Cena III:
"Por que você não consegue ver O que está fazendo comigo,
Quando você não acredita em nenhuma palavra que eu digo?"
Tirei a gravata pendurando-a onde estava meu paletó, peguei-o – agora quase completamente seco – e o vesti. Abri dois botões da camisa branca. Passei uma mão no cabelo enquanto me dirigia a mesa dela. O coração batia acelerado e minha mente estava confusa. Eu tentava pensar no que dizer mas a visão dela parecia me paralisar.
–Boa noite – falei gaguejando um pouco.
Pigarreei enquanto ela dirigia seu olhar para mim.
–Pois não? – ela me perguntou com uma sobrancelha arqueada.
–Eu poderia me sentar aqui? – questionei, já mais controlado. Ela me encarou com desprezo. Como se dissesse: quem você pensa que é?– As outras mesas estão cheias – justifiquei rapidamente.
Ela olhou ao redor. Era verdade. O bar estava lotado.
–Caso não se importe, claro – ressaltei.
–Eu me importo – disse-me com o mesmo olhar.
–Você é a única que não está acompanhada, então pensei que... – insisti, mas ela me interrompeu:
–Talvez tenha pensado errado – comentou decidida.
–Eu só quero uma boa companhia. Nada demais – persisti, sorrindo-lhe.
–E o que te faz pensar que sou uma boa companhia? – indagou com um sorriso irônico.
–O seu bom gosto para vinhos – respondi com um charmoso sorriso – Eu o experimentei. Português, safra de 1989. Ou estou errado? – lhe sorri vitorioso.
–Não, não está – disse, derrotada.
–Posso me sentar? – perguntei outra vez.
–Sim – disse apontando a cadeira, em frente a sua, com a mão.
Percebi uma aliança em sua mão esquerda. Esquerdo. O lado do coração. Tinha sentido visto dessa forma. E seria até mesmo poético se essa aliança não representasse o dissolver das minhas esperanças.
Sentei-me perturbado e desesperançoso. Cheguei a indagar o porquê de eu ter ido até ela. Balancei levemente a cabeça. Não, não poderia deixar que um objeto estragasse a minha chance. (Talvez) Minha única chance.
A chuva persistia. E isso era uma desculpa para eu permanecer no bar. Agradeci mentalmente pela tempestade não ter cessado. Aprenda, eu posso ser uma pessoa contraditória às vezes.
Um trovão foi ouvido. Percebi a mulher se sobressaltar por causa disso. Ela pôs a taça sobre a mesa. Suas mãos estavam trêmulas. Outro trovão e seu corpo estremeceu. Abraçou-se. Estava nervosa. Encarei-a pensativo enquanto continuava a beber o vinho. Hermione sempre se assustava com raios e trovões. Não gostava de tempestades por isso.
Um clarão iluminou a rua. Era um raio. A moça me olhou e se endireitou na cadeira, mudando a fisionomia de assustada para tranqüila.
–Eu também não gosto de trovões – falei suave, tentando acalmá-la, pois sabia que ela fingia tranqüilidade.