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ATENÇÃO: Esta fic pode conter linguagem e conteúdo inapropriados para menores de idade então o leitor está concordando com os termos descritos.

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6. Cap VI


Fic: Última Conquista


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Harry largou o prato sobre a mesa e caminhou em direção a Austin, que, por sua vez, deu um passo para trás ao vê-lo avançar. A atitude defensiva fez com que Harry hesitasse por um momento. Então, tocou o queixo de Austin, obrigando-o a fitá-lo. Não foi fácil, mas conseguiu manter a voz calma e moderada.


- O que aconteceu com você?


O menino estreitou os olhos desconfiado.


- Nada.


Patrícia levantou-se aflita.


- Austin Calder, você andou brigando outra vez?


- Não - ele respondeu furioso.


- Além de desobediente, é mentiroso - Dinah retrucou.


- Agora chega! - Hermione empurrou a cadeira e postou-se ao lado de Harry. Em seguida, afagou os cabelos emaranhados do menino. - Austin, sou sua prima, Hermione Granger. Fico feliz que tenha chegado.


Austin a fitou com olhos hostis.


- Por quê?


- Porque eu queria conhecê-lo. - Hermione sorriu. - Já que vamos morar juntos, não acha uma boa idéia?


- Não sei.


De súbito, uma jovem entrou na cozinha. Ao contrário de Austin, ela usava roupas limpas e os cabelos loiros e compridos haviam sido escovados. A bem da verdade, os olhos da jovem eram tão escuros e indefinidos como os do irmão.


Hermione olhou-a surpresa.


- Willow?


A garota esquadrinhou a cozinha, observando os presentes e aproximou-se do irmão.


Tal qual Harry fizera, tocou o queixo de Austin.


- Você nunca aprende, Austin.


- Ele apanhou mais que eu - o menino retrucou.


Harry reprimiu a risada. Aquele garoto o divertia. Austin era pequeno para oito anos e bem magricela, mas agora com Hermione para alimentá-lo ele haveria de crescer.


Willow suspirou. Pegou a mão do irmão e o levou a pia para lavar o olho roxo. Austin permaneceu quieto, como um menino obediente.


Harry não sabia o que pensar da jovem. Se Austin não parecia ter nove anos, Willow


jamais se passaria por uma pré-adolescente de onze. Harry estremeceu ao pensar no trabalho que Hermione teria para manter as crianças longe dela.


- Quem é você? - Willow perguntou a ele. Educado, Harry estendeu a mão.


- Harry Potter. Vim com Hermione.


A mão de Willow era fria e suave, mas firme.


- Você é o namorado dela?


- Estou tentando.


Incomodada com a situação, Hermione riu alto demais.


- Ele é apenas um amigo, Willow. Você mencionou algumas dificuldades por aqui e achei que Harry poderia nos ajudar a resolver essas dificuldades.


- Sou parecido com seu irmão. - Harry tocou o ombro de Austin.


Patrícia olhou-os chocada.


- Pelo amor de Deus, não os encoraje.


- Deus proíbe qualquer tipo de encorajamento - Julie murmurou.


A cada minuto, Harry gostava mais e mais de Julie. Era franca e mostrava-se tão envolvida com as crianças quanto Hermione. E, na atual conjuntura, uma aliada pareceu-lhe uma boa idéia.


Hermione ajoelhou ao lado de Austin.


- Certo, garoto. Como conseguiu esse olho roxo?


- Provavelmente provocando alguém - Dinah zombou, mas calou-se quando Hermione lançou-lhe um olhar feroz.


Austin pareceu indeciso e, por fim, Willow tomou a palavra.


- Eu voltava para casa quando uns rapazes decidiram me molestar. Austin tem o hábito de me seguir, bancando o cão de guarda. - Ela encarou o irmão, que a ignorou.


- Por que ele tem que tomar conta de você? - Harry indagou.


- Desde que nossa mãe morreu... - Willow olhou em volta, perturbada, mas prosseguiu:  -Desde então, as crianças acham que sou uma mulher fácil.


- Porque ela lhes deu essa impressão - Patrícia reclamou.


O olhar de desprezo que Willow lançou para Patrícia continha cinismo demais para uma adolescente.


- Saí com um rapaz apenas uma vez e, então, ele começou a se gabar. Quase tudo que disse era mentira, mas todos acreditaram nele, inclusive Patrícia. Antes que Patrícia pudesse retrucar, Harry entrou na conversa, alegando o óbvio:


- Você é jovem demais para namorar.


- Vou fazer doze anos em breve.


- Jovem demais - Harry repetiu.


- Então esses garotos se aproximaram de você dizendo grosserias - Hermione concluiu.


- E Austin interveio?


Willow fitou Hermione e suspirou de novo.


- Podemos nos sentar, se quiser escutar a história inteira.


- Você interrompeu nosso lanche, senhorita — Dinah reclamou irritada.


Harry simplesmente estava farto daquela mulher.


- Dinah, não precisaremos mais de seus serviços. Hermione é uma excelente cozinheira e eu também estarei aqui para auxiliá-la.


- Como? - Dinah espantou-se.


- Você está despedida - Hermione foi mais direta. Dinah encarou Harry surpresa, e rapidamente desviou a atenção para Hermione.


- Isso é um absurdo!


Harry esperou para ver se Hermione a amaldiçoaria ou se soltaria uma gargalhada. Mas nenhuma das alternativas ocorreu.


- Você precisa de ajuda para fazer as malas? - Hermione perguntou de modo casual.


Por um momento, o rosto de Dinah tornou-se vermelho, como se ela fosse implodir.


Contudo, após olhar as crianças com desprezo, ela se retirou.


Patrícia levou as mãos ao peito.


- Isso foi desagradável e um tanto imprudente, creio eu. - Ela apelou para Harry. -


Dinah pode ser atrevida, sem dúvida. Mas chegou aqui com ótimas recomendações. Não faltou nenhum dia e reclama pouco das atitudes das crianças. Vocês não imaginam como elas podem ser bagunceiras. Quando brincam à beira do lago, há muitas roupas para lavar, e estão sempre com fome...


- Sim - interrompeu Harry, atento a Hermione, já que ela podia ser imprevisível. – Você disse que também está com pressa, certo?


As crianças o fitavam com olhos arregalados. De repente, Hermione soltou uma risada sonora. Tomou a mão de Patrícia com certa simpatia.


- Foi melhor assim. Vamos nos instalar e nos acostumar com as crianças. Você mesma disse que seu noivo a aguarda em Glascow... Por que deixá-lo esperar?


Presumindo o que acontecia, Julie se levantou.


- Vamos, Patrícia, vou acompanhá-la à porta.


As duas mulheres se foram, deixando Harry e Hermione a sós com as crianças.


- Agora vamos descobrir o que está havendo aqui. Hermione sentiu vontade de abraçar Harry por causa do apoio despretensioso. Em princípio, achara que a presença de Patrícia ajudaria a acalmar as crianças a mais uma mudança. Porém, logo percebera que não havia afinidade entre a tia e os sobrinhos, e que Patrícia não atinava para as necessidades deles.


- Já me sinto melhor - Harry informou. - Alguém está com fome? Podemos conversar enquanto comemos. Sentem-se. — Ele se jogou na cadeira, engoliu um sanduíche e sorriu enquanto mastigava outro.


Hermione indicou uma cadeira a Austin. Não queria forçá-lo a nada, mas não conteve a compaixão ao ver o olho roxo.


- Está doendo?


- Meu olho? - O tom de desagrado na voz mostrou o que ele achava da preocupação de Hermione. — Não foi nada.


- Sei que os homens não gostam de mostrar que sentem dor. Eu mesmo faço isso o tempo todo. Mas quando uma mulher realmente se preocupa, é legal receber o carinho dela.


Austin fez uma careta.


- Carinho é para maricas.


Harry deu risada.


- Você quer me ofender, garoto?


Austin pareceu tão horrorizado com essa probabilidade que Hermione entrou na conversa para tranqüilizá-lo.


- Harry levou uma surra semana passada e me deixou cuidar dele.


Surpreendidos, os dois encaravam Hermione e Harry.


- Por que você gosta dele? - Willow perguntou com cautela.


Hermione ficou sem fala. Gostava muito de Harry, mas confessar o sentimento seria encorajá-lo demais. Felizmente, Austin a poupou da resposta.


- Você levou uma surra?


- Quase isso. - Harry ficou em pé e levantou a camiseta. - Um idiota conseguiu me pegar


desprevenido.  


- Porque ele desmaiou.


- Eu não desmaiei, Hermione. Fui nocauteado. Há uma diferença enorme entre os dois


estados e obrigado por lembrar dela.


Willow observava-os com curiosidade.


- Eu acho que são dois loucos.


- Apenas Hermione é definitivamente louca, faz parte de seu charme. - Harry fingiu não ver


a expressão irritada de Hermione. - Agora nos contem o que aconteceu. Queremos ajudar. Austin pulou da cadeira e sacudiu o punho no ar.


— Um filho da p... chamou Willow de vagabunda, e eu dei uns socos nele.


Hermione e Harry ficaram boquiabertos ante a declaração impetuosa de um menino de oito


anos. Willow bufou antes de ruborizar.


- Austin! Não use esse linguajar.


- É um filho da p..., sim - Austin insistiu. - Eu o odeio. Na próxima vez, vou quebrar o nariz dele. Tudo que Hermione pôde fazer foi reprimir o riso.


- Se ele xingou sua irmã desse jeito, concordo com você. Mas não precisa usar palavras tão feias.


- Minha mãe nunca permitiu que ele falasse assim, mas Patrícia prefere ignorar o vocabulário de Austin.


- Porque Patrícia é uma...


- Quer saber como eu chamo esse tipo de pessoas? - Harry o interrompeu.


De repente, Austin ficou muito atento.


- Como?


- De verme, estafermo, trapaceiro...


- Babaca - Austin sugeriu. Harry caiu na risada.


- Harry...- Hermione o chamou em advertência.


- Desculpe. - Ainda com um sorriso leve, ele disse a Austin: - Babaca é tão grosseiro quanto filho da p... Além do fato de você ser jovem demais para usar esse tipo de linguagem, não é gentil falar assim na presença de mulheres. Não quer ser mal-educado, certo?


Austin examinou as duas mulheres presentes e deu de ombros.


- Claro que não quer - Harry insistiu. - Portanto, quando quiser ofender alguém, use a imaginação. Combinado?


Por um momento, Austin ficou pensativo.


- O que há de errado com canalha, pentelho ou idiota? Willow gemeu aborrecida. Harry conteve o riso.


- Quase nada. Mas um homem de verdade evita palavrões e, ainda assim, diz o que pensa de alguém.


- E não deve atacá-lo cada vez que ele diz uma bobagem a meu respeito - Willow


interveio.


- Na próxima vez, vou achar um pedaço de pau bem grande. Ou talvez uma pedra,


ou...


Willow ficou furiosa e o empurrou.


- Sempre uso trajetos diferentes para ir à cidade, mas as crianças acabam me achando, mesmo quando corto caminho pela mata. Foi o que fiz hoje. Eles gostam de provocar Austin só para vê-lo irritado.


- Eles a incomodam porque é bonita e porque querem fazer coisas feias com você. -


Austin virou-se para Harry.- Ela é bonita, não é?


- Muito - Harry confirmou.


- Willow parece como nossa mãe - Austin contou a Hermione.


- Então, sua mãe deve ter sido bonita mesmo - Harry falou seriamente.


As crianças, enfim, começavam a se acalmar.


- Por que vocês vão à cidade? - Hermione perguntou, notando o constrangimento de


Willow.


- Ela tem aula de piano - Austin respondeu.


- É verdade? - Hermione ficou surpresa. - Gosta de música? Estou impressionada. -


Não houve reação. Ela suspirou. - Por que vai a pé à cidade, Willow, já que sabe que poderá enfrentar aborrecimentos?


- Porque ninguém daria carona a ela. Willow parecia prestes a enforcar o irmão.


- Eu tenho boca, ratinho. Pare de falar por mim. Austin virou-se a Harry.


- Ratinho também é palavrão?


- Depende como você usa a palavra. Sua irmã a usou em um bom sentido. Mas se usá-la com um valentão, o homem é capaz de se ofender.


- Está certo. Mas acho que Willow usou a palavra para me ofender.


- Não. - Ela beliscou o irmão. - Esses garotos são mais fortes que você, Austin.


Não pode se meter com eles.


- Chutei a bunda dele.- Austin olhou para Harry. - Quero dizer, o traseiro dele.


- Você o chutou e depois saiu correndo. Mas ele conseguiu alcançá-lo. – Willow apontou o olho roxo.


- Que idade esses garotos têm?— Harry perguntou.


- Quatorze anos - Willow respondeu. Hermione percebeu a súbita tensão de Harry.


- Mas que diabo! - Ele se levantou indignado. Austin ergueu as sobrancelhas espantado.


- A gente pode falar assim?


- O quê?


- Você disse diabo.


- Certo. Desculpe - Harry murmurou envergonhado.


- Tudo bem - Austin concedeu.


Harry olhou para cima, à procura de inspiração divina. Mas não houve resposta.


- Onde posso encontrar esses garotos? Willow o fitou relutante.


- Em geral, eles aparecem aqui minutos depois de eu chegar. Sempre se queixam de


Austin para Patrícia, e ela o coloca de castigo.


- Ela faz o quê? - Hermione indagou, rígida de raiva.


- Não adianta nada. Consigo fugir de qualquer jeito. Sou bom nisso. – Austin envaideceu-se de orgulho.


- Que Deus nos ajude. - Harry abaixou-se diante de Austin e tocou-lhe os ombros. -


Vamos estabelecer novas regras, certo? Primeira: sua irmã não irá mais à cidade sozinha ou a pé.


Hermione e eu a levaremos. - Harry piscou para Hermione.


- Combinado. - Só de imaginar Willow caminhando sozinha até a cidade, Hermione estremecia de medo. Então, engolindo as preocupações, dirigiu-se a Austin. — Se quiser acompanhá-la, tudo bem, mas também não fará esse trajeto sozinho.


- Como assim?


Como assim? Aquelas crianças haviam tido algum tipo de supervisão após a morte da mãe? - Hermione perguntou-se.


- Não é seguro, Austin.


- Não tenho medo desses filhos... vermes.


- Sabemos disso - Harry reforçou. - Mas existem outros perigos. E eu e Hermione não agüentaríamos ver um de vocês machucado.


- Vocês nem sequer nos conhecem - Willow rebateu com frieza.


- Não importa! - Hermione exclamou. - Adultos responsáveis precisam tomar conta dos mais novos e é o que pretendemos fazer.


Willow nada disse, mas deixou clara sua incredulidade.


- Willow - Hermione aproximou-se. - Nós nos conhecemos pouco, mas eu e Harry já gostamos de vocês dois.


- Sei.


O coração de Hermione se contraiu ante o comentário sarcástico.


- Terei de conhecê-la melhor, é verdade, mas tenho certeza de que nos daremos bem.


Minha intuição nunca falha.


- É verdade - Harry reforçou.


- Já sabemos que seu irmão é honrado o bastante para defendê-la de garotos maiores e mais velhos que ele. E sabemos que você tem maturidade para evitar que ele se machuque ao tentar protegê-la. Ambos são valentes e leais. Trata-se de qualidades excepcionais. Conheço várias pessoas que não as possuem.


- Como tia Patrícia.


Hermione quis concordar, mas vacilou. Afirmar que a tia não havia cuidado bem dos sobrinhos pareceu-lhe contraproducente.


- Creio que sua tia não nasceu para ser guardiã. E acredito que ela tenha dado o melhor de si. Austin examinou Hermione, com esperança e medo.


- Você nasceu para ser guardiã? O coração de Hermione se derreteu.


- Nunca me responsabilizei por alguém, além de mim mesma. Contudo, sou muito teimosa. Se decidir algo, vou até o fim. Mas não sou perfeita, Austin. Quando eu cometer erros, espero que você e Willow me avisem para que possamos discutir o assunto e encontrar uma solução satisfatória para todos. Combinado?


- Isso vale para mim também - Harry completou. Hermione espantou-se. Por que Harry fazia aquela promessa?


Afinal, não permaneceria com as crianças tanto tempo assim.


- Se alguém ofender sua irmã - ele continuou - ou você, eu quero saber, certo?


- Por quê?


Hermione não sabia que crianças podiam fazer tantas perguntas.


- Porque sou bom em resolver esses problemas. Willow pareceu, de repente, apavorada.


- E como você resolveria isso?


Até Hermione estava curiosa. Se os ofensores fossem homens adultos, Harry não teria pudores. Mas não podia socar uma turma de adolescentes.


- Primeiro, eu teria uma longa conversa com eles. Se isso não funcionasse, conversaria com os pais deles.


- Harry sabe intimidar as pessoas - Hermione acrescentou, agora satisfeita por tê-lo trazido.


Triste, Austin baixou o rosto.


- Os pais deles não se importam. Não gostam da gente.


- E por quê? - Harry levantou o queixo de Austin.


- Não sei.


- Mentiroso - Willow retrucou, parecendo mais velha. - Austin andou aprontando aqui e ali.


- É mesmo? O que ele fez?


Willow usou os dedos para enumerar os delitos do irmão.


- Ele passou cocô de cachorro na cadeira do diretor da escola, quebrou a janela do carro da bibliotecária com uma pedra, atropelou as rosas premiadas do quitandeiro...


Hermione fitou Austin incrédula. Não podia acreditar que um menino doce e inocente fosse tão travesso. Preparado para se defender, Austin levou as mãos à cintura.


- Joguei uma pedra no carro porque o filho da bibliotecária cuspiu em mim quando passou a meu lado. Ele tem dezoito anos. Por isso, pensei que o carro fosse dele, não o de sua mãe.


- E com um murmúrio completou:  - Quis provocá-lo para eu poder lhe dar um chute.


Mas ele simplesmente foi embora, o covarde.


- Ele cuspiu em você? - Harry ficou pasmo.


- Sim. O cuspe chegou a molhar meus cabelos. Ele tinha de levar um chute, não acha?


- Você contou a Patrícia? - Harry quis saber.


- Ela não se importa. Teria me deixado de castigo, se soubesse. Foi o que aconteceu, quando pisei sem querer naquelas flores bobas.


- Sem querer?


- Eu tentava olhar pela janela.


- Por que queria olhar pela janela? - Hermione perguntou sem conter a curiosidade.


Notando o silêncio do irmão, Willow segurou-lhe a mão para apoiá-lo.


- Estava havendo uma festa. Todos os meninos tinham sido convidados, menos Austin.


- Eu não queria ir àquela festa idiota!


As palavras de revolta não esconderam a tristeza no olhar do garoto. Deus, a situação ficava cada vez pior. Pobre Austin. Hermione não podia condená-lo. Mesmo insegura, achou melhor ficar a par de todos os problemas para depois pensar em como resolvê-los.


- E quanto às fezes que passou na cadeira do diretor?


- Ele não viu o cocô e se sentou na cadeira. - Austin tentou esconder o riso. -


Vocês precisavam ver a cara dele quando viu a sujeira na calça.


Harry riu, mas conteve-se quando Hermione o encarou. Não entendia muito a respeito de crianças, mas sabia que Austin não podia ser incentivado a aprontar desse jeito.


- Por que fez isso, Austin? Ele e Willow ficaram quietos.


Julie voltou da cozinha, esfregando as mãos e indicando que tinham se livrado de Patrícia.


- Posso responder a essa pergunta. - Ela se sentou. - Estou na cidade há poucas semanas. Leciono em uma escola particular perto daqui, mas quando soube que precisavam de professora para o curso de verão, eu logo me ofereci.


- Que generosidade a sua.


Ela ignorou o comentário de Harry.


- Tornei-me professora para me relacionar com crianças, não para bajular os ricos. —


Ela cruzou os braços. - Além disso, precisava ficar um tempo longe de meu noivo.


Hermione e Harry se entreolharam perplexos.


- Lamento que esteja tendo problemas com...


- Meu noivo é um tédio às vezes, mas não importa - Julie retrucou. - A questão é que levei três dias para perceber que Clay Owen é um jovem desorientado. Do seu jeito, ele se esforça para chamar a atenção de Willow.


- Ele a chamou de vagabunda!


- Eu sei, Austin, e isso é imperdoável. O rapaz não foi educado, infelizmente. O padrasto encobre todos os erros de Clay.


- É o mesmo garoto que lhe causou esse olho roxo? - Hermione perguntou.


- É um animal! - Austin exclamou. - Clay era amigo de Willow. Eles brincavam sempre quando mamãe estava viva. Mas agora ele a faz chorar.


- Cale a boca, Austin! - Willow esbravejou.


- Ele não terá desculpas para mim - Harry ameaçou. Julie não ficou impressionada.


- Homens - ela disse com desdém. - Se quiser viver nesta cidade, Sr. Potter, precisa se entender com Quincy Owen.


- Por quê?


- Ele praticamente manda na cidade. É muito respeitado pela maioria.


- A maioria?


- Ainda não me convenci de sua respeitabilidade - Julie confessou.


- O padrasto de Clay faz doações para o Corpo de Bombeiros - Willow explicou. -


E pertence ao conselho da cidade e da escola. Também subsidia o time de futebol e oferece bolsas aos universitários. Todos vão a ele quando precisam de algo. Menos a gente. O Sr. Owen não gosta de nós.


- Ele beija todos os bebês e paquera todas as velhas - Austin acrescentou enojado.


- Quincy controla boa parte da cidade - Julie contou. - É proprietário do único shopping center da região e da fábrica. Isso significa que o homem emprega a maior parte da população. Os habitantes dependem dele. Por isso, o enteado abusa.


- E o diretor da escola - Harry concluiu - permite que Clay saia ileso quando ofende ou maltrata Austin.


- Quincy Owen tem muita influência - Julie confirmou.


- Também tenho minha cota de influência. - O celular de Harry tocou, diminuindo o impacto da declaração. Ele o tirou do bolso e atendeu. — Potter.


Hermione ficou apreensiva. Teria o ministério descoberto quem os seguira? Esperava que sim.


- Tem certeza de que a placa era falsa? - Harry perguntou nervoso. - Um carro roubado? — Ele bufou frustrado.


Austin pulou na cadeira e olhou para Hermione e Julie.


- Obrigado - Harry desligou o celular e o guardou. - Desculpem-me, senhoras. Foram notícias desoladoras.


- Alguém roubou seu carro? - Austin quis saber, ávido por alguma aventura.


- Não - Harry disse, dirigindo-se a Hermione. - A placa era fria. O interessante é que o carro se encaixa na descrição de um veículo roubado, o qual foi encontrado pela polícia com a numeração original. - Harry coçou o queixo. - Acho que o sujeito do sedan marrom é o mesmo que vi esta manhã. Ele simplesmente trocou de automóvel.


Julie nada entendia. Willow e Austin estavam atônitos. Hermione não queria que tivessem medo de Harry.


- Poderemos falar disso mais tarde - ela sugeriu. - Agora pretendo organizar um cronograma.


- Que tipo de cronograma? — Austin perguntou desconfiado.


- Quero que sua irmã compareça às aulas de piano e ao curso de verão na escola.


- O curso de verão? — Willow sorriu maravilhada.


- Para quê? — Austin retrucou aborrecido.


- Vocês dois estão um pouco atrasados em relação à turma — Julie explicou. — Mas não são os culpados. Examinei suas provas e trabalhos e sei que têm plena capacidade de acompanhar os colegas.


- Não gosto de estudar — Austin protestou.


- Mas não há como fugir dos estudos, Austin, e você sabe disso. — Julie olhou para


Hermione. - Os dois são muito inteligentes.


Hermione sorriu orgulhosa, embora os conhecesse pouco. Contudo, a animação de Willow desapareceu, dando lugar a um certo amargor.


- O diretor não gosta de nós — ela alegou infeliz. — Chamou-me de encrenqueira e disse que Austin é um moleque sujo. Ele até aconselhou Patrícia a nos mandar para um internato.


- Vocês não vão a lugar algum — Hermione garantiu.— E acho que vou ter uma conversa com esse diretor.


Harry gemeu preocupado.


- Deixe o diretor comigo — Julie prontificou-se. — Sei como lidar com ele.


- Obrigada, Julie.


- Então, está decidido. Vou trabalhar com vocês dois e, Austin, garanto-lhe que será tudo diferente. Aposto como irá gostar do curso.


Austin não pareceu muito convencido, mas Willow assentiu, mais animada.


- Poderei comparecer às aulas de piano à tarde. O que vocês acham?


- Quem ministra as aulas? — Hermione queria conversar com o professor e agradecer-lhe a influência construtiva.


- Eu mesma - Julie respondeu. - E Willow é uma excelente aluna.


- Tia Patrícia disse que não poderíamos pagar as aulas — Willow confessou. — Por isso, a Sra. Rose não cobra nada.


Julie ficou corada e, para esconder o rubor, mostrou-se ainda mais modesta.


- É um prazer para mim. Você é uma aluna talentosa e divertida, Willow. Que professora eu seria, caso ignorasse tais qualidades?


- Está evidente que é uma ótima professora.— Hermione sorriu.


- Gosto de pensar que sou mesmo.


- De agora em diante, iremos pagar pelas aulas. Julie não objetou.


- Seria bom. Sinto-me aliviada de poder trabalhar com Willow. Não gostava de vê-la caminhando sozinha pela cidade. Por essa razão, vim até aqui conversar com Patrícia, mas ela se recusou a encarar o problema.


- Não sou como Patrícia — Hermione assegurou.


- Posso ver que não é mesmo. — Julie examinou-a da cabeça aos pés.


- Levaremos Willow a sua casa no horário que achar mais conveniente.


- Perfeito. Podemos iniciar o curso de verão segunda-feira, digamos, às nove horas?


Assim vocês terão a semana toda para conhecer as crianças e se acomodar.


- Ótimo.


- Preciso ir agora. — Julie levantou-se. — Foi um prazer conhecê-la.


- Igualmente.


- Sr. Potter, obrigada. — Julie apertou a mão de Harry. Enquanto acompanhavam a professora à porta, discutiram seus honorários, os quais Hermione achou razoáveis. Já na varanda, Willow fez perguntas acerca do que estudariam e de quanto tempo passariam juntas. Austin permaneceu reservado até Julie dizer-lhe que sairiam a campo para pesquisar insetos.


Tão logo Julie seguiu em seu carro, um jipe esporte surgiu na estrada, levantando poeira e com o som no máximo. Willow observou o veículo assustada.


- Aqueles são Clay Owen e seus amigos, Darren e Lee — ela murmurou, rígida de medo.


- Os meninos que a incomodaram? — Hermione perguntou. Willow assentiu.


Harry esfregou as mãos, animado.


- Chegaram na hora. — Ele atravessou o jardim para recebê-los.


Sabendo que Harry podia chegar a extremos, Hermione pediu às crianças que esperassem dentro de casa.


- Não mesmo. — Austin seguiu Harry.


- Se eu conseguir mantê-lo vivo até os nove anos, será um milagre — Willow comentou inconformada.


Compadecida, Hermione a abraçou. Willow ficou tensa, mas não a repudiou, o que foi um bom sinal.


- Você se saiu muito bem, querida. Mas agora estou aqui para ajudá-la.


- Pode ser. — Quando o jipe parou em frente à casa, Willow virou-se. — Vou esperar lá dentro. Boa sorte — disse a Hermione, antes de fechar a porta.


Precisaria mesmo de sorte, ela pensou, postando-se ao lado de Austin e notando o sorriso satisfeito de Harry.


Alheio a tudo, Clay Owen desligou o motor, interrompendo a barulheira do rádio. Sob o repentino silêncio, ele continuou sentado diante da direção, observando Harry.


Hermione teve de admitir que se tratava de um rapaz muito bonito. Cabelos castanhos, pele bronzeada e corpo atlético. O jovem devia causar um frisson entre as meninas.


Uma das crianças achava-se sentada ao lado de Clay, exibindo uma postura desafiadora.


O outro estava no banco traseiro e apoiava os pés no console. Os três bebiam refrigerante em lata e usavam óculos escuros.


Arrogante, Clay olhou ao redor, aparentemente procurando Willow. Então desceu do jipe e caminhou em direção à casa.


- Willow está? — perguntou a ninguém em particular. Austin estufou o peito, pronto para defender o próprio lar.


- Não vai se dar bem, Clay.


Ele tirou os óculos escuros, revelando bonitos olhos verdes.


- Verdade, moleque? — Clay riu e, ignorando Austin, continuou seu trajeto.


Casual, Harry moveu-se, bloqueando a passagem. Clay deteve-se, derrubando um pouco de refrigerante.


- O que há, cara?


- Meu nome é Sr. Potter — Harry informou respeitoso. — E você está invadindo esta propriedade.


- Invadindo?— Clay retrucou. — Patrícia me deixa vir aqui quando quero.


- Pois eu não deixo.


- Onde está Patrícia?


- Ela se foi. — Harry sorriu diabólico. - Agora é comigo que você terá de lidar.


- E comigo. - Hermione deu um passo à frente. - Sou Hermione Granger, prima de Willow.


Ela estendeu a mão, surpreendendo Harry.


- Estão aqui para cuidar de Willow e Austin? — Clay indagou ao cumprimentá-la.


- Exatamente.— Harry esperou imóvel.


- Não entendo— Clay disse.


- É muito simples. Você ofendeu Willow e bateu em Austin — Harry explicou. — São atitudes inaceitáveis. Se não aprender a se comportar, não será bem-vindo aqui. Agora sugiro que entre em seu carro e vá embora.


Clay ficou boquiaberto e encarou os amigos, chocado.


- Está me ameaçando?— ele enfrentou Harry.


- Claro que não. — Hermione riu.— Harry não ameaça crianças. Clay ficou ainda mais chocado ao ser chamado de criança.


- Mas...


- A questão é que não quero ver Willow ofendida ou Austin espancado — Hermione explicou. — Viu o olho dele?


Orgulhoso, Austin encarou Clay.


- Foi esse pirralho que começou — Clay acusou. — Eu só queria falar com Willow, e ele pulou nas minhas costas.


- Você xingou minha irmã — Austin atacou. Clay soltou uma risada nervosa.


- Eu não disse nada que ela já não tenha escutado. Além disso, só estávamos brincando.


Harry segurou Austin antes que ele avançasse em Clay.


- Vá embora, Clay, e não volte se não for convidado por Willow.


Embora indeciso, o rapaz endireitou os ombros.


- Quero falar com Willow.


- Não. — Hermione meneou a cabeça. —Ela entrou quando o viu chegar.


- Preciso apenas de um minuto com ela — Clay apelou.


- Ela não quer vê-lo.


Clay praguejou e jogou a lata de refrigerante no chão.


- Escutem, se o problema é o moleque, saibam que não quis machucá-lo. Ele pulou em mim e eu o empurrei com o braço. Não foi culpa minha.


Os amigos de Clay riram ao lembrar a cena.


Harry abaixou-se, pegou a lata de refrigerante jogou-a dentro do jipe. O líquido espalhou-se pelo assento de couro, causando pânico em Clay.


- Meu Deus! — Ele tirou a camiseta para enxugar o banco.


Os amigos, atarantados, tentaram ajudá-lo. Com total desprezo, Harry aproximou-se do jipe. Austin o seguiu, divertindo-se.


- Não jogue lixo no jardim e não xingue Austin.


- Meu padrasto ficará furioso — Clay avisou. — Espere e verá.


- Ótimo. — Harry abriu a porta do jipe para Clay. —Talvez ele lhe dê um belo castigo, que é o que você merece.


- Não em mim! — Clay exclamou patético. - Em você!


- Entre — Harry ordenou. Sem escolha, Clay obedeceu.


- Diga a seu pai que estou ansioso para falar com ele — Harry comunicou.


- É meu padrasto — Clay o corrigiu.


- Tanto faz. Nesse ínterim, acho que vou ligar para a polícia de Welcome County.


Aposto que você infringiu algumas leis hoje. Clay encarou Hermione e Harry.


- Não infringi lei alguma.


- Perturbação da paz, velocidade elevada, ausência de cinto de segurança, linguajar indecoroso... Posso pensar em mais itens, se quiser.


Amedrontado, Clay respirou fundo.


- Safando-se ou não, acha que seu padrasto irá gostar de receber uma visita da polícia?


Clay continuou em silêncio.


- Você já tem idade, e talvez inteligência, para agir como homem, em vez de bancar o delinqüente. Sua vida será mais fácil se tentar.


- Enquanto não aprender a se comportar — Hermione acrescentou —, fique longe daqui.


Após um instante, Clay olhou em direção a casa. Então, ligou o jipe e, praguejando, engatou a marcha. Hermione notou que ele não acelerou e abaixou o volume da música.


- Covardes — Austin resmungou, chutando a terra. Sério, Harry abaixou-se e ergueu o menino. Mesmo sabendo que ele ainda sentia dores, Hermione não interferiu.


- Homens de verdade não se vangloriam.


- O que significa isso? — Austin perguntou, sacudindo os pés.


- Significa que quando alguém está em desvantagem, não se pode xingá-lo ou humilhá-lo.


Se agir assim, você perde a dignidade e também vira um covarde.


- Não sou covarde.


- Não? Então, não se rebaixe, agindo como eles. Quando eu falar com a polícia, quero ter certeza de que você não aprontou confusão alguma. Qualquer disputa deverá começar e terminar com eles, não com você. Entendeu?


Austin assentiu com sinceridade, e, no final, um sorriso surgiu no rosto sujo.


- Foi muito legal assistir ao que fez com eles.


Harry conseguiu se conter por três segundos antes de cair na gargalhada.


- Ratinho. — Ele colocou Austin no chão e afagou-lhe os cabelos, levantando uma pequena nuvem de poeira. — Quer me ajudar a tirar o cabo do carro de Hermione? - perguntou.


- Depois podemos dar um mergulho no lago e pescar. O que acha?


- Legal! Vamos caçar minhocas para a isca. Hermione torceu o nariz ante a perspectiva.


- Tudo bem para você? — Harry a abraçou.


- Parece-me uma ótima idéia.


- Quer vir conosco? — convidou-a, quase a beijando.


- Eu adoraria vê-la de biquíni.


- Não, obrigada. — Hermione afastou-se. — Vão vocês dois e divirtam-se.


Harry beijou-lhe os lábios e retirou-se.


Ver os dois caminhando lado a lado foi engraçado para Hermione. Escutou a risada de


Austin e riu também. Por que Harry Potter tinha que ser bom em tudo?


Na verdade, era tudo que Hermione queria em um homem. Mas não servia para ela.


Ao virar-se para entrar na casa, notou um movimento na cortina da janela. Então soube


que Willow não desprezava tanto Clay Owen como dissera. Teria o rapaz visto que ela observara a cena? Hermione tinha o pressentimento de que Clay não desistiria. Não precisava acreditar em adivinhações para prever problemas.


No fim das contas, ela e Willow tinham algo em comum. Ambas gostavam do homem errado. Pelo menos, com Willow tratava-se de uma paixão adolescente. Para Hermione, era muito mais.        


Além disso, ela e Harry ainda teriam outro problema pela frente. Como contar as crianças que eles eram bruxos? A novidade poderia amedrontá-los ou eles poderiam contar a alguém e criar problemas com o ministério. Mas também não era possível esconder essa informação das crianças para sempre, ainda mais com a possibilidade de ser um bruxo os perseguindo. Hermione teria de ter uma conversa com Harry assim que ele retornasse para juntos tomarem uma decisão sobre o que fazer.

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