melhor pra fazer. Não lembro bem o que aconteceu depois, desmaiei de exaustão e cai na areia da ilha conforme toda a magia do meu corpo foi fluindo lentamente até quase acabar. Minutos, ou horas depois me senti ser içado do chão e ser carregado, enquanto o fogo do patrono se dissipava e o logo desaparecia no céu, mesmo depois de ter sumido nenhum dementador voltou ali, ainda era possível sentir sua presença, um arrepio ainda percorria minha espinha quando apaguei
Quando eu acordei estava frio, muito frio e molhado e eu tive dificuldade em lembrar de qualquer coisa por que minha cabeça doía muito. Minutos depois a dor foi passando e eu reparei onde estava. Na verdade levou vários minutos pra entender onde eu estava por que minha mente, mesmo ampliada como estava, simplesmente não conseguia computar a imagem na minha frente.
Céu... Era o céu.
Por cima das copas das árvores, onde as folhas farfalhavam por causa do vento gelado, estava aquela imensidão azul marinha adornada de estrelas. Eu fiquei muitos minutos e teria provavelmente ficado horas observando aquilo, meus olhos encheram de lágrimas e eu teria chorado como uma criança se Sirius não houvesse gemido ao meu lado.
Quando nos sentimos muito felizes, parece que nosso peito se aquece, meu coração parecia que ia explodir quando praticamente pulei encima do meu padrinho gritando seu nome e o chacoalhando, ele levantou dizendo alguns palavrões depois disso e então ficou mudo. Pouco depois seus olhos marejaram.
Sirius simplesmente gritou, gritou e tampou a boca com as mãos, chorando bastante enquanto caía de joelhos no chão. Estavamos chorando como crianças sem nos importar em fazer nenhum barulho, era tão lindo, era o paraízo e estavamos o vendo pela primeira vez, nos abraçamos e giramos, dançamos e pulamos, e ficamos simplesmente gritando até que nossa garganta começasse a doer, tudo pra tentar estravasar aquela alegria. Eu senti alguma coisa rugir dentro de mim, senti o lobo que era meu patrono gritando junto comigo, quanto mais feliz eu estava mais forte eu o sentia, era quase como se pudesse vê-lo, como se ele estivesse sempre ali. Durante muitos anos a lembrança daquele céu iria produzir o melhor e o maior dos patronos. O dia em que eu vi o céu pela primeira vez...
Eu ainda não sabia, mas em pouco tempo aquela infinidade azul marinho iria ser muito familiar pra mim, iria fazer parte da minha própria natureza de uma forma que seria difícil nos diferenciar.
Depois que a euforia passou, me sentei na grama, o orvalho, o cheiro da floresta, das árvores, das flores, eu fiquei um bom tempo perdido nos meus pensamentos apenas apreciando o lugar onde estavamos. Sirius parecia estar fazendo o mesmo, e eu tinha a impressão que demoraria pra se mexer por conta própria, se eu não tivesse quebrado o silêncio.
-O que vamos fazer agora Sirius?
Ele olhou pra mim e chegou mais perto, sorrindo e afagando a ponta do bigode, um gesto esquisito e ao mesmo tempo elegante que tinha lhe rendido o apelido de "Almofadinhas".
-Vamos ao banco, oras...
Amanhecia mais uma aurora em Londres, o cheiro de chá era perceptível pra qualquer um que tivesse um olfato melhor que a maioria, as ruas Inglesas eram movimentadas, carros e onibus de três andares circulavam pelas ruas e avenidas de pedra ou asfalto, e desse mesmo onibus, descia agora um garotinho, não devia ter mais de dez anos pelas feições, mas era da altura de alguém de oito, muito magricela. Mesmo assim andava sozinho, usava um jeans velho, quase branco de tão gasto, rasgado e desfiado no joelho esquerdo, um par de tênis também brancos, mas meio sujos, e uma camisa preta, com uma jaqueta por cima, os cabelos pretos como piche, mais ainda que a camiseta caíam por cima dos óculos escuros, dando uma aparência selvagem e exótica a ele. Numa mão levava uma bengala, que usava pra averiguar o caminho, e na outra a coleira de um cachorro preto, o cão guia de um cego.
Por onde ele passava, as pessoas se afastavam um pouco surpresas, já era estranho um garoto daquela idade caminhar sozinho nas ruas, ainda mais um cego, mas ele caminhava com tanta confiança entre as pessoas, e ninguém parecia querer se aproximar dele, era como se ele emanasse alguma coisa, uma áura de perigo, algo que pratigamente gritava "Fique longe!"
Mesmo assim ele continuava caminhando, cortando a população, até parar entre duas casas, num estabelecimento velho e de aparência assustadora, que ninguém parecia prestar atenção, quase como se não fossem capaz de vê-lo. O garotinho entrou na estalagen, dentro dela, todo tipo de pessoas estranhas e inimagináveis tomavam chá ou fumavam cachimbos nas mesas, lendo jornais. Pessoas em vestes estranhas, espalhafatosas e de cores berrantes, algumas com chapéus pontudos, outras com longas barbas, anéis nos dedos e outras coisas. Todos no bar ficaram quietos com sua presença, olhando curiosos pra ele. O cego correu os olhos pelo lugar, como se realmente nchergasse, e sem dizer nada, saiu tateando por lá, ninguém disse nada mas todos os seguiram com os olhos, ele parou no fundo do bar, conde tinha uma parede de tijolos.
-Qual a senha mesmo Sirius?! -O garoto perguntou sussurrante.
-"Três abaixo, mais três a esquerda, mais três e três a direita..." -o cachorro falou ao velho verso, num tom grave e sussurrante, por mais incrível que parecesse.
O bateu com o cós dos dedos nos lugares onde o cachorro havia indicado, depois deu um um passo pra trás, conforme os tijolos se reagrupavam, e um portal aparecia ali.
-Uau... -o garoto olhou tudo, por trás dos óculos.
O cachorro dessa vez se limitou a latir, e fez um gesto com a cabeça indicando pra eles continuarem. O garoto de cabelos cor de piche seguiu por entre as ruas apertadas do beco diagonal, controlando o impulso de girar a cabeça pra olhar para tudo, ali era incrível, ele queria ter duas cabeças pra poder olhar pra dois lados ao mesmo tempo. Havia lojas de caldeirões e igredientes pra poções, uma loja de doces que exalava um cheiro maravilhoso aos sentidos apurados do rapaz, lojas de varinhas mágicas, o Olivaras, era famoso. E a sua frente, se erguendo imponente para o céu, sustentado por colunas gregas tortas que dava a impressão que a qualquer momento iria ao chão, o banco dos bruxos. Gringotes.
Uma coisa me distraiu, mas eu encarei só como uma mau agouro e engoli em seco, num poste, um grande folheto exibia a foto do meu padrinho, segurando as grades e urrando pra quem tirava a foto, seus olhos transmitiam raiva e brilhavam insanos, uma imagem bem assustadora. Embaixo da foto, uma inscrição:
Procura-se vivo ou morto, Sirius Black, condenado por matar teze pessoas num bairro trouxa, partidario fiel Daquele-que-não-deve-ser-nomeado.
Deixei o cartas de lado e segui para a entrada do banco, eu havia ensaiado a cena várias vezes em meio a floresta com o Sirius, como deveria andar, me portar, o que deveria dizer, enfim. Mas nada me prepararia pra aquilo.
Entrem estranhos, mas prestem atenção
Ao que espera o pecado da ambição,
Por que os que tiram o que não ganharam,
Terão é que pagar muito caro,
Assim, se procuram sob o nosso chão,
Um tesouro que nunca enterreram,
Ladrão, você foi avisado, cuidado,
Pois pode encontrar mais do que procurou.
Aquela sensação provocou um arrepio pela minha coluna, não sei por que, mas estava tendo uma péssima impressão, como um mal agouro. Fiquei estático durante alguns segundos, até que um latido de Sirius fez eu acordar e voltar a andar.
Entrei no banco, era um belo lugar, todo feito de marmore branco e pedras, e resplandecia a riqueza. Duendes apressados passavam por todo lado, alguns pesavam jóias e ouro em imensas balanças de latão encima dos balcões, outros escreviam em livros caixa, ou examinavam itens estranhos com óculos de joalheiros, havia várias portas mais a fundo, e vários duendes acompanhavam pessoas que entravam e saíam por elas.
Caminhei até o balcão, que por acaso era bem maior que eu, onde Sirius latiu pra chamar a atenção. Um duende com náriz fino e longo deixou o que estava fazendo, e me olhou de cima abaixo com os olhinhos míudos, inteligentes e até meio malvados, enquanto eu apenas encarava o balcão, como um bom cego faria.
-Bom dia... Vim sacar o conteúdo do cofre dos... dos Potters... -eu disse baixinho, sem olhar pra cima, mas pelo som até o duende demonstrou surpresa, a qual passou rapidamente por trás de sua careta profissional de constante desagrado.
-E o Sr. Potter tem a chave?! - ele sussurrou, se aproximando mais de mim até quase cair de cima do balcão, pra falar com discrição.
-Não... -eu disse- pelo que soube o banco se escarregou de guarda-la, até que o dono viesse busca-la.
-Sim... Mas pra isso precisaria do responsável legal -o duende disse, pelo tom de voz dele, eu tinha certeza que ele já sabia de todo o nosso plano- Senão seria impossível...
-Será que podemos falar a sós?! - eu tornei a dizer, achei curioso ninguém estar prestando atenção na nossa conversa sussurrante, mas não ia reclamar da sorte.
-Sim, claro, me acompanhe...
O duende pareceu pular de seu banquinho, ele era até mais baixo do que eu, e o jeito que andava era esquisito. Ele veio até mim, e tocou meu ombro, me orientando pelo caminho até uma sala com uma ríspidez educada.
-Por aqui senhor...
Ao entrar na sala, que parecia mais um lugar para arquivos com iluminação precária, o duende apontou uma cadeira.
-Muito bem, o que quer tratar?
Sirius ao meu lado mudou de forma, e eu tirei os óculos, a expressão do duende continuou neutra, como eu pensava, ele já sabia que éramos nós.
-Eu sou Sirius Black, responsável legal por Harry Potter até os dezoito anos, conforme desejo de seus pais antes de morrer.
-Ah sim, então esta tudo em ordem.
Eu lembro que quando Sirius me contou o plano dele, eu perguntei se ele estava louco, por que ele planejava se mostrar aos duendes. mas segundo ele, estes não ligavam muito pra leis bruxas, permitiriam que nós entrassemos tranquilamente, e sacassemos o que era nosso, mas com certeza ao final nos denunciariam, eles prezavam mais suas próprias regras, e a inimizade com os bruxos não ajudava.
-Por aqui Senhor, Grampo! -Chamou o duende, e outro duende apareceu, ele também carregava uma expressão de constante desagrado- Leve o Sr. Potter até o cofre de sua família, aqui esta a chave.
-Sim senhor - o duende que nos acompanhava abriu um sorriso maldoso que eu não entendi, ainda mais por que durou só um segundo, ao qual Grampo correspondeu, e logo depois voltou a expressão profissional de sempre. Por uns tempos eu imaginei que aquilo fosse minha imaginação.
A chave era diferente do que eu imaginava, mas Sirius apenas piscou o olho de cachorro, era grande, devia ter uns vinte centímetros de comprimento, e parecia bem pesada, mas o duende a pegou com uma única mão, guardando dentro das vestes, e nos indicando o caminho para uma porta de mármore negro, assim como as outras, lá dentro era muito escuro, parecia a entrada de um túneo, e as paredes ainda eram de pedra.
Grampo assobiou, e esperou, alguns momentos depois um barulho ao longe foi aumentando, até um grande vagonete estar a nossa frente, iluminando os trilhos com a luz escassa de um lampião. Ele indicou pra que entrassemos, e veio logo depois, assobiando. Sirius, ainda na forma de cachorro, só teve tempo de falar "Se segure", antes do vagonete disparar pelos trilhos.
Eu nunca tinha estado numa montanha russa, mas se já tivesse ido, poderia comparar aquilo a uma. O carrinho disparava a toda pelo caminho sinuoso os trilhos, as rodas rangiam bastante, dando a impressão de que o carrinho iria sair a qualquer momento dos trilhos, o duende parecia tranquilo, e mesmo Sirius não se mexia demasiadamente, a não ser pra acompanhar as curvas do carrinho. Demorou vários minutos pra parar, e quando parou, eu estava suado, e me agarrando ao assento com tanta força que o nós dos meus dedos estavam brancos.
-Por aqui por favor.
O duede saiu e esticou o braço, indicando pra sairmos também, ali havia vários cofres, todos com portas metalicas cor de cobre enferrujado, e com fechaduras estranhas, fiquei imaginando qual era o meu. Ele andou até um no meio de muitos, que eu provavelmente nunca reconheceria, e puxou uma chavinha pequena das vestes, havia mais de cinquenta buracos de fechadura pelo que eu podia ver, mas ele nem pestanejou em qual escolheu, girou a chavinha, e um trilho de laminas de metal apareceu, o duende inseriu a unha ali, e correu por toda a estenção do risco, depois disso deu dois passos pra trás, enquanto a porta dava vários cliques indicando que estava abrindo.
-Esse é o meu cofre?! -Eu perguntei empolgado, ta certo que era uma pergunta idiota, mas eu tinha apenas dez anos...
-Não -respondeu Sirius, me surpreendendo, ele estava ao meu lado de volta a sua forma humana- Este é o caminho para o seu cofre...
-Caminho?!
-Sim. -disse agora o duende- A família Potter é provavelmente a mais antiga que tem registro nesse banco, possui vários cofres para ouro, e este cofre principal, que é o que vamos visitar agora.
Fiquei meio bobo por um minuto, segundo ele estava dizendo, eu era rico. Tive que rir com esse pensamento, Eu?! Rico...
-Se qualquer um que não fosse um duende tivesse tentado fazer isso- disse Grampo apontando para o trilho de fechaduras, óbviamente tentando mudar de assunto pra acabar com minha estupefação... É, os duendes não eram bons nisso - seria engolido pela porta e ficaria lá dentro.
-Com que frequencia vocês vem conferir se tem alguém aqui dentro?! - engoli em seco.
-Uma vez a cada dez anos- respondeu o duende com um sorriso maldoso.
Dentro do cofre havia um outro trilho, com um outro vagonete. Amaldiçoei inteirormente os duendes desse banco, e sentei de novo, disparando a toda pra baixo. Muito abaixo.
Depois do que pareceram minutos, chegamos ao ponto de saída. O duende desceu do vagonete, indicando o caminho pra nós. Eu estava verde de enjoou e Siriu parecia se divertir com isso. Até que um rugido alto se fez ouvir, uma coisa que eu me lembraria durante muito, muito tempo...
O duende em sua sala pensava. Duendes eram criaturas honestas por natureza, mas nem tanto... E todo aquele ouro... ladrões de obras primas de duendes...
Lá embaixo, um grande dragão vermelho sangue berrava, eu já tinha descido do vagonete, e Sirius tentou me puxar de volta, mais o duende no carrinho o empurrou com o pé, e ele caiu encima de mim, havia duendes nos cantos da enorme caverna, vários archotes iluminavam tudo, e havia apenas uma meia dúzia de portas enormes de metal, mas o dragão não parecia perceber os duendes assustados que o incitavam a parar, seu rosto era coberto por cicatrizes, e no lugar dos olhos, havia apenas mais duas queimadas em cruz, era assustador.
-O que você esta fazendo, Grampo?! - gritou um dos duendes, eles normalmente já pareciam assustadores, quando estavam com raiva era pior ainda.
Grampo se limitou a rir e fechar a porta, antes que ela encostasse e nos selasse na escuridão, ele gritou:
-Ordéns do chefe!
Outro rugido, mais alto que o primeiro se fez ouvir, ecoando nas paredes da caverna de pedra. Tentei me levantar, pensando em como iria lutar contra aquele dragão, algo no meu interior se remexia e eu podia sentir outra ponta de conciência na minha mente, que apesar da confusão do momento, eu soube que pertencia ao lobo de fogo azul, o meu patrono. Os duendes portavam sinos, e varas de aço com a ponta em brasa, eles chacoalhavam os sinos tentando conter o dragão, mas em vez de parar, ele cada vez parecia mais nervoso. O dragão deu uma patad pra frente e pisou num duende, deixando no chão um bolo de carne esmagada irreconhecível, sangue e roupa destruída. Quase vomitei quando vi aquilo. Ele rugia e soltava baforadas de fogo, acabando um a um com os duendes, que tentavam contê-lo ou escapar sem nenhum sucesso. Estava me levantando do chão pra tentar ajudar os duendes quando senti ser suspenso no ar, Siriu havia me pegado pelo cangote, e agora corria em direção a uma porta em específico, uma que estava atrás das patas do dragão.
Uma pessoa comum não teria reparado, mas enquanto a maior parte da minha mente se preocupava com o dragão, uma faceta ficou observando o banco, ela reparou que a minha porta era enorme, se fosse comparar diria que era como o portão de um castelo, além de ser totalmente dourada e ter um brasão em alto relevo, que eu não consegui identificar no começo, era algo como uma estrela de cinco pontas.
Afinal... -pensou o duende- Se eles morressem tentando assaltar o banco, o ouro e relíquias iam para o próprio banco... Era injusto, mas ele estava falando de bruxos, eles não mereciam justiça, eram meros ladrões... Ladrões de relíquias e artefatos de duendes. Ter que proteger aquelas relíquias deles mesmos nas mãos de outros era vergonhoso, ele não faria isso, mesmo eles sendo quem eram...
Quando eu acordei estava doendo... Muito...
-SIRIUUUUS!
Eu levantei berrando, mas meu corpo inteiro queimava e eu deitei de volta no chão, gritando tanto que pensei que minhas cordas vocais fossem estourar. Ouvi um urro de dor e esqueci por um segundo o que havia acontecido, até eu notar que esse urro vinha de dentro da minha mente, era o meu patrono gritando comigo. Estava escuro, eu tombei de lado, e sem conseguir segurar a ância, vomitei no chão de pedra daquela caverna, tudo estava silencioso, eu o chão de pedra lembrava Askabam. Eu imaginei se tinha voltado a prisão, e por um momento agradesci quando percebi que não estava lá, mas no segundo seguinte, quando a memória veio a tona daria qualquer coisa pra nunca ter saído da minha cela, nunca ter fugido.
Eu cai de joelhos e gritei, gritei mais, tentando estravasar aquela dor. Eu poderia ser atingido por mil maldições, poderia ser rasgado ao meio e ainda sim não doeria tanto, naquele momento eu odiei tudo, odiei tudo o que havia a minha volta me lembrando do que tinha acontecido, queria matar aquele duende, queria rasgar sua garganta e ver o sangue jorrando, fiquei nesse estado de insanidade por horas, até que percebi que estava quase odiando Sirius também, o odiando por existir e me causar tanta dor. Por um momento eu o odiei, queria poder odia-lo, desejar que ele nunca tivesse existido pra não ter que sentir aquela dor monstruosa.
Mas com a mesma rapidez que veio, passou. O ódio passou, e só sobrou a dor, sangue escorria pela minha boca e parecia que eu tinha engolido laminas de barbear de tanto que minha garganta doía. Eu não consegui falar, não consegui gritar, tudo o que eu consegui foi me sentar no chão, e lembrar o que tinha acontecido...
Senti ser içado do chão, e Sirius correu em direção ao dragão, as coisas pareciam em camera lenta, os duendes que restavam gritando assustados, o Dragão rugindo... o fogo...
"Qualquer um que não seja um duende que tentar fazer isso, seria engolido pela porta, e ficara ali dentro..."
A porta estava bem a frente, e o dragão perto demais de nós, o calor era grande demais. Siriu correu desesperado até a porta, e encaixou a chave numa fechadura, a virando com força. Um grito de dor soou perto demais do meu ouvido, era Sirius, o dragão tinha dado a volta e o acertado com o rabo, a pancada foi tão forte que eu fiquei tonto. Tentei desesperadamente fazer alguma coisa, me mexer e sair dali, mas meu padriho me empurrava em direção a porta, e me prendia ali contra o próprio corpo, usando-o como um escudo pra me proteger. O trilho de laminas apareceu na porta, e Sirius enfiou o dedo ali, forçando pra baixo, sangue escorria do seu dedo conforme ele abria as fechaduras, forçando o próprio dedo contra o metal afiado, uma cena que por si só deixaria qualquer pessoa aflita, mas acompanhada da chacina que estava acontecendo, a deixaria insana. Então mais um grito de dor, o calor, e o escuro... E um único murmúrio entrecortado e abafado de dor: "Procure... o livro..."
E então nada... nada...