Desci as escadas com os olhos já secos. Meus cílios se colavam de vez em quando, uma conseqüência desagradável de ter desperdiçado todas as lágrimas que eu tinha, e eu ainda fungava, com o nariz vermelho. Dominique havia descido em pulos os degraus, graciosa como só ela conseguia ser, balançando a saia plissada; eu puxava Lily pela mão, enquanto ela ria. Eu a tinha como uma irmã e a nossa conversa, a explosão dela, a minha confirmação... Aquilo tudo não poderia se parecer mais com uma conversa de irmãs.
- Então aqui está ela – ouvi meu pai dizer quando eu coloquei os dois pés na sala principal da casa. Ele estava sentado no divã com minha avó, bebendo de uma caneca enorme. Na sala ainda estavam meu avô, Albus e Roxanne. Lucy estava na cozinha e James já estava na casa dos pais, se preparando para a segunda feira. Ele não tinha férias longas como as minhas e de Lily.
- Sou eu quem deveria dizer essa frase, pai – eu disse, jogando meus braços ao redor dele. Eu poderia contar nos dedos as vezes em que eu tinha visto Ron ou falado com ele naquele ano. – Já nem saberia dizer com o que você se parecia, seu desnaturado!
Eu sentia uma liberdade incrível ao falar com meu pai. Nunca fomos apenas pai e filha; ele tinha sido meu melhor amigo durante tanto tempo que era difícil lembrar que nós estávamos sem nos falar e sem nos ver por aquele período imenso de tempo. De repente, aqueles três anos em que a nossa relação ficou estranha, pareciam apenas alguns minutos e eu estava abraçando meu pai quando ele chegava da loja, trazendo logros que minha mãe não aprovava totalmente.
Eu sorri e deixei que ele me soltasse. Eu não podia negar, sentia falta daquele tempo; de jantar com os dois em pontas opostas da mesa quadrada, de ir dormir e deixar os dois assistindo televisão... A Toca não estava me fazendo bem. Lily adoraria saber que eu estava pensando aquelas coisas. Bufei e joguei uma mecha de cabelo que tinha caído do coque para trás. Ron me olhou e reparou no nariz vermelho e nos olhos com resquícios de choro.
- Você esteve chorando?
- Um pouquinho – admiti, me sentando ao lado dele e de minha avó no divã. – Mas, sem desconversar, pai, eu quero saber dessa tal de novidade, surpresa, sei lá que diabos é isso... Eu fiquei preocupada.
Ele sorriu de canto e apertou as sobrancelhas. Uma expressão que eu conhecia por ele sempre usá-la no natal, no dia do meu aniversário e quando eu voltava da escola. Droga, era uma coisa que me deixaria feliz ou ele não usaria daquela expressão. Eu não sei por que eu pensei “droga”, mas se encaixava perfeitamente naquele momento. Talvez fosse porque eu estava tão contente naquele domingo, que voltar para Oxford me parecia uma loucura das grandes.
- Não era para você ficar preocupada, só animada.
- Lily disse que só você poderia me contar, como se ninguém mais pudesse se envolver no assunto. Isso assusta. – eu entreguei minha prima, que olhou para mim com os olhos arregalados. – Sério, pensei em tanta coisa, mas nada parecia ser possível... Se eu disser que até houve teorias – eu tentei deixar claro que a teoria não tinha partido de mim, mas sem entregar o verdadeiro autor. - de que fosse uma namorada, você não acreditaria.
Ele torceu as sobrancelhas, me dando a certeza de que não se tratava de uma namorada. Eu conhecia quase todas as expressões que ele tinha. Tinha aquela em que ele esticava a boca para os lados e arqueava o pescoço para trás: “você me pegou!” e também tinha aquela em que ele arregalava os olhos e sorria com os lábios tortos: “peguei você”. E tinha aquela que ele fazia agora: “Não, não mesmo”. Ron ainda demoraria a se deixar envolver com alguém, disso eu tinha certeza, então descobrir que não era uma namorada quase não valia nada.
- Lily é sensacionalista – Albus interrompeu.
– Você viu o circo que ela armou lá em cima... Porque não faria isso com uma simples surpresa do seu pai? – Dominique contribuiu, trazendo xícaras de chá da cozinha, acompanhada de Lucy.
- Que circo? – meu pai quis saber.
- Ok, Dominique, muito obrigada pela contribuição – eu interrompi e desviei do assunto. Eu não queria que ninguém soubesse sobre o que se passava na minha cabeça e no meu... Coração. Ainda era estranho pensar que eu estava apaixonada e era ainda mais estranho pensar nessa palavra. Quando ela deveria parecer apenas um amontoado de letras, ela era cada vez mais complexa. – Eu disse: sem desconversar.
- Ok – foi apenas o que ele disse.
A voz era animada e seu rosto ainda mantinha aquela expressão. Eu apenas tinha meus lábios pressionados e meus olhos caídos, odiando cada segundo daquele mistério. Eu não era fã de surpresas, não era acostumada a improvisações e muito menos gostava quando as coisas saíam do planejado. Meu pai estar com uma surpresa em mãos me deixava nervosa, ainda mais quando fazia quase dois meses que não nos víamos.
Ele se ergueu do divã e enfiou a mão no bolso das calças jeans. Ele não tinha mudado seu estilo, pela avaliação de fotos antigas que eu fazia. Meu pai sempre esteve lá, entre tio Harry e minha mãe usando jaquetas pesadas e calças escuras. A diferença era que ele, agora, tinha roupas de primeira mão. Retirou do bolso um molho de chaves que continha três chaves. Exatamente o mesmo número de chaves que eu tinha quando morava no apartamento com Johanna.
Oh não, pensei levando a mão à boca.
- Pai – eu disse com a voz fraca.
Não era apenas o exato número de chaves. Eram exatamente as mesmas chaves. A grande e antiga que abria o portão do prédio, a média prateada e redonda que abria a porta da casa e a pequenina que fechava a porta de vidro da sacada. Eu olhava dele para as chaves, vendo-as balançarem na minha frente. Não acreditei, eu precisei perguntar.
- O que está fazendo com essas chaves, pai? – eu estava quase sem voz.
- Nada de mais – ele disse, olhando para o molho de chaves e logo em seguida, jogando-o no meu colo. Não tive coordenação motora e pensamento rápido o suficiente para erguer minha mão e pegá-las. As chaves caíram nas minhas coxas e eu olhava para elas, enquanto ele continuava. – Elas são suas.
- Minhas?
- É – confirmou e eu ergui meu rosto para ele. Estava tão chocada e surpresa que não consegui esticar os dedos e tocar nas chaves que jaziam no meu colo, silenciosas. – Eu tenho um bom motivo para ter desaparecido durante esse mês que você tem passado na casa da sua mãe.
Ele não tremeu ou deu qualquer vestígio de ter se sentido mal em falar dela. Pelo contrário, ele parecia feliz. Eu consegui sorrir. Ele era desse jeito, planejava as coisas e não contava para ninguém; principalmente quando se tratava de mim. Lembrei de quando ele resolveu que eu precisava de uma casinha na árvore e começou a planejar tudo. Minha mãe sabia e me contou. Ele desistiu no mesmo instante, porque eu tinha descoberto e ele não poderia ver a minha expressão de surpresa quando eu visse a casinha pronta.
- Como você sabe, seu pai é um miserável que mora em um quartinho...
- Só porque você quer, seu quarto continua aqui – minha avó interrompeu, alfinetando o filho e eu ri. A expressão no rosto dela era cansada, altamente ofendida, como se ela tivesse insistido muitas vezes e ele tivesse recusado em todas as tentativas.
- Não vem ao caso, eu já falei com a senhora sobre isso – ele lhe lançou um sorriso e se voltou para mim. – O caso é que eu queria um lugar para mim e comecei a procurar na semana da sua mudança. Fiquei sabendo de tudo o que aconteceu com você e que você estava triste, queria voltar para Londres, então procurei o síndico e eu comprei o apartamento. É meu.
- Essas chaves são suas, então – eu olhei para as chaves, por um instante pensando que elas cairiam novamente em minhas mãos e que eu poderia voltar para o meu quarto no apartamento de assoalho quente.
- Não, são suas – ele me corrigiu.
- Deve ter custado uma fortuna, pai.
- É, foi pesado... Mas, vale a pena, Rose – ele comentou, com as mãos enterradas nos bolsos. Minha preocupação com dinheiro era pertinente. Um apartamento não era barato, aquele apartamento não era barato. Era uma construção antiga, grande e esse tipo de coisa é cara. O meu aluguel já era sofrido, eu imaginava uma compra daquele lugar. – Quero que você venha morar comigo.
Aquilo era mais do que eu imaginava. Era fazer as pazes, era voltarmos a ter a relação extremamente amigável que tínhamos quando eu ainda morava com ele e minha mãe como um casal. Eu ergui meu rosto e o encarei com um sorriso. Não pensei no depois quando comecei a falar.
- Claro, pai – eu disse, e ele me abraçou.
- Que bom, garota – ele me soltou e ainda sorria, satisfeito. Essa era uma das expressões que eu não conhecia, mas que, com certeza, queria dizer que ele estava feliz, aliviado... Algo parecido com o que eu tinha no meu rosto. – Mas, por enquanto, o apartamento está passando por uma série de reformas.
- Reformas? O que tinha de errado?
- Além do encanamento antigo e das paredes que precisam de pintura? – ele ergueu os dedos, pronto para começar uma listagem das coisas que achava precisarem de mudanças. Eu citaria muitas coisas, porque o apartamento era antigo, então certamente a parte elétrica precisava mesmo de reformas e o encanamento era um problema nos dias mais frios, quando a água descia gelada pelo chuveiro e demorava a esquentar. – Segundo o síndico, podemos nos mudar no final do mês. Ele ficou feliz que você vai voltar.
- E sem a avoada Johanna – comentei; ela sempre atrasava o aluguel por esquecer, então sempre pagávamos depois do dia combinado. Agora ela não tinha que se preocupar com aluguel, já que o marido tinha uma casa. Um chalé num bairro afastado do centro. Era um nascido-trouxa, vivia na Londres trouxa.
- E você continua na casa da sua mãe até o final do mês, depois você volta para cá, recomeça no Ministério da Magia e em breve estará no País de Gales com suas pesquisas sendo financiadas. E tudo volta ao normal, como era antes. – Ele fez os planos, contente, com a voz meio tom acima do normal. Ron apenas não sabia que eu não fiquei totalmente satisfeita com esse plano.
Vê-lo dizer que as coisas voltariam ao normal, como eram antes, me deixou cabisbaixa, pensativa. Eu não queria que as coisas voltassem ao que eram antes. Eu não tinha admitido para mim mesma o que eu sentia por Scorpius para depois voltar para Londres, continuar vendo minha mãe no Ministério e ignorando a existência de Scorpius e do que eu sentia por ele. Eu só não podia dizer isso para meu alegre e descontraído pai, na minha frente.
- Certo, dá tempo de eu me despedir de Oxford – eu disse, baixinho, sorrindo com os lábios pressionados. Olhei para Dominique e depois para Lily; as duas tinham a mesma coisa escrita em seus olhares, uma pergunta que ricocheteava dentro de mim: E agora?
Os minutos se passaram e o assunto mudou. Minha mudança para o meu antigo apartamento para, dessa vez, morar com meu pai, era certa. Eu deveria começar a pesquisar o frete, juntar minhas coisas e fazer as malas, mas a única coisa que eu conseguia fazer era olhar para o relógio e dizer para mim mesma que eu precisava voltar para Oxford. Eu precisava contar isso para minha mãe, eu precisava encarar Scorpius depois da minha declaração incerta e dizer o que eu estava sentindo.
E eu me ergui do sofá, depois de terminar minha xícara de chá, e busquei minha bolsa; me despedi de todos os familiares, agradecendo Dominique e Lily e confirmando mais uma vez para Ron Weasley que eu moraria com ele dentro de um mês. Aparatei para o meu quarto, pensando no que deveria estar passando pela cabeça do meu pai. Será que ele estava apenas feliz porque eu estava querendo que minha relação com ele fosse saudável de novo? Ou será que ele estava vitorioso porque eu estava trocando a casa da minha mãe pela dele?
Sacudi a cabeça e apertei os olhos, me distraindo totalmente daqueles devaneios, quando meus pés tocaram o chão do meu quarto lilás. A música metálica tirada diretamente do violão ecoava pela casa. Ecoava alta, passando pela parede e batendo diretamente nos meus ouvidos. Meus olhos se fecharam com o arrepio que ela causou nos meus pelos. Ninguém sabia o quanto eu adorava ouvir aquele tipo de música ecoando pela casa; acho que nem eu mesma sabia antes de pensar nisso.
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N/A: Oi gente! Antes de mais nada, quero agradecer aos comentários porque eles fazem meu dia, minha semana, minha vida... adoro cada palavra de cada um deles *-* Em segundo lugar, agradecer os leitores novos, nunca é tarde para começar a acompanhar uma fic! Vem gente! rsrsrs Humm, esse é um capítulo que não tinha no plano original, mas como faltava um pouco de Ron na história, o encaixe foi perfeito...! Espero que vocês gostem e comentem e votem e leiam! Essa história vem tomando um rumo tão diferente daquele que eu tinha imaginado. É como eu sempre digo, essas personagens vão tomando vida e quando a gente percebe são elas que escolhem o próprio futuro; as coisas simplesmente acontecem e o escritor relata... Acho que não sou louca... :P Até o próximo capítulo, bjs