A música ambiente da loja da Sra. Johnson era uma das melhores que eu já havia escutado. Uma artista que eu não era fã, nunca tinha ouvido mais de uma música, mas que agora que inclinava a fechar os olhos. Não por ser um ritmo chato, mas por ser tão profundo que fazia com que eu quisesse fechar os olhos e pensar. Coisa que eu estava evitando fazer, a todo custo. Pensar passara a me deixar chateada e distraída; qualquer pensamento corria para as coisas que eu tinha feito durante os últimos dias, as coisas que eu tinha descoberto e entendido e sempre acabavam em pensamentos intermináveis, onde eu me deixava imaginar onde aquilo tudo pararia.
Balancei a cabeça e abri os olhos, buscando o controle remoto que a Sra. Johnson costumava deixar sob o balcão de atendimento, onde eu estava postada. A verdade era que eu estava mentindo para duas pessoas diferentes e manter aquelas mentiras doía. Eu mentia para minha mãe, maquiando qualquer olhar ou toque que Scorpius lançava na minha direção ou eu, na dele. Evitava qualquer conversa que poderia ir além da “coisa de amigos” que eu tinha inventado e sempre sorria menos do que o necessário nessas horas... Mas o que me cansava mais ainda era a desconfiança, quase certa, de que ela sabia que eu estava mentindo.
Eu a pegava olhando para mim, de vez em quando, e eu não conseguia decifrar a expressão de seus olhos. Nesses momentos, eu me sentia a pior pessoa do mundo, a pior filha, a maior mentirosa e aquela que não merecia confiança. E isso doía; doía pensar que por causa de uma mentira que eu insistia em manter, minha mãe pudesse perder a confiança inabalável que ela sempre tivera em mim. Apenas uma vez, dentro daquela semana que se passou, eu considerei contar a verdade a ela. Fora numa noite em que ela chegara do Ministério e eu estava sozinha na cozinha.
O olhar dela era vazio e as marcas de expressão se evidenciaram quando ela me viu... Eu me odiei naquele momento, abri a boca para começar a falar, mas apenas disse “oi, mãe”, como se fosse a mesma menina que chegara à porta dela há um mês com medo de se sentir em casa por tempo suficiente para não querer mais ir embora. E era isso que estava acontecendo comigo? Era por isso que eu não queria ir embora, porque eu estava me sentindo em casa? Porque eu tinha uma mãe em tempo integral e um relacionamento amoroso sob o mesmo teto?
Pensar em Scorpius também doía, mas a dor era muito menor; parecia apenas uma coceira indesejável perto do coração estraçalhado que eu sentia quando encarava minha mãe. Eu mentia para ele também, mentia que minha mãe não havia me perguntado nada, que ela não parecia desconfiar de nada, que estava tudo bem... Mas eu apenas menti para ele, porque eu tinha a leve impressão de que contar sobre a minha desconfiança de Hermione saber de tudo, serviria como um estopim para que a boca dele contasse tudo aos quatro ventos. Ele queria contar, fazia planos para quando isso acontecesse, ensaiou uma conversa que teria com meu pai, quando encarasse os Weasley... Ele parecia a mulher da relação.
Eu evitava tudo isso, me esquivava. Eu estava com medo; apavorada com a idéia de deixar todo mundo saber o que eu sentia por ele e ver as expressões de todos se transformarem nas expressões que Lily tinha em seu arsenal. Eu ficava apavorada com a idéia de ser rejeitada por sentir o que eu sentia. Eu havia recém reconquistado minha família, feito as pazes com meu pai e, até a semana anterior, a minha relação com a minha mãe não poderia estar melhor... E agora eu tinha aquela bomba contando regressivamente para minha vida virar uma bagunça novamente.
Eu estava apavorada com essas idéias e era isso que me fazia evitar qualquer conseqüência de qualquer ato. Elas aconteceriam, mas se eu não precisasse me preocupar por antecedência, melhor. Eu preferia ignorar as conseqüências e os avisos de alerta, enquanto escapulia para o quarto de Scorpius durante a noite ou quando deixava que ele invadisse o meu, onde a cama era maior e o risco de um de nós cair ao chão era muito menor. Esse estado era anormal para mim, eu me sentia um alien sem meus pensamentos críticos e o meu gerador de conseqüências quase automático... Eles continuavam ativos, claro, mas tudo dependia da atenção que eu dava para eles. E eu estava dando a mínima.
- Rose? – chamou a voz da Sra. Johnson e eu me virei para olhar. Estava apoiada no balcão, com o controle do rádio nas mãos, enquanto duas meninas passeavam pela loja. Droga, eu tinha de estar trabalhando.
- Desculpe – pedi e corri para atender as duas adolescentes.
Meu trabalho ali era simples; Simples e cansativo, porém, cansativo de uma maneira ruim. A Sra. Johnson não confiava em mim, mesmo conhecendo a honestidade da minha mãe e de Draco, então as duas únicas coisas que eu fazia na loja era atender aos clientes que entravam e colocar as roupas experimentadas e não compradas novamente nas araras; era ela quem resolvia qualquer outra questão como cuidar do caixa e repor materiais do estoque. Em uma semana ali, trabalhando com ela durante seis horas diárias, eu ainda não tinha descoberto porque ela queria uma ajudante, já que fazia tudo sozinha.
Eu tinha decidido que não gostava dela, que não gostava daquele retângulo de vinte metros quadrados no centro da cidade que ela chamava de loja. Eu não gostava das roupas que ela vendia e muito menos do nome do estabelecimento, que numa tentativa frustrada de usar do duplo sentido acabou se chamando “O Canto da Sereia”. A única coisa que ainda me mantinha ali era o dinheiro que eu receberia quando aquele mês terminasse. Sim, porque eu receberia seiscentas Libras, o que equivalia a setenta Galeões.
Eu pensava, principalmente, nos gastos da minha estada durante a pesquisa que eu desenvolveria no País de Gales se o fomento saísse. Eu não era inocente de pensar que morando aqueles dois meses, que me separavam da viagem, com meu pai seria o suficiente para economizar meu salário para a hospedagem e a alimentação. Agências de fomento não costumavam ser tão gentis para cobrir toda a viagem... E eu tinha mais do que certeza de que eles apenas cobririam os custos da pesquisa e não a minha manutenção nas terras de Hinkypunks. E aqueles setenta galeões cobriam, pelo menos, dois meses de hospedagem.
As adolescentes não levaram nada, então eu só tinha que me preocupar em guardar as peças novamente, sem correr à sala dos fundos e chamar a Sra. Johnson e seu típico coque apertado, desconcentrando a mulher dos preços e orçamentos. Guardei dois jeans com brilho, um vestido sem graça e uma camiseta larga com estampa colorida e então percebi que já passavam das cinco horas. Meu limite diário no “Canto da Sereia”.
Corri aos fundos para me despedir e pegar minha bolsa; não esperei até que ela se levantasse para fechar a loja e literalmente corri até a rua, onde o ar era leve, mais respirável. Tive que pensar nos setenta galeões ou então eu não apareceria no outro dia naquela loja. O sol ainda brilhava alto no céu e ainda deixava as ruas ferventes. Brinquei com uma conexão daquilo: um inferno se projetando em Oxford por conta do calor daquele verão, enquanto eu passava o diabo... Eu sorri ao lembrar para onde eu estava indo e expurguei todos os pensamentos críticos e a minha brilhante capacidade de enxergar reações em tudo.
Eu não usara o carro em nenhum dia daquela semana. Com uma cidade daquele tamanho, sem centros urbanos tão próximos, as coisas ficavam a poucas quadras de distância. E eu também tinha realizado que alimentar o motor do meu carro com gasolina não era um meio de economizar dinheiro. Por isso, eu caminhava agora. Caminhava quatro quarteirões durante a manhã até o centro e agora eu caminhava mais seis quarteirões até o lago de Oxford; o mesmo lago no qual eu mergulhara e o mesmo lago onde eu beijara Michael. Porém, não era Michael quem eu estava caminhando para encontrar.
Coloquei os óculos escuros e os fones nos ouvidos, sentindo a melodia leve gingar meus passos pela calçada escaldante. Eu usava sandálias baixas e um vestido leve, um daqueles dados pela minha avó materna, que eu nunca pensei que fosse usar. Mesmo usando roupas leves, comecei a sentir o incômodo do suor gotejando pelo meu corpo. Eu já tinha prendido os cabelos em um coque, quando coloquei os dois pés na grama que cercava o lago.
Estava relativamente cheio. Enquanto eu caminhava até uma das margens onde não havia tantas pessoas, pude contar umas cinco famílias com crianças, além dos grupos de adolescentes e crianças espalhados pela grama. Estiquei o mesmo tecido que tinha esticado da última vez e me sentei, largando os braços atrás do corpo e deixando minhas pernas esticadas em frente, cruzadas. Ele estava demorando, pensei e logo em seguida senti aquelas mãos rústicas em contato com meus ombros nus.
- Olá – Scorpius disse no meu ouvido, quando se abaixou e se sentou ao meu lado. Quando vi o corpo dele ao lado do meu e olhei ao redor, percebi que aquela havia sido o pior lugar do mundo para que nos encontrássemos. Havia muita gente em volta.
- Olá – respondi, apertando a mão dele e a soltando logo em seguida.
- Não tem gente demais aqui? – ele disse, cruzando as pernas e arqueando o corpo para frente. Ele ficou alguns centímetros a frente de mim, então olhava para trás para me enxergar. Ele usava o uniforme do posto de gasolina; o macacão azul escuro baixado até a cintura e uma camiseta branca de mangas curtas. Nos pés, contrariando o esperado, usava tênis escuros de biqueiras brancas. Talvez herança de seus tempos de rebeldia.
- Era exatamente o que eu estava pensando – externei.
- Hoje é sexta-feira, o que você esperava? – ele disse numa pergunta retórica, esticando o corpo para trás e deitando na grama, deixando metade do corpo fora do tecido que eu esticara.
Encarei o corpo dele deitado na grama e não consegui não associar a imagem que eu via agora com a primeira vez em que me senti verdadeiramente atraída por ele, a noite em que percebi que ele tinha mesmo mudado, a noite em que quase nos beijamos. Sem perceber, eu estava sorrindo, olhando para aquele rosto suave, que olhava para cima; os olhos fechados por conta da claridade do sol. Eu tinha vontade de me jogar sobre ele e acarinhar aquele rosto... E, dessa vez, eu pensei nas conseqüências.
- Você quer ir para outro lugar? – ele perguntou, sem abrir os olhos, esticando a mãos e tocando as pontas dos meus dedos, discretamente. – Aparatar para longe, para a cidade vizinha, para uma estrada vazia... Sumir?!
Eu sorri com aquele plano simples. Sorri porque as características que eu listara para Dominique se faziam bem visíveis naquele momento. Scorpius era assim: de pensamentos simples, práticos além do permitido e inconseqüentes. E eu passei a achar que era a mistura dessas características, que eu odiaria em outro contexto, com a suavidade e a delicadeza impregnadas nele que me conquistara. Eu confirmei com a cabeça e ele se ergueu; mas, no momento em que eu estava me pondo em pé, vozes conhecidas nos paralisaram.
- Caubói e garota de Londres – era Michael. Eu reconheci a voz e me encolhi. Eu não tinha falado com ele desde o beijo e estava evitando encontrá-lo pela cidade. Ele sabia que eu estava trabalhando para a mãe de Lisa, mas não me visitara na loja durante aquela semana. Acho que ele tinha entendido.
- E aí – eu disse depois de alguns segundos de completo silêncio, porque Scorpius estava duro ao meu lado. Seus braços desciam rígidos ao longo do corpo e a mandíbula se projetava singela para os lados, como num ranger de dentes.
Ele sorriu e se adiantou para me abraçar, como se o tratamento de silêncio que eu dera nele não fosse nada além de falta de tempo ou um inocente esquecimento. Ele esticou a mão para Scorpius, esperando que o cumprimento típico deles acontecesse, mas Scorpius não moveu a mão. Merda, eu xinguei dentro de mim e trinquei os dentes, ele precisa deixar tudo tão claro, que inferno?!
- Que foi, caubói? – Michael estranhou, puxando a mão de volta ao bolso.
- Você conhece essa criatura - eu comecei, deixando que as palavras passassem pela minha boca como se estivessem no modo automático. Eu esperava que a história que eu contaria fizesse tanto sentido para quem ouvia quanto fez na minha cabeça. – De repente, ficou irritado porque eu discordei da festinha sem graça que ele queria fazer para minha mãe mês que vem, aí desconta nos outros.
- É mesmo – ouvi a voz de Meena e percebi que Michael não vinha sozinho. Atrás dele estavam plantados Meena, Hanna e Jason. Doug não estava com eles, talvez por conta do emprego que o pai colocara em suas costas. – A Sra. Malfoy faz aniversário em setembro.
- Exato – eu comecei, olhando para ela e deixando Scorpius de lado, enquanto ele desmanchava o rosto pressionado. – Eu quero fazer algo bacana, com bolo e música ambiente, mas Scorpius acha que um churrasco e música para dançar em pares é melhor..!
- Eu prefiro a festa da Rose – Hanna ergueu o dedo e ela e Meena riram. Como se eu fosse convidar qualquer uma das duas para uma possível festa de aniversário para minha mãe!
- Mas é surpresa, não contem para ninguém! – Scorpius proferiu as palavras e eu me virei para encará-lo. O rosto estava leve e ele inclusive sorria. Michael esticou a mão novamente e eles fizeram aquele cumprimento estranho, onde um apertava o pulso do outro. – Desculpa, cara, mas essas idéias da Rose me irritam.
- São muito sofisticadas para o homem do campo – Jason brincou.
- Como se ele não tivesse vivido durante vinte anos em Londres – eu observei, percebendo que o clima estava mais leve e que Michael estava mais tranqüilo, mais relaxado. Eu esperava que minha percepção estivesse falhando e que ele estivesse mesmo tranqüilo e sem desconfiar de nada.
- Eu tenho a alma de um homem do campo – ele se defendeu, estufando o peito e sorrindo com vontade. Todos os dentes estavam a mostra e a rigidez de outrora parecera que nunca tinha atingido seu rosto.
Eu tive vontade de saltar sobre ele ali mesmo, na frente de todo mundo e beijá-lo. Tive vontade de gritar que eu gostava dele e que pouco estava me importando com o que as pessoas poderiam achar disso, mas não era verdade. Eu me importava. E eu percebi que eu me importava demais com o que as pessoas iriam achar daquilo, principalmente se eles tivessem o sobrenome Weasley ou um pingo da minha carga genética no seu DNA. Em resumo: eu sorri como os outros e esperava que pudesse dizer que eu adorava a simplicidade do homem do campo que poluía a alma dele, quando estivéssemos na minha cama, à noite.
- É isso que vocês fazem aqui? Planejam uma festa? – Michael perguntou.
- Não se pode fazer isso debaixo do teto da Sra. Malfoy sem ela desconfiar, não é?! – Meena comentou e seu comentário era tão óbvio que eu me senti mal. Me senti mal novamente por estar mentindo e achando que minha mãe não sabia da minha mentira sobre Scorpius. - Mas vocês já estavam indo embora?
- É – eu disse, querendo me livrar de todos eles e querendo chegar em casa de uma vez. Minha língua estava coçando e meu coração parecia não bater. Eu precisava organizar alguma coisa daquela bagunça, pelo menos; o que parecia mais simples e envolvia somente a mim. – Jantar de sexta feira é imperdível.
Com mais uma risada, eu juntei minhas coisas e rumei com Scorpius para fora da grama e o mais longe possível daquelas pessoas que me deixavam nervosa. Em pouco tempo estávamos chegando à rua de casa e eu parei de andar. O silêncio tinha sido a única coisa entre nós durante aquelas dez quadras. Me esquivei da mão de Scorpius, de suas tentativas de abraço e de seu convite para que aparatássemos. Quando eu parei, ele me olhou no fundo dos olhos.
- O que foi? – perguntou, segurando meus ombros.
- Eu vou primeiro e você entra depois – concluí, sem, realmente, achar que ele me obedeceria sem querer saber o que estava acontecendo.
- O que foi – repetiu com a voz firme.
Eu hesitei, mas aqueles olhos estavam me consumindo.
- Eu acho que ela sabe – comecei, sentindo os ombros caírem. – Eu acho que minha mãe sabe sobre nós, mas não disse nada esperando que eu diga alguma coisa. Ela não quer começar a conversa com medo de que vire uma briga e que eu vá morar com meus avós... Ela gosta me ter aqui e essa coisa entre a gente está me deixando mal perante os olhos dela, porque eu estou mentindo!
Um silêncio que pareceu um milênio preencheu a rua e as mãos de Scorpius deixaram os meus ombros. Por um segundo seus olhos tocaram o asfalto e ele pareceu desconcertado. Eu podia sentir a dúvida, o temor e até negação vindo daqueles olhos, mas logo em seguida, ele os ergueu e as emoções eram totalmente diferentes. Os olhos estavam arregalados e eu odiei perceber que ele poderia sorrir a qualquer segundo.
- Tem certeza?
- Não, por isso eu disse que acho – eu disse, encarando os olhos azuis.
- Isso não é bom? – ele perguntou, erguendo os cantos da boca ligeiramente e eu arregalei os meus olhos, arqueando o corpo para trás. E eu tinha razão quanto à atitude dele quando soubesse das desconfianças que eu tinha quanto ao que Hermione sabia. – Quer dizer, ela sabendo da coisa que rola entre a gente não é bom? Já poupa o esforço de termos que pensar em como contar isso para ela.
- Você acha que ela aceitaria isso de bom grado? – eu disse com a voz esganiçada, mas saindo baixa. Talvez um alerta de que alguém poderia nos ouvir e que isso não seria nada bom. Com Scorpius eu podia lidar, mas não podia simplesmente aplicar um obliviate em um vizinho. – Acha que ela faria um bolo e que seu pai perguntaria a data do casamento?! Ela vai me devorar viva e ele vai cortar seus testículos fora! Pensa um pouco numa atitude que Hermione e Draco teriam e não naquela que você gostaria que eles tivessem. Eu conheço a minha mãe há vinte e um anos, eu sei que ela não aceitaria bem.
Scorpius ficou paralisado diante do meu discurso com a voz esganiçada e baixinha. Não era um discurso assustador e eu tinha certeza de que a idéia não sairia da mente dele, mas eu estava ganhando tempo. Eu ganhava tempo e parava de mentir para ele, já que eu não tivera nenhuma surpresa com a reação por parte dele. Ou ele se tornara previsível para mim ou a minha capacidade de observação e conseqüências tinha se tornado sobrehumana.
Dei as costas para um Scorpius atônito e me voltei para a casa, esperando que ele tivesse o bom senso de esperar alguns minutos para depois entrar em casa e não estragar a coisa toda. Hermione já estava em casa, mas Draco ainda não havia chegado, então ela estava ocupada com Arthur no balcão da cozinha. Ele comia um pote de iogurte e conversava com ela sobre um desenho que tinha feito no caderno de desenhos que Scorpius lhe dera.
- Que bonito, meu anjo – ela dizia enquanto se virava para ver quem entrava. Eu esperei que ela desviasse os olhos e que aquela desconfiança brotasse de seus olhos, mas ela sorriu na minha direção e se voltou para Arthur, que apontava com o dedo sujo de iogurte para um desenho no papel.
- Mãe? – eu chamei e ela se virou para mim, atenta. Eu respirei fundo e tentei começar a contar sobre o que eu sentia por Scorpius e sobre como eu tinha mentido para ela, mas não consegui. Havia uma barreira dentro de mim e eu apenas disse as seguintes palavras: - Lembra da novidade do meu pai?
- Sim, claro.
- Ele comprou meu antigo apartamento e quer que eu vá morar com ele.
- O que?
Ah, eu teria que repetir.
- Meu pai comprou o apartamento em que eu morava e naquele dia em que eu fui à Toca, ele me convidou para morar com ele – eu parei para respirar e hesitei em terminar a frase, mas o olhar dela me encorajava. Era como tirar um curativo de uma ferida, tinha de ser rápido. – E eu disse que aceitava.
As palavras saíram num jato e, como aquelas mentiras todas, elas não passaram pelo filtro entre os pensamentos e a boca. Eu não procurei uma boa frase para encaixá-las e muito menos um modo mascarado de dizer que meu pai queria me tirar dela. Por um instante, eu achei que ela fosse derrubar Arthur do balcão da cozinha, devido à velocidade com que ela deixou as costas eretas e que seu rosto se transfigurou em algo sem expressão alguma.
Arthur apontava para seu desenho e reclamava que ela não estava olhando, mas Hermione estava transtornada com a notícia que eu lhe passara. Podia se ver pelos olhos sem expressão e lotados de lágrimas presas que ela estava transtornada, que ela não queria que eu fosse embora, mas eu tinha que consertar as coisas. E eu devia começar pela notícia que eu omitira dela. Primeiro as omissões, menos graves, para depois evoluir para as mentiras.
- Mãe? – chamei, me inclinando para frente e sentindo a bola de lágrimas se formar no meu peito. Parecia não haver maneira no mundo de eu me sentir melhor comigo mesma. Eu omiti aquele fato para não vê-la triste e me senti mal por isso; quando eu resolvi contar, na esperança de me sentir melhor, eu vi que a situação apenas piorou, porque ela estava triste. – Mãe, tudo bem?
Claro que ela não está bem, Rose, ralhei comigo mesma, me aproximando dela e de Arthur, que parara de reclamar pela atenção da mãe. Seus olhos estavam fora de foco, mas quando ela viu que eu me aproximava, seu rosto se contorceu de tal maneira que eu achava que ela precisaria de um hospital; porém, ela tornou tudo muito falso e improvável quando forçou um sorriso e me puxou em um abraço apertado que dizia muito mais do que ela colocava em palavras.
- Parabéns, meu amor, você vai voltar para sua antiga casa! Cansou dessa vida de interior? – a voz dela não exalava o sentimento que as palavras deveriam ter. Tudo o que eu sentia era tristeza, abandono... – Quando você se muda?
- No final do mês, junto com a minha volta de férias.
Ela ainda não tinha me largado do abraço quando o trinco da porta se mexeu e eu lembrei de que Scorpius estava a caminho de casa, fingindo não ter estado comigo. Eu abri os olhos e rapidamente sussurrei no ouvido de Hermione, esperando que ela respeitasse o meu desejo e que acreditasse que aquilo que eu estava escondendo dela não era um romance com seu enteado e, sim, que meu pai tinha me ganhado agora.
- Mantenha isso eu segredo, mãe – eu pedi e ela soltou um grunhido em resposta, afundando o rosto no meu ombro e o erguendo em seguida, quando Scorpius colocou os dois pés na cozinha.
Ela se virou para Arthur, que sorrira com a atenção recebida. Ele não percebeu e muito menos Scorpius, que passara a evitar olhar diretamente para Hermione, mas o rosto dela estava vermelho e molhado. Meu ombro tinha secado boa parte das lágrimas dela e meu peito, que deveria estar voltando ao estado normal, estava ainda mais despedaçado.
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N/A: Oi gente! Peço desculpas do tamanho da galáxia por essa demora imensa, mas além de sete disciplinas na faculdade e de um estágio, eu descobri a existência de Doctor Who e fiquei totalmente viciada. Em resumo: demorei para terminar o capítulo e revisar o dito cujo. Não sei se a qualidade é proporcional ao tamanho dele, mas eu estou gostando do caminho que essa história está tomando. Gostei dos acontecimentos desse capítulo, que parecem aleatórios, mas que podem se entrelaçar no futuro... haha, spoilers? Não mesmo. Bem, espero que vocês gostem e que comentem muito, porque eu amo ler os comentários super incríveis de todos vocês que comentam! E que loucura, hein, a fic passou dos quarenta leitores! Quem dera esse povo todo comentasse o andamento da fic, dicas para o futuro, coisas que eu esqueci de colocar e que seriam importantes, reações que personagens não teriam ou teriam... Essas coisas. Beijos, até a próxima!