Scorpius dirigia com uma calma que não combinava com a expressão pesada em seu rosto. Os olhos ainda pressionados corriam as ruas de Oxford, baixando de vez em quando e me olhando com um misto de expressões que eu não conseguia decifrar nos centésimos de segundo que eles ficavam em mim. Tomei meu lugar como carona, me enrolando com a cabeça encostada na janela; meus olhos apenas se abriam quando eu sentia que estava sendo observada e era quando eu conseguia captar aquele olhar.
Eu tinha minha parcela de culpa. E o que eu faria agora? Ele sabia o que tinha acontecido, ele sabia que eu tinha ficado à sua mercê e que eu queria tê-lo beijado. E era isso que começara a me preocupar, como se fosse um formigamento no meu cérebro. Tudo bem que eu tinha entendido que ele tinha mesmo mudado e aquela aparência de cantor country que se perdeu dos colegas de turnê era no mínimo atraente, mas... Ora, ele ainda era o Scorpius.
O carro fez uma curva fechada à esquerda e eu me vi obrigada a abrir os olhos, quase assustada. Porém, estávamos apenas estacionando na garagem de casa e o sol já se fazia tão presente no céu que meus olhos se fecharam automaticamente logo depois de se abrirem. Senti que Scorpius tirou o cinto de segurança e que se mexeu na minha direção.
- Não vou abrir os olhos – eu disse, baixinho, com um zumbido incrível tomando meus ouvidos. Eu tinha me distraído durante todo o caminho com aquela luta interna e não prestara atenção em certas coisas.
- Acho melhor abrir – ele aconselhou, liberando a trava do meu cinto de segurança, me obrigando a retirá-lo. – E arrumar uma expressão que não diga “bebi demais”, porque vai que a sua mãe está acordada?
Abri os olhos com vontade depois da frase, mas apenas porque eu queria lançar um olhar irônico na direção dele; algo que dizia para ele não voltar a repetir qualquer piada daquele tipo. Fiquei com as costas eretas, sentindo meu corpo inteiro reclamar. Meus ossos pareciam estar voltando ao local de origem enquanto minha cabeça pulsava e minha boca estava muito seca.
- Tudo bem? – Scorpius perguntou, abrindo a porta pronto para sair do carro, mas parou quando eu voltei a fechar os olhos e apertei as têmporas. Ele ergueu um dos cantos da boca. – Isso é normal, a dor de cabeça. E a boca seca e a vontade de vomitar também.
- Isso melhora logo?
- Claro, Rose – ele sorriu, sarcástico. – É ressaca, não câncer.
Eu ri daquele típico humor negro que ele tinha logo pela manhã e tirei os dedos das têmporas, me lançando para fora do carro. Scorpius já estava na entrada da casa apenas me esperando e eu não pude deixar de fazer um paralelo com a outra noite quando eu assumia o papel que agora era dele. O rosto de Scorpius não estava mais tomado por aquele ar pesado, mas eu tinha certeza que via certa curiosidade ali presente. Tentei desviar dos olhos dele e me concentrar em não tropeçar nos vasos de flor que Hermione tinha na porta de entrada.
- Eu fiz alguma coisa ridícula? – perguntei, quando ele abriu a porta. As chaves foram a única coisa que fizeram barulho depois da minha pergunta, porque Scorpius me olhou com as sobrancelhas erguidas.
- Você não lembra?
- De algumas coisas – eu admiti, envergonhada. E era verdade, boa parte do que acontecera depois do quase beijo era um completo borrão. Claro que eu me aproveitei da situação para esconder qualquer coisa. Eu não queria discutir nada, não queria admitir nada, ainda mais com aquele martelo na minha cabeça.
- Não, não fez – ele me tranqüilizou, se abaixando e tirando as botas de caminhada ainda parado na entrada. Era uma boa idéia, entrar sem fazer barulho... Me abaixei e fiz a mesma coisa, logo em seguida segurando meus sapatos nas mãos. – Se não contar o beijo caloroso que você deu no Michael enquanto ele tentava fugir de você, não fez nada.
- Eu fiz o que? – minha voz era cavernosa quando eu falei. Scorpius não olhou para mim e entrou em casa, largou as botas no hall e fez menção de continuar seu caminho. Senti meu coração saltar no peito e meus olhos se arregalarem tanto que mal cabiam no meu rosto.
- Rose – ele começou, se virando para mim com a expressão mais inocente do mundo, mas de repente elas se transfiguraram em uma expressão de susto com olhos tão arregalados quanto os meus. Demorei a perceber que ele estava me imitando; só consegui perceber isso quando ele voltou a falar e sua voz era tão cavernosa quanto a minha. - Eu estou brincando!
- Seu idiota! – eu quis gritar, mas fiz de tudo para conseguir me manter calma e não pular no pescoço dele, a fim de sufocá-lo. – Existem brincadeiras que é melhor não serem feitas, seu imbecil!
- Calma, garota!
- Babaca – eu sibilei ao passar por ele, deixando que ele trancasse a porta.
Eu quis ignorá-lo e subir as escadas diretamente para o meu quarto, mas falhei ridiculamente ao bater com força em uma mesinha de vidro no hall e derrubar ao chão algumas cartas que estavam ali em cima. Agradeci por serem apenas cartas, mas me surpreendi ao perceber que dentro de casa ainda estava muito escuro, como se o sol ainda não tivesse nascido.
- Para Draco Malfoy, o dia não começa enquanto alguém na casa não acordar – Scorpius informou como num telejornal, passando por mim no escuro e se colocando a minha frente. Eu conseguia ver apenas sua silhueta, o que não era de todo ruim. – Por isso as cortinas blackout espalhadas por todas as janelas da casa.
Eu não tinha feito essa observação ainda, mas agora olhando ao redor da sala ainda escura, eu podia identificar onde elas estavam colocadas. A grande janela na sala de estar estava vedada, assim como a enorme janela da cozinha e as pequenas janelas espalhadas pelo escritório que tinha as portas de vidro grandes abertas. Era por isso que a casa era tão bem iluminada durante o dia; eu nunca tinha reparado na arquitetura do lugar, provavelmente pensada exatamente para isso: ventilação e iluminação.
- Você quer comer alguma coisa, ou beber? – Scorpius sussurrou, me acordando do devaneio. – Não é muito legal dormir sem comer nada depois de beber todas, como você fez...!
- A piada já perdeu a graça, Scorpius – eu anunciei, como se não fosse óbvio. – Mas não quero, obrigada, se eu desviar do meu caminho até a minha cama, vou cair desmaiada e você vai ter que me carregar até lá em cima.
- Não que fosse ser tão ruim, mas você é quem decide – Scorpius disse a frase muito rápido, como se só percebesse que ela tinha saído quando terminou de passar por entre seus dentes. Sua silhueta tomou a dianteira e eu vi que ele praticamente corria até a escada.
- Espera – sussurrei alto.
Tropecei em algumas coisas pelo caminho, sem entender como ele podia praticamente correr dentro de casa quando um breu daqueles tomava conta de tudo. Scorpius parou quando ouviu meu sussurro gritado e eu bati em suas costas quando cheguei mais perto; isso depois de tropeçar no primeiro degrau da escada. Ouvi que ele riu e fechei a cara.
- Eu não conheço a casa direito ainda – eu disse numa desculpa.
- Eu também não – ele se gabou, permanecendo parado onde estava. Usei daqueles segundos que ele concluía o pensamento para me firmar nos pés e subir as escadas sem cair ou despencar. Eu ainda estava tonta e a escuridão da casa não ajudava em nada o meu péssimo senso. – Mas eu tenho um senso melhor de direção e você ainda está bêbada, claro.
- Já mandei você calar a boca hoje?
- Já e não adiantou, você deveria desistir – ironizou, esticando a mão para trás e buscando alguma coisa. Eu só consegui entender o que ele estava procurando quando sua mão tocou a minha e ele a segurou forte.
O toque de seus dedos era gelado e leve, mesmo que o aperto deles fosse forte. Scorpius tinha uma delicadeza implícita em tudo que ele fazia e acho que essa era uma das coisas que mais me deixava pensativa... Era ótimo que estivesse escuro, porque eu tinha certeza de que meu rosto estava mais vermelho do que qualquer concentrado de tinta. Tremi quando ele começou a subir os degraus, me guiando; a cada degrau, um aperto mais forte na mão, num aviso calado.
Demorei a realmente conseguir segurar a mão dele em resposta; quando consegui fazer minha mão virar algo vivo, diferente da coisa morta que estava segura por entre os dedos dele, já estávamos no alto da escada e eu estava viva; não tinha despencado. A escuridão era quase tão profunda quanto a que ganhava o andar de baixo. Ali apenas era diferente, porque a porta do meu quarto estava entreaberta e minha janela não tinha a famosa cortina blackout.
Minha mão finalmente se tornou uma coisa viva e eu consegui apertar a mão dele de volta. Scorpius mexeu a cabeça, mas continuou seu caminho, passando pelo quarto de Arthur e finalmente parando em frente à porta entreaberta do meu quarto. Eu não ficara em uma posição privilegiada. A pouca luz solar que vinha pela fresta da porta estava direcionada para o meu rosto, impedindo que eu visse o dele, mas ele conseguia perceber uma pequena parcela do meu.
Eu não quis falar, senti que não conseguia. Aquela silhueta enorme na minha frente, quase muito perto de mim, me deixou desconcertada; me fez pensar em coisas que eu estava evitando até aquele momento. Achei que eu apenas tinha tido aquele momento na grama por conta do álcool, mas eu estava quase sóbria agora, parada ali no corredor curto, e ainda assim me sentia capturada por aquelas feições suaves que eu não conseguia identificar perfeitamente.
Achei que ele largaria minha mão e que me daria um “boa noite” simples, como os que sempre me dava, mas me surpreendi quando sua mão não largou a minha. Consegui me surpreender mais ainda quando eu não larguei a mão dele; a minha continuou ali, segura entre aqueles dedos suaves, mas ásperos na medida certa para serem rústicos e não rudes. Tudo bem, eu passei a me odiar a cada segundo mais depois de realizar aquele pensamento afirmativo, mas eu queria mesmo que ele me beijasse.
Eu quis experimentar o efeito daqueles lábios finos sobre os meus. E Scorpius pareceu ter pensado o mesmo, porque sua cabeça avançou e em milésimos de segundo, ele a tinha tão perto de mim que eu senti meu coração pulsar mais rápido. Porém, ele não tocou meus lábios, ele desviou e tocou minha bochecha, roçando de leve a barba rala no meu rosto. Meus olhos se fecharam instantaneamente com aquele toque e eu senti meus pelos se arrepiarem de uma forma que parecia irreversível.
- Já estou entregue? – perguntei com a voz falhada, abrindo os olhos novamente e tentando identificar alguma coisa. Os lábios ainda estavam na minha bochecha e eu não pensei antes de erguer minha mão livre e tocar o rosto dele, envolvendo sua orelha; parte dos meus dedos tocava a barba rala enquanto a outra parte garantia seu espaço por entre os cabelos desgrenhados.
- Acho que sim – ele disse e sua voz vinha abafada, pois os lábios haviam se afastado apenas um pouco do meu rosto.
Ele demorou a afastar a cabeça e quando o fez, esticou a mão livre que tinha e envolveu minha cintura. Voltei a enxergar a silhueta de seu rosto e ele estava muito perto do meu, tão perto que eu fechei meus olhos, me deixando guiar apenas pela respiração pesada que vinha em minha direção. Senti seu corpo muito perto e por um segundo ficamos tão quietos que eu podia jurar que aquele batimento acelerado não era um eco do meu coração. Meus lábios estavam entreabertos esperando que eu me aproximasse o suficiente, mas as coisas todas faziam um eco desagradável dentro da minha cabeça.
De um lado eu tinha todas as sensações e todas as coisas que ele me fazia sentir; elas vinham fortes e me diziam para avançar, para ver no que aquilo daria. Me diziam que eu queria isso e que poderia ser bom. Porém, do outro lado e cada vez mais fortes, vinham aquelas desconfianças e aquelas coisas desagradáveis ganhando cada vez mais espaço. Fiquei com medo, de repente, medo de que eu estivesse enganada em deixar que ele chegasse tão perto e que tudo não passasse de um jogo. Tive medo de me aprofundar e nunca mais conseguir sair.
Eu não era forte, não conseguia ser forte nesse momento. Naquele milésimo de segundo, eu decidi ceder ao medo e afastar meu rosto, cada vez mais percebendo que eu deixava que as desconfianças antigas ganhassem a guerra. Ele até poderia ter mudado, mas eu não era assim. Eu era uma pedra; quase imutável num intervalo de tempo pequeno. Soltei o rosto dele e afastei meu corpo, obrigando que ele largasse minha cintura e tirasse sua mão da minha.
Agradeci por estar escuro e eu não conseguir ver qualquer expressão que ganharia seu rosto. Eu não queria ver frustração ou confusão naqueles traços suaves. Não queria que aqueles olhos profundos pousassem em mim tão cedo. Eu tinha meu rosto torcido e, à medida que me afastava, sentia que eu começava a tremer. Sem dizer nada, avancei para o meu quarto e me tranquei lá dentro.
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N/A: Olá queridos! Eu disse que o capítulo 13 não ia demorar para chegar! O que acharam? Eu gostei. Bastante. Ficou bem diferente do capítulo original, com mais diálogos, mais páginas, mais pensamentos... Esse capítulo é mega importante, eu diria. Começa uma segunda parte na trama, por assim dizer. Acho que aqui já passamos de uma fase e estamos caminhando para outra... Perceberam?
Obrigada a todos que comentaram o capítulo anterior, vocês não tem noção do quão feliz eu fiquei! Não sei se eu já mencionei por aqui, mas fanfics para mim são algo maior do que diversão. Fazem parte de um exercício para um objetivo maior e quanto mais feedbacks eu receber, melhor é *-*! rsrs
Até o final de semana com o cap.14!