Capítulo 5 - Fora de si
“Você diz que não se importa, mas é mentira.”
Rony estava montado na vassoura, treinando quadribol quando viu a namorada caminhando apressada em direção à Torre da Astronomia. Achou estranho o modo que ela olhava para os lados, apreensiva, como se estivesse fazendo algo errado. Sorriu e decidiu segui-la.
Um erro. Grande erro.
Esgueirou-se atrás de uma das pilastras e viu um vulto sair do escuro. Era Córmaco McLaggen, caminhando na direção de Lilá, com um sorriso diferente no rosto. O coração de Rony disparou de terror e ele se espremeu mais ainda atrás da grande pilastra. Córmaco se sentou ao lado da menina e falou algo baixo demais para que Rony pudesse ouvir. A menina o fitou surpresa e logo em seguida abriu um sorriso largo. Mas não aquele sorriso que Rony tanto gostava.
Um sorriso de maldade. Venenoso.
Eles apertaram as mãos e olharam-se, cúmplices. E depois veio o pior. Lilá Brown, namorada de Ronald Weasley, beijou Córmaco McLaggen. Rony sentiu-se tonto, ferido, como se estivessem o apunhalando.
Correu o mais rápido que suas pernas aguentavam e para qualquer lugar que elas lhe levassem. Esbarrou em uma pessoa. Duas. Três. Foi xingado por uma. Por duas. Continuou correndo. Os joelhos cederam. Caiu. Não chorou. Tinha orgulho o suficiente para não fazer isso. Alguém perguntou se ele estava bem e saiu assim que o ruivo soltou um palavrão.
Como ela podia ter feito isso?
Era só isso que conseguia pensar. Entrou no Castelo e atravessou o Quadro da Mulher Gorda. Ignorou os chamados preocupados dos amigos e entrou no quarto. Chutou um malão qualquer pelo caminho e seus olhos foram guiados para o porta-retrato de Lilá, em cima da escrivaninha. Ela ria e mandava beijos. Chutou novamente o malão.
- Ron, o que é que está havendo? – Harry entrou nesse exato momento.
- Nada, Harry! Me deixa em paz, tá bom! – vociferou, tremendo de raiva. Harry abriu a boca para falar, mas desistiu quando o amigo o encarou furiosamente.
- Qualquer coisa, me procure – e saiu do quarto. Rony deitou-se na cama para dormir, sem antes atirar com toda força na parede, o porta retrato da futura ex-namorada.
Hermione estava sentada no Salão Comunal, junto com Simas Finnigan e a melhor amiga, Gina Weasley. Conversavam banalidades quando uma garota loira, olhos azuis e um ar amalucado chegou. Luna Lovegood entrou aos saltos no Salão e Simas involuntariamente passou as mãos pelo cabelo. Gina e Hermione trocaram um olhar sapeca. Fitaram Simas sorrindo, ambas com a cabeça apoiada em uma das mãos.
- Quê? – perguntou confuso o garoto – Por que estão me olhando... Com esse sorriso?
- Então é dela... – começou Hermione.
- É da Luna que você gosta – Gina finalizou – Por que você não vai conversar com ela?
- E-eu? Com a Lu-una? – gaguejou – Que bobagem!
- Se você diz... – Hermione disse com uma voz arrastada – Mas eu acho que devia ir logo, daqui a pouco ela volta para o Salão Comunal dela. Nem sei o que ela faz aqui...
- Vocês acham mesmo que eu devia falar com ela? – perguntou, colocando-se de pé - E o que eu falaria?
- Chame-a para te acompanhar no próximo passeio a Hogsmeade – sugeriu Gina com um ar sonhador – Tem que conquistá-la aos poucos Simas. Vai lá, vai - incentivou. Ele ainda meio apreensivo e receoso, foi até lá. Quando as duas ficaram sozinhas, Gina pigarreou, atraindo a atenção de Hermione para si – Então, o que queria falar comigo?
- Ah, queria te dizer que Malfoy tentou me beijar – contou passivamente, enquanto escrevia sua redação sobre a Poção Polissuco. Gina ficou mais branca ainda e parecia ter recebido a notícia de que se casaria com um Dementador.
- QUE É QUE VOCÊ DISSE? – berrou, chamando a atenção dos alunos para a mesa delas – O MALFOY TE... – e em um ato desesperado, Hermione jogou-se sobre a mesa, tapando a boca da amiga.
- Você tá louca? – sussurrou – Não fala isso alto. O que as pessoas vão pensar de mim?
- Que Hermione Granger tava aos amassos com Draco Malfoy, o garoto mais...
- Idiota, arrogante, falso, cínico, fingido, fodido, cruel, tosco, ridículo e comensal da morte do colégio – concluiu, interrompendo a garota.
- E aí? – a ruiva sussurrou, fitando Hermione maliciosamente.
- E aí o que?
- Você gostou? – perguntou, com os olhinhos brilhando de curiosidade.
- Ginevra Weasley, era o Malfoy. Eu dei um tapa nele. E depois sai correndo – comentou, sem tirar os olhos do pergaminho – O mais engraçado é que ontem, depois que Crabbe e Goyle tentaram... Bom, você já sabe... Então, depois eu fui para a Torre da Astronomia, pensar... E ele apareceu lá... E nos conversamos, rimos... Até que ele me obrigou a contar o porquê deu estar chorando sozinha ali.
- E você contou? – perguntou, cortando a castanha. Mas esta lhe lançou um olhar indignado pelo ato e a ruiva se calou.
- Contei, por que ele estava me fazendo cócegas e...
- CÓCEGAS? – berrou Gina, os olhos quase saltando das órbitas.
- Weasley, dá para você parar de gritar? – pediu Lilá Brown, irritada.
- Ah, se está incomodada, saia daqui – respondeu grosseiramente. Lilá abriu a boca para falar, mas não queria problemas com a cunhada. (Não por muito tempo, claro)
- Sim, cócegas – continuou Hermione como se não tivesse sido bruscamente interrompida – E aí quando eu contei o que os amiguinhos dele tentaram fazer... Você nem imagina... Ele surtou! Começou a gritar que ia matá-los, parecia muito perturbado. Achei estranho, mas depois pensei ''É o Malfoy, ele é estranho de qualquer forma.''
- Sabe o que eu acho? – uma terceira voz se pronunciou, assustando as garotas – Que Draco Malfoy está afim de você – Luna sentou-se junto delas.
- Afim de mim? – Hermione encarou a loira, cética – Luna, às vezes você exagera. E o que faz aqui? Não devia estar no seu Salão? – falou com o seu tom autoritário de sempre.
- Devia – respondeu olhando ao redor, sem prestar realmente atenção – Mas ainda acho que ele está afim de você.
- Impossível – resmungou Hermione, irritada com aquela besteira.
- Por quê? – perguntou Gina, confusa.
- Por que ele é um Malfoy. E Malfoy's não amam ninguém além de si próprios. A não ser que tenham algum interesse. E duvido muito que Malfoy vá ter algum interesse por mim. Justo por mim. A sujeitinha de sangue-ruim – ela riu debochada, mas as amigas a encaravam, sérias.
- Não acho que esse seja o caso – disse Luna, mirando Hermione com aqueles enormes olhos azuis – Sabe, muitos amores nascem das mais belas amizades... Ou das mais terríveis inimizades.
- Besteira – Hermione resmungou novamente – Não sabem o que estão dizendo.
- Eu não acho que seja besteira – insistiu Gina, acompanhando Luna até a saída – Todos amam, Mione. Por que com ele seria diferente?
-Por que ele é um Malfoy – repetiu friamente – A pior raça que existe.
Para sorte de Hermione, Rony desceu nesse exato momento, atraindo a atenção das garotas. Hermione aproveitou para fugir das amigas e ir dormir, assim talvez, elas desistissem de pensar aquelas bobagens se vissem que ela não ligava a mínima para o que o Malfoy deixava ou não de sentir. Subiu as escadas em silêncio, tentando não ser notada.
Foi um alívio quando ela finalmente pode se jogar na sua cama quente e macia, enroscar-se com o seu cobertor e mergulha em um profundo e delicioso sono, torcendo para que tivesse bons sonhos.
-*-
A janela aberta permitiu que um vento gélido invadisse o quarto. O quarto estava vazio. Olhou no relógio. Atrasado de novo. Pulou da cama rapidamente, correndo para o banheiro e tomando um rápido banho. Vestiu o uniforme o mais rápido possível, apanhou a mochila e saiu.
O corredor estava vazio. Os alunos provavelmente estavam em suas salas de aulas. Não daria tempo de tomar café. Olhou rapidamente o horário na parede, e não soube se ficava triste ou feliz. Teria poções, juntamente com Grifinória. Iria vê-la com o maldito Potter. Sorrindo para o maldito Potter. De mãos dadas com o maldito Potter. Feliz... Com o Potter. Não era egoísmo seu não querer que ela fosse feliz? Talvez fosse. Na verdade, ele não suportava vê-la feliz com o outro. Queria que ela estivesse feliz ao seu lado. Riu amargamente. Quem seria feliz ao lado de um Malfoy cafajeste e amargo como ele?
Entrou discretamente e seu olhar automaticamente caiu sobre ela. Olhava o professor explicar, mas não parecia escutá-lo, de fato. Caminhou até junto de Pansy e Zabini, trocando um rápido cumprimento com ambos. Observava ela levantar a mão a cada pergunta feita por Slughorn. Observava os lábios finos da garota formarem um sorriso fraco a cada elogio. O que havia com ela? Parecia tão triste, abatida. Queria poder falar com ela, perguntar o que estava acontecendo, abraçá-la e principalmente, beijá-la, mas estava mais do que claro que dele, ela só queria distância. Então era isso que iria fazer. Por ela. Mesmo sabendo o quão doloroso isso seria para ele.
Quando enfim, a aula terminou, os alunos já se amontoavam pelo corredor e Hermione, Harry e Rony saíram da sala, foi que Pansy se pronunciou pela primeira vez durante o dia.
- Ela Draco? – perguntou, a voz arrastada. Preocupada – Sabe que de todas as garotas da escola...
-... Ela é a menos indicada para que você se apaixone – completou Blaise - Ela é um sangue-sujo e se seu pai descobrir...
- Que se dane! – bradou, assustando os amigos – Pouco me importa o que ele pensa! Pouco me importa qualquer coisa vinda dele! Espero que apodreça em Azkaban! Por causa dele e dessa maldita tradição de sangue, estamos metidos nessa! Por causa desse preconceito, a guerra se torna cada vez mais perigosa! Você acha mesmo, Blaise, que eu realmente me importo com o sangue dela? Não, por que agora tudo mudou. Não têm sentido de continuar com essa besteira. To fora – pegou a mochila, e saiu.
Os amigos se entreolharam, sem saber o que fazer. Sabiam que as palavras dele de nada valeriam. Por que o destino do loiro estava traçado antes mesmo dele nascer. Por que ela era um Malfoy.
Hermione andava de um lado para o outro, no salão comunal da grifinória, as mãos na cintura, balançando a cabeça negativamente.
- E aí, eu sai de lá. Não conseguiria ver o que eles fariam depois – disse Rony, os olhos tristes.
- E o que você vai fazer? – perguntou Harry, temeroso.
- Terminar com ela e seguir em frente. Ela me magoou muito, quero esquecê-la.
- Ah – exclamou Hermione, com um sorriso assassino – Eu quero ir com você.
- Mione, eu acho que essa conversa seja só entre eles dois, sabe? – interferiu Harry.
- Claro que eu sei, Harry – revirou os olhos e voltou a sorrir – Mas eu quero estar lá.
- Para quê? – perguntou Rony, olhando desconfiado – O que está armando Mione?
- Eu? – ela colocou a mão no peito, encarando-os cinicamente – Nada, Ron. Que ideia.
Rony deixou um sorriso fraco escapar entre os lábios e Harry enlaçou a cintura da amiga em um gesto carinhoso. Os três seguiram para o jardim, onde provavelmente estavam os alunos nesse horário.
De longe, do seu lugar de sempre, Draco viu o Trio de Ouro se aproximar. O Weasley ia à frente, em um misto de raiva e desespero. Potter vinha um pouco mais atrás, sem expressão alguma. Ao seu lado estava Hermione, os olhos furiosos e assassinos. O loiro se ajeitou perto da árvore, tentando entender o motivo daquilo.
A essa altura, todos observavam discretamente todos os passos de Rony até Lilá. A garota inocentemente atirou-se no pescoço do ruivo, que sem nenhuma delicadeza, arrancou-a para longe.
- Como pode fazer isso comigo? Como pode me trair desta forma? – perguntou para a menina, que recuava assustada.
- Uon-Uon, do que é que está falando? – perguntou o mais cinicamente possível.
- Eu já sei, Lilá, sei que me traia. Eu vi você com o McLaggen. Como pode ser tão... Cruel? Tão... Canalha?
Em uma fração de segundos, o olhar espantado da menina desapareceu e um sorriso frio apareceu.
Ofensas não, pensou.
- Rony, acha mesmo que eu me interessaria por alguém como você? Faça-me o favor. Ninguém olharia a você, ainda mais estando ao lado de Harry Potter – ela apontou o moreno, que olhava tudo assustado – Até a Granger preferiu ele a você. Conte a eles Hermione, conte a elas que estava se agarrando com Harry Potter – soltou as palavras cobertas de maldade. O burbúrio foi inevitável – Não me venha com surpresas. Sinto muito se você se iludiu demais comigo. Não tenho culpa se você é tão... Bobinho – gargalhou e alguns alunos da Sonserina riam também.
- Está tudo... Terminado... – o ruivo disse, tremendo ligeiramente. Virou-se e caminhou para dentro do castelo. Quando passou por Hermione, ela murmurou:
- Terminou, Ron? – o garoto balançou a cabeça, desnorteado com o sorriso da amiga. Hermione passou a mão no cabelo dele – Agora é minha vez conversar com ela
Ela caminhou perigosamente até Lilá, que estava virada, conversando com alguns garotos. Cutucou o ombro dela, nada gentil. Lilá virou-se, sorrindo, e antes que pudesse fazer qualquer coisa, Hermione esbofeteou-a na cara. A menina desequilibrou-se e caiu. Os alunos se aglomeravam em volta das duas, já aos berros (Briga! Briga!). Draco também se aproximou disfarçadamente, um sorriso de orgulho de sua castanha no rosto. Hermione puxou-a pelos cabelos, fazendo-a encará-la.
- Isso foi por ter brincado com os sentimentos do meu amigo. E isso – mais uma bofetada – É por ser uma completa vadia. E de péssimo gosto. McLaggen, Brown? Foi só isso que conseguiu? – ela soltou com força a loira no chão, e sorriu friamente – Nunca mais mexa com os meus amigos.
Nisso, todos ao redor já gritavam euforicamente, “cumprimentando” Hermione. Ela sorriu para todos e antes de sair disse a Rony: – Nunca diga que eu nunca fiz nada por você.
(N/A: Bom, está aí o quinto capítulo. E, ah, Gleek, obrigada pelo comentário viu? Que bom que está gostando. Pode ter certeza que a Hermione ainda vai ralhar muito com o Draco, e só assim, entender essa aversão toda por ele. Beijos, até mais. Posto daqui a uns dias. Fiquem atentos.)