Capítulo 35
Draco estava sentado no chão, as mãos ao redor dos joelhos e cabeça apoiada neles. Ele dormia. Hermione apenas dispensou um olhar estranho ao caminhar de volta ao seu quarto, sua mente estava muito ocupada com a possibilidade de Harry estar desperto para se preocupar com a atitude do colega de trabalho.
Além disso, sabia que Gina podia lidar com o homem muito melhor do que ela; desde que ele era seu "marido". Era uma pena... Em qualquer outro instante, a morena teria rido e chamado Harry apenas para implicar com Gina. Toda essa história de Draco agora orbitar ao seu redor ainda não tinha sido suficientemente aproveitada, afinal.
E não, não passara despercebido aos seus olhos que havia alguma coisa diferente na relação daqueles dois. Se não estivesse tão concentrada em todas as mentiras que tinha de lembrar, provavelmente já teria arrancado todos os tipos de informações constrangedoras da amiga.
Hermione sabia que Gina tinha uma espécie – estranha, muito estranha - de queda nunca admitida – nem mesmo para si mesma – por Draco desde... Deus, muitos anos atrás. Possivelmente adquirida ainda em Hogwarts, enquanto eles jogavam gato e rato nas horas vagas.
A morena suspirou, não tinha tempo para isso agora.
- x -
Tão silenciosamente como pôde, Hermione entrou no quarto que dividia com Harry.
Ele ainda dormia e ela fez uma silenciosa prece de agradecimento. Devagar, retirou a blusa e calça que vestia, deixando-as a um canto antes de voltar para a cama. Cuidadosamente, sem tirar os olhos do rosto do amigo, a morena se recostou em seu peito e ficou imóvel por segundos dolorosos, mas relaxou com os braços dele a envolvendo.
- x -
Gina quase sorriu quando o viu no chão, ela também quase sentiu pena por desabrigá-lo. Quase. Considerou seriamente assustá-lo mas, desde que eles estavam nessa curiosa trégua, não queria ultrapassar os limites. Draco tinha razão, era muito estafante discutir sempre e sempre.
Calmamente, ajoelhou-se a sua frente. – Hei, Malfoy... – Gina queria tocar seus cabelos, perpassar os dedos entre eles, obviamente não o fez. Tinha de parar de tocá-lo antes que fosse tarde demais.
Sabia, simples assim, que poderia se tornar viciada. E isso, acima de qualquer coisa, a deixava aterrorizada. Ansiosa. Eletrificada. Com raiva. De si mesma, de Draco, do mundo – este que certamente conspirara contra ela, para, assim, de repente, se ver atraída por seu pior inimigo.
Ok. Francamente, Draco não era seu pior inimigo. Muito mal poderia ser considerado "inimigo" – desde que, e veja bem, ele estava ao seu lado fingindo ser seu marido perfeito. Plus? Se não quisesse, não seria uma chantagem que iria colocá-lo naquela incrível condição.
Gina não gostava de chegar àquela linha de pensamento. Tornava Draco muito mais... humano, por assim dizer. O tornava interessante. E permitia que não se sentisse tão horrorizada por considerá-lo bonito, inteligente e dotado de um humor tão negro quanto o seu – poucas pessoas podiam vê-la como realmente era, e, por mais estranho que possa parecer, Draco era uma delas. Não se enganava por seu aparente ar juvenil e doce. - E tinha um corpo tão... oh Merlin, a ruiva suspirou, um corpo muito bonito que só pedia para ser tocado. Ela não podia evitar, Draco tinha o tipo de mãos pelas quais era fascinada.
Mas não estava bem pensar nisso. Terras proibidas: Draco, seu corpo e, em principal, todos os pensamentos que a envolviam fazendo coisas pecaminosas com ele, tendo-o a sua mercê e/ ou similares. Não excluindo, em definitivo, o oposto... Porque, apesar de tudo, ela sabia que aquele homem era apenas encrenca.
-Vamos, Draco, acorde, você já pode voltar para nossa cama.
Ela sorriu quando os olhos anuviados de sono a reconheceram. Sim, ele provavelmente seria sua morte se somente se deixava levar. O que ela não iria... Claro.
-Vamos lá, "Belo adormecido".
-Eu conheço esse conto e não acho que tenha me dado um beijo ou que se pareça com uma princesa.
Gina riu. – Yeah, bem, essa é uma releitura. Nesse conto não há princesa em perigo – comentou fechando a porta do quarto. – só um cara preguiçoso que estava dormindo no lugar errado. E não há princesa também, havia, no entanto, uma garota muito esperta – continuou enquanto o guiava pelo quarto. - Nem há beijo de amor, a garota esperta chuta a bunda do cara preguiçoso para despertá-lo – ela fez uma pausa ao subir na cama, ajudando-o. – Ah. E eles viveram felizes para sempre.
Ele estava de bruços e tinha se alojado no peito dela, a cabeça de lado, parte do tronco sobre o dela. - Ginny...? – franzindo o cenho, Draco a chamou.
-Sim? – indagou deslizando a mão sobre sua cabeça.
-Você é a pior contadora de estórias do mundo – resmungou grogue de sono, enterrando o rosto em seu corpo macio, de olhos fechados.
-Draco?
-O quê?
-Você é idiota.
Ele resmungou algo sobre ela, Gina tinha quase certeza que era "pobretona". Incapaz de se conter, ela estapeou suas costas. Draco gemeu e apertou uma de suas mãos na cintura dela.
-Shiiiu.
-Não me mande calar a boca. Além disso, eu não estava falando! E-
Cegamente, Draco empurrou os dedos da mão livre nos lábios da ruiva. – Weasley... por favor, depois lhe ensino como se conta uma boa estória. Seja uma boa menina agora, ok?
Gina mordeu seus dedos, não forte o suficiente que pudesse sangrar, mas para que doesse. Ele podia ser tão cretino, mesmo sonolento. Ainda mais quando sonolento, ponderou, como pudera considerá-lo adorável?
Sem vontade, ele ergueu a cabeça para encará-la. Draco ainda estava tonto de sono e não parecia satisfeito. - Não faça isso. Eu gosto quando me morde, mas eu estou com sono, mulher – sem mais, lhe dispensou um curto e firme beijo em seus lábios entreabertos e deixou a cabeça cair outra vez em seu peito. – Durma – murmurou no vale entre seus seios antes de virar o rosto de lado e apertar levemente a boca em seu seio. Ele suspirou e no segundo seguinte estava dormindo.
O estado de choque de Gina não passou nos cinco ou quinze minutos seguintes. Porém, bizarramente, passado o choque, tinha vontade de rir. Sorrir estupidamente para seu parceiro adormecido.
Sim, ele era adorável quando sonolento. E que Merlim não permitisse que Draco soubesse que tinha, talvez, tecnicamente, provavelmente uma queda por ele; uma queda que absolutamente não se resumia a atração física.
Ah Merda. Gina ofegou, depois espirou e, finalmente, riu.
Estava tão ferrada.
- x -
9h30 AM
-Oh, vejo que não fugiu dessa vez...
Hermione riu sem vontade, incapaz de negar que fugira da última vez. Harry a conhecia bem demais. – Yeah. Pensei que gostaria de conversar – comentou, sentando-se na cama.
O moreno franziu o cenho para o sutiã da amiga, tinha certeza que ela não dormira assim noite passada. – Sim. Ironicamente, faz um tempo que considero "conversar" uma melhor alternativa.
-O que quer falar?
-Como está se sentindo?
-Estou bem. Apesar de ter desejado que a terra me tragasse ontem à noite. Sinto muito por ter lhe causado aquele constrangimento – murmurou sem jeito.
Harry ergueu a sobrancelha. – Você está brincando? Eu sou o deus do sexo agora.
Hermione não conseguiu prender o riso com Harry movendo as sobrancelhas daquele jeito. – Isso é horrível, Harry! – afirmou empurrando seu ombro.
-Isso não foi o que me disse na noi-
-Não se atreva a terminar essa frase, Potter! E retire esse sorriso dos lábios. Harry! Pare.
-É só incrivelmente lindo vê-la perder a voz.
-Como isso pode ser lindo?
Harry sorriu, mas não disse nada. Ela ficaria ainda mais tímida se lhe dissesse que ela ficava linda de qualquer forma. Mesmo com a voz indo e voltando. Ela era perfeita pra ele.
-Ainda que tenha sido ridículo acharem que eu estava lhe espancando. Não poderia fazer mal à minha menina. – acrescentou. – Que tipo de pessoas acham que somos?
-Provavelmente, Vitória só desejava encontrar um podre sobre nós.
-Porque nós somos o casal perfeito – Harry brincou com uma piscadela e a puxou para si, para que deitassem outra vez. – Você está vestida.
-Não acho que "sutiã e calcinha" se apliquem à concepção da sociedade sobre "estar vestido" – ela zombou.
-Hermione.
-Talvez eu tenha surtado por um instante – murmurou, sem encará-lo.
-O que você fez?
-Corri para Gina para falar mal de você – disse suavemente. – Ela não acreditou em mim.
-É claro. Eu sou um bom rapaz – troçou.
A morena suspirou. - Não quero um ar estranho entre nós.
-Mione, você está vendo como estamos agora? Como foi terrivelmente mais fácil? – ela assentiu. – Talvez se fizermos mais vezes possamos finalmente voltar a fase de total confidência.
-Está falando de sexo? – indagou com incredulidade, movendo a cabeça para encará-lo.
Ele assentiu seriamente, mas então riu e beijou o topo de sua cabeça. – Deus, Mione. É fácil demais chocar você...
-Não é engraçado!
-Meu amor, só quero que não se sinta mal pelo que aconteceu. Não posso permitir que pense que ao dormir comigo, ao fazer amor comigo, esteja destruindo nossa amizade, ou o que somos. Mione, você não vê? Isso não nos diminuiu. Eu, agora, posso dizer que a conheço melhor. E seria hipócrita da minha parte dizer que não aprecio isto.
-O que vamos fazer?
-O que você quer fazer, Hermione?
-Eu não sei. Acredito que possamos deixar para trás? – sugeriu, ainda que soasse mais como um pedido. – Seria ridículo se fingíssemos que nada aconteceu, pois ocorreu algo – acrescentou sem ar, Harry a fitava seriamente.
Por fim, Harry espirou e lhe ofereceu um sorriso. – Claro, Mione. Tudo bem.
O que você quiser, emendou mentalmente. Vamos fingir que não significou nada. Um novo tipo de negação, certo? Bem, como quiser, pensou ironicamente. Como se fosse facilitar para você, minha querida...
Harry precisava de um tempo sozinho, organizar mentalmente sei novo passo; Precisava, também, parar de tocar Hermione, especialmente se quisesse jogar bem o novo jogo dela. Ao momento, ele escolheu o banheiro como seu QG.
Hermione, por sua vez, se encolheu na cama assim que Harry fechou a porta do banheiro, estranhamente nada aliviada agora que tivera uma conversa.
(Continua)