Ele a tinha em seus braços. Encarava fixamente o teto enquanto ela dormia profundamente. Perguntava-se o preço que pagaria por aquela noite e, depois de muita avaliação, concluiu que Amy estava certa na carta que lhe enviara pouco mais de duas semanas atrás. Seu bem mais precioso era aquele que tinha nos braços àquele momento; ela era a mulher de sua vida.
Desviou seu olhar para ela e encarou-a com ternura. Observara seu sono por inúmeras vezes, mas aquela manhã, em especial, ele pôde vislumbrar um leve sorriso nos lábios dela, sua menina-mulher. Os cabelos levemente dourados caíam sobre seu rosto sereno e ele, instintivamente, afastou-os, colocando-os atrás da orelha dela.
Com o toque dele, ela se mexeu, assim como seus lábios, que se moveram, contorcendo e depois formando um novo sorriso, dessa vez mais largo. Ele sorriu e beijou-lhe a testa. Novamente ela se mexeu e soltou um muxoxo, despertando. Abriu os olhos e encarou o moreno, sorrindo enquanto o abraçava ainda de olhos fechados.
- Acordaria assim todos os dias, por toda a minha vida, se possível.
Harry riu.
- Como dormiu a minha Mangid? – ele brincou. – Depois dessa noite não há dúvidas de que és mesmo uma. Apenas não comentei antes porque não houve como fazê-lo sem mudar completamente o foco do assunto.
- Eu dormi muito bem, não tenha dúvidas. E acho que o contrário seria impossível. – ela murmurou em resposta. – Quanto a ser Mangid, bem... Tive de aprender a me controlar. Depois que me recuperei da depressão, qualquer movimento desencadeava numa queda brusca de um perfume ou jarro, enfeite, porta-retrato e o que quer que estivesse perto. Nada acontecia com a leveza que você viu. Se eu não soubesse reparar o estrago, acho que não teríamos passado a noite aqui.
- Talvez Amy pudesse te ajudar... – Harry sugeriu.
- E ajudou. Da maneira que pôde. Ela não gosta de falar sobre esse assunto, acho que se sente menos normal, sabe?! Nunca tínhamos falado sobre isso, e ela nunca deu pistas de que era mesmo uma Mangid. Quando lhe contei, acho que se sentiu mais aliviada, encontrou alguém semelhante. De certo ela sabe que Dumbledore também é, lógico... Mas falar com Dumbledore é completamente diferente de falar com um amigo, com alguém mais íntimo, por assim dizer. E depois só esteve aqui duas vezes depois que você e eu... você sabe...
Ele apenas assentiu.
- O que importa é que estamos juntos agora, nada mais. – disse enquanto afagava os cabelos de Hermione.
- Queria poder parar o tempo. – ela murmurou sonhadora. – Uma pena saber que as pessoas se vão...
- Eu não. – ele disse sorrindo ternamente. – Eu estou aqui e agora te amando como nunca amei ninguém.
- Eu também. – ela fez, interrompendo-o com um sussurro quase inaudível.
- Não é preciso parar o tempo para que isso não se acabe. – ele continuou. – Porque eu vou te amar hoje, amanhã, daqui a dez anos e para toda a minha vida. – completou.
- Repete. – ela pediu sorrindo.
- O quê? – ele riu.
- Que você me ama. Repete.
Harry riu.
- O que seria de mim sem você, princesa? – ele se perguntou, sorrindo.
- Você sem mim, no mínimo. – ela riu.
- Sua boba! – Harry a beijou.
Hermione ouviu o despertador apitar e desvencilhou-se gentilmente do beijo.
- Acho melhor levantarmos e arrumar nossas coisas. Onze horas. – anunciou antes de puxar uma blusa de alças grossas justa e vestir.
Sem mais, levantou-se e caminhou para o banheiro. Sem nem se preocupar em fechar a porta, pôs-se a escovar os dentes. Harry se levantou logo em seguida, caminhando em direção ao armário.
- Tem roupas suficientes para mim aqui? – ele perguntou, abrindo-o.
Hermione enxaguou a boca para então responder:
- Acho que só o pijama e uma ou duas mudas de roupa. Não creio que seja o suficiente para o fim de semana inteiro. – ela repôs a escova no lugar e se aproximou. – Talvez você deva descer e arrumar sua mochila lá. – sugeriu enquanto separava suas próprias roupas. – E troque-se, pegue uma calça jeans, ponha outra camisa e... – ela abaixou-se e pegou uma caixa. – Isso aqui. – entregou a ele.
- O que...?
- Abre. É seu presente de dia dos namorados. Estava guardado, esperando seu aniversário. – ela riu e baixou os olhos corando.
Era um par de tênis. Mas junto com ele, ainda havia uma caixa menor. Um perfume.
- Obrigado, Mione. – ele agradeceu com um beijo rápido.
- Não foi nada. E agora está entregue. – ela sorriu. – Mas adiante-se! Vá tomar um banho e desça. De certo Amy não tardará a chegar.
- Está me colocando para fora, Srta. Granger? – Harry brincou, abraçando-a pelas costas e beijando seu pescoço. – É isso?
- Não é isso, e você sabe. – Hermione virou-se para encará-lo. – Certamente Amy já está a caminho e é de se esperar que venha diretamente me ver. E, bem... Será no mínimo constrangedor, tanto para ela quanto para nós, se ela chegar e você estiver aqui e... assim, não concorda? Além disso, você tem que estar pronto para o almoço, porque logo depois estaremos partindo.
- Tudo bem, mais uma vez você venceu. – o moreno assentiu com um sorriso maroto nos lábios. – Mas vou aproveitar a oportunidade para insistir que pense no que eu lhe falei sobre ser advogada ou qualquer coisa do gênero. – ele acrescentou. – Ainda acho que seria muito bem sucedida.
- Eu ainda não pensei sobre isso, mas como prometido... vou avaliar a sugestão. – ela brincou, dando-lhe um rápido selinho. – E chega de enrolar, Potter! Banho, já!
- Já fui! – ele fechou a porta do banheiro.
Hermione então estalou os dedos e a cama começou a se fazer com a perfeição de quem faz manualmente. Ela gostava de seu dom, mas não costumava abusar dele. No entanto, àquela ocasião, em especial, despertara-lhe uma preguiça quase irremediável, uma preguiça prazerosa.
Estava feliz como há muito não se sentia.
Colocou as roupas que selecionara sobre a cama e voltou ao armário para ver a que usaria. Acabou optando por uma saia, um colete e uma boina jeans, uma camisa baby-look branca e botas pretas camurça de cano curto e salto agulha.
Harry não demorou a sair do banheiro, já vestido. Ele ainda esfregava a toalha na cabeça para enxugar os cabelos.
- Eu vou descer logo. Você ainda tem que se arrumar também, e eu tenho que ajeitar minhas coisas antes de Amy chegar. – ele disse enquanto se aproximava. – Se bem que eu sinto que terei um bom tempo para isso, não? As duas amiguinhas terão muito que conversar, pelo visto.
- Eu acho que ela ficará feliz com as novidades.
- Sem dúvidas. Acho que sem ela nada disso teria acontecido.
- O que quer dizer?
- Apenas agradeça a ela. Por mim, por nós. Ela esteve o tempo todo ao nosso lado, ajudando, aconselhando... Tanto a mim quanto a você.
- Ela é quase uma irmã para mim. – Hermione assentiu. – Acho que nunca tive uma amiga como ela.
- Não deixe Gina ouvir isso. – o moreno brincou.
- Verdade. – ela riu. – Elas são diferentes. Gina é uma amiga de anos, de verões. Uma verdadeira irmã mais nova, a qual eu tento pôr juízo. É brincalhona, maldosa, moleca... – ela disse, descrevendo a ruiva. – Mas Amy é incomparável! Ela é muito parecida comigo. São personalidades quase que idênticas. Ela me entende, é uma confidente, uma amiga-irmã.
Harry a encarou confuso.
- Você não entenderia. – garantiu sorrindo. – A relação de vocês é diferente. Vocês são irmãos um para o outro. Ela te ama como amaria a um irmão. E vai estar sempre ao seu lado, te ajudando. – trocou o tom de voz por murmúrios. – Quando eu me for, peço que ouça pelo menos a ela. Eu já não estarei aqui para te dizer o que fazer, não terei como fazer você acreditar que o que ela diz é a coisa certa... Mas não esqueça que nós, eu e ela, queremos apenas o seu bem.
- Shhh... – ele depositou o dedo indicador sobre os lábios da morena, ao que ela fechou os olhos serenamente e engoliu em seco. – Não pense nisso.
Quando ela abriu os olhos, ele pôde ver lágrimas se formando.
- Nós vamos ficar juntos, não importa o que aconteça. – ele pegou a mão dela. – Está vendo isso aqui? – mostrou o anel que ambos usavam. – Ele será nossa ligação e diante dele, sempre estaremos juntos, onde quer que estejamos. Eu te amo, e isso não mudará.
Ela sorriu tristemente e baixou os olhos, novamente erguendo-os em seguida.
- Eu também. – murmurou quase que de forma inaudível.
- É melhor eu ir, ou estenderemos isso e Amy acabará chegando. – ele concluiu. – Promete que não vai pensar nisso?
- Prometo. – Hermione assentiu.
- Então eu já vou. – Harry deu um rápido beijo na morena, que ficou a observá-lo deixar o aposento.
Antes que ele saísse, ela chamou por ele.
- Harry! – ele virou-se para encará-la, já na porta.
- Sim?
- É que... bom, talvez seja melhor nós assumirmos que estamos juntos. Iríamos acabar de uma vez com essa aposta e todos saberiam. Não há mais nada para esconder agora. Ainda mais depois daquele beijo no baile e dessa noite.
- E Voldemort?
- Ele viria atrás de mim mesmo que não fizesse idéia de tudo sobre nós. Sou sua amiga, não é verdade? Sua melhor amiga. – Harry apenas assentiu, engolindo em seco ao imaginar o que ela diria se soubesse que ele terminara com ela por conta de uma ameaça; por medo. – A verdade é que eu quero você comigo cada segundo, eu quero você aqui comigo. – Hermione concluiu. – E certamente notariam a sua falta todas as noites, todos os dias e manhãs... Mas eu não suportaria ver nosso tempo acabar e não poder passá-lo contigo.
- Você quer que eu “me mude” para cá?
- Hum... É. – ela respondeu, seu rosto ruborizando.
- Tudo bem. Falaremos disso quando voltarmos, certo?
Hermione suspirou e concordou com a cabeça, vendo-o deixar o quarto.
Cada dia que passava era um dia a menos com ele. Ainda estavam no final de março, teriam pelo menos mais dois meses e meio juntos, e ela só queria aproveitá-los ao lado dele. Infelizmente, viriam os exames de final de ano, a correria... É, talvez nem tudo fosse um mar de rosas.
Resolveu esquecer aquilo, como prometera ao namorado. Pegou a própria toalha e adentrou o banheiro. Não se demorou muito no banho, apenas o necessário. Estava ansiosa demais para ficar parada ou fazendo algo por muito tempo.
Começou a se vestir rapidamente. Vestiu as peças íntimas e colocou a camisa. Estava vestindo a saia quando bateram à porta. Puxou a saia num salto e correu para a porta.
- Por que não entrou? – perguntou abraçando a amiga.
- Ah, não sabia se poderia. – respondeu a outra adentrando o aposento junto a Hermione.
- É claro que poderia! Eu estava me arrumando e não haveria nada demais aqui. Mesmo que eu estivesse no banheiro, você poderia ficar aqui esperando, não?
- Bom, não vamos discutir isso, certo? – Amy riu. – Mas me conta... Como foi o baile?
- Ah, foi muito bom. Mas não aproveitei tanto quanto queria.
- Hum, interessante. – Amy brincou. – O que foi que aconteceu? Por que esse sorriso de orelha a orelha, hein? Viu um passarinho verde, por acaso?
- Eu sabia que iria perceber! – Hermione riu. – Eu e o Harry, nós... nós voltamos.
- Mentira! – Amy arregalou os olhos e sua expressão era um misto de surpresa e alegria. – Você está falando sério?
- É lógico! Não brincaria com meus desejos. – assegurou. – Mas é difícil explicar. Aconteceu tudo muito rápido. Tive um empurrãozinho da Gina. Ela se aproveitou da inocência de Rony em relação à nossa “separação” e armou tudo para que Harry fosse comigo ao baile. E lá eu o coloquei contra a parede. Ele não me disse o motivo de termos passado esse tempo todo separados, mas não importa agora.
- Você está com uma carinha tão feliz...
- E estou tão feliz quanto possa imaginar. Obrigada por tudo, viu? Harry também pediu para te agradecer, mas acho que ele poderá fazê-lo pessoalmente. Mas ele garantiu que você o tinha ajudado a tomar a decisão de voltar...
- De fato. Eu era a única que sabia o que realmente se passava em ambas as partes e tentava mostrar a minha visão diante de seu sofrimento a ele. Mostrei que o maior erro que ele poderia estar cometendo era estar afastado de ti. – Amy explicou sem dar detalhes. Talvez fosse melhor esperar que Harry contasse a ela sobre a ameaça.
- A bem da verdade, ele só resolveu voltar mesmo quando soube da profecia. – Hermione fez questão de contar.
- Se você tivesse contado antes, talvez nada disso tivesse acontecido. Ele não ficou chateado por você não ter contado?
- Ele reagiu melhor do que eu imaginava, mas me indagou por que deixei que tudo acontecesse sem que ele soubesse. Eu acho que ele quis dizer que se soubesse, certamente teria feito tudo diferente.
- Não há dúvidas disso! – fez Amy em voz alta. – Ele é louco por você. Nem imagino como ele vai ficar depois que você se for...
- Eu pedi para ele te ouvir, porque é só você quem sabe de tudo o que aconteceu e que pode acontecer daqui para frente. E acho que além de mim, você é a única que ele atende. Eu tenho medo que ele faça alguma besteira, que deixe de viver a vida dele para rodar o mundo atrás de mim, que fique sofrendo e acabe definhando... por minha causa! – a morena concluiu. – Você me entende?
- Entendo perfeitamente. E sei também como posso ajudar. Pelo menos no começo, porque ele vai estar em choque, não vai acreditar... Aí eu acho que conseguirei lidar com isso e fazer ele se controlar. – a outra concordou. – Mas com o passar do tempo, sem ter você ali como durante esse tempo todo, ele vai sentir e pode reagir como nós tanto tememos. Vai ser horrível!
- Isso é o que mais me preocupa.
- Não só a você, garanto. – Amy murmurou. – Mas, Herms... Eu estive pensando e... bem, eu não sei se você se tocou, mas tanto você quanto ele podem se apaixonar de novo.
- Eu sei. Também andei pensando muito nisso. Eu não sei quanto tempo ficarei longe, quando voltarei... e sei que podem levar anos para isso acontecer. E ele não tem a obrigação de me esperar, assim como eu sei que posso me envolver com outro homem, casar, ter filhos, me separar e me relacionar com outro homem... Tudo é possível a partir de agora.
- Olha, eu quero apenas que você saiba que mesmo em sua ausência, será a minha única madrinha.
- Não faça isso, Amy...
- Não, eu quero que você seja a minha madrinha. – Amy assegurou apertando a mão de Hermione com força. – Infelizmente eu não posso adiantar o casamento, porque já está marcado e nós temos que esperar os pais do Aaron chegar e, bem... Ainda esses dias eu conheci o outro irmão dele. Ethan Mackenzie. Ele esteve morando fora nos últimos quatro anos, em Porto Rico.
- Eu juro que nunca teria associado o rapaz das fotos a um irmão.
- Eu ouvi por alto numa conversa entre os pais dele e ele acabou me contando. Mas ele não falava porque quando Ethan foi para Porto Rico, ele e Aaron estavam brigados. Os dois eram muito ligados e quando Ethan, que é um ano velho que Aaron, resolveu estudar Direito fora dos Estados Unidos, os pais deles já tinham planos de vir para a Inglaterra. – Amy contou. – Os Mackenzie vieram e arrumaram a casa para que Aaron ficasse bem instalado, passaram uma parte do verão aqui com ele e depois voltaram para os Estados Unidos para ficar com Liah, que é a mais nova.
- Dela eu já ouvi falar, mas não cheguei a conhecê-la.
- Pois é. Eu ainda não a conheço, mas sei que ela é somente dois dias mais nova que eu.
- Verdade? – Hermione pareceu levemente surpresa.
- Pois é. Coincidências acontecem. Eu nasci dia onze de novembro de 1978, e ela no dia treze. – Amy apontou. – Mas voltemos... Ela foi quem conseguiu apaziguar as coisas entre os irmãos. Acho que por ser mais nova, é a “queridinha” de ambos, no bom sentido, é claro! Ethan chegou faz pouco tempo. Eu soube que ele teria passado na casa dos pais em Saugatuck, Indiana, antes de vir para cá. – contou. – Agora ele vai ficar em Godric’s Hollow com o Aaron.
- Sabe o que eu não entendo? – fez a primeira.
- O quê?
- O fato de Liah ainda estar em aula. – citou. – Ela não tem a sua idade?
- É, eu também estranhava isso, mas é que no Instituto Nolux são oito anos letivos.
- Isso explica muita coisa. Mas... me diz: como é esse tal Ethan?
- É um cara sério, mas muito bonito. Diria que é tão bonito quanto o irmão. Ele tem um sinal aqui que faria qualquer uma delirar! – Amy pôs o dedo um pouco acima do lábio direito.
- Olha, acho melhor você se segurar, ele é o seu cunhado! – Hermione brincou.
- Eu sei. E tem namorada, aparentemente. Brittany Newbie, também formada em Direito.
- Newbie? Ela é filha de Elizabeth Newbie, a Chefe do Departamento de Cooperação Internacional da Magia?
- É uma das filhas de Madame Newbie. Ela tem uma irmã gêmea, Keira. Se eu não me engano, esta é medibruxa.
- Engraçado como tudo no mundo bruxo se cruza. – comentou Hermione rindo.
- O pior é que isso é verdade. – Amy concordou. – Bom, acho que você já deduziu quem serão os padrinhos do casamento, não é?
- Da parte de Aaron, tenho certeza de que serão Liah e Ethan. Mas eu não concordo que você tenha uma madrinha que será dada por imaginária.
- Não importa o que você diga, minha decisão está tomada. Chamarei o Harry mais para frente, mas por enquanto prefiro que nada seja comentado a respeito.
- Ainda acho loucura, mas tudo bem. – assentiu.
- Herms, estou tão feliz por você!
- Obrigada, Amy. Obrigada mesmo, por tudo.
- Que nada! Eu só queria ver você assim, rindo à toa, mais leve... Foi assim que te conheci, é dessa Hermione que eu gosto!
- Amy, eu tenho que me arrumar! – Hermione exclamou ao ver as horas. – O almoço já foi servido e eu nem me calcei!
Amy riu enquanto observava Hermione calçar as botas às pressas, colocar o colete e prender o cabelo num rabo de cavalo.
- Não entendo para quê tanta pressa. Nós não temos hora para chegar lá, e o casamento é amanhã.
- Não importa! Quanto antes sairmos, melhor. E depois, ainda temos que ir sem que os outros vejam. Acho que o melhor é pegar atalho pela Casa dos Gritos.
- Excelente idéia! Já diminui o que iríamos ter de andar.
- Eu vou levar uma mochila ampliada internamente. Não levaria algo maior por nada nesse mundo. – Hermione estendeu o braço no ar e um copo com água veio parar em sua mão. – Quer?
- Não, obrigada.
- E mesmo que quisesse, poderia fazer o mesmo. Não precisa completar.
- Vejo que você e Harry andaram praticando ler pensamentos, não?
- Infelizmente ele anda um bocado enxerido.
- Você sabe como bloquear, assim como sabe como penetrar na mente dele sem que ele saiba, e tem como fazer isso sem que ele possa impedir.
- Ultimamente os meus pensamentos têm sido bastante úteis. Agora acho que não mais, apenas quando eu quiser provocá-lo.
- Ele é um excelente legimente.
- Isso não é bom. Acho que você sabe sobre a ligação que ele tem com Voldemort.
- É, eu sei que ele ganhou alguns poderes dele. Mas esse é só o bônus, porque o ônus não é dos melhores, definitivamente.
- Nem fale! – Hermione passava um gloss nos lábios. – Amy, eu estive pensando... Talvez fosse melhor que eu e Harry assumíssemos que estamos juntos.
- Talvez. Depende muito da decisão e da visão de vocês em relação a isso. Também devem lembrar das conseqüências que isso pode lhes acatar.
- Não penso que essas conseqüências possam ser tão graves assim. E depois, eu sou uma forma de atingir a Harry de qualquer maneira! Juntos ou separados, sou um alvo em questão.
- Você não só tem toda a razão como está totalmente certa. Eu prefiro não falar muito, porque acho que essa conversa tem que acontecer entre você e Harry; ninguém mais.
- Eu te entendo. Ele ficou de conversar sobre isso quando retornarmos a Hogwarts.
- É o melhor a ser feito. A única coisa que eu posso dizer para vocês é: aproveitem! Porque vocês merecem, e o tempo às vezes é injusto; ele não pára.
“Já que não há outra opção... Aproveitemos, então”, Hermione pensou, sem saber o que responder à amiga.
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- E como ela está? – perguntou Hermione à Amy, que adentrava o quarto.
- Deslumbrante! O vestido não tem aquela cauda tamanho gigante, ela não usa véu e grinalda, mas está belíssima. – a outra respondeu.
- Imagino. Alissa é mesmo muito bonita. Não precisaria de nenhum acessório escandaloso para acentuar sua beleza.
- Beleza natural, querida. – Amy brincou. – É de família!
Hermione riu.
- Vocês não têm noção de como está ficando bonito lá embaixo. Nossa, acho que eu nunca vi arranjos tão delicados! – fez Gina ao entrar no quarto. – Vocês ainda não estão prontas?
A ruiva usava um vestido preto de tecido leve, com uma camada que ia até os pés e a outra, ainda mais solta, que acabava pouco abaixo da altura dos joelhos. Tinha o busto trabalhado de forma simples e elegante, como se estivesse dobrado em pequenos retalhos. As alças eram de fios de cetim. Os cabelos avermelhados estavam presos a um rabo de cavalo baixo e firme, com uma mecha cobrindo o lugar onde o elástico estava.
- Eu arrumei o cabelo, ao menos.
Verdade. Amy já fizera o coque no alto da cabeça com algumas pedrinhas de strass aqui ou ali. Já selecionara as jóias que usaria também; uma gargantilha totalmente incrustada de brilhantes e uma grossa pulseira no mesmo estilo. Nas orelhas, nada além de uma pedrinha de brilhante em cada uma.
- Eu estava exatamente pegando o meu vestido quando chegou. – Hermione explicou. – A propósito, você está muito bonita.
- Você acha? Peguei um vestido simples. Na verdade, um dos únicos que ainda tinha guardado.
- Acho, sim. Fique tranqüila. – a primeira assentiu sorrindo.
- Obrigada. – a ruiva agradeceu. – E como é o seu, Amy?
- Não é nada de muito chamativo. É vinho, todo em cetim, com apenas o busto bordado.
- Mas você vai ficar um arraso! – Gina exclamou. – Lembro-me de você com aquele vestido vermelho no casamento do Gui e estava linda. Imagine de vinho, então?!
- Verdade. O vinho tem uma elegância singular. – Hermione comentou. – Mas chega de papo, não é? É melhor nos arrumarmos. O casamento é daqui a uma hora.
- Enquanto vocês se arrumam, eu vou descer para esperar os meus irmãos “independentes” chegarem.
- Sei! – Amy riu. – Você vai é esperar seu namorado. A quem pensa que engana, mocinha?
- Também. Mas também quero ver o Gui e o Carlinhos, se não for incômodo.
- Nenhum! – a primeira fez sinal de rendimento, ainda rindo. – Vai lá. Certamente não demorarão.
- Não se depender da Sra. Weasley. – Hermione acrescentou.
- Mamãe e a mania infeliz de chegar cedo em todos os lugares! – Gina olhou para o céu como que pedisse uma graça. – Eu já vou! – e, soltando um beijo no ar, saiu porta afora.
Amy foi a primeira a ficar pronta, mas não demorou até que Hermione também terminasse de se arrumar.
- E então, Herms?! Não tivemos tempo de falar a respeito, mas o que achou do meu cunhado?
- Oras, Amy! Não faz sentido você me fazer uma pergunta dessas. Você sabe que ele é, sim, muito bonito. Mas eu não tive muito tempo para ficar encarando o Ethan. Eu tenho o Harry, caso tenha esquecido. – ela ainda estava de costas para Amy, enquanto trocava as próprias jóias.
- Ah, mas olhar não tira pedaço!
- Não importa. Ele é comprometido, eu também. Assim como você, o que é muito pior, já que ele é irmão do seu noivo.
- Nossa, como você é estraga prazeres! – o sorriso de Amy se desfez instantaneamente.
- Às vezes me pergunto se você tem mesmo dezenove anos. – brincou Hermione. – E então, como estou? – perguntou, finalmente voltando-se para a amiga.
- Está simplesmente magnífica, Herms!
Hermione usava um vestido de cetim numa tonalidade verde muito escura. Havia um decote discreto na frente, que ia pouco abaixo dos seios, onde finas tiras de cetim ligavam um lado ao outro. As alças eram finas e eram amarradas por detrás do pescoço, que tinha um belíssimo par de brincos em ouro branco com brilhante e pérola cultivada natural, assim como o colar de três camadas.
- Você acha mesmo? – Hermione mordeu o lábio inferior.
- Não acho, tenho cer-te-za!
- E os cabelos, soltos mesmo?
- Deixe-os cair sobre os ombros. Eles saberão exatamente onde ficar. – Amy confirmou sorrindo. – Colocou aquele sapato que eu sugeri?
- Como se desse para ver que uso sapato! – fez Hermione revirando os olhos.
- Mas o salto alto e fino dá um “quê” de elegância a mais numa mulher. – Amy gesticulava animada, sem deixar o sorriso de lado. – E depois, dizem que melhora o desempenho sexual. – cochichou.
Hermione não resistiu e riu.
- Amy, você realmente não tem jeito. – suspirou.
- Querida, eu até tenho jeito, mas eu prefiro continuar com as minhas maluquices e ser feliz. Assim... sem deixar a infância para trás. Porque embora quem cresça ache que ser criança não tem importância, eu garanto que assim eu ainda consigo ser mais adulta que esses crescidos.
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Amy jamais esqueceria a imagem de sua mãe descendo as escadas e se aproximando com aquele vestido branco, tão simples e ao mesmo tempo tão bela. A cena era tão intensa quanto o sol de verão, um sonho de infância para Amy. Primeiro porque ela queria ter alguém que pudesse chamar de pai, e segundo porque sempre procurara fotos do casamento de sua mãe e elas simplesmente não existiam. E agora, era real.
E ela estava ali, presente naquela realização que era tanto sua quanto de sua mãe. Breve, ela fizera questão de lembrar, ela era quem estaria ali, naquela mesma casa, naquela mesma sala, realizando o seu próprio casamento. E sentia-se satisfeita por ter ao seu lado o homem que amava, o único que amara de verdade e que queria ter consigo para o resto de seus dias.
Indagava-se se fora assim que sua mãe se sentira ao se aproximar lentamente do noivo, o seu pai, vale ressaltar. Será que Alissa Vector sentira-se tão realizada quanto Amy imaginava que estaria sentindo por se casar com aquele que amara e ainda amava a cada dia?
- O que a minha moleca tanto pensa, hein? – fez Aaron se aproximando com uma taça de champanhe para a noiva.
- Em nós, em meus pais... Já pensou que dentro de oito meses estaremos no lugar onde eles estão hoje?
- Já, meu bem. E devo dizer que conto os meses, as semanas, os dias para esse dia chegar.
- Ontem o ano letivo de Liah acabou, não foi?
- Foi. Por isso que meus pais não puderam estar aqui. Tinham a formatura dela para ir e tudo o mais. – confirmou o moreno.
- Aaron, porque o Instituto de Magia Nolux é tão diferente das escolas européias? Nós só temos sete anos letivos, e lá são oito. Sem falar que já acabou o último ano de Liah, quando aqui ainda faltam dois meses e três semanas para se dar o fim do último ano de Hogwarts.
- Não é bem assim. Lá são sete anos, exatamente como aqui. No entanto, eles oferecem um oitavo ano, que é mais curto, para que você possa se habilitar para uma área específica, e essas aulas são dadas na própria escola. Por isso que já saímos com qualificação para começar a exercer um trabalho fixo.
- Então por que o Ethan foi cursar Direito em Porto Rico? – Amy indagou.
- Porque...
- Porque eu me formei em relações internacionais por Nolux, logo, só poderia trabalhar na área em que Aaron trabalha hoje no Ministério daqui. – o próprio Ethan, que se aproximava, respondeu. – Eu pretendia permanecer com a minha escolha inicial, por isso resolvi morar em Porto Rico, conhecer outra cultura.
- Mas era injustificável morar lá sem nenhum motivo, só por morar. – Aaron acrescentou. – Foi aí que se deu a nossa briga.
- Exatamente. No dia seguinte em que nós brigamos, eu resolvi partir bem cedo, pois sabia que Aaron impediria se soubesse. Quando eu cheguei lá, avisei meus pais. O problema é que o dinheiro que eu levara era suficiente para pouco mais de uma semana. E eu também não queria ficar num país completamente distinto do meu e ser sustentado pelos meus pais, afinal, já passara da hora de crescer.
“Foi então que procurei um emprego numa empresa de advocacia trouxa e eu quem separava os documentos de outros países, além de fazer a tradução deles, é claro. Não ganhava muito, mas dava para sobreviver. Com o passar do tempo, fui me afeiçoando pelos códigos civis e pelas causas, me interessei pela defesa de interesses nos tribunais e acabei resolvendo cursar Direito. Entrei em contato com o Instituto Nolux e pedi referências de cursos em Porto Rico e me inscrevi para a seleção. O problema é que lá as coisas funcionavam exatamente como nas universidades trouxas.”
- Resumindo: a sorte dele é que as notas sempre foram altíssimas. – fez Aaron. – Por coincidência a filha de Madame Elizabeth Newbie fora estudar lá neste mesmo ano, também por capricho, e eles acabaram se conhecendo. Começaram a namorar no segundo ano de universidade e estão juntos até hoje.
- Você já a conhece? – perguntou Ethan. – Brittany, querida?
De cabelos castanhos compridos e muito lisos, e olhos num tom azul cintilante de tão claro, Brittany Newbie era quase escultural. Tinha um sorriso tão belo quanto o próprio corpo. Parecia ser esculpida em mármore com uma delicadeza singular. Amy a viu pedir licença a duas mulheres e se afastar, com o seu melhor sorriso estampado no rosto.
- Sim?
- Deixe-me apresentar Amy. Ela é a filha do casal e noiva de Aaron.
- Já fomos apresentadas, mas não sabia que era filha de Sirius Black. – Brittany comentou. – Sabe, seu pai foi o motivo pelo qual me interessei por Direito. Desde novinha, antes mesmo de Hogwarts, eu via todo o tumulto acerca da polêmica morte de Peter Pettigrew e a prisão dele... E, sinceramente, minha inocência não permitia acreditar que ele pudesse ter traído os amigos. – contou. – E acho que foi a maior prova de que as crianças às vezes são mais inteligentes e verdadeiras que os adultos.
- Seu pai trabalha no mesmo departamento que a mãe de Brit, estou certo?
- Sim. – confirmou Amy.
- Meu bem, vou avisar mamãe e Keira de que ficarei aqui e volto num instante, certo? – Brittany tinha a mão direita sobre o ombro de Ethan e Amy não pôde deixar de notar a aliança que ocupava seu dedo anular.
- Tudo bem. E chame-as para cá, para que não fiquem sozinhas.
- Claro. – e Brittany se afastou.
- São noivos? – indagou Amy.
- Não, não. Mas usamos anéis de compromisso assim mesmo. Já pensamos em casar, é verdade, mas não vemos por que tão logo. Vamos nos fixar em nossos empregos no Ministério e só então marcaremos o casamento. – Ethan respondeu. – E o casamento de vocês, já tem data?
- Sim. Casaremos no dia 22 de janeiro. – respondeu Aaron. – Assim Liah já estará conosco.
- Presumi que fosse por isso. Já conhece Liah?
- Não, só por foto. E Aaron fala muito dela, também.
- É uma garota sensacional, e não é porque é minha irmã. Você gostará dela, tenho certeza. – garantiu o mais velho.
- Também tenho certeza disso. Mas como será que ela se sente com dois irmãos como vocês, hein? Babões, superprotetores e mais velhos? – Amy riu. – Namorados, nem pensar, pelo visto.
- Ela nunca foi muito namoradeira, na verdade. Nunca nos deu trabalho. – o mais novo respondeu. – Ela é um tanto exigente demais. Teve só dois namorados, e não duraram muito.
- Eu também só tive dois. O primeiro durou pouco mais que seis meses, e casarei com o segundo em oito meses.
- Experiência zero quando o conheceu, então. – o cunhado concluiu.
- Verdade. Mas deu certo, e isso que importa.
Brittany voltava acompanhada de uma mulher mais velha, mas ainda enxuta e muito elegante, e uma loira de cabelos compridos e olhos tão azuis quanto os seus.
- Com licença. – pediu. – Papai está conversando com o ministro, então não pôde vir agora, mas garantiu que mais tarde vem aqui. – ela disse enquanto se aproximava. - Amy e Aaron já devem conhecer a minha mãe, Elizabeth Newbie...
- Como vai, Madame? – cumprimentaram.
- Muito bem, meus queridos. – ela respondeu com um leve sorriso nos lábios. – Amy, querida, você está muito bonita. Deve estar muito feliz por seus pais, não?
- Com toda certeza, Madame. – Amy sorriu.
- Ah, deixe-me que apresente... Esta é minha outra filha, Keira.
- Prazer. – Keira cumprimentou.
Mesmo sem que fosse apresentada, Amy já tivera certeza de que era a irmã gêmea de Brittany. Se não fossem as madeixas loiras, diria que era a cópia da outra. Keira tinha um ar mais sério que o da irmã, mas era tão simpática quanto bonita.
Passaram horas papeando ali. A festa estava simplesmente maravilhosa e agradável, além de correr muito bem. Amy ficara satisfeita por nada ter dado errado naquela noite tão especial. Certamente todos estariam tão satisfeitos quanto ela, principalmente os noivos.
“Nós podemos, sim, ser felizes. A felicidade está a nosso alcance, basta que queiramos alcançá-la”, pensou sorrindo não só com os lábios, mas com os olhos também. Mesmo sua alma sorria naquele momento.
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Logo que retornaram de Londres, não houve muito tempo para organizar as coisas; faltava pouco mais de uma hora para o início das aulas da manhã.
- Eu quero retirar o meu palpite. – Rony sentenciou.
- Por quê? – Parvati indagou surpresa. Nunca acontecera de alguém retirar o palpite.
- Parvi, se ele disse que quer retirar, não nos interessa o porquê. Apenas devolva a ele seu dinheiro. – Lilá interveio.
- Tudo bem. São trinta galeões, certo?
- Exatamente. E quero que tudo permaneça em segredo ainda assim. – o ruivo fez questão de salientar.
- Como quiser. – Parvati entregou-lhe uma pequena bolsa com as moedas de ouro e Rony agradeceu, se afastando em seguida. – Muito estranha essa súbita mudança de idéia.
- São amigos dele e ele tinha todo o direito de se arrepender por ter apostado pelas costas deles. – a loira replicou. – No lugar dele, eu faria a mesma coisa. – ela deixou que seu olhar vagasse para o ruivo que se afastava e saía pelo buraco do retrato.
- Talvez ele saiba de alguma coisa ou, quem sabe, esteja tentando fazer dinheiro. – supôs a morena.
- Às vezes me pergunto como você pode pensar esse tipo de coisa das pessoas. – Lilá encarou a amiga com desgosto. – Eu vou descer. Até mais tarde!
Brown pôs a mochila nas costas e deixou o salão comunal, correndo para alcançar Rony, que já virava na outra ponta do corredor.
- Ronald! – chamou.
Rony limitou-se a apenas virar-se para encará-la.
- Eu só queria... – ela começou, voltando atrás logo em seguida. – Eu admiro a sua atitude.
- Obrigado. – os dois voltaram a caminhar.
- Então... como foi o seu fim de semana? Você não passou aqui, certo?
- É, eu fui a Londres.
- Presumo que tenha se divertido.
- Sim, bastante. Nós saímos para ir a um casamento. Permissão concedida por Dumbledore.
- A Lovegood foi com vocês?
- Não. Ela ficou em Hogwarts.
- Olha, Ronald... Sem querer me intrometer, mas eu não acho que essa garota ainda goste de você. Talvez ainda tenha um grande afeto, mas não é a mesma coisa de antes e você tem que admitir isso. – Lilá comentou escolhendo com cuidado as palavras e temendo a reação do ruivo, mas este permaneceu calado. – Rony?
- Eu entendo o que você está dizendo, e até concordo, mas não dá pra simplesmente colocar um ponto final numa relação que está prestes a completar dois anos. Nós criamos laços muito fortes de afeto e é melhor que o tempo ponha areia sobre isso.
- Você ainda gosta dela, não é?
- Ela não foi a primeira garota que amei, não será a última. – ele limitou-se a responder.
- Ainda não respondeu à minha pergunta. – a loira insistiu.
Rony deu um longo suspiro.
- Nem mesmo eu sei o que sinto por ela. Como você mesma disse, não é a mesma coisa.
- Eu ainda acho que vocês deveriam conversar francamente, colocar os pontos nos is e resolver a situação de vocês. Não vai demorar para que surjam outras pessoas para você, para ela... e vocês não vão poder simplesmente ignorar por estarem juntos à uma pessoa que não amam. – Lilá concluiu. – Não há mais amor e você sabe disso.
O silêncio tomou conta dos dois. Nos últimos tempos, Lilá tinha Rony como um amigo com quem poderia contar sempre que precisasse e queria que ele a visse do mesmo modo. Ela achava uma injustiça um cara tão bom e legal como ele ser deixado de lado assim por falta de amor. “Além de um grande desperdício”, pensou, logo se repreendendo depois.
- Lilá, eu sinto não estar te dando atenção suficiente, mas é que eu não posso responder a tais afirmações sem antes pensar direito. Eu, sinceramente, agradeço por sua força, pelos seus conselhos e devo dizer que pretendo segui-los assim que me sentir seguro suficiente para isso.
- Da mesma forma que você disse que eu poderia contar contigo sempre que precisasse de alguém para conversar, quero que saiba que sempre estarei disposta a ouvi-lo.
- Obrigado. Mesmo! – Rony pegou a mão da garota e apertou-a, enquanto olhava-a em seus olhos e sorria.
Lilá retribuiu o sorriso e acenou levemente com a cabeça.
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Tarde de 26 de maio, sala de Transfiguração
O sinal soou ao longe e todos os alunos se levantaram recolhendo os próprios pertences para deixar a sala. Tiveram naquela tarde um tempo de Feitiço e dois de Transfiguração. Minerva McGonagall estava juntando alguns pergaminhos e penas, ainda sentada. Aguardou tempo suficiente para que a sala se esvaziasse e se levantou.
- Srta. Granger? – chamou.
Hermione acabara de se levantar e caminhava para a saída. Parou e voltou-se para a professora. Harry e Rony, que a esperavam, permaneceram parados à porta.
- Sim?
- Será que poderíamos conversar?
- Eu... Claro, claro. – assentiu.
Acenou para Harry.
“Vão. Encontro vocês no salão principal”, pensou enquanto fazia-se entender para o moreno, que assentiu e cutucou Rony.
- Vamos, ela nos encontra no jantar. – sussurrou para o ruivo e os dois deixaram a sala.
- Muito bem, Hermione, sente-se. – a professora pediu. – Vou ser breve; não quero que você perca o jantar.
- Sim, senhora. – assentiu a garota.
- Pois bem. Hermione, com toda a correria para os exames, os projetos entre tantos outros problemas enfrentados este ano por nós professores, os preparativos para a formatura dos setimanistas acabaram atrasando. Nós aproveitaremos as aulas da tarde de amanhã para que vocês, alunos, possam se reunir e tomar algumas decisões a respeito da festa de vocês.
- Ora, tudo bem. Mas que tipos de decisões?
- Vocês têm o direito de escolher um professor a ser homenageado, podem elaborar, juntos, um texto de encerramento... Enfim! As decisões que julgarem necessárias e forem do gosto de vocês.
- Claro. E em que eu posso ajudar? – Hermione ainda não entendera aonde a professora queria chegar.
- Quero que você seja a oradora deste ano, Hermione. Acha que consegue preparar o discurso, mesmo com os N.I.E.M.’s a caminho e todos os seus afazeres?
Hermione demorou um instante para responder. Fora pega de surpresa pelo convite.
- Cla-claro, professora. Será um prazer. – assentiu com um sorriso nervoso nos lábios.
- Excelente! Tenho certeza de que fará um bom trabalho.
- Obrigada, professora.
- Não há o que agradecer. Foi a melhor escolha que poderia ser feita.
A garota sorriu e acenou, deixando a sala logo em seguida.
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Manhã de 3 de junho, dormitório individual de monitor-chefe, Torre da Grifinória
Ela despertou e levantou-se procurando movimentar-se o menos possível. Não queria acordá-lo. Caminhou diretamente para o banheiro e tomou um banho relaxante. Àquela noite ela se entregara a ele de uma maneira que agora a assustava. Ela sentia que fora a última de ambos juntos.
Nada fora planejado. Aconteceu. E por mais que ela tentasse lembrar dos detalhes, eles lhe escapavam a todo instante. Lembrava-se vagamente de como tudo começara...
Ela insistira por vários minutos para que ele lhe dissesse o porquê de tamanha irritação, mas de nada adiantava a insistência.
- Harry, pela última vez! O que aconteceu?
- Você acha que eu devo ignorar até quando? Eu vou explodir!
- Será que dava para você parar de andar de um lado para o outro e me explicar direito, antes que eu fique maluca?
- Hermione, desde o dia em que houve aquela reunião para decidir o que faríamos de especial em nossa formatura, eu não consigo entender por que diabos você resolveu ajudar o grupo daqueles sonserinos repugnantes!
- Ciúmes? – Hermione riu.
- Ora, Hermione! Não se faça de besta. Você acha mesmo que foi chamada por conta de sua árdua capacidade de elaborar textos e eles precisavam de uma forcinha? Eu estava de longe, mas dava muito bem para ver o que estavam fazendo com você. – ele levantou-se bruscamente e voltou a caminhar pelo quarto. – Enquanto você os ajudava, eles tentavam encontrar o melhor ângulo para conseguir ver as suas coxas. Até mesmo o Malfoy percebeu e veio falar comigo.
- Desculpe a minha sinceridade, Harry... Mas foi você quem escolheu continuar em silêncio sobre nós dois. E eu não tenho culpa! Não há por que ficar irritado comigo.
- Não é com você que estou irritado, é com a situação! – ele retorquiu.
- Que seja! Olha, ainda dá tempo de mostrar que eles não têm chance alguma comigo. E quer saber? Mesmo os seus amigos investem!
- E você acha que eu não vejo? Eu estou me segurando desde o primeiro dia. – Harry deitou na cama e passou a encarar o teto, de cara fechada.
- Pois então assuma que estamos juntos e acabe logo com isso! – ela finalizou, caindo na gargalhada logo em seguida.
- O quê? – ele indagou irritadiço.
- Você fica tão fofo irritado...
Harry pareceu ficar ainda mais irritado com a postura desdenhosa da namorada. Hermione deitou-se ao lado dele, deixando os pés para fora da cama.
- Olha pra mim. – pediu. – Harry, olha pra mim! – ele encarou-a sério. – Eu te amo, e não trocaria você por homem nenhum nesse mundo. Eu só acho que às vezes você tira conclusões erradas. – ela murmurou, também ficando séria. – Por que está me olhando assim, hein? Parece até que eu fiz alguma coisa errada!
- Que cara eu estou fazendo? – quis saber antes de abraçá-la.
- Ah, quer dizer que agora está tudo bem, não é? – ela fez que fosse se afastar.
- Sua grossa! Vou começar a te tratar mal agora. Pode sair, vai! – ele disse, ainda sério.
Hermione se aproximou e encheu o namorado de beijos, depois o beijando intensamente.
Ela fechou os olhos e voltou a avaliar se Harry não estava sendo sensato quando optou por não revelar que estavam juntos. Talvez fosse o melhor a ser feito, permanecer em silêncio. Sabia que o segredo não mudaria o quanto o amava. Decidiu que era melhor que as coisas ficassem do jeito que estavam. E mais seguro também.
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Os N.I.E.M.’s começaram no dia 8, uma terça feira. Os exames aconteciam exatamente como dois anos atrás, nos N.O.M.’s: pela manhã o exame teórico, pela tarde o exame prático.
Harry, Hermione e Rony passaram a semana anterior inteira estudando, não para os testes práticos, mas para os teóricos. Nas aulas da AD, que ocorreram durante todos os dias da semana, eles praticavam todos juntos.
Cada dia que passava a precisão e o domínio que tinham sobre os feitiços em geral era maior e eles podiam garantir que, pelo menos na prática, estariam aprovados.
Fizeram bons exames discursivos. Hermione demorara tempo o suficiente para escrever o dobro do que era necessário em cada questão. Ela sempre fazia o possível para explicar com exatidão o que era cada item pedido, sem deixar passar um detalhe.
- Cento e vinte por cento no exame teórico de Transfiguração, cento e quarenta no de Defesa Contra as Artes das Trevas, cento e dez no de Poções... Acho que já daria uma boa auror, não acham? – fez para os amigos ao adentrar o salão comunal.
- Hermione... – começou Rony.
- O quê?
- Você me deprime. – o ruivo concluiu com os olhos arregalados em sinal de horror.
- Ainda teremos o de Feitiços amanhã. – Harry comentou.
- E depois começam os inúteis. – fez Rony com desgosto.
- Vocês deveriam ser menos rabugentos e pensar que isso é para o seu futuro. – Hermione replicou.
- Hermione... – novamente o ruivo chamou.
- O quê, Rony? – a garota revirou os olhos, irritadiça.
- Me poupe! – Harry e Rony finalizaram e uníssono. |