Minha mãe chegou à porta do meu quarto e me encontrou com a metade do corpo dentro do armário de roupas, tentando encontrar um pijama limpo. Meu coração estava acelerado e minha mente era um turbilhão de pensamentos pessimistas. Eu tinha passado a achar que qualquer coisa no meu olhar, na minha voz ou no modo como eu me mexia, diria para ela o que eu acabara de fazer. Ela pigarreou e eu me virei para a porta, com um conjunto velho de pijamas coloridos seguro entre as mãos. Eu usara aquilo entre os meus doze e treze anos, o que ele ainda fazia dentro do meu armário?!
- Oi mãe – eu disse, e me surpreendi de a minha voz não espelhar em nada o terror que eu sentia; saiu calma e fluída, não trêmula e temerosa como eu imaginei que sairia. Minha mãe sorria na minha direção, parecendo aliviada, como se estivesse feliz por me ver no meu quarto.
- Eu lembro desse pijama – ela disse, apontando para o conjunto com o dedo. O corpo estava encostado no batente da porta, usando um vestido godê de verão com estampa minúscula. Ela parecia dez anos mais jovem com aquele vestido e com os cabelos soltos, fazendo o volume certo ao redor do pescoço. – Achei que você já tinha se desfeito dele.
- Eu também, mas aí estava procurando algo para vestir depois do banho e encontro ele aqui – eu disse, jogando o pijama sobre a cama e apertando as sobrancelhas. – Como foi o jantar?
- Cansativo, como qualquer coisa na companhia dos Johnson que acaba às onze horas da noite de um domingo – ela disse, bufando. – Mas, Draco precisa da simpatia deles para o bem da Malfoy’s e eu atuo como a esposa dona de casa, já que não posso contar sobre meu trabalho no Ministério da Magia.
- Porque você não diz que trabalha para o governo num cargo polêmico ou sem graça? – sugeri, lembrando de como as pessoas evitavam falar sobre empregos no governo, dependendo do cargo. – Ninguém costuma perguntar demais... E você ainda pode usar o obliviate, caso não dê certo.
Ela riu com gosto e eu sorri, me sentindo um pouco mais leve. Meu coração ainda estava acelerado e me sentia inflada, mas me convenci a continuar calma e a deixar minha voz sair normalmente. Quem sabe, eu não conseguia contar a verdade de uma vez e evitava qualquer risco de ela me pegar mentindo?
- E o seu irmão, não acordou? – ela perguntou, entrando no quarto e fechando a porta atrás de si.
- Ele ficou em casa? – perguntei, surpresa, enquanto ela puxava a cadeira que ficava em frente à escrivaninha e se jogava sobre ela.
- Você não esperava que eu levasse um bebê de quase dois anos para um jantar, esperava? Ele pode até ser tranqüilo, mas não é a coisa mais certa a se fazer – ela me explicou, cruzando as pernas e arqueando o corpo para frente. – Além do mais, Lisa não ia sair de cima dele. Você sabe como ele detesta que fiquem agarrando e babando nele.
- Eu sei – concordei e sentei, fazendo o colchão afundar. – Não acordou.
- Bom, agora ele dorme até amanhã cedo – ela apoiou o cotovelo sobre um dos livros da escrivaninha e me olhou por baixo das sobrancelhas castanhas. – Como foi na casa dos seus avós?
Eu suspirei. As coisas dentro de mim entraram em guerra e eu tive certeza de que eu teria um colapso, uma síncope ou qualquer coisa que me deixasse fora de ação por alguns minutos. Meu coração ainda disparava e eu desviei os olhos, buscando qualquer coisa no chão que me distraísse. Prendi o olhar na camiseta molhada de lágrimas, que eu tirara mais cedo, próxima à porta. Não se passou menos de um segundo entre a pergunta dela e a minha resposta, mas tudo demorou tanto para acontecer dentro de mim que eu achei que ela estava estranhando a minha demora. Ah, a mente dos culpados...
- Foi legal – eu disse, me concentrando na camiseta no chão. – Eu fui aceita no bando de novo, aparentemente. Apesar de eu continuar achando que a Roxanne ainda quer me ver longe deles... Lily é um problema sempre, mas consegui fazer com que ela parasse um pouco com essa coisa de “inimigo, inimigo!”. – ergui os braços e tentei descontrair o papo com uma imitação ridícula de pânico.
- Ela tem o gênio forte da mãe – ela comentou, baixando os olhos. De repente, eu pensei no quão difícil tinha se tornado a vida da minha mãe, a falta da melhor amiga, da família de ruivos que a tinha, praticamente, adotado durante aqueles anos em que ela fora uma Weasley... E eu estar voltando para eles, depois daqueles três anos, algo que ela não conseguiria tão cedo. Mesmo sabendo que ela odiava que qualquer um sentisse compaixão por ela, eu senti pena, senti vontade de levá-la pelo braço até os Weasley e fazer com que eles a perdoassem, para ela conseguir ser ainda mais feliz. – Eu só fiquei curiosa com o fato de você decidir ir até lá hoje.
Ela desviou o assunto, como quem considerava uma idéia antes de falar. Porém, eu conhecia aquela mulher o suficiente para saber que ela não considerava nada antes de falar; tudo que saía de sua boca eram idéias formadas. Eu a encarei por alguns segundos e me joguei para trás na cama, bufando. Com o olhar no teto, distante de qualquer interferência que minha mãe pudesse ter nas minhas reações, seria mais fácil considerar o que eu responderia. Sim, porque eu considerei a hipótese de mentir para ela.
- Ah, mãe, sei lá – eu comecei, irregular, com a respiração falhando enquanto minha voz saía num jato só. Eu nunca tinha mentido para minha mãe, sempre fora péssima nisso quando era criança e durante muito tempo acreditei que a mentira nunca levava a nada, então durante a escola e durante os anos em que eu morei sozinha, eu não mentia. Não sobre algo sério. – Eu fiquei nervosa e precisei mudar de ares. Me trancar no quarto não foi grande o bastante.
- Mudar de ares? – ela disse com a voz visivelmente duvidosa.
Eu cerrei fortemente os olhos antes de continuar. Me passavam apenas duas alternativas pela cabeça: contar a verdade, de como eu gostava do enteado dela e que nós tínhamos nos beijado, ou então, mentir e poupá-la de qualquer preocupação em ter um romance acontecendo debaixo de seu teto entre os “irmãos pelo casamento”, como ela gostava de dizer. Apertei os lábios e torci para não soar insegura, porque eu mentiria. Não conseguiria não mentir. Ela piraria se descobrisse.
- Você sabe qual é o maior problema de se morar em Oxford no período de férias, sem poder usufruir das corujas e aparatações por preocupação com os vizinhos? – ela ficou quieta e eu continuei, impressionada com o nível de segurança na minha voz. Talvez porque o que eu tencionava dizer não era de todo mentira, havia uma grande parcela verdadeira ali. – Eu não tenho como falar com os meus amigos, não tenho como sair com eles... Mas, tudo bem, eu passei dessa fase quando achei que Scorpius tinha se transformado numa espécie de amigo aqui. Porque a senhora sabe o quanto eu odiava esse menino quando coloquei os pés aqui, mas aos poucos eu vi a mudança dele e eu estava sem contato com amigos... Busquei a fonte mais próxima.
As palavras saíram num ritmo frenético, como se todas elas estivessem trancadas dentro de mim e eu realmente estivesse me sentindo lesada com aquela briga com meu “único amigo em Oxford”. Pensei que talvez aquilo tivesse a ver com a minha inexperiência na mentira; e se a minha capacidade de mentir apenas estivesse enferrujada e agora ela estivesse acontecendo a todo vapor. Eu agradecia, porque eu tinha certeza de que aquilo salvaria minha pele. Eu não precisava de Hermione brava comigo e de todos me olhando estranho.
- E de repente, aquela discussão? – foram as palavras dela.
- Eu beijei o Michael, mãe – eu disse, como se fosse desculpa, mas apenas esperando que a explicação acontecesse dentro da minha cabeça mentirosa e culpada. – O Michael é um dos melhores amigos do Scorpius, pode ser meio estranho a irmã postiça estar beijando o amigo por aí... Você sabe o que os homens conversam quando estão apenas entre eles, não sabe? Imagina o que o Michael deve ter comentado.
- Mas, vocês apenas se beijaram, não? – ela pareceu desconcertada e eu ergui a cabeça para encará-la. Senti a necessidade de dizer que a filha dela não era uma vagabunda que transava com qualquer um que encontrasse. Meu queixo tocou meu peito e minha voz saiu abafada.
- É claro que sim, mãe, mas o Michael não me parece o tipo de cara que não gostaria de contar vantagem. Eu sou a recém chegada da badalada Londres, meu status, por enquanto, é esse e ele não iria guardar isso só para si como uma lembrança romântica – argumentei, achando que isso podia muito bem ser verdade.
Hermione ponderou com a cabeça e eu voltei a jogar minha cabeça para trás. Cerrei os olhos com força novamente, odiando o que eu estava fazendo a cada segundo mais. Estava me enterrando numa cadeia de mentiras que podia se tornar difícil de ajeitar depois... Mas o que mais me surpreendia era o fato de estar unindo verdades com mentiras e criando uma história que me mantinha acima de qualquer suspeita. Eu começara a sentir a culpa corroendo meus ossos, me deixando pesada; eu estava mentindo para minha mãe. Imperdoável.
- Bem, e onde a Lisa entra nessa história? Porque o modo como você cuspiu as palavras quando falou dela... Tinha nojo, ódio e todas essas coisas ruins no seu olhar – ela perguntou, ainda com o mesmo tom de antes; o tom de quem considerava se falava ou não. O ritmo de sua fala era lento, confirmando a idéia de consideração mental de frases.
Ergui meu pescoço novamente e encarei os olhos dela, totalmente segura do que falava, porque desta vez eu dizia a verdade e nada mais do que a verdade. Os olhos dela estavam apertados, aquilinos, espertos... Eu tinha medo de mentir olhando para eles.
- Eu não gosto dela, mãe – eu disse com um tom remetia, sim, ao nojo que eu sentia por ela. – O que você percebeu na minha voz, no meu olhar, eu admito. Não consigo gostar dela e de toda a artificialidade que vem dela... Scorpius faz o que quer da vida dele, claro, mas eu não sou obrigada a aturar aquela garota. Você teve um jantar com ela hoje, que tal?
Ela confirmou com a cabeça e eu ergui os braços, como quem era laureada.
- Então, tudo não passou de preocupação mútua?
- Eu não chegaria a tanto, mãe – disse. Não pretendi continuar minha defesa, mas Hermione ainda não parecia satisfeita. Chegou próxima a mim e eu senti o colchão afundando com seu peso.
- E, você gosta desse Michael?
- Não – respondi sem delongas, sentindo a minha segurança quanto à resposta. Não, eu não gostava de Michael do modo como ela insinuara. – Eu simpatizo com ele, apenas.
Me ergui nos quadris e a encarei sentada, com as costas na parede.
- E você não gosta de ninguém daqui?
- Gosto de você – eu disse e sorri. Eu sabia o que ela queria saber, então me preparei para mais uma mentirinha. – Não, mãe, não gosto de ninguém em Oxford. Estou me guardando para um bruxo velho e doente que tenha uma herança considerável.
Eu ri e minha mãe me acompanhou, se esticando na cama e beijando o topo da minha cabeça. Me senti tranqüila ao mesmo tempo em que estava me sentindo atada àquela corrente de mentiras... Esperei que Hermione saísse do quarto sem dizer mais nada, mas ela continuou sentada na minha cama, me olhando com um carinho especial nos olhos.
- Estou tão feliz que você esteja aqui comigo – disse com a voz baixa.
- Eu também, mãe.
Eu podia sentir a felicidade na voz dela, o alivio de ter a filha ao seu lado quando grande parte do mundo bruxo lhe virara as costas. Apesar de ser uma bruxa poderosa dentro do Ministério da Magia, eu sabia, e ela também, que grande parte de seus colegas ainda se mantinham relacionados com ela por respeito, ética e porque ela era a chefe. Os olhos dela estavam iluminados com lágrimas e antes que ela as soltasse, se ergueu em direção à porta.
- E seu pai, você o viu?
A pergunta dela veio de suas costas, costas que se aproximavam da porta. Ela tinha a mão na maçaneta, mas se virou para receber minha resposta. Uma lágrima presa escapou e eu senti um balão se formar no meu peito quando pensei em contar para ela a proposta de Ron. Achei que as mentiras correriam boca à fora, mas o bolo de mentiras se manteve intacto quando eu abri a boca para falar e percebi que apenas ocultei o fato. Era menos vergonhoso do que mentir sobre ele.
- Vi sim.
Ela sorriu e abriu a porta, me deixando sozinha no meu quarto lilás com aquele amontoado de mentiras que eu tinha lhe contado e com a idéia de mentir mais um pouco, caso eu voltasse a Scorpius depois de todos estarem dormindo. Respirei fundo, tentando consertar a respiração entrecortada que me consumia, e me ergui da cama, buscando a camiseta antiga de Hogwarts que tinha sido do meu pai, e que era três tamanhos maior do que eu, e um roupão dentro do armário.
Meu banho demorou mais do que eu imaginei que demoraria. A água estava quente, quente até demais, mas eu não a sentia quando ela tocava meus músculos travados e meu coro cabeludo. Sequei os cabelos, vesti as roupas e saí do banheiro, encontrando o corredor vazio e todas as portas fechadas, exceto a minha. Fui até a base da escada e vi o andar de baixo sem luz alguma. Eu demorara tanto no banho, contabilizando as mentiras e tentando me senti melhor, que não percebera que já passava da meia noite e todos dormiam.
Todos não, eu pensei, encarando a porta do quarto de Scorpius e pensando seriamente em colocar a mão na maçaneta. Cerrei os olhos quando meus dedos se encaminhavam para isso e travei a mim mesma, correndo para o meu quarto e me trancando lá; o cabelo molhado corria pelas minhas costas e a pele, levemente ardida pela água muito quente, arrepiada até o último poro. Pensei duas vezes em permanecer ali dentro do meu refúgio lilás e ignorar Scorpius pelo bem das minhas mentiras, mas eu estava sendo puxada.
Estava sendo puxada por aquela atração que eu sentia e pelo sentimento que eu tinha por ele... Bufei e abri os olhos, encarando a cama arrumada com os lençóis escuros. Droga Rose, xinguei a mim mesma quando joguei o roupão sobre a cama e aparatei no meio do quarto dele. Se eu fosse fazer aquilo, eu o faria direito. Estava escuro daquele lado da parede, tão escuro que eu me vi obrigada a me esticar, tropeçar no violão, e acender o abajur.
Não havia o par de olhos azuis me encarando, nem braços me esperando; Scorpius dormia com o corpo virado para a parede. Costas largas nuas me recebiam e eu suspirei, constatando que a parte mais sexy do corpo dele eram as costas. As costas largas e seus músculos sem fortes definições, mas com definições suficientes para me enlouquecer. As costas pálidas se mexeram quando ele suspirou e continuou dormindo; eu não atrapalharia aquele sono.
Me abaixei e me deitei no que restava de seu colchão estreito, apagando o abajur no caminho. Passei o braço pelo corpo dele e afaguei suas costas com meu rosto, pousando o queixo na curva de seu pescoço. Ele acordou; acordou e se virou para me olhar.
- Ah, você apareceu – a voz era lenta, típica de quem estivera dormindo.
- Apareci – eu disse aos sussurros, sentindo a respiração dele na minha testa, quando seu corpo se virou totalmente para mim. Seus braços me envolveram e seus lábios tocaram os meus com delicadeza, a delicadeza que era natural dele misturada com a incapacidade de alguém sonolento fazer algo rápido.
Eu não disse mais nada e ele também não. Dois segundos depois, eu percebi que ele voltara a dormir, mas que os braços ao meu redor continuaram onde estavam e que os lábios repousavam no meu cabelo... Fechei os olhos e relaxei. Tentei esquecer da conversa com minha mãe e da mentira sobre o que eu sentia. Eu esperava sinceramente que Scorpius não esperasse contar sobre nós para ninguém e que eu conseguisse resolver meu problema de moradia em menos de uma semana.
Um mês atrás, eu não tinha uma casa e agora eu estava dividida entre duas. Irônico.
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N/A: Oii gente! Quase uma semana sem postar, mas eu explico: faculdade. Chegou e chegou com tudo, então eu fiquei sem tempo. E mais, a minha turma está montando uma exposição sobre Lendas Urbanas para o final do ano, então ficou ainda mais apertado. Acredito que de agora em diante, as coisas fiquem mais esporádicas por aqui (nesses capítulos que faltam até o final). Bem, essa semana vim com um capítulo que também não fazia parte do esboço original e que eu nunca pensei que fosse escrever, juro, mas as coisas tem conseqüência, então ele tinha que estar por aqui... Sei que vocês devem estar pensando: A Hermione engoliu essa desculpa?! Pois é, vamos só esperar!
Agradeço a todos os comentários, aos leitores novos e os antigos, porque sem vocês isso aqui nunca sairia do primeiro capítulo e muito menos do papel no meu projeto original. Eu, realmente, gosto de escrever essa fanfic, acho que pelos protagonistas serem meus preferidos, e eu morro quando vejo que vocês gostam, que elogiam minha escrita, que entendem o que eu quis passar através das palavras... Aiinn, amo vocês *-*
E, Shammy, legal tu comentar do físico do Scorpius, porque eu acho a mesma coisa. Ele não faz nada da vida, ainda bebe, vai ter corpinho todo sarado de onde, né?! E eu gosto dele ser mais magrinho, mais natural, sei lá... Beijos, até a próxima!