Já passava das cinco da manhã quando os responsáveis pelo Jones decidiram que estava na hora de fechar o estabelecimento e nos colocaram gentilmente para fora. Depois de duas danças com Scorpius, muitas músicas pop com as meninas, algumas músicas pesadas puladas com os garotos e mais duas rodadas de tequila, eu tinha realizado que aquele grupo de pessoas era legal; ainda tinha realizado que eu podia interagir com eles sem parecer a garota de Londres que se achava boa demais para Oxford.
Na verdade, eu só sabia que estava sendo amigável e achando aquilo tudo muito bacana porque eu não estava no controle total dos meus movimentos e pensamentos. Minha boca era a principal atingida, já que eu tinha certeza que muita coisa não estava passando naquele filtro que costumamos ter entre a cabeça e os lábios, então eu podia ofender alguém sem nem mesmo perceber.
Eu não estava mais ingerindo álcool, mas não me preocupei em lavar meu rosto e me livrar dele o mais rápido possível; pela primeira vez na minha vida, eu quis sentir como era ficar bêbada e o quão libertário isso podia ser. Eu apenas tinha esquecido da parte que, provavelmente, alguém cuidaria de mim e me levaria para casa. Mas... estava na hora de Scorpius me pagar uma parcela daquela noite.
- Você está bem? – ele me perguntou baixo, enquanto saímos do Jones sem saber exatamente para onde iríamos. Eu olhava ao redor, tentando pensar em alguma coisa, já que eu não queria ir para casa tão cedo, mas de nada adiantava já que eu não conhecia o lugar.
- Sim – respondi, tendo consciência de que sorria. Ele me parecia preocupado; as sobrancelhas estavam apertadas e os lábios crispados. Mas logo ele se desvencilhou da preocupação comigo, porque enxergou que Lisa jazia esquecida em um canto do estacionamento colocando qualquer coisa para fora de seu estômago. Eu torci o nariz para a cena.
- Ela sempre foi nojenta, a propósito – ouvi a voz atrás de mim e, apesar de eu estar alterada, eu sabia a quem ela pertencia. – Lisa vai odiar descobrir amanhã que estava vomitando por aí e estragando a chapinha.
- E você vai lembrar? – desafiei Michael.
- Se essa noite me der algo bom, eu vou lembrar sim – provocou.
- Claro que ela vai dar – eu provoquei, irônica, me virando bruscamente quando Michael se aproximou de mim com a intenção de me segurar pela cintura. Ele queria me beijar, era claro, desde o momento em que me vira pela primeira vez; mas eu não ia ceder. Não estando como eu estava. – Lisa vomitando no cabelo é um ótimo motivo para se lembrar dessa noite... Imagina quantas piadas você vai poder fazer!
- Não era bem disso que eu estava falando – ele tentou e eu o interrompi.
- Eu sei do que você estava falando, Michael – minha voz era firme, muito diferente dos meus passos. Meu cabelo caía no rosto, mas eu mantinha os olhos firmes no chão enquanto praticamente corria até os outros.
Meena seguia tropeçando enquanto tentava caminhar e se agarrar com Doug ao mesmo tempo. Paralelos aos dois, estavam Jason e Hannah numa animada conversa sobre pôneis. Não havia qualquer um deles que estivesse apenas sob o efeito do álcool.
Eu estava começando a me sentir melhor, com reflexos menos lentos e um formigamento menor na língua; Scorpius estava sóbrio. Muito sóbrio. Tão sóbrio que as sobrancelhas continuavam pressionadas enquanto ele caminhava com Lisa a tiracolo e me olhando de longe.
- O que foi? – eu me aproximei dele.
- Ela precisa ir para casa – ele apontou Lisa. A menina estava de olhos fechados e caminhava cada vez mais devagar; não estava nem um pouco bem.
- Dá um refrigerante para ela – dei a sugestão, mas ele sacudiu a cabeça.
- Ela não toma refrigerante.
- Garota idiota – eu ri baixinho.
- E o que eu faço com ela? – Scorpius parecia desesperado, sem saber mesmo o que fazer. Seus olhos, ainda pressionados, se fixaram em mim por um bom momento, como quem pedia minha ajuda.
- Ora, leva ela para casa no seu carro, mas cuida para ela não vomitar no banco do carona – fui irônica, sem perceber que eu estava sendo. Gargalhei, mesmo que ninguém a minha volta achasse aquilo engraçado; e depois do acesso de risadas, percebi que eu não conseguiria não ajudar. – Ok, vamos sentar em algum lugar, sei lá, e você deixa ela respirar. Deixa ela sentada, deitada, o que for, mas deixa ela respirar.
- Tudo bem – ele olhou para frente, mas voltou o olhar para mim, estampando uma espécie de preocupação que nunca antes tinha visto no olhar dele. – E você está bem mesmo? O Michael não está sendo muito irritante?
- Estou bem sim – respondi sincera. O que era verdade, pois eu não estava totalmente alterada e sim, alegre; rindo fácil, sendo agradável. – Eu sei lidar com o Michael... Não se preocupe porque amanhã você não vai precisar dizer para a minha mãe que você protegeu minha honra.
Gargalhei com uma enorme vontade e corri até os outros cinco, apontando um playground que via logo em frente. Todos eles deviam estar vendo o playground também, porque no mesmo instante os cinco correram na minha frente se instalando nos brinquedos. Michael, Doug e Jason apostaram quem ia mais alto nos balanços, enquanto Hannah e Meena se ocupavam em escalar uma espécie de casinha da árvore, mas que não ficava em uma árvore e sim a alguns poucos metros do chão.
Eu me larguei em um bom pedaço de grama com os braços esticados atrás de mim e os olhos fechados. Deixei que minha cabeça pendesse para trás e abri meus olhos; a visão do céu naquela hora da manhã era maravilhosa. As estrelas eram como pontos de tinta brilhante em uma colcha azul escuro. Uma colcha azul escuro que ia se tingindo com cores mais claras e mais abundantes à medida que os minutos iam passando.
E eu fiquei naquela posição observando o céu durante tanto tempo que quando houve qualquer movimentação perto de mim, a colcha azul marinho já se assemelhava a algo azul royal.
- O que você fazia em Londres, mesmo? – era Michael que se jogava ao meu lado, posicionando a mão sobre a minha barriga com uma intimidade que ultrapassava qualquer bom humor. Retirei a mão dele e voltei a encarar o céu.
- Eu sou uma pesquisadora – comecei, pronta para descrever o que eu fazia. Eu tinha muito orgulho do que eu fazia, muito orgulho do meu esforço de ser uma das pesquisadoras contratadas mais jovens do departamento. Porém, parei a mim mesma quando percebi que não podia dizer o que eu fazia.
- A Rose é assistente de Pesquisa Zoológica, trabalha para o Governo – a voz de Scorpius proferiu, quando ele se largou na grama com Lisa ao seu lado. Ela parecia bem melhor; já não tinha maquiagem no rosto, o que sugeria que ele tinha lavado seu rosto. Não pude negar o arrepio que senti quando o imaginei lavando o rosto dela como eu tinha lavado o dele. – O orgulho da família!
- Cara – Michael rebateu quando Scorpius pretendia continuar, inventando novas funções que se assemelhassem a minha verdadeira função. Eu duvidava que qualquer um deles levasse a sério caso falássemos sobre o mundo bruxo, mas porque arriscar? – Isso é grego, para mim!
Michael se levantou e correu até onde Doug e Jason acendiam mais um cigarro de maconha. Olhei diretamente para Scorpius quando percebi o que os dois faziam, mas ele estava tão distraído com Lisa que não percebeu, muito menos sentiu o cheiro doce que se espalhava pelo playground. Inclinei a cabeça e fiquei alguns segundos observando enquanto ele perguntava se ela estava bem, se ela queria alguma coisa.
Scorpius podia não gostar de Lisa, mas ele não era uma má pessoa. Me senti mal, de repente. Mas não estava mal por conta do álcool ou por qualquer outra coisa, mas me senti mal por ter achado que ele nunca poderia mudar. O Scorpius que eu conhecia nunca estaria ajudando essa menina, nem se ela estivesse tendo uma overdose na frente dele. Eu me vi sorrindo.
- O que foi? – ele perguntou, erguendo os olhos para mim quando Lisa se jogou de costas na grama. Tinha os olhos fechados, mas ainda segurava muito forte os dedos de Scorpius. Ela iria dormir ali mesmo.
- Eu estava errada – eu disse e me surpreendi comigo mesma por aquelas palavras terem saído dos meus lábios. Eu estava errada? Claro que eu estava errada em dizer que ele nunca mudaria, em encher o saco com as coisas que eu trazia do passado, em pressionar o garoto por qualquer besteira comum que ele fizesse; mas eu nunca diria isso assim, não tão cedo e ainda por cima sorrindo!
- Sobre estar bem? Porque o álcool no seu organismo está fazendo você ser legal comigo... Weasleys não são legais com Malfoys! – ele brincou, sendo puxado de repente pela mão zumbi de Lisa. A menina parecia estar dormindo, mas sua mente parecia estar ligada no que acontecia ao redor.
Scorpius caiu ao lado dela, com as costas enterradas na grama fofa. Eu pendi minha cabeça para trás novamente e aos poucos deixei que minhas costas me levassem para baixo, também. Michael e os outros estavam voltando para perto de nós, então eu devia terminar aquele assunto de uma vez. Porém, a única coisa que eu consegui fazer foi dizer a frase mais idiota de todas.
- Minha mãe foi – a frase saiu devagar e o silêncio se instaurou entre nós dois enquanto os outros cinco não chegavam.
Ainda deitada, enterrada na grama, sentindo o vibrar da terra, eu virei meus olhos para o céu; aproveitei que Michael estava ocupado com os outros, e me dava uma pausa em suas investidas, para observar as constelações que há muito eu não observava. Eu nunca conseguiria fazer esse tipo de coisa estando trancada naquele apartamento em Londres rodeada por meus livros especializados.
Eu não observava o céu desde a escola, mas eu achava que ainda me lembraria de algumas constelações e seus nomes. Procurei pelo Cisne, meu preferido, mas apenas encontrei o que parecia ser o Serpentário. Franzi as sobrancelhas para a constelação comprida ao lado do que parecia ser o serpentário; estiquei o dedo e toquei o braço de Scorpius, chamando sua atenção ao apontar para o céu.
- Olha – eu disse e ele rolou a cabeça para mais perto da minha, olhando diretamente para onde meu dedo estava apontando. Não percebi que ele estava tão perto até virar o rosto para ele e quase tocar sua bochecha com meu nariz.
- O que? – ele franzia as sobrancelhas para o céu, enquanto meu dedo ainda apontava para a constelação que eu tinha cada vez menos certeza ser Escorpião.
- É a sua constelação – eu disse numa afirmação, mas meu tom de voz era duvidoso. Meu dedo continuou esticado e meu rosto hipnotizado com o perfil suave. O que está acontecendo comigo?
- Não se consegue ver escorpião no céu de verão – ele disse, virando o rosto para mim, transformando o perfil em um amontoado de feições que se transformava à medida que o nariz descia e tocava levemente a ponta do meu.
Sua voz foi desaparecendo até chegar ao final da frase. Tudo foi dito num ritmo tão lento que eu estranhei quando chegou ao fim. Fiquei parada, completamente congelada, com os olhos colados em seus lábios esperando que ele dissesse mais alguma coisa, mas ele não disse. Meus olhos subiram para os dele, mas os dele não estavam ali parados; pulavam dos meus para minha boca.
- Um incesto? – ouvi a voz longínqua de Doug brincar e tratei de impulsionar meu corpo para cima. Ele abria uma lata de cerveja. Eles haviam comprado alguns engradados pequenos de cerveja antes de sairmos do Jones.
Todos eles riram, mas eu não fui capaz de esboçar o menor sorriso. Não me atrevi a olhar para Scorpius, temendo ver qualquer sinal de frustração, surpresa ou esperança naqueles olhos profundos. Eu começara a odiar o efeito do álcool. Desviei os olhos de qualquer um dos olhares que caía sobre mim e me ergui nos joelhos, caminhando ajoelhada até Doug e roubando a cerveja de suas mãos.
- Por ser tão idiota, sua cerveja agora é minha! – minha voz era forte, decidida, quase como aquela que eu usava com os alunos mais bagunceiros em Hogwarts. Todos eles riram mais ainda quando eu fiz tal piada sem graça.
Tomei longos goles da cerveja como se aquilo se tratasse de apenas mais um copo d’água. Doug jogou as mãos para o alto quando eu larguei a lata de cerveja vazia aos seus pés. A tonteira foi instantânea; meus joelhos fraquejaram e eu me vi jogada na grama novamente, mas dessa vez eu não estava deitada ao lado de Scorpius. Tinha caído ao lado de Michael e este tocava minha cintura. Me preocupei em apenas ignorar a presença de Scorpius, enquanto tinha certeza de que ele continuava cuidado de mim, mesmo a distância.
Mesmo pisando em nuvens, eu consegui raciocinar o suficiente para não deixar que Michael abusasse da minha confiança e me lembrar o porquê de eu não gostar de ficar bêbada: porque eu fazia coisas que não aprovava. Porém, raciocinei tarde demais e eu já estava bebendo mais uma lata de cerveja e, cada vez pisando em nuvens mais fofas.
O sol já estava no horizonte quando Scorpius cutucou meu ombro. Eu não percebi, mas nós estávamos dormindo na grama. Michael se erguia, enquanto eu me desvencilhava do abraço dele e me erguia nos pés. Scorpius estava colocando ordem na coisa, indicando o carro de Lisa para que Michael dirigisse, levando todos os outros para casa: Michael era o que estava menos afetado dos seis. Depois que eles embarcaram, dei as chaves para Scorpius dirigir; eu ainda estava tonta e começara a me sentir enjoada.
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N/A: Oi Gente! Estou aprendendo a não ficar frustrada quando a presença escrita se faz apenas com os dois comentaristas sempre presentes *-* Tem vezes que vocês fazem meu dia! Bueno, obrigada a quem comenta e a quem não comenta; a quem acompanha a fic e a quem um dia vai acompanhar! Estou sentimental hoje. Sério. Por isso, vou chorar (literalmente :\) comentários, mais uma vez!
Espero que vocês tenham gostado desse capítulo, porque eu adorei! É dificil escolher um capítulo preferido (o meu capítulo preferido, de longe, ainda está por vir), mas esse é um que eu considero muito bom. No inicio, ele tinha duas páginas, mas eu resolvi estender um pouquinho e tornar a coisa mais longa. Rose bêbada merece mais do que duas páginas! Espero que a narração tenha ficado com aspectos "mucho locos", como eu queria ter dado; rsrsrs
Ah, eu queria ter anunciado que o capítulo 13 só vem no dia 13 (porque é meu aniversário, dia do rock e combina!), mas não vou ser tão má, já que hoje é dia 1°; então, lá pela metade da semana que vem eu posto o 13... Até semana que vem, gente!