Bellatrix Lestrange forçou a lasca de pedra contra a parede até desenhar um traço vertical, bem ao lado de outros seis traços já presentes, então fez um traço maior na horizontal, cortando todos eles. Mais uma semana. Ela ergueu os olhos negros, correndo-os pelas paredes que a rodeavam - completamente tracejadas de alto a baixo. Pelas suas contas, estava ali há 137 anos, 8 meses e 14 dias. Bom, talvez tivesse perdido a conta algumas vezes, mas não importava. Sabia estar próxima do número verdadeiro.
O súbito gelo que subiu do chão anunciou a presença próxima de um dementador e Bellatrix escondeu sua lasca de pedra debaixo do colchão, como uma criança que não queria ser pega no flagra. A pequena ansiedade gerada por essa ação pareceu-lhe a sensação mais forte que tinha em anos. Aproveitou-a por um milésimo de segundo, antes que fosse sugada do seu corpo e o torpor frígido a envolvesse novamente. O dementador passou direto pela porta de sua cela sem grades e ela se abandonou na cama, ainda correndo os olhos pelas paredes.
- Bella! - a voz sobressaltou-a o bastante para lhe fazer pular de pé da cama - Bella, meu amor!
- Rodolphus?
- Ah, Bella! - ele cambaleou como um bêbado na direção dela, os braços estendidos. Ela se desvencilhou, quase enojada.
Rodolphus parecia um mendigo, as roubas puídas, os dentes podres, os olhos fundos. Embora pudessem zanzar por toda Azkaban razoavelmente livres, eles raramente se encontravam. Ali dentro era cada um por si de uma maneira dolorosamente literal. A profundidade das dores internas era tão grande que não sobrava espaço para mais nada, mais ninguém. Rodolphus segurou-lhe pelos ombros, seus olhos castanhos um reflexo de apavorada lucidez.
- Meu amor! - ele a puxou para si e Bellatrix empurrou-o em reflexo.
- O que você quer?
- Esse lugar está me enlouquecendo, Bella. Precisamos fugir daqui. Vamos sair daqui, meu amor. Vamos para longe, só nós dois. Vamos ter a vida que planejamos, vamos ter filhos e uma casa grande...
- Você já está louco. - respondeu, girando para se desprender das mãos dele que tentavam capturá-la. Ele buscava contato, calor, algum afago para sua alma fatigada. Bellatrix não tinha nada daquilo para lhe oferecer. E não ofereceria, se tivesse. - Já é tarde demais para tudo isso.
- Não pode ser tarde demais para tudo!
- Não é para morrer.
- Então me mate! - ele bradou, segurando Bellatrix pela gola das vestes e puxando-a para si de modo bruto.
- Então me mate! - ela gritou, segurando a varinha de Bellatrix contra a veia palpitante em seu pescoço - Prefiro a morte a viver na sombra da sua piedade!
Bellatrix sacudiu a cabeça para o flash de lembrança e mirou os olhos fundos e opacos de Rodolphus. Viu-se refletida naqueles olhos e seu susto foi tão grande que o afastou de si e quase caiu, trôpega, no chão. Não era possível. Tateou o próprio rosto e sentiu sua pele lisa, levemente oleosa, ainda macia ao toque. Contornou seus olhos, seu nariz, sua boca... procurando pelas marcas que certamente deveriam estar lá. E não estavam. Passou as mãos pelos cabelos, sentindo-os volumosos como sempre foram.
- Oh, não. - balbuciou, escorando-se à cama.
- O que foi? - Rodolphus perguntou, atemorizado. Bellatrix levantou-se de súbito e começou a esmurrar as paredes, arrastando as unhas pela pedra desesperadamente.
- O que foi, mulher? - Rodolphus voltou a questionar, segurando-a fortemente pelos braços e a sacudindo.
Ela olhou-se mais uma vez refletida nos olhos dele. Ainda jovem, ainda bela.
- Oh, não, Rodolphus... O tempo não está passando.
- Falta pouco tempo agora. - Rodolphus murmurou em seu ouvido e Bella acenou com a cabeça e revirou os olhos, demonstrando que estava ciente disso.
Seu feitiço de desilusão continuava firme, ela sabia. Ela e mais sete Comensais estavam escondidos ao redor da saída do Ministério da Magia. Era uma sexta-feira à noite e, embora aquela fosse uma missão importante, ela a enxergava como um bom programa para começar o fim de semana. Eles haviam conseguido interromper o canal de Flu do Ministério durante aquele dia inteiro. O resultado era que todos precisavam sair de lá para aparatar em suas casas. O problema era que 20 metros quadrados ao redor do Ministério estavam dominados por um feitiço anti-aparatação. O que devia comprar para os Comensais tempo suficiente para desarmar os aurores e chegar ao Ministro da Magia, quando esse resolvesse ir embora. Estavam esperando a algumas horas, mas Bella não estava entediada. Sua sede de sangue era grande o bastante para fazê-la tremer de expectativa pela batalha daquela noite.
- É ele? - Lucius Malfoy questionou quando um grupo começou a sair de uma só vez da apertada cabine telefônica que servia de entrada para o Ministério.
- Ele está vindo?
- É o Ministro?
A agitação percorreu os Comensais como uma onda. Bellatrix tentou aquietá-los, mas foi impossível. Em um segundo, Goyle saíra da penumbra e revelara a presença de todos. No momento seguinte, feitiços chispavam para todos os lados.
Os aurores eram minoria. Um grupo pequeno, de apenas quatro. Armaram-se rapidamente em círculo, de modo a proteger as costas uns dos outros. Tão companheiros. Eca. Bellatrix brandia a varinha, sem o menor temor, uma vez que percebera que o Ministro não estava entre eles e que aquela missão já fracassara. Bom, pelo menos podia se divertir.
Encurralados, os aurores viram-se obrigados a se separar. Não podiam aparatar e o desespero surgia no rosto de cada um deles ao constatar esse fato. Bella se distraía com um homem habilidoso, negro, alto, que duelava com ela e Dolohov ao mesmo tempo. Conseguiu estuporá-lo menos de um minuto depois. Três comensais também já haviam caído, e ela pulava por cima de seus corpos inertes ou convulsivos - idiotas!
Um feitiço passou chispando pela orelha de Bellatrix e atingiu em cheio o peito de Rodolphus, bem atrás dela. Quase nada a irritava mais do que a incompetência pública de seu marido, então voltou-se louca de raiva para a origem do feitiço. Sua varinha já girava na conclusão da maldição, antes mesmo de enxergar seu alvo.
"Crucius!" - o feitiço foi repelido por Lily Evans.
No momento em que seus olhos se encontraram, uma estava na cabeça da outra. Os feitiços e contrafeitiços se anulavam, completamente previsíveis. Bellatrix brandia a varinha, Lily girava o corpo, construía paredes, explodia os feitiços da morena no ar, com um feitiço repelente. A fome de Bellatrix aumentava cada vez mais, e seus passos tornavam-se incisivos, selvagens. Mesmo assim, em nenhum momento chegou perto de atingir a ruiva. Seus olhos nem piscavam, ligados aos dela por uma corrente de pensamentos ininterrupta. Não conseguiam se evitar, ainda que aquela ligação transformasse o duelo em uma briguinha inútil.
Bellatrix soube o exato momento em que Evans se distraiu. Leu o pensamento no momento em que ele ocorreu à ruiva. James!, foi o nome que ela pescou de dentro da cabeça da outra, e Lily desviou sua varinha de Bellatrix para um Comensal - de três - que duelava com um rapaz magrelo mais à esquerda. Evans estuporou o Comensal um momento antes que ele atingisse o rapaz com um Cruciatus. O preço disso foi ser desarmada.
A força com que Bellatrix lançou o Experlliarmus foi grande o bastante para derrubar a ruiva no chão. Lestrange se aproximou, a varinha estendida firmemente. Seus olhos voltaram a se alinhar com aquele verde petrificante, e os pensamentos de Lily inundaram sua cabeça sem reservas.
Lestrange viu seus próprios olhos escuros e desconfiados, viu Evans limpando delicadamente o filete de sangue que escorria por sua boca quando chegou, estuporada, àquele quarto azul. Sentiu mais uma vez o aperto em seu braço, quando Evans a guiou para fora de lá. Você é uma mulher bonita, Evans estava dizendo sinceramente.
- É aqui que nos despedimos, Evans. - Bellatrix sussurrou e talvez um sexto sentido, daqueles que mulheres têm e nunca falha, lhe avisou que ela só tinha dois segundos. Um para atacar e um para fugir.
Então balançou a cabeça e, antes de se perguntar porquê, se abaixou, agarrou o braço mole de um Rodolphus desacordado e desaparatou no momento exato em que uma nova leva de aurores afluía de dentro do Ministério... deixou o segundo para atacar resvalar para algum lugar perdido no tempo.
- Você continua linda, meu amor. - Rodolphus disse, puxando-a para colar suas bocas. O gosto pútrido de seu hálito dominou-a, e Bellatrix repeliu-o com asco. A força de seu empurrão derrubou-o no chão.
- Você é um verme inútil, sempre foi um verme inútil. - murmurou, pisando no rosto de Rodolphus com seu pé descalço.
- E você é minha rainha... minha rainha amada. - ouviu-o replicar, beijando seu pé devotadamente - Vamos fugir daqui, minha rainha. Quero envelhecer do seu lado, ter crianças lindas com seus olhos negros.
- Não está ouvindo nada do que eu digo? - gritou, chutando o maxilar de Rodolphus, que estalou dolorosamente - Não há como envelhecer! O tempo não está passando!
Bellatrix andou em círculos pelo quarto, pouco ligando para a figura patética de Rodolphus, encolhido no chão, em posição fetal.
- Não há nada que se possa fazer... o tempo foi congelado... - ela recuperou seu pedaço de pedra e arranhou as paredes a esmo, tentando apagar toda sua longa contagem dos dias - Nós estamos andando para trás. Vivendo em retrospectiva. Sempre voltando ao ponto da desgraça. Não há nada que se possa fazer. É tarde demais para tudo. E eu não vou matar você porque isso seria fácil demais. Seria fácil demais...
Não havia nada mais ridículo no universo do que encontros casuais. Nada mais absurdo do que esbarrões de rotinas quando o mundo já não segue uma lógica. Quando todos já estão quase esquecidos de suas vidas regulares, conscientes apenas das necessidades emergenciais. Foi a mais desprezível das coincidências que gerou aquele esbarrão.
Bellatrix estava subindo as escadas para a entrada do Gringotes. O prédio continuava imponente como sempre - estava ali um lugar que permaneceria, mesmo quando, no resto do mundo, não restasse pedra sobre pedra. Quando alcançou o último degrau, as portas se abriram para a saída de alguém. Para a saída dela.
As duas levaram as mãos às varinhas automaticamente. Um instante sem reação, em que tudo podia acontecer. Havia gente em volta. Muita gente em volta. O Beco Diagonal era um lugar público e teoricamente neutro. Começar um duelo ali seria um banho de sangue desnecessário. Nem Bellatrix desejava isso, visto que tinha poucas chances de escapar ilesa. O mais inteligente a fazer era deixar Evans passar como se mal lhe tivesse notado a presença. As duas sabiam disso.
A ruiva avançou na direção das escadas, mas, ao cruzar o caminho na morena, Bellatrix fechou a mão em seu punho. A reação de Lily foi imediata. O espasmo do braço, o ímpeto de se desprender, o movimento instantâneo da varinha. Lestrange repeliu o feitiço automaticamente e, sem nenhuma palavra, com pouquíssimos movimentos, maldições foram disparadas de uma para a outra e repetidamente repelidas.
Quando Lily fez menção de tentar se desprender mais uma vez, Bellatrix apertou-a mais forte e desaparatou, arrastando-a consigo. O primeiro lugar que surgiu em sua mente foi o gramado amassado, atrás da casa dos gritos.
- Flipendo! - Evans bradou assim que os pés das duas se firmaram novamente no chão, e a força do feitiço lançou Bellatrix para longe.
- Glacius! - ela contra-atacou, sem se desarmar pela queda.
Mais feitiços cortaram o ar e as duas se desvencilhavam, em uma quase dança sem ritmo, sem coreografia.
- Protego totallum! - Evans pronunciou e a parede invisível criou-se em sua frente como um escudo - O que você quer, sua louca?
- Terminar o que comecei no outro dia.
- Teve tempo para tomar coragem? - Lily riu-se, embora sua respiração estivesse ofegante e fios de cabelo carmesim grudassem em sua testa suada.
- Ora, sua sangue-ruim de merda, o que pensa que está dizendo?
- Você não conseguiu me matar. Covarde.
- Só me faltou tempo!
- Você teve tempo. - Evans replicou e Bellatrix se aproximou o bastante para sentir a proteção do feitiço impedi-la de avançar mais - O que foi, Lestrange? Você é tão doente que não consegue conviver com o pingo de compaixão que existe em você?
- Você não faz ideia do que existe em mim, você não passa de lixo.
- Um lixo que você não pôde matar!
- Ah, eu vou te matar! - Bellatrix acenou com a varinha, rompendo o escudo de Evans. Esperou que a outra recuasse quando avançou com um passo furioso, a varinha em punho, mas a ruiva não se moveu.
- Então me mate! - ela gritou, segurando a varinha de Bellatrix contra a veia palpitante em seu pescoço - Prefiro a morte a viver na sombra da sua piedade!
Bellatrix fixou o olhar naquele rosto de marfim, naqueles olhos de esmeraldas falsas, sentindo o furor do sangue que corria por baixo daquela pele clara. A respiração de Lily era ruidosa mas não havia nenhum temor, nenhuma contração. Sua varinha podia furar-lhe a garganta e ela veria aquele sangue sujo jorrar.
- Insolente! - gritou, erguendo a outra mão e desfechando um tapa violento no rosto da ruiva. Sua aliança de casamento acertou-lhe o lábio, causando um talho grande. Lily cambaleou e Bellatrix empurrou-a para o chão.
Evans segurou-lhe as vestes, levando-a junto quando caiu. As duas rolaram no chão, como duas trouxas, se estapeando, arranhando e puxando cabelos.
- Me solte, sua puta! - Lestrange bradou, enquanto as mãos e os pés de Evans acertavam-na com raiva - Seu sangue nojento está me contaminando!
- Pois o meu sangue ruim é ainda bem melhor que o seu! - Lily berrou de volta, passando uma das mãos pelo lábio que sangrava abundantemente e esfregando-a na boca de Bellatrix, que estava sobre ela.
Em um gesto automático, Bellatrix passou a língua pela boca, sorvendo o sangue quente que lhe manchara os lábios. O gosto férrico foi como uma faísca. Seus olhos desceram para os lábios de Lily que escorriam o líquido vermelho ininterruptamente. Então, antes que soubesse o que estava fazendo, atacou-os. Sua boca fechou-se sobre aqueles lábios, bebendo daquele sangue como uma vampira faminta. Lily se debateu em um espasmo de resistência e dor, mas logo sua boca se partiu para a exploração sedenta de Bellatrix. O espasmo seguinte não trazia protesto algum, e o corpo da ruiva se arqueou em um prazer masoquista. Lestrange apertou a varinha que ainda segurava e, sabendo que poderia ficar ali por horas, bebendo de Lily Evans até matá-la ou até morrer, fechou os olhos e desaparatou.
Bella cravou a lasca de pedra em seu pálido antebraço e pressionou-a gradativamente até que rompesse a pele. A gota de sangue que afluiu era tão escura que se aproximava do negro. Black. Bellatrix levou o braço aos lábios e sorveu a gota avidamente. O gosto amargo poluiu sua boca e ela cuspiu no chão quase que de imediato. Passou a mão pela testa suada e se encolheu na parede a um canto. Tinha vergonha de si mesma. No que se transformara? Ela bem podia ser um rato... e viver uma vida inteira feliz, se alimentando de imundície.
____________________________
N/A: Oioi again. Viram como eu fico bem mais produtivas com shorts? Posto mais rápido u.u Well, agradecimentos rápidos pra quem anda lendo, pra Gabs que continua me revisando, pro meu amor porque é meu amor *-*
Espero que curtam.
P.S.: caso algum alienado por aqui ainda não esteja sabendo: TÁ ROLANDO UM CHALLENGE FEMMESLASH. Vão lá conferir. Right now. Eu deixaria o link se conseguisse. aposkaoska Mas não é difícil de achar.
Bjs bjs.