Capítulo 1 - Mantendo as aparências
“Não confie em qualquer palavra, qualquer sorriso, qualquer beijo, qualquer abraço, qualquer olhar. As pessoas fingem, e muito bem.”
Hermione sentou-se na grama e encarou o lago. Fazia isso todo fim de tarde desde então. Gostava de sentir a brisa gelada – apesar de naquele dia não ser um dia frio – no rosto e se divertir com o jeito desengonçado da Lula Gigante. Arrastou a mochila mais para perto e retirou de lá um pequeno caderno de capa dura, onde na contracapa estava escrito em letras douradas ''Hermione Jean Granger''
Folheou sem entusiasmo as páginas em branco e tornou a fechá-lo. Jogou-o para o lado e deitou-se na grama, mesmo que esta pinicasse suas pernas e braços. Não usava a capa do colégio, pois o dia estava um pouco mais quente e ela queria aproveitar o resto de sol da tarde. As primeiras estrelas começavam a aparecer quando ela decidiu levantar e voltar para dentro da escola. Ela sacudiu as vestes sujas de grama seca e assustou-se ao ver a figura de Harry com os braços cruzados, encostado em uma árvore, observando-a.
- Está aí há muito tempo? – ela perguntou, displicente.
- Não – Harry respondeu enquanto a acompanhava para dentro do castelo – Cheguei há apenas alguns minutos. Estava te procurando. Eu e Rony estávamos preocupados. Não te vimos na hora do jantar. O que está havendo, Mione?
- Nada. Só estou preocupada, Harry. Essa guerra... E se... E se você... – ela pareceu perturbada e parou na entrada do castelo, encarando o chão.
- E se eu morrer? – ele perguntou calmamente e ela balançou a cabeça afirmativamente com os olhos marejados – Mione, não fique pensando nisso agora. O Natal está quase chegando e eu não quero te ver assim, ok? Depois falamos sobre isso.
- Tudo bem – deu-se por vencida. – Onde está Ronald? Ainda com a Brown?
Harry não respondeu. Apenas a fitou e comprimiu os lábios, e ela entendeu que isso era um sim. Ele apertou a mão dela com suavidade e a conduziu pelo corredor, rumo ao salão comunal da grifinória. De longe viram as quatro últimas pessoas que queriam ver. Crabbe, Goyle, Blaise e Draco caminhavam na direção contrária. Os dois primeiros riam que nem trasgos enquanto empanturravam-se de pudim. Já os dois últimos vinham mais atrás, calados, em um tipo de conversa silenciosa.
Blaise Zabini e Draco Malfoy definitivamente andavam agindo estranho de uns dias pra cá. Não perturbavam mais os garotos do primeiro ano, muito menos o trio de ouro, o que era suspeito. Ficavam calados o tempo todo, apenas trocando olhares apreensivos de vez em quando. Pareciam estar com medo de alguma coisa. Ou de alguém. Não que o motivo importasse os outros. Davam graças à Merlin a essa súbita mudança de comportamento.
Malfoy caminhava de cabeça baixa, com uma mão em cada bolso da calça preta. Subiu o olhar quando ouviu passos vindos na direção contrária e a viu. Com o Potter. De mãos dadas. Uma raiva anormal o dominou e ele pensou em azarar o moreno ali mesmo, mas isso o arranjaria problemas. O que iria dizer? ''O azarei por que ele estava de mãos dadas com a minha sangue-ruim?'' Riu internamente da bobeira que havia pensando. Se dissesse aquilo, quem iria ser azarado seria ele. Narcisa era a única pessoa que sabia. Tentava entender o filho e os seus sentimentos, mas não aprovava. Draco pensou em contar para Blás. Ele entenderia? Claro que não. Riu de novo. Desta vez alto demais.
- O que foi, Malfoy? Rindo de que? – Harry perguntou irritado, com a varinha já em punho. Hermione apertava apreensiva a mão do garoto.
- Oh, nada de mais, Potter. Só do seu mau gosto – ele com todas as sua forças lançou um olhar de nojo para Hermione e em seguida para as mãos dadas do casal – Potter-Testa-Rachada e Sangue-Ruim-Sabe-Tudo. O mundo está perdido. Achei que você era afim do Weasley pobretão. Ou era você que era, Potter? – disse, segurando a varinha dentro do bolso, pronto para um ataque de fúria do seu inimigo de infância.
- Cala a boca, Malfoy! – bradou Harry, já alterado. Com os dentes trincando de raiva, desviou Crabbe e Goyle, que riam feito idiotas, e rumou ao salão comunal, com Hermione em seus calcanhares.
Draco discretamente acompanhou-os com o olhar e ainda escutou Hermione murmurar um ''idiota''. Aquilo doeu no loiro mais do que devia. Ele suspirou cansado daquilo. Cansado de esconder o que sentia. Cansado de aparentar ser quem ele não era. Cansado de ser um Malfoy.
Hermione sentou-se na cadeira e espalhou as dúzias de pergaminhos em cima da mesa. Harry sentou-se na cadeira ao lado e fez o mesmo. Estavam começando a ler quando Rony chegou. As vestes amassadas, o cabelo bagunçado e o contorno da boca vermelho, assim como o resto do rosto. Hermione nem Harry perguntaram o que havia acontecido pelo simples fato do garoto chegar assim todo dia ao salão comunal, devido aos constantes amassos com Lilá Brown, sua nova namorada. Hermione não aprovava o namoro de forma alguma e isso fazia com que Lilá não a suportasse. Hermione sabia que esse namoro prejudicava Rony. Ele sempre se atrasava para as aulas e não fazia mais os deveres. Suas notas baixavam a cada bimestre e isso preocupava os amigos. Harry a pedido de Hermione iria tentar falar com ele.
- Oi, gente – Rony os cumprimentou, puxando o ar – O que estão fazendo?
- A mesma coisa que você devia estar fazendo, Ronald – Hermione respondeu rispidamente – Estudando!
- Ah não, Mione, amanhã eu estudo, estou cansado agora. Lilá...
- Não vê, Ronald? Não vê que ela está te prejudicando? – Hermione cuspia as palavras furiosamente e a alguns metros, certo loiro escutava e observava tudo com muita atenção. Já até havia esquecido o que Snape e Minerva o haviam mandado fazer ali.
- Besteira. Você só está com ciúmes – comentou Rony, calmamente. Olhou a castanha com pena e segurou suas mãos – Olha, Mione, sei que está chateada por que eu estou com Lilá, mas...
-Ciúmes? Você está louco! – ela tirou suas mãos das do ruivo brutalmente e se levantou – Eu não estou nem aí com qual garota você namora. Só não quero que você fique de ano! Mas se você não dá valor a isso, tudo bem.
Ela recolheu os pergaminhos e os enfiou na mochila. Lançou um olhar irritado para Rony e saiu, resmungando até passar pelo quadro da Mulher Gorda.
- Rony, acho que a Mione tem razão – começou Harry – Assim você vai ficar de ano. Converse com a Brown, e a convença a passar parte do tempo estudando. Sabe que Mione sempre está certa.
-Tá bom, tá bom – rendeu-se Rony – Vou falar com Lilá.
- E Ron, que história é aquela de ciúmes? Mione não gosta mais de você.
- Não? Poxa, achei que ela ainda era apaixonada por mim. Mas é bom saber que não, assim me sinto menos culpado. E você?
- Eu? Eu o que? – perguntou, assustado – Do que está falando?
-Você e Gina não estão mais juntos? Quer dizer, ela comentou que vocês haviam se beijado e... Não que eu tenha gostado muito disso...
- Ela voltou com o Dino. Ela gosta mesmo dele. Vou achar outra pessoa.
- Que tal a Mione? – perguntou inocentemente, fazendo com que um par de olhos azuis-acizentados o fitasse com ódio, e um par de olhos verdes se arregalassem – Ela é legal, bonita, inteligente... O que mais você pode querer? Devia investir nela.
- Na Mio-one? – Harry gaguejou, ainda assustado – Não sei... Se é u-uma boa ideia...
- Claro que é – incentivou o ruivo enquanto se levantava bocejando – Ela é perfeita. Boa noite Harry.
- Noite – Harry recolheu seus pergaminhos e os enfiou dentro da bolsa. Passou por Malfoy abobado, sem nem escutar um sussurro vindo do loiro.
- Não vou deixar tirar mais isso de mim, Potter.
-*-
Hermione levantou-se suada e aos berros. Como todo começo de manhã. Desde o começo do ano acordava assustada com os mesmos pesadelos. Harry Potter, seu melhor amigo, sendo morto por Voldemort. Limpava o suor e ia para o jardim espairecer.
Hoje não foi diferente. Olhou as garotas no quarto, todas ainda dormindo. Já haviam se acostumado com aquela rotina de Hermione. Levantou-se e fez sua higiene matinal. Limpou o espelho embaçado e fitou seu próprio reflexo. Não gostava do que via há muito tempo. Achava-se sem graça, sem atrativos. Passou as mãos pelos cachos que agora estavam mais controlados e sorriu. Pelo menos isso. Vestiu o uniforme e não colocou a capa novamente. Passou o perfume de sempre – cítrico – e correu para a primeira aula. Os garotos já a esperavam lá embaixo, e assim que ela desceu, seguiram para a aula de Poções, juntamente com Sonserina.
- Ah – exclamou o Prof. Slughorn assim que o trio chegou – Sentem-se, queridos. Estava falando sobre as consequencias que a Poção Polissuco pode gerar.
E assim, a aula começou. Desta vez, os trabalhos iam ser em dupla, e Harry agradeceu mentalmente por Rony estar namorando e deixá-lo a sós com Hermione, o que não agradou nada Malfoy.
- Então Mione, como vai às coisas com o McLaggen? – Harry perguntou, tentando puxar assunto.
Hermione a olhou surpresa com a pergunta e arqueou uma sobrancelha.
- Por que quer saber Harry?
- Por nada. Só achei que talvez não fizesse mal de conversássemos, não é? Você é minha melhor amiga, Mione.
- Melhor amiga – a garota repetiu as palavras, totalmente desapontada – Sabe, Harry... – mas neste mesmo instante, Slughorn encerrou a aula e Rony chegou alegremente, puxando Harry para o treino de Quadribol. O moreno pediu desculpas à Hermione com o olhar e saiu.
- Deve ser difícil, sabe? Ser tão insuficiente assim – uma voz fria e cortante tirou Hermione de seus pensamentos – Perdeu o Pobretão Weasley, e agora vai perder o Testa - Rachada – doía estar dizendo aqui a ela, mas ele precisava manter as aparências.
- Me deixa, Malfoy – a castanha já ia saindo quando ele colocou-se diante da porta, impedindo-a de passar. Ela segurou a varinha com força – Saia da frente.
- Peça com educação – provocou-a com seu costumeiro sorriso debochado – Agora, Granger.
- Não – respondeu friamente. Sua mão tremia e ela estava à ponto de azarar aquele loiro ali mesmo, na frente de Zabini – Saia da minha frente, Malfoy.
-Seus pais trouxas não te dão educação? – perguntou e o amigo riu.
- Seus pais comensais da morte não te treinam para matar? Não entendi por que ainda não fez isso.
-Como ousa, sua sangue-ruim... – ele aproximou-se perigosamente da garota, que recuou, assustada.
-Calma, cara... – Blás segurou o amigo – Deixa-a em paz. Você não quer mais confusão, quer?
-Não tocaria um dedo nessa daí... – respondeu apontando o dedo para Hermione – Já é desgraçada o suficiente só por ter essa cara ridícula. Não consegue o Potter, nem o Weasley. Córmaco McLaggen só está atrás de você por que é amiga do Eleito. Caía da real, Granger. Quem olharia pra você? Olhe só para si mesma. É patética. Até a Weasley excita mais um cara do que você.
Hermione escutava tudo aquilo calada. Pela primeira vez, não tinha o que dizer. Ele estava certo. Quando ele terminou de falar, ela subiu o rosto e o encarou. Um sorriso diabólico se formou em seu rosto e mesmo com as lágrimas escorrendo pelas bochechas livremente, ela disse com a voz firme:
- Tem razão, Malfoy – contornou-o e sussurrou em seu ouvido – Obrigado por me alertar – e dizendo isso, saiu em direção ao corredor.
Hermione subiu as escadas de dois em dois e entrou no quarto chorando. Olhou-se pela segunda vez no espelho e chorou mais ainda. Não teria coragem de pedir ajuda à nenhuma das garotas, muito menos a Gina. Também não sabia nada sobre moda e maquiagem. Colocou sua camisola e resolveu dormir. Pelo menos por enquanto, não havia nada a fazer.