Quando acodei, não levantei de imediato. Fiquei deitado na minha cama esperando minha tia vir me chamar, ou melhor, me expulsar da cama pra preparar o café. Ela sempre me chamava cedo, então ainda devia ser madrugada, estava frio e escuro, e isso sustentava minha teoria.
Continuei deitado por vários minutos, sem sequer me mecher ou abrir os olhos, estranhei o fato de não sentir vontade de fazer nada disso, sabe aquela tensão que percorria os músculos quando você ficava parado por muito tempo?! Eu não estava sentindo nada daquilo, abri os olhos pensando nisso e gritei de susto, quase pulando de onde eu estava. Me encarando, com olhinhos negros e míudos a poucos centimetros dos meus olhos havia um grande rato cinzento.
Eu não tinha medo de ratos ou baratas, mas ver um tão perto de mim me assustou por um segundo. Eu estava agora sentado no chão de pedra da minha cela, olhando o ratinho farejando no meio da palha e...
Espera um pouco...
Olhei ao redor abismado, depois esfreguei os olhos e olhei de novo, eu não estava no meu armário, estava num lugar grande, escuro e frio. Onde eu pensava que era minha cama estava um amontoado de palha em meio a rala areia que cobri o chão frio, de certa forma o deixando mais frio ainda. Por um minuto eu fiquei com medo, até que as lembranças do dia anterior ficaram claras na minha cabeça, e eu acabei relaxando. Deixei meu corpo escorregar pela parede até o chão, olhando ao redor, estava tudo escuro, e no meio dessa escuridão alguns olhos vermelhos brilhavam. Acabei me aproximando mais da cela do meu padrinho instintivamente, mas ele ainda estava dormindo, e não parecia que acordaria tão cedo.
Os minutos foram passando até se tornarem horas, apesar de eu tremer de frio e um pouco de medo o tempo todo, minha mente não parecia disposta a se contentar apenas com isso, de forma que ficava buscando memórias na minha cabeça, ou seguindo por fios de racíocinio inúteis um atrás do outro. É meio (mentira, é completamente) difícil explicar como meus pensamentos fluíam na minha cabeça, eu não sabia palavras suficientes, mas podia ficar mais fácil se eu dividisse minha mente em duas. Tinha a parte A, que estava totalmente concentrada em me fazer tremer de frio e medo, e a parte B, que era um pouco menos conservadora que a outra metade da minha cabeça, e se preocupava com coisas mais inusitadas, por exemplo, em tentar entender como a própria cabeça (minha no caso) funcionava. Foi também ela que bolou esses dois nomes ridículos, e a parte A não gostou muito deles.
Voltando...
Na minha cela, que seria no caso a repartição do meio de uma grande cela, tinha uma janela bem pequena no alto, quase encostada no teto. Ela era retangular, e o pouco de luz que passava por ali iluminava próximo a porta de metal da minha cela, me levantei do canto escuro onde eu estava até então sentado, e me aproximei daquela porta, tentando enxergar o céu por aquela pequena janela. Sabe aquele sentimento terrível de perda que você sente quando perde algo que era tão comum e tão real que nunca sequer imaginou que faria tanta falta?! Não. Vocês não sabem como é. Não sabem dizer como é olhar a luz do sol frio da madrugada e as nuvens e sentir lágrimas brotando nos olhos, estando preso dentro de uma pequena e fria cela de prisão, tendo apenas sete anos de idade. Eu poderia chorar, poderia gritar e esmurrar as paredes, até me cansar, mas tudo o que eu fiz foi deixar a trilha de lágrimsa escorrer silenciosamente pelo meu rosto, eu não tinha vontade de gritar, sabia que não adiantaria em nada.
Ainda estava olhando a luz morna do sol que havia acabado de nascer, Sirius havia me dito ontem que Azkabam era uma torre, e nós estavamos a uma boa distancia do chão, mesmo não sendo nem na metade da altura total dela. O sol já estava subindo, então deveria ser oito, ou quase nove horas da manhã, horas depois de eu ter acordado, quando ainda estava escuro, de outra forma a luz do sol não alcançaria aquela altura da torre. Estava apreciando a imagem das nuvens passando através das barras negras quando senti um aperto no pescoço, dedos que pareciam ser de ferro apertando minha nuca, e me tirando o pouco ar que eu tinha. Me debati, chutando o ar e tentando puxar uma lufada de ar pros pulmões, quando a mão me soltou, e eu caí pra frente, rastejando para o fundo da cela. Olhei insistivamente na cela de Sirius, e para minha surpresa ele estava acordado, olhando pra mim, meu primeiro pensamento foi gritar pra ele me ajudar, ou qualquer coisa parecida, mas alguma coisa me impediu.
Ele estava olhando pra mim de um jeito tão intenso que as palavras morreram no fundo da minha garganta, uma única mensagem passava através dos olhos dele: "Fique quieto!"
Por um minuto sentir dor e mágoa, a primeira impressão foi que ele queria que eu ficasse quieto, por que poderia acabar lhe causando problemas. A esse ponto eu estava encostado no fundo da pisão, arfando e suando frio, enquanto dois homéns olhavam pra mim com sorrisos frios e cruéis, um deles era bem pior, por que por trás da frieza e crueldade, estava uma máscara sinistra de gentileza, que fez um arrepio correr pela minhas costas. Ele pareceu apreciar minha reação, e sorriu mais ainda.
A parte A (lembra dela?!) estava preocupada em registrar com a maior clareza de detalhes possível o que estava acontecendo, de forma que eu notei um chicote de couro nas mãos do segundo homem que entrava na minha cela. Tremi de medo com isso, enquando ela - a parte A - continuava registrando várioas diferenças entre os dois homens, como o fato que o homem que sorria gentilmente de uma maneira arrepiante era mais magro e mais alto, e vestia uma capa marrom, que parecia de couro, enquanto o outro era mais baixo e mais largo, usava um capuz que escondia seu rosto quase que completamente, dando pra ver apenas o naríz e o sorriso cruel, enquanto estalava a chibata na mão. Ele parecia mais arrepiante, mas de alguma forma, o mais magro que sorria como um cavalheiro me deu muito mais medo.
Enquanto isso a parte B estava ocupada tentando entender a mensagem nos olhos de Sirius, ela parecia negar com muita convicção a resposta que a parte A - a metade sensata da minha mente - formulara mais cedo, e ficava vagando por explicações mais elaboradas, e no entando, mais improváveis. Não entendia o que ela queria me provar, e comecei a pensar que talvez, mas só talvez, estivesse ficando completamente louco. Depois da ideia de estar morto e enterrado, essa h´pótese foi a mais cábivel pra minha situação, e me assustou que minhas únicas opções sensatas fosse estar louco ou morto.
Perdi o fio da meada de novo... Isso é culpa da parte B, ela que fica me distraindo.
Sirius observava tudo da cela dele, seus olhos estavam frios enquanto me observava ser içado magicamente, com um aceno de varinha pelo homem magro, e minha camisa saltar pra fora do meu corpo, revelando meu peito e costas nuas, algumas (mentira, muitas) cicatrizes que hoje não era mais que traços deformados na minha pele clara. Os olhos de Sirius brilharam por ums segundo, escurecendo até o ponto que estavam tão negros que não dava pra ver a pupila, o máxilar trincado e os punhos cerrados que ele escondeu, enquanto fechava os olhso por ums egundo, e eles voltaram a frieza de antes, assim como as feições. A parte A do meu cérebro ignorou isso, por que achou que seria muito mais importante prestar atenção ao homem com a varinha, que agora dava espaço para o homem com a chibata se posicionar as minhas costas, já a parte B achou que era uma valiosa pista e começou a reformular suas teorias, sob o olhar desgostoso da parte A, que queria ajuda no que estava fazendo.
-Sr. Potter, que prazer finalmente conhecer o Senhor. - disse o homem mais magro, sua voz era educada e ele falava macio, a imagem de uma cobra me veio a mente, por que apesar da fala mansa, ele não conseguia conter o sadismo e a alegria cruel de me ver impotente, içado no ar.
-Senhor! - eu quase gritei, estava apavorado, e tremendo compulsivamente - Quais... Quais são as acusações?! O que eu...
Ele me ignorou, eu estava de costas pra ele, e tinha que forçar o pescoço de uma maneira dolorosa pra tentar visualiza-lo enquanto falava, o homem com o capuz continuou parado como se esperasse uma ordem, mas o homem magro apenas andava de um lado para o outro, com as mãos as costas, seus passos eram altivos e dignos dos Condes Ingleses de antigamente, pelo menos se tratando da maneira pomposa e meio ridícula de se portar.
-Sabe, Sr, Potter... Nossos hóspedes - ele sublinhou a palavra com sarcasmo, e o homem com capuz sorriu perversamente - Criaram diversas maneiras de contar a passagem do tempo com o passar dos anos, mas infelizmente nenhuma delas é muito efetica. Então como eu sou um anfitrião preocupado, resolvi ajuda-los nesse quesito, e é pra isso que estamos aqui.
"No aniversario da data que vocês são presos aqui, nós lhe fazemos uma visita... normalmente é apenas uma surra... Mas como essa é a primeira vez, é algo especial... Muito especial..."
-Mas eu...
Parei de falar quando o som de um assobio cortou o ar, e senti a primeira chibatada nas minhas costas, gritei de dor e isso arrancou um sorriso sádico e insano do homem magro, a dor daquilo era como levar uma facada, podia sentir o corte profundo e reparei que entre as tiras de couro do chicote, haviam fios de aço com pequenos peso em forma de lamina na ponta, tive um ataque de panico quando observei aquilo, e vi que o homem com capuz iria me bater outra vez. Mas o homem magro segurou sua mão, e senti um alivio repentino, que não durou muito tempo.
-Entenda Sr. Potter - ele disse, sorrindo pra mim de uma maneira venenosa, eu quase podia imaginar uma língia bifurcada saltando da sua boca enquanto falava - Um simples cárcere não pode lhe dizer muita coisa... Mas eu realmente admiro o senhor, devo dizer, poucas pessoas fariam aquilo que o senhor fez e ainda conseguiriam comer algo, eu mesmo vi uma fotogafia e devo dizer... nunca vi tanto sangue e tripas espalhadas...
Ouvi cada palavra do que ele estava dizendo com pavor, eu queria desesperadamente não entender, mas estava cada vez mais claro o que tinha acontecido, a ideia não tinha se formado completamente até que uma outra chibatada interrompeu meus devaneios. Quase agradeci pela dor mudar o rumo dos meus pensamentos, enquanto guardava e trancava aquela informação a sete chaves na minha mente, até que estivesse pronto pra lidar com ela. O som do assobio cortou o ar mais uma vez, e assim se seguiu pelo que achei ser horas, até que as cordas invisíveis que me sustentavam no ar desapareceram, e eu caí pesadamente no chão, uma criança normal teria desmaiado na primeira chibatada, mas estava tão acostumado com a dor que consegui me manter acordado e conciente todo o processo, o que não era exatamente uma boa coisa.
Quando pensei que tudo tinha terminado, senti como se fogo líquido corresse pelos meus ossos, dilacerando a carne, meu sangue parecia ferver nas veias, e minha pele parecia derreter tamanha a dor que eu estava sentindo, se estava gritando antes agora estava esguelando como louco, me contorci, arquejando todos os músculos, e arranhei a parede de pedra, deixando marcas esbranquiçadas na pedra, e em seguida vermelhas, quando uma das minhas unhas quebrou e sangue escorria pela ponta do dedo. Olhei por um segundo a cela ao lado da minha, e a parte B percebeu que ele estava de olhos fechados, os músculos tensos e tentando parecer o mais relaxado possível.
Horas pareciam ter passado quando a dor terminou, ou melhor, diminuiu para uma ardencia profunda, que ainda sim doía bastante. Eu estava empapado de suor, que parecia escorrer pelas minhas costas, penetrando nos cortes e aumentando ainda mais as cores dos machucados, meus olhos estavam pesados, e eu quase não ouvi o que o homem magro disse em seguida.
-Foi um prazer Sr. Potter, e até o ano que vem - disse o cárcere sorrindo cinicamente, enquanto fazia uma mesura, e saia da cela, com o homem de capuz aos seus calcanhares. Ele fechou a pisão, e ambos sumiram pelos corredores escuros.
Eu só queria dormir, só queria ficar inconciente e nunca mais acordar, queria morrer e só chorei quando percebi que realmente desejava isso, me sentei no chão, cambaleando, e pela primeira vez em anos chorei como uma criança, as lágrimas escorriam abundantes dos meus olhso, e eu encostei na parede, soluçando e engasgando com o próprio choro, não liguei pras celas ao redor, não liguei pra nada. Naquele momento eu me sentia o ser mais desgraçado do mundo.
-Harry! Harry!
Parei de chorar por um momento quando Sirius me olhando da cela dele, ele também chorava, e estava com os braços estendidos. Por algum motivo, caminhei até ele, e quando ia cair de exaustão ele me segurou, me abraçando e sussurrando que eu me acalmasse. Fui deslizando pra baixo enquanto ele me amparava, sem parar de dizer pra mim me acalmar, acabei sentado encostado nas grades, enquanto ele se sentava também, acariciando e bagunçando meus cabelos como um pai faria.
Demorou vários minutos pra mim me acalmar, e quando fiz isso tive que lidar com o cansaço mental e a dor dos cortes, que parecia terem voltado com força total. Sirius ainda me olhava, estava se desculpando repetidas vezes e explicando por que não dissera nada, eu não ouvi nas duas primeiras vezes que ele explicou, e só entendi parcamente na terceira. Ele sabia que se mostrasse preocupação ou qualquer que fosse o sentimento por mim, o cárcere nos mudaria de celas no mesmo instante, e ele não queria isso, disse que queria ficar perto de mim, e também falou que aquele lugar estava abarrotado de criaturas das trevas e comensais. Era o lugar mais perigoso do mundo pra mim. A parte A da minha cabeça estava meio calada, com o orgulho feridopor ser "derrotada" pela parte B, e se compremeteu a se esforçar cada vez mais, pra superar sua rival. Aqueles pensamentos eram estranhos, mas me ocorriam de verdade.
Minutos, ou talvez horas depois eu acabei saindo do torpor em que estava, Sirius continuava afagando meus cabelos, ficou aquele tempo todo fazendo isso. Me sentei um pouco mais ereto, tentando me forçar pra cima, mas a dor e a exaustão ainda eram demais, acabei cambaleando mas não desisti, até estar de pé encostado na grande, meu corpo tremia todo enquanto eu segurava firme nas barras de metal, Sirius não me impediu, mas olhava surpreso a expressão no meu rosto, eu não tinha muita ideia do que era, parecia uma mistura de raiva com alguma outra coisa. Meu padrinho me disse mais tarde que se chamava "determinação", ele disse que nunca vira uma expressão tão determinada como a minha naquele momento, quando disse aquilo pra ele...
"Padrinho... me ensine magia."