Cena IV:
–Como é mesmo o seu nome?
–Eu não o disse.
–Eu não vou transar com você – disse me encarando séria.
–Não é essa a minha intenção – rebati, sentado distraidamente na cadeira.
A mulher continuou a me encarar profundamente por longos segundos. Vi-a franzir o cenho como se cogitasse o fato de eu estar dizendo a verdade. Ela parecia me analisar. E eu permiti que me olhasse nos olhos o quanto quisesse.
–Por quê é tão difícil para você aceitar que eu simplesmente quero uma boa companhia? – questionei, com um semblante sereno.
–Lembre-se de seus amigos – retorquiu quase em um sussurro – e me diga se eu tenho motivos para acreditar em você tão facilmente.
Lembrei-me dos gêmeos Fred e Jorge. Eles eram o tipo de homem que ela achava que eu era. Conquistadores.
Sorri-lhe vencido.
–Sim, é verdade – afirmei – Mas eu não acho que você seja fácil e burra.
Ela me encarou e eu fiquei sério para que transparecesse que aquilo não era uma cantada. Pois eu a conhecia e a moça não parecia saber disso. Eu estava convencido de que ela não me reconhecera.
E por mais incrível que pudesse parecer nós conversamos civilizadamente enquanto ela aproveitava o jantar. A mulher chegou até mesmo a me convidar para comer com ela, mas eu não estava com fome. E achei muito mais interessante observá-la comer. Suas mãos delicadas levando o garfo à boca. Seus músculos faciais se contraindo e relaxando, escondendo e revelando certos traços. Novos traços. Seus dentes brancos e perfeitos graças ao aparelho que usou há tantos anos. Seus olhos avelã que me procuravam com interesse e certo incômodo. Beleza que somente eu conseguia enxergar.
Já havia terminado de comer. Degustava o mesmo vinho de antes e eu fazia o mesmo. Talvez estivesse esperando o momento em que eu iría embora. Mas isso não estava em meus planos.
Ouvi, talvez pela primeira vez, uma música preencher o lugar. Certamente porque fora somente naquele momento que eu livrei a minha mente de quaisquer pensamentos. Olhei para o palco tomando um gole do vinho. Havia um homem negro tocando violão e cantando uma música lenta e suave. Uma música que entrou pelos meus ouvidos, seguindo para todo o resto do meu corpo. Percorrendo cada parte e me fazendo fechar os olhos por uns instantes. Senti-me renovado e cheio de algo. Algo impalpável e inexplicável. Ou talvez fosse somente o efeito do álcool que me deu forças para agir.
–Quer dançar? – perguntei depositando a taça sobre a mesa e abrindo meus olhos para fitá-la.
–Sim – respondeu-me com os olhos fixos nos meus.
Quem sabe a música não provocara o mesmo efeito nela.
Levantei-me assim como ela e peguei a sua mão. Seus dedos eram finos e longos e a palma da sua mão era lisa. Guiei-a até a pista.
Puxei o seu corpo para perto do meu, pela sua cintura, com delicadeza. Segurei sua mão direita e esperei ela pousar seu braço livre em meus ombros. Ao começar a dançar pisoteei seu pé. Por um momento esqueci que eu era um péssimo dançarino.
–Desculpe-me – falei olhando para nossos pés porque pisara os dela pela segunda vez.
–Tudo bem – ela me disse com uma expressão de dor – Não olhe para baixo – pediu erguendo meu queixo – Tente acompanhar meus pés. Sinta-os e siga-os.
Era eu quem deveria estar guiando e não ao contrário.
–Dois para lá, dois para cá – ela disse, fazendo com os pés o que os seus lábios diziam.
Após algum tempo eu peguei o ritmo e parei de pisar-lhe os pés.
–Como você se chama? – questionei encarando seus olhos.
Não vi hesitação neles quando sua boca me respondeu:
–Hermione.
Eu só precisava ouvir isso para ter a certeza plena de que era ela. Hermione. A mulher que ainda habita meus pensamentos. Por mais impossível que pudesse parecer.
Continuamos a dançar. O músico já estava na terceira melodia quando ela me indagou curiosa:
–Como é mesmo o seu nome?
–Eu não o disse – falei.
Tinha algo que ainda me intrigava. Algo que não estava bem explicado e para o qual eu não havia encontrado respostas possíveis.
–Como o seu marido a deixou sair sozinha à noite? – comentei, quase indignado. Correndo o risco de ela não me responder.
–Sou solteira.
–Mas e a aliança? – indaguei confuso.
–Servia para espantar tipos como você – afirmou, contendo um sorriso.
Eu ri. E ela retirou a mão que eu segurava envolvendo-me pelo pescoço com ambos os braços enquanto eu a abraçava pela cintura.
Acordei com muito esforço na manhã seguinte. Espreguicei-me gostosamente na cama. Abri um pouco os olhos vendo apenas um clarão que invadia o quarto pela janela do lado oposto. Pisquei-os algumas vezes até que pude os abrir totalmente. A porta encontrava-se ao meu lado direito, assim como um guarda-roupa encostado na mesma parede. Sentei-me e virei meu rosto para o lado: seus cabelos castanhos caiam sobre as suas costas nuas, seus braços postados ao lado de sua cabeça e a coberta que escondia seu corpo até os seus joelhos.
Encarei seus contornos e sua pele clara. Deslizei uma mão pelas suas costas até o seu quadril despido. Seria a única vez que a veria assim? Provavelmente. Dei as costas para ela, joguei a coberta que me cobria para o lado e me levantei.
Vesti-me sem fazer barulho. Não iría acordá-la. Queria que a minha mais profunda lembrança dela fosse seu semblante sereno depois de uma noite única juntos.
Terminei de calçar o segundo sapato. Já tinha abotoado a calça e vestido a camisa branca de manga até o pulso. Olhei ao redor a procura de meu paletó e o encontrei perto da escrivaninha. Catei-o e comecei a vesti-lo quando percebi que ela se mexia na cama.
–Harry? – ouvi o seu sussurro.