Capítulo 11
O Quarto
Para Naty L. Potter, feliz 15 anos querida.
Todos os anos, Harry contava com enorme ansiedade os dias que faltavam para o seu aniversário. Do seu ponto de vista, cada ano era um passo em direção ao dia em que ele, finalmente, poderia pegar a sua mãe e deixar os Dursley para sempre. Assim, ele se surpreendeu ao acordar naquela manhã e descobrir que faria quatorze anos no dia seguinte e que, provavelmente, nunca mais veria seus tios e primo. Eles, agora, viviam em mundos muito diferentes. Os dois pensamentos o fizeram sorrir para o teto. Ficou ainda algum tempo deitado em sua nova e imensa cama, vendo o sol da manhã fazer manchas no cortinado do dossel. A riqueza de tudo aquilo ainda lhe era estranha e, por vezes, quase agressiva. Sempre que Harry se apercebia disso – e era o tempo todo – tinha a sensação de estar do lado errado daquilo tudo.
Ele ainda não havia estabelecido uma rotina no castelo. A cada dia havia elementos novos a serem descobertos, novas pessoas às quais ele era apresentado, novos aspectos a aprender sobre este mundo mágico de que ele agora fazia parte. Aliás, a magia era o que mais o encantava. Harry realmente se maravilhava com o que era possível fazer simplesmente agitando uma varinha e dizendo as palavras corretas. Felizmente, graças aos seus pais, Hermione, Remus e Sirius, ele já não era mais tão terrivelmente ignorante em tudo aquilo. Tinha aprendido rápido as mágicas mais simples e, com algum treino e concentração – essa era a parte difícil –, descobriu que poderia até se sair excepcionalmente bem em mágicas complexas. Harry só lamentava o pouco tempo que tivera com Dumbledore. O alquimista o fascinava, mas ficara apenas algumas horas no castelo e partira rápido, prometendo voltar assim que pudesse.
Nada, porém, deixava Harry mais feliz do que usufruir das coisas que ele nunca tinha tido. Seu pai, seu padrinho e Remus (que era quase como um tio, mas mil vezes melhor que Vernon Dursley) ocupavam o topo da lista. Logo abaixo vinham seus novos amigos. Harry nunca tinha tido um melhor amigo e ainda se impressionava com a facilidade com que Ron ocupara esse lugar. Os dois se tornaram inseparáveis e, de alguma forma, a aventura nos subterrâneos do castelo fizera com que Hermione e Ginny se associassem a eles. Hermione estava sempre tentando ser a mais velha e ocupar seu posto de tia, mas a pose desmoronava rápido quando os quatro se punham a conversar e explorar as cercanias do castelo. Ginny, embora tímida (segundo Ron apenas na frente de Harry), não perdia para os meninos em quase nada quando se tratava de subir em árvores, nadar no lago, correr pelo mato e mesmo montar a cavalo.
A cumplicidade dos quatro se aprofundava a cada dia, mas junto com ela, se estabelecia uma certa vigilância sobre eles. Os adultos pareciam concordar que o grupinho, agora muito obviamente liderado por Harry, não era confiável, para a sua própria segurança. Assim, Hagrid e Little John mal disfarçavam que tinha ordens para vigiá-los e mesmo James se recusava a facilitar a movimentação do filho com os amigos. Não raro ele se metia nas expedições exploratórias dos garotos, ou ele ou Sirius, ou os dois. E, sempre que possível, prendia Harry e Ron para se dedicarem à aprendizagem da cavalaria, enquanto as garotas assistiam ou eram tutoradas em outros afazeres pela Sra. Weasley.
Era verão e, logo que o frio chegasse, começariam as aulas que Hermione estava programando e chegariam os mestres que ela contratara para a escola do castelo, então era necessário aproveitar o tempo e a temperatura disponíveis. Isso, com certeza, diminuiu as explorações dos garotos durante aqueles poucos dias que se seguiram à vitória sobre a górgone.
Além do mais, era um consenso que, em termos de cavalaria, mais que de magia, Harry teria de se esforçar muito para recuperar o tempo perdido e poder guardar suas armas aos dezessete anos. Isso, aliás, o vinha deixando bastante nervoso. Ron estava mais adiantado que ele e já tinha dois irmãos cavaleiros. Will, que seguira para as cruzadas, e Charlie, que era (para o completo espanto de Harry) um matador de dragões. O terceiro irmão de Ron, Percy, guardaria as suas armas em Todos os Santos e os gêmeos em Petencostes, no próximo ano.
De fato, eram Percy e os gêmeos, Fred e George, que o estavam deixando preocupado em conseguir se tornar um cavaleiro. O primeiro não parava de repetir o código da cavalaria para Harry e, sempre que estavam juntos, ele o obrigava a memorizar frases e juramentos.
– Como você ainda não sabe ler perfeitamente, Harry, é melhor que memorize “perfeitamente” – dizia cheio de pompa. – Seria uma vergonha o filho de Sir James Potter não saber o código da cavalaria de cabeça.
Fred e George eram bem mais relaxados que o irmão mais velho no que dizia respeito ao código. Aliás, para eles, o código só servia para impressionar as garotas. Percy ficava ofendidíssimo em ouvir isso e, em geral, era quando ele se afastava irritado e dizia não ter tempo para discutir com a “ignorância”.
– A questão não é quantos juramentos você fez e não quebrou, Harry, mas as aventuras que você pode contar – lhe disse Fred, revirando os olhos após uma longa digressão de Percy sobre honrar a palavra de cavaleiro.
George concordou enfaticamente e acrescentou.
– A maioria dos cavaleiros só “ouviu falar” do código e eu não conheço nenhum que não quebre as regras de vez em quando.
– Talvez, o Percy pretenda ser o primeiro – debochou Fred. – Se bem que eu sempre me pergunto por que ele não preferiu ser padre. Percy sobre um cavalo, de armadura, é patético.
George fez uma careta de quem imagina a cena, antes de falar para Harry.
– De qualquer forma, eu não me preocuparia se fosse você. Afinal, você já tem uma górgone morta e uma donzela salva para contar. Isso é mais do que qualquer um de nós.
– Verdade – anuiu Fred. – Mate um ogro e desafie um dragão nos próximos três anos e ninguém jamais vai perguntar se você sabe o código de cor. Mas eu recomendaria contratar um bardo, eles são ótimos em espalhar a fama.
Harry riu com eles, mas não pareceu tão certo sobre as facilidades de que os dois falavam.
– Certo. Mas o Percy falou que...
Os dois irmãos sorriram com maldade.
– Bem, digamos que o Percy realmente precisa saber o código de cor – falaram juntos, antes de caírem na risada.
– Hei, Ron – chamou Fred – talvez devesse decorar o código também.
O caçula não gostou. Harry soube imediatamente, por causa das enormes manchas vermelhas que subiram pelo pescoço do garoto.
– Eu lutei contra a górgone também, lembram?
– Mas virou pedra, irmãozinho – alfinetou George.
– Ron foi muito corajoso – interviu Hermione, que estava sentada ao lado de Ginny, há alguns passos deles.
A defesa deixou Ron ainda mais vermelho e, ao que parecia, o incapacitou, momentaneamente, de retorquir para os irmãos. Fred lhe devolveu uma expressão compungida.
– É Ron... eu acho que no fim, você fez muito bem em virar pedra, sabe? Mostrou fidelidade.
– Sim, – incentivou George sob o olhar duro de Hermione – lealdade para com seu novo senhor. Afinal, o Harry precisava mesmo chegar provando que era filho de Sir James e não só um sósia abatumado que ele achou por aí.
A lembrança fez com que Harry franzisse a testa e levantasse da cama, um pouco irritado. Não fora Ron que a provocação tinha atingido, mas a ele, mesmo que essa não fosse a intenção dos gêmeos. Todos aqueles dias tinham sido um aprendizado, em mais do que tudo, no significado de ser filho de James Potter. Hermione já o tinha avisado, mas o fato é que Harry tinha pouco com o que comparar para saber. Agora, parecia que todos estavam muito preocupados em lhe repetir isso, o tempo todo. Ele já ouvira até de Sirius e Remus falando no assunto.
É claro que, como tinha atestado George, matar um monstro mitológico lhe rendera vantagens e, até mesmo, algum respeito. Mas bravura era somente algo que se esperava dele. O fato é que, logo, logo, Harry perdeu a conta da quantidade de olhares curiosos, dedos apontados e sussurros que o perseguiam por onde ele andasse. “O herdeiro”, diziam as pessoas, num tom que nunca lhe pareceu ser exatamente simpático. Havia dúvida, deboche e, até, descrença. Os piores, para Harry, eram justamente alguns garotos, que tinham mais ou menos a sua idade. Estes eram capitaneados por um menino chamado Simmas Finnighan, cujo pai estava com Will Weasley e Alastor Moody nas Cruzadas. Harry chegou a reclamar da hostilidade deles.
– É ciúmes – disse Ron com descaso. – Sir James e Sirius são muito populares. Todos querem chamar a atenção deles, ter um tratamento especial, serem incluídos na comitiva... sabe como é.
– Além disso – continuou Hermione, que caminhava com os dois, mais Ginny, pelo bosque de árvores frutíferas, do lado de fora dos muros do castelo – o seu sumiço deixou um espaço aberto que qualquer um deles adoraria preencher.
– Uma esperança bem idiota se a gente for comparar qualquer um deles com... – Ginny parou a frase no meio e apressou o passo para passar à frente dos três.
Ron e Hermione concordaram com ela. Contudo, Harry só se preocupava com isso quando estava longe do pai. Quando estavam juntos, pensou, se ele olhasse de fora, talvez até sentisse inveja de si mesmo. Tomou o desjejum trazido por um dos elfos da cozinha, agradeceu e, quando ele finalmente desceu para o grande salão, tinha um meio sorriso feliz no rosto. Não importava tanto que as outras pessoas ali demorassem a aceitá-lo, afinal, ele tinha toda a aceitação que queria do pai e de seus melhores amigos.
Risadas altas o encontraram antes que ele chegasse à porta do salão. Parecia haver uma verdadeira festa lá dentro. Harry ouviu até mesmo a voz de sua mãe num tom claro de contentamento e, por um instante delirante, imaginou que a encontraria de braços dados com o pai. Porém, quando chegou à porta o quadro era outro. Ela estava de braços dados sim, e parecia muito alegre, mas Harry tinha certeza de que jamais vira o homem que estava ao lado dela. Ele era mais baixo que James, Remus, Sirius e, até mesmo, Lily. Tinha um corpo gordinho que mal cabia em sua rica roupa de Lorde. O cabelo aloirado lembrava a cor do pelo de uma ratazana, assim como os olhos miúdos e o rosto que se projetava levemente para frente. O grupo todo tinha taças na mão e ria bastante.
O estranho tinha dito alguma coisa que fez Sirius gargalhar e o padrinho acabou, ao mexer a cabeça, percebendo a sua presença.
– Harry! – saudou alegre e o homem com cara de rato chegou a dar um salto no mesmo lugar. – Venha aqui garoto! – chamou Sirius. – Precisamos lhe apresentar uma pessoa.
Harry caminhou até o grupo, mas a apresentação de Sirius foi atropelada pelo entusiasmo do recém chegado. Ele soltou o braço de Lily e se adiantou até parar em frente a Harry e colocar as mãos em seus ombros.
– Santo Deus do céu! É você mesmo! Harry! – falou emocionado e depois abraçou o garoto. Harry ficou sem graça, sem saber se correspondia. – Você não imagina minha felicidade em reencontrá-lo. James! Você não me disse que ele era exatamente igual a você!
O pai de Harry deu de ombros com um meio sorriso presunçoso.
– Na verdade, ele tem os olhos da Lily – juntou Remus.
O homem ainda admirava Harry.
– Bem, creio que isso apenas vai deixá-lo ainda mais irresistível às damas que o pai, não é mesmo Harry?
O garoto corou um pouco e olhou para o pai pedindo socorro. James se aproximou com um inegável ar de satisfação.
– Desculpe filho. Os últimos dias foram tão intensos que nem tive tempo de mencionar que somos quatro.
– Como? – Harry não entendeu bem, mas conseguiu captar um breve lampejo de desapontamento na expressão do recém-chegado.
– Nós, Harry – falou Sirius apontando para si, e também para James, Remus e o outro homem. – Somos quatro. Os quatro cavaleiros do apocalipse – informou com uma arrogância medida.
– Esse apelido só se aplica a você, Sirius – replicou Remus, tomando um gole de sua taça.
– Aluado, você às vezes é tão tedioso – Sirius reclamou se jogando numa cadeira próxima e esticando as longas pernas à frente. – Você só não gosta do apelido porque nunca se conformou em ser a “Morte”.
– Não é exatamente um apelido elogioso, Sirius – repreendeu Lily, carinhosamente.
– Mas tem tudo a ver, Lily – argumentou Sirius e Harry teve a impressão de que aquela dinâmica não havia sido obra dos últimos dias, mas de um tempo anterior. Um tempo que ele, Harry, não conhecia. – Veja bem: sempre que pretendíamos fazer algo realmente divertido, os planos “morriam” no Remus.
– Quem sabe por que ele é o único de vocês quatro a ter algum juízo.
Sirius revirou os olhos.
– Se você apreciasse tanto caras ajuizados teria se casado com ele e não com... – um tapa na cabeça, dado por Remus, calou a boca do padrinho de Harry. Lily corou e James pareceu interessado demais na própria taça. Foi o estranho que interrompeu o mal estar.
– Hei! Será que um de vocês pode fazer o favor de nos apresentar decentemente?
Harry ficou imaginando por que ele próprio não o fazia, já que era tão íntimo da casa, mas James tomou a palavra.
– Harry – disse colocando a mão sobre o ombro do recém-chegado – este é Peter Petegreew...
– Lorde Peter Petegreew – corrigiu o homem com um sorrisinho.
– É claro – James fez uma pequena mesura, com ar de deboche. – Lorde, como eu pude esquecer – ele riu e Sirius o acompanhou. – Como eu ia dizendo, este é o “Pete” – frisou a familiaridade – o quarto...
– Cavaleiro do Apocalipse – completou Sirius. – Ou a “Fome”, se você quiser.
Peter ignorou Sirius e estendeu a mão frouxamente para Harry que a apertou.
– Ah – falou o homem, encantado. – Estou emocionado. Você não imagina a satisfação que é vê-lo de volta ao lar, Harry. Você e Lily, é claro. – Peter retornou para perto da mãe de Harry e tomou-lhe as duas mãos nas suas. – E devo dizer, se é que James me permite, que os anos a fizeram ainda mais bela, minha cara. Você, com certeza, faria um tremendo sucesso na corte. O regente poria Londres aos seus pés.
A empolgação dele não atingiu aos amigos. Harry notou o sorriso de seu pai congelar.
– Não creio que as gentilezas do regente nos sejam interessantes, Pete.
– Foi só uma forma de falar, James. Mas, é melhor ter cuidado, meu amigo. Sua hostilidade com o príncipe John não é uma boa política nesse momento.
– Não serei hostil a Jonh se ele parar de fomentar uma guerra civil!
O ar pesou um pouco com o tom gelado e agressivo de James.
– Eu entendo o que diz, James – tornou Peter, suavemente – e concordo. Você sabe que eu concordo. Apenas acho prudente ser mais cauteloso no que diz, para que qualquer um possa ouvir, desde que Ricardo anunciou que partiria para as Cruzadas. Você o acusou de negligente e de estar se omitindo nos problemas entre normandos e saxões, bem como nos ataques à bruxos e comuns.
– Eu não menti, Peter – rosnou James. – Ricardo está se comportando como um fanfarrão tolo em busca de glória e não como um rei. Acredite, ele está contando com gente como eu para ter um reino quando voltar. E se John não gosta do que eu falo... bem, ele vai ter que devorar uns três cervos inteiros até ter tamanho para me enfrentar.
O silêncio caiu sobre a sala. Harry notou que Peter tinha uma expressão compungida e Remus observava o James com muita seriedade, Sirius tinha um meio sorriso e foi ele quem quebrou a tensão.
– É por causa desse seu temperamento que você é a “Guerra”.
– Talvez – sugeriu Remus pausadamente – devamos deixar a política para mais tarde.
Seu olhar passou displicente por Harry e o garoto viu ali mais do a simples preocupação em não aborrecê-lo. Ele pretendia dizer que gostaria de ouvir sobre política sim, mas não houve tempo. O semblante de James desanuviou com a mesma rapidez que havia fechado e ele se aproximou e deu tapinhas nas costas de Peter.
– Remus tem razão – ele disse jovialmente. – Faz tempo que não nos vemos, então, vamos deixar as coisas chatas para depois. Você demorou a atender ao meu chamado dessa vez.
– Ah, bem... a sua coruja levou algum tempo a me encontrar. – Harry arregalou os olhos sem compreender, mas ninguém pareceu se lembrar de explicar e Peter continuou. – Além disso, estava caçando com alguns amigos da corte. Gente comum, mas importante e eles não apreciariam me ver aparatar logo depois de ler um recado trazido por uma coruja. – Harry lembrou o que significava aparatar (sumir em um lugar e aparecer em outro), Hermione lhe tinha explicado para justificar a rápida chegada de Dumbledore. – Mas se você tivesse me dito que tinha encontrado Harry e Lily, eu iria onde vocês estivessem.
– Me desculpe, Pete. Mas não quis correr o risco de avisar ninguém antes que Harry estivesse seguro em casa. Além disso, queríamos te fazer uma surpresa.
– E foi mesmo – o grupo seguiu os dois e voltou a se acomodar num conjunto de cadeiras que havia sido disposto ao lado das grandes janelas do salão. Pelos arcos, agora sem os vidros, entrava uma brisa agradável vinda do lago sobre o qual o castelo ficava. – Mas o que foi essa história de uma... Mérlin nos proteja, uma górgone, aqui? No castelo Potter?
James fez um sinal para que Harry se sentasse ao seu lado enquanto ele e Sirius contavam a aventura. O garoto foi chamado diversas vezes para repetir o que tinha ocorrido, sendo continuamente interrompido pelas expressões de medo dos pais pelo que podia ter ocorrido. Remus comentou o fato de que apenas alguém com acesso ao castelo poderia ter trazido a criatura e Peter se mostrou muito preocupado. Os quatro fizeram conjecturas, mas quanto mais pensavam, mais estas se tornavam complicadas. Era muito difícil desconfiar dos habitantes do castelo Potter terem lançado um feitiço que os mataria. Os visitantes? A idéia era ainda mais inverossímil. Dumbledore, Minerva McGonagall e as outras professoras de magia eram, todos eles, pessoas acima de qualquer suspeita.
Depois de um tempo conjeturando possibilidades que acabavam em becos sem saída, o assunto mudou novamente de foco.
– Peter – chamou Lily – você ainda não satisfez a minha curiosidade. Afinal, como você veio a ser Lorde Petegreew? Isso é tão incrível quanto inusitado.
Peter se inclinou para ela com uma expressão modesta.
– É verdade, minha cara. Eu mesmo ainda me surpreendo. Quem poderia dizer que o filho da pobre viúva Petegreew chegaria tão longe, não é mesmo? Acho que foi uma combinação de sorte e dedicação à bons amigos.
– Admita, Pete – interrompeu Sirius. – Você sempre foi um ótimo bajulador.
James apenas sorriu e Peter deu de ombros antes de prosseguir.
– Você é muito maldoso, Sirius.
– Ignore-o – pediu Lily, com uma careta para o outro. – Conte-me como aconteceu.
– Bem... desculpe a recordação infeliz Lily, mas acho que tudo começou exatamente quando você partiu. Nós achamos que seria bom ter informações mais precisas do que ocorria na corte, especialmente, sobre as movimentações de... bem, você sabe quem. James... – Peter hesitou novamente – não estavam em condições de viajar e nenhum de nós queria deixá-lo, mas acabamos concordando que eu poderia ser o “nosso espião” na corte.
“Infelizmente, as informações que consegui nunca foram muito precisas. O tal Lorde é uma figura bem difícil de localizar e minha amizade com James acabava alertando aos prováveis seguidores dele quanto a mim. Só permaneci na corte com a esperança de que, de alguma forma, pudesse conseguir informações sobre o paradeiro de vocês.”
– Na corte? – Lily nem tentou disfarçar que aquilo lhe parecia quase uma piada.
– Ah, minha querida, você não imagina as informações que circulam por lá. Mas, de fato, eu estava quase desistindo e voltando para casa, quando as coisas mudaram muito rapidamente de rumo. Há alguns anos, nosso rei Henrique (que Deus o tenha) descobriu uma terrível conspiração contra a Coroa.
– Com provas bastante esquisitas – questionou James, com o semblante fechado.
– Com certeza, – concordou Peter – mas também nunca se conseguiu provas em contrário que inocentassem os acusados. – Ele voltou a encarar Lily. – O fato é que o rei acreditou que a conspiração tinha um mentor. Um importante nobre saxão: o conde de Huntington.
Harry notou um movimento abrupto de sua mãe, mas ela apenas mexeu no cabelo e não interrompeu a narrativa.
– É óbvio que o conde foi julgado e executado e sua família perdeu todos os direitos que lhe eram reservados. – Peter deu um suspiro lamentoso. – Um fim bem triste para pessoas de tanta estirpe e importância. Então, o rei entregou as terras e o título do conde a um nobre de sua confiança, Sir William Fitzwalter, de quem, por acaso do destino, eu havia me tornado um grande amigo e servidor, em meu tempo na corte. Sir Willian nunca teve prevenções contra bruxos e até simpatizava com gente como os Potter, os Black, os Malfoy, os Longbotton e outras famílias da mais alta estirpe bruxa.
– Como se todos fossem farinha do mesmo saco e valorizassem essas tolices – rosnou Sirius, com mau humor.
– Não o julgue mal, Sirius. Sir William tinha muito boa vontade com os bruxos, o que, conhecendo a maioria das pessoas comuns, é bem raro.
– O que aconteceu com Sir William? – perguntou Lily, já prevendo.
– Uma infelicidade – disse Peter tristemente. – Há uns três verões, nós o perdemos. Os pulmões – explicou. – Foi um inverno terrível aquele.
– Você disse “nós”?
– Ah sim. Eu me referia à única filha de Sir William, Lady Marian, e a mim próprio. Nós éramos como se fossemos uma família. Na verdade, Marian e eu ainda somos.
Lily ergueu a sobrancelha.
– Sir Willian deixou suas terras e títulos para Peter, bem como a tutela da filha – explicou Remus. – Marian, sendo mulher e solteira, pelas leis comuns, não poderia herdar.
– Tenho Marian como minha protegida – informou Peter com algum orgulho.
– Oh! – o tom de Lily traduzia um certo reconhecimento. – E você pretende se casar com ela?
– Eu? – ele riu, parecendo levemente chocado. – Não Lily, claro que não. Marian é pouco mais que uma criança e eu a vi crescer. Tenho por ela o mesmo amor paternal que Sir Charles Potter tinha por você e Autumn. – Harry registrou rapidamente o que deduziu ser o nome de seu avô e o fato de que sua mãe e a falecida esposa de Remus deviam ter sido protegidas dele. Peter continuou. – Não, não. Mas creio que logo terei de dar atenção a isso. Fui “rondado” em minha ultima viagem à corte.
– É mesmo? – perguntou James, levemente interessado. – Por quem?
– Sir Guy de Guismore.
– Quem? – Sirius afastou o copo da frente do rosto para perguntar.
Peter situou os amigos.
– Ele veio a pouco do continente. É herdeiro de terras na Bretanha e na Normandia (1). O jovem é realmente um excelente partido e sendo Marian, como é, afilhada da própria rainha Leonor, é uma união bastante desejável.
– Você fica irritante quando fala assim, Rabicho.
Peter sorriu levemente com o apelido e Harry fez nova anotação mental: o pai e os amigos tinham alguns apelidos que eram usados apenas entre eles e o garoto sempre ficava curioso em descobrir sua origem. Remus era chamado Aluado, seu pai de Pontas e Sirius de Almofadinhas. Perguntaria assim que fosse possível. Peter estava questionando James.
– O que o incomoda, meu amigo?
– Esse seu jeito de cortesão – intrometeu-se Sirius, exibindo uma certa repugnância.
– É... quase me faz esquecer do garoto que conhecemos – juntou James.
Peter não pareceu se incomodar. Deu um sorriso nostálgico para os amigos.
– Não posso dizer a vocês que aquele garoto não tenha mudado.
– Eu sei... – o pai de Harry também parecia sentir saudade de uma outra época.
– Por que Marian não veio com você? – quis saber Lily, claramente curiosa em conhecer a jovem.
– Ah, ela está vindo, está vindo. Eu aparatei assim que pude, então o resto da minha comitiva ficou para trás. Marian vem com sua dama de companhia e meus melhores homens. É claro, também deixei meu escudeiro, especialmente, sob seu serviço. Eles devem chegar amanhã. Poderemos comemorar juntos o aniversário do Harry.
A menção ao aniversário de Harry fez com que James rapidamente mudasse de assunto. A tática não enganou nem ao garoto, nem a mãe dele, mas os sentimentos de ambos em relação a isso foram bem diferentes. Harry ardia de curiosidade e Lily de apreensão. Para o desapontamento de ambos, James convenceu Peter a entrar no que parecia ser seu assunto favorito: descrever seu castelo, suas terras e as prerrogativas de seu título de conde. Tudo em detalhes.
Harry até se esforçou, mas sua curiosidade pelas propriedades do amigo de seu pai se esgotou logo, e ficou cada vez mais difícil disfarçar sua vontade de sair correndo dali em busca dos seus amigos. Na segunda vez em que ele se movimentou impaciente na cadeira, Lily notou. Ela deu um pequeno sorriso e ficou imaginando como poderia liberá-lo. Sem planejar, seus olhos cruzaram com os de James. Ele parecia tão atento ao filho quanto ela própria e, depois de mirá-la por um longo instante, ele pigarreou alto.
– Harry... eu acho que Hermione ainda não sabe que Peter chegou. Eu só a vi rapidamente esta manhã. Ela falou algo sobre apresentar um texto de Platão para Ginny ou algo assim... Por que você não vai avisá-la que temos visita e aproveita e salva a “sua donzela” novamente.
Harry riu da sugestão, aliviado; pediu desculpas, licenças e, com uma rapidez impressionante, sumiu pela porta.
O resto do dia foi bastante agradável. Lily não podia negar que estar novamente com Sirius, Remus, James e Peter podia ser bastante divertido. Os quatro pareciam igualmente felizes não apenas em estar juntos, mas também por ela estar ali: rindo deles, censurando-os, fazendo-os rir com suas observações sem concessões. Contudo, não era a mesma coisa que no passado. Isso também ela não podia negar.
Eles haviam mudado. Todos eles. E, por vezes, era difícil passar por cima da tristeza de Remus e da ausência de Autumn, do aumentado cinismo cruel de Sirius, ou da amargura fria com que James rebatia quase todos os assuntos. Peter era, talvez, o mais parecido com o amigo que ela tivera no passado, mas também ele tinha diferenças, mesmo que compreensíveis. Tornar-se um lorde o modificara com certeza, mas ele parecia, dos quatro, ser o único que apreciara as mudanças que o tempo lhe trouxera.
Lily os acompanhou o dia inteiro. Muito, por exigência de Peter. E, quando se recolheu ao seu quarto (o mesmo que tinha ocupado logo que viera para o castelo e onde todas as coisas e roupas que tinha deixado em sua fuga tinham sido colocados), ela tinha a impressão de que há mais de uma década não ria nem sorria tanto. Na verdade, fazia mais de uma década.
Ainda assim, quando deitou a cabeça no travesseiro, sua mente estava mais ativa do que relaxada. Não conseguira descobrir o que James estava tramando para o aniversário de Harry. E conhecendo-o como ela conhecia, “tramando” era exatamente a palavra. A menção ao conde de Huntington também a tinha desestabilizado, porém Lily não achara a forma correta de tocar no assunto. Teria de saber mais sobre os dois condes que haviam precedido Peter para poder falar e, mesmo assim, ela não saberia o que exatamente poderia dizer nem a quem. Tentou jogar num canto escuro de sua mente o medo de que a traição atribuída ao primeiro conde tivesse algo a ver com ela.
Fechou os olhos buscando o sono, quase se impondo a ele, apenas para não pensar. Tentou se concentrar novamente no problema evidente do aniversário, mas isso pouco ajudou. Lily jogou os braços para fora das cobertas, num acesso de fúria e voltou a encarar as cortinas verdes do dossel da cama.
Sabia que seria assim. Soube desde o momento em que se viu novamente dentro daquelas paredes. Era tão difícil fugir das lembranças quanto da força arrasadora que a presença de James tinha sobre ela. Lily socou com raiva o travesseiro de penas macio demais. Irritava-a que a voz dele sempre chegasse nos seus ouvidos num timbre perturbador. Tinha vontade de morrer a cada maldita lembrança que saltava na sua frente quando andava por aquele lugar. Devia ter lançado um Obliviate em si mesma. Anos atrás.
A lembrança era dos arrabaldes de Godric’s Hollow. Lily estava parada em frente à casa de um único cômodo que pertencia a Eyleen Snape.
Sir Charles Potter também estava ali. Seu cavalo alto, junto com o homem corpulento, cobria um pouco o sol para quem os olhava de baixo. Por anos, Lily se perguntara por que um homem afável com Sir Charles, tão avesso às hierarquias forçadas, não desceu do cavalo naquele dia. Só muito depois ela se deu conta. Ele não pretendia dar escolha a Eyleen Snape, então marcou bem a diferença entre eles. Não que isso a fizesse deixar de encará-lo com arrogância, mas a incomodou, com certeza. Lily não lamentou nem um pouco por ela.
Atrás de Sir Charles estava uma comitiva, no mínimo, intimidadora. Seu capitão da guarda, Romulus Lupin, e o filho dele, Remus. O guarda-caça descomunal, Hagrid, e o irmão deste, John. Sirius Black, que renegara a família e agora vivia com os Potter. Peter Petegreew, o filho da viúva do ferreiro, que também tinha sido acolhido por Sir Charles em seu grupo de aprendizes. E, claro, James. Mesmo com a postura sempre presunçosa, Lily achou que, naquele dia, ele estava um pouco mais pálido, com o cavalo ladeado pelos dois Lupin.
Eyleen se postara alguns passos a frente da porta, empunhando a varinha numa atitude provocativa e ameaçadora. Lily ficou atrás e, pelo canto dos olhos, podia ver Severus parado do lado de fora, encostado à parede extrema da casa. Ele tinha uma expressão que mesclava raiva e pânico. Mas Lily sabia que Sir Charles não faria nada contra Eyleen, Severus não precisava temê-lo. Era de conhecimento geral que Lorde Potter não era um senhor de terras violento e isso a deixava mais calma. Não imaginava o que James tinha dito para o pai, mas ela não queria ser a causadora de nenhuma desgraça.
– Vamos, Eyleen – disse Sir Charles de uma maneira agradável e jovial – todos sabem que você não gosta da garota. Qual o problema em passar o fardo para mim? Eu me responsabilizo por ela.
– Ela é um fardo, sem dúvida – reclamou Eyleen, do jeito rude que a caracterizava. – Mas não posso ficar sem alguém que divida o serviço comigo, mesmo sendo uma trouxa porca como ela.
A mão de Romulus Lupin correu rápida para as costas de James e segurou-o pela roupa. Sir Charles manteve o mesmo tom apaziguador.
– Neste caso, você ficaria satisfeita se eu enviasse um ou dois elfos de minha casa, todos os dias? Tenho certeza de que eles dariam conta de todo o serviço com precisão. E também... – ele se adiantou aos lábios abertos da mulher – você não precisará mais se preocupar com fiar e tecer. Posso encarregá-los disso. Será um prazer auxiliá-la.
– Não quero suas esmolas, Sir Charles!
– Não é esmola, Eyleen – ele disse num tom quase magoado. Lily podia ver de onde o filho herdara o jeito de negociar. – É um acordo. Você tem algo que eu quero, e eu estou disposto a recompensá-la pela sua... perda.
Severus deu alguns passos na direção da mãe, mas ela falou antes que ele dissesse qualquer coisa.
– Eu não sei se a ajuda de elfos domésticos seria o bastante – Eyleen comentou, pensativa. – Digo, eles resolveriam meus problemas no futuro, mas o passado...
– O passado... – incentivou-a Sir Charles. Ele pareceu satisfeito com o rumo que ela tomou.
– Eu gastei um bocado com essa daí, o que acha? Crio a vermezinha desde os nove anos. Acha que os pais trouxas dela me deram alguma coisa? Estavam tão ansiosos em se livrar dessa daí que nem pensaram nos meus incômodos em ter de me ocupar dela.
– Bem, bem, – tornou Sir Charles – fico contente que tenhamos começado a nos entender, Eyleen.
Com certeza, Lily não precisava ver mais aquela humilhação para que seus olhos ardessem de dor, mas ela teve a idéia ruim de levantar a cabeça naquele momento. Um saco grande, de tecido, descreveu um semi círculo das mãos de Sir Charles até cair sobre os braços abertos de Eyleen. A bruxa sorriu ao sentir o peso. Puxou as cordas e olhou dentro do saco. Seu sorriso ficou ainda mais satisfeito. Severus, já ao seu lado, também conferiu o conteúdo da sacola, mas o olhar que ele dirigiu a Sir Charles e ao filho foi do mais profundo ódio. Lily sentia-se cada vez pior, mas Eyleen sempre a tratou como a uma escrava – James tinha razão quanto a isso – então, era impensável que ela a deixasse ir sem, praticamente, vendê-la.
– Quanta generosidade, Sir Charles – desdenhou Eyleen. – Se não fosse o homem rico que é, eu me sentiria logrando-o.
Sir Charles já não sorriu dessa vez, embora sua voz permanecesse afável.
– É um bom dinheiro, Eyleen. Poderá até armar seu filho cavaleiro com ele, se quiser. Sobre a moça, o dinheiro se refere apenas aos seus gastos, o valor dela eu certamente não poderia pagar.
Eyleen deu uma risada debochada.
– Homens! Quando lhes interessa são todos cheios de galanteios. Acha que me engana, Potter? Eu sei muito bem que o que veio fazer aqui – as palavras saíram destiladas para que ninguém tivesse dúvidas do que ouvia. – Veio comprar para o seu filho a prostituta que eu nego ao meu.
Foi uma seqüência de coisas. Hagrid deu um berro selvagem, o que cobriu uma série de maldições que saíram da boca de James. Os dois Lupin agora lutavam para segurar o rapaz sobre o cavalo e o impediam de sacar a espada ou a varinha. Lily escondeu o rosto com as mãos e, mais perto, pode ouvir Severus repreender a mãe baixinho, num tom atormentado. Foi preciso que Sir Charles impusesse calma com sua voz retumbante.
– CHEGA! – Depois, ele se voltou para Eyleen, o semblante cordial não estava mais lá. – Minha generosidade Eyleen não vai ao ponto de admitir que você ou qualquer outro lance sombras sobre a dignidade da minha casa, minha ou do meu filho! Eu fui claro? A moça entrará naquele castelo como minha protegida e assim permanecerá enquanto quiser. Agora escute com muita atenção o que eu vou dizer. Você sabe que eu poderia simplesmente vir até aqui e resgatar a menina do cativeiro indigno que você a mantém. Teria força e autoridade para isso. Me submeti a negociar com uma criatura como você por cortesia e civilidade. Mas se eu souber que andou espalhando boatos maldosos sobre a menina ou o meu filho, eu voltarei aqui Eyleen. E acredite, eu não serei cordial.
A bruxa inflou de ódio e apontou a varinha para o pai de James sem se importar com o fato de que todos os bruxos da comitiva devolveram a ameaça.
– Homem nenhum fala nesse tom comigo, Potter!
Sir Charles nem se deu ao trabalho de sacar a sua varinha. Ele olhou com desprezo para Eyleen e o filho. O rapaz, magro e encurvado, tremia ao lado da mãe. Tinha a própria varinha apontada diretamente para James, o qual, ainda manietado pelos Lupin, não pudera sacar a sua. Severus estava na mira de Sirius e Peter.
– Baixem isso! – ordenou Sir Charles. – Não haverá duelos aqui. James! – Com algum esforço o rapaz se soltou e levou o cavalo até o lado do pai. – Tire Lily daqui. Não há porque essa moça ser mais humilhada do que já foi.
Não foi preciso falar de novo. James fez seu cavalo contornar os Snape, sem desviar os olhos da varinha, continuamente apontada para ele, de Severus. O cavalo parou em frente à porta ocultando Lily do resto das pessoas que estavam ali. Os olhos encharcados dela mal conseguiram divisar a mão que ele estendeu.
– Venha Lily – ele pediu carinhoso. – Vou levar você daqui.
Até se mover doía, então ela nem soube como, num instante, estava na garupa dele, seus braços enlaçando a cintura do rapaz, seus olhos bem fechados para que Eyleen não a visse chorar. Sua última sensação daquela casa foi a do cavalo partindo a todo galope, para longe dali.
Lily perdeu a noção do tempo em que cavalgou agarrada a James. Ela só queria chorar. Não tanto por aquele dia, mas por todos os outros. Fazia muito que tinha parado de sentir pena de si mesma. Mas agora, tudo voltava. Os pais amedrontados com seus poderes, ainda fora de controle, entregando-a para uma bruxa como forma de se verem seguros. O descaso e o desprezo com que Eyleen a tratava desde sempre. Lily sabia que sempre detestaria a mulher que a criava desde os nove anos, mas aprendera a conviver com ela. As coisas haviam piorado quando eles chegaram a Godric’s Hallow. A amizade dela com Severus pareceu ter começado a agredir Eyleen e ela se tornou cruel a ponto de Lily passar a temer perder, também, aquele que ela tinha como a um irmão. Então, James se interessara por ela.
Ela não tinha gostado esse interesse no começo. James era um garoto mimado, acostumado a um mundo fácil que se dobrava às vontades dele. Tinha tudo o que queria e um pai que chegava a adivinhar-lhe os desejos. Além disso, as hostilidades entre ele e Severus, sempre tinham feito com que Lily tomasse o partido de seu “irmão de criação”. E James não era nenhum anjinho nessas hostilidades. Mas então... fora mais forte que ela. James chamava e ela ia. Reclamando. Mas sempre ia. Sempre queria saber o que ele queria com ela. Queria ouvir a sua voz animada. James tinha a chave de um mundo colorido e iluminado. Um mundo que se abria quando ele começava a falar e contar histórias de outros lugares e coisas que ela ardia por conhecer. Mesmo com o companheirismo de Severus, desde que sua magia se manifestara, Lily nunca mais tinha se sentido aquecida. James trouxera o calor de volta.
Finalmente, Lily sentiu o cavalo diminuir a marcha, passar ao trote e finalmente caminhar em passos lentos. Ela continuou com os olhos fechados, o rosto firmemente pressionado contra a túnica de James. Limitava-se a acompanhar os movimentos dele, inclinando quando ele se abaixava, tornando hora para a direita, hora para esquerda, até que finalmente o animal parou. O rapaz desceu pela frente do cavalo e depois ajudou Lily a apear. Tão logo os pés dela encostaram o chão, James a abraçou com força e ela se deixou aquecer sem se importar em devolver. Não se sentia capaz de retribuir qualquer coisa no momento, mas precisava dele com uma fúria que nem seria capaz de explicar.
Os tremores vieram e se foram. Depois uma nova crise de choro. Ele falou várias vezes com ela, porém Lily não conseguia ouvir, não ouviria nada enquanto todo aquele veneno e maldade estivessem nela. Num dado momento, ela sentiu seus pés deixarem o chão e percebeu que James a carregava. Não se incomodou. Ela não tinha idéia de onde estava e também não importava, não enquanto doesse tanto.
Emergir de volta foi mais fácil que submergir. Quando Lily finalmente abriu os olhos, ela estava escorada no corpo de James. Ele a havia levado para a mesma clareira em que costumava marcar os encontros com ela. Os dois estavam sentados sob um grosso carvalho que dominava parte da paisagem e Lily estava no colo do rapaz. Ela precisou se afastar um pouco dele para poder encará-lo. O mais estranho era não sentir mais nenhuma vergonha, de nada. Acabou fixando seus pensamentos apenas no rosto dele. Nunca o tinha visto tão de perto, ao menos, não estando ambos com os olhos abertos. Os olhos de James tinham o mesmo calor que ela sentia na presença dele. Eram castanhos, levemente esverdeados, e raios dourados circulavam as pupilas ansiosas. Ele lhe afastou alguns fios de cabelo que escapavam do toucado e lhe cobriam parte do rosto.
– Está melhor?
Lily assentiu devagar.
– Prometo que ela nunca mais irá magoar você novamente.
– Não preciso que me prometa nada. Você me tirou de lá... é o suficiente.
– Não, não é o suficiente. Nunca será. Agora me ouça porque eu tenho muitas promessas a te fazer. – Lily não conseguiu não sorrir para o tom que ele usou. De um jeito, solene, ele tomou as mãos dela e olhando-a com seriedade, começou. – Prometo que vou ajudar você a saber se defender com magia e que logo será uma bruxa fantástica e poderosa. Prometo que será tratada com todo o cuidado e carinho que você merece. Prometo que terá tudo o que desejar, mesmo que seja algo que eu não queira. – Seus olhos ficaram tristes, mas continuaram solenes e sinceros. – Prometo até mesmo deixar de importuná-la com o meu amor, se isso agradar você.
O sorriso dela veio lento também.
– Não deveria fazer promessas que não irá cumprir.
– Esta duvidando da minha palavra?
– Sabe que não vai parar de me importunar.
– Eu já disse que pararia... se você pedisse.
– Eu já pedi.
– Com sinceridade. – Ele falou com um meio sorriso cafajeste e Lily teve de segurar a antiga vontade de bater nele.
Depois, ela riu. Sempre a impressionava a facilidade com que James conseguia fazer com que ela reagisse. Se sentisse viva. Adorava isso.
– Bem, você terá de controlar seus arroubos – ela continuou – agora que iremos viver na mesma casa. Seu pai, com certeza, irá julgá-los impróprios.
James sorriu largo e se recostou novamente no tronco do carvalho, completamente à vontade. Nenhum dos dois parecia dar-se conta de que discutir arroubos apaixonados e impropriedades morais com Lily comodamente assentada nas pernas de James era, no mínimo, contraditório.
– Eu tenho um plano para isso.
– Ah... – ela revirou os olhos – eu devia ter imaginado. Posso saber qual é?
– Claro. Vamos ficar noivos.
– Vamos?
– Aham. Eu guardo as minhas armas em Pentecostes e nos casamos logo depois. Claro, teremos poucas semanas para organizar tudo, mas isso tapará a boca dos falatórios.
Lily estreitou os olhos.
– Não sabia que o preço da minha liberdade era me casar com você.
O rapaz não esperava por aquilo. Foi possível vê-lo perder completamente a linha dos pensamentos e o ar de troça evaporar. Tomando cuidado para não ser rude, James ergueu-a do seu colo e levantou, dando alguns passos para longe.
– Me desculpe. Eu não imaginei que fosse interpretar dessa maneira. É claro que não precisa se casar comigo. Foi apenas... Me desculpe, Lily, eu me empolguei. Você é completamente livre para fazer o que quiser da sua vida. Meu pai lhe garantirá isso.
– Certo – ela assentiu. – Posso confiar nisso, então.
– Pode. – Ele se voltou para encará-la, anormalmente sério. – Eu posso jurar se você quiser. (2)
– Não se jura em vão, James. Isso seria um passo muito sério.
– Farei o que você quiser.
– Até jurar?
– Até jurar.
– Diante de um padre.
– Se quiser, vou a Roma e juro perante o Papa.
– Hum... Tem idéia de quanto tempo levaríamos até Roma? – ela perguntou com interesse e James ergueu as sobrancelhas, aparvalhado. – Certo, certo. O Papa é um exagero. Acho que posso me contentar em casar perante o capelão do seu pai.
James não era lento, mas levou ainda alguns instantes para realizar o que ela tinha dito.
– Você...
– Eu caso com você James Potter. Mas é porque eu sou livre e porque eu quero. Fique bem entendido. E você vai jurar diante do padre que irá respeitar isso e que continuará me amando por toda a vida, porque se você quebrar esse juramento depois de ter feito eu me apaixonar por você dessa maneira, eu vou querer que sofra as penas do inferno.
O riso contido não deu a força que ela queria às palavras, nem o beijo em que ele a juntou do chão contribuiu para que a ameaça soasse mais forte. Foi um beijo diferente dos outros. Foi o primeiro que ele realmente não roubou, talvez o segundo que ela cooperava sem reservas e isso fez uma diferença enorme. Uma das mãos dele quase arrancou o pequeno toucado que lhe cobria a maior parte do cabelo, enquanto a outra parecia revoltada segurando com força o tecido do seu corpete. Talvez, o pior de tudo, tenha sido o fato de Lily não querer nem tentar pará-lo nem uma vez. Isso só contribuiu para transformar o calor em incêndio. James se afastou dela com um safanão e só voltou a falar a uma distância segura, enquanto recompunha a respiração.
– Você quer que o meu pai mande cortar as minhas mãos e me queime no mastro central da aldeia? – Lily apertou os lábios para não rir. – O que deu em você?
– Acho que admitir que o amo deve ter feito algo pelo meu discernimento. Provavelmente, o próximo caminho é me juntar à nau dos insensatos e me perder no mar, não é? (3)
James inclinou o corpo sustentando as mãos nos joelhos.
– Talvez devamos nos casar antes de eu guardar minhas armas.
Lily agora ria. De fato, com tudo colorido a sua volta, ela tinha muita vontade de rir.
– Por quê? – perguntou sonsamente.
– Porque se demorarmos, eu vou acabar morto, com certeza. – Ele ergueu os olhos para ela. – Mas principalmente, porque eu não quero mais ouvir você ameaçar me deixar.
Lily acordou com a sensação de não ter dormido. Estava com raiva da cama. Com raiva do próprio corpo dolorido, que se movimentara a noite toda. Com raiva da sua cabeça tola e de tudo o que havia dentro dela. Tomou a decisão enquanto se arrastava para fora dos lençóis, faria uma poção do sono naquela noite. Iria dormir. Sem sonhar!, alertou a si mesma. Por bem ou por mal.
Demorou mais tempo que o normal para sentir-se decente para enfrentar o mundo fora daquele quarto. A pequena elfa solícita que veio auxiliá-la fez o que pode e o que não pode para disfarçar-lhe as olheiras e colorir-lhe as faces. Pareceu mortificada em perceber que a mãe do aniversariante e homenageado do dia, mais parecia um cadáver pintado que uma mulher. Lily a dispensou com um sorriso agradecido pela ajuda, mas a elfa chegou a falar em castigar a si mesma por não poder fazer melhor. Lily precisou proibi-la e aumentar o sorriso, que sumiu assim que ela se foi.
Tentou se concentrar no que faria naquele dia e saiu do quarto empilhando mentalmente as tarefas. Isso a ajudaria a cansar e dormir na noite seguinte. A primeira tarefa era a mais impossível. Ficar longe de James. Tanto quanto pudesse. Falar pouco, ouvi-lo menos, e, decididamente, não brigar com ele. Isso! Era um ótimo começo.
A cozinha deveria precisar dela, mesmo com Molly por lá. Ela podia fingir que ajudava nas decisões. Depois, se uniria a Hermione e Ginny para decorar o grande salão. Ah, isso ocuparia tempo. As meninas precisariam de seus conselhos. Também poderia inspecionar a limpeza. Era uma coisa que desatribularia Molly. Seria muito bom ser realmente útil.
Ela seguiu pelo corredor e tomou o caminho da galeria do segundo andar, que contornava o pátio. Tratava-se de um corredor aberto, com arcadas que subiam a partir da altura da cintura como uma série de pequenas janelas. Dali, era possível contemplar tudo o que acontecia no pátio interno. Lily imaginou que poderia localizar Harry para poder ir ao seu encontro e dar-lhe um abraço de feliz aniversário. Não errou. Lá estava ele no centro do pátio, ao lado do pai. Então, a cena congelou para Lily.
Logo atrás dos dois estavam Sirius, Peter e Remus com expressões satisfeitas e acompanhado por um Ron boquiaberto. Hermione e Ginny estavam empoleiradas em um estrado de madeira que existia ali para se colocarem armas e ferramentas e tinham olhos arregalados. Todos miravam a aproximação de Little John.
Seria um absurdo descrever o animal que Little John trazia como sendo um cavalo. Sua beleza era exagerada até mesmo para um animal daquele porte. O pêlo era dourado, como se o bicho tivesse sido realmente lavado em ouro. A crina e a cauda, longas e pomposas, eram de um louro claro e acetinado e mais pereciam fios de prata. O tamanho... Céus! O tamanho era descomunal. Até Hagrid poderia montar naquele bicho sem qualquer problema. Lily se segurou contra a balaustrada registrando o significado daquilo.
Era o presente. O presente que James fizera tanto segredo para dar ao filho. É claro que ele faria segredo. O cretino simplesmente estava dando ao seu filho de catorze anos uma arma mortal. Um cavalo de fogo! O maior, o mais rápido, o mais poderoso de todas as raças de cavalos mágicos. Aquele animal podia cruzar países inteiros em apenas uma porção de um único dia. Será que James não tinha idéia do que um garoto com as disposições de Harry podia fazer com um animal como aquele? Sua primeira tarefa do dia apareceu brilhando no alto da lista.
– James Potter, eu vou matar você!
XX – XX – XX – XX
(1) A Bretanha e a Normandia são regiões atualmente pertencentes à França, porém, nesta época, eram feudos do rei da Inglaterra.
(2) O Juramento na Idade Média tinha uma força moral que mal podemos imaginar. Tinha a força do mais importante dos contratos, pois era feito perante Deus e sua quebra levava ao inferno.
(3) A Nau dos Insensatos é uma imagem que se situa entre a lenda e a história. Fala-se de um navio, que recolhia os loucos e jamais voltava a aportar, pois todos os lugares o rejeitavam.
N/B:: Ok, vamos por partes enquanto eu me recupero! ;D – Primeiro, tive que ficar enjoada... RABICHO ECA! Eca! Eca! – Me torceu o estômago vê-lo ali, tão dissimulado, tão falso, tão covarde, tão vil, tão... Eca! Eca! Eca! >( Eu sei que era inevitável a aparição deste ser ratoso, mas, foi difícil mesmo assim!!! Afff!!! – E então, o sol brilhou outra vez quando James soltou aquela de “salvar sua donzela novamente”, em um prelúdio do brilho ofuscante e aquecido no coração desta leitora, que foram as memórias da Lily. Que James é esse, Anam? Se o meu coração não tivesse dono nesta fic, ele teria balançado por este homem! Provavelmente, desfalecido! =D – CAPÍTULO TUDO DE BOM!!! – Aplausos novamente ao seu talento, minha irmã, capaz de nos levar tão longe, com tantas emoções diferentes, e tão felizes da vida com isso! =D BRAVO!!!! - *aplaudindo, saltitante* - Fico aqui, esperando ansiosa pelo próximo capítulo, que promete igualmente grandes emoções!!!!! Beijo grande neste seu coração talentoso! Até o próximo! _ BRAVO!!!!! =D
N/A: Um dia antes da data limite, rsrs
Ah, vocês nem imaginam como senti falta de atualizar semanalmente desta vez. Porém, estou me tornando uma mocinha muito responsável e disciplinada. Isso vai acarretar pelo menos duas notícias. A ruim, mas nem tanto é que vou manter uma freqüência de atualizações a cada duas semanas. Sei que é menos empolgante, mas vou precisar da semana de intervalo. E essa é a boa notícia, ao menos para mim. Nas semanas de intervalo estarei me dedicando a uma história original, a qual quero ver pronta até o início do ano que vem para começar a bater na porta de editoras. Conto então, com a compreensão de vocês e o carinho de sempre, ok? A quem interessar possa (isso parece documento oficial, rsrs), assim que a coisa tomar corpo vou contar para vocês do que se trata. Quem sabe não dá vontade, não é?
Sobre o capítulo.
Adorei escrevê-lo. Adoro escrever esses momentos anteriores da Lily e do James. Explica muito sobre eles. Especialmente sobre as fases do James. Como vocês devem ter percebido, esta fic tem muitas histórias de amor. Vou privilegiar cada uma com o carinho que ela merece e elegi J/L como a primeira. Espero que estejam gostando.
Também tivemos personagem novo (ou nem tanto). Não deixem de olhar os desenhos da Sô para ele e também para o do presentão que o Harry ganhou.
Sobre este, um comentário. Eu queria que vocês entendessem a crise materna da Lily. Imaginem – se estivéssemos nos tempos de hoje – que o James estivesse dando ao filho uma super moto de corrida. Daquelas coisas japonesas, enormes, reluzentes, super lindas e perigosas. Deu para sacar? Pois é. Ahhh o nosso lindo “cavalinho” vai aprontar muito junto com o nosso herói. Aguardem!
Eu tinha falado de uma short, né? Não tive tempo de postar, vou ver se faço isso no findi. Junto com os novos álbuns e mais algumas músicas na play list. Vai ter bastante coisa para navegar na próxima semana enquanto vcs esperam. O capítulo 12 vem entre os dias 06 e 09 de agosto, ok?
É isso. Agradecimentos e respostas (só às perguntas que eu puder responder, ok?)
Suzana Barrocas (querida!!! Vc ainda está nos “esteites”? Tava com saudade. Bom saber que vc está lendo e gostando.), Drika Granger (muito obrigada, linda!), Guida Potter, Charlotte Ravenclaw, Kika (no próximo temos a futura senhora Hood, hehe), Thayse Couto, Myrthes, Patrícia Ribeiro, Tonks & Lupin, Pedro Henrique Freitas, Guta Weasley Potter (ah lindinha, vc também é uma graça, sabia?), Bruna Perazolo (céus, já dá até para fazer uma história disso, hihi. Obrigada pelo tempo que vc acompanha o que eu escrevo.); Jéssica M. Adams, Thiago Florencio (Garoto vc fez uma leitura tão perfeitaaaaaa!! Sobre ele se concentrar na Ginny, porém, ele usou o reflexo, logo, não mudei tanto assim. Sobre a espada? Garoto esperto... rsrs. O mundo da mágica pode ser surpreendente, sabia? As idades, tem a mesma relação dos livros, ou seja Mione e Ron já tem catorze e Ginny fará treze alguns dias depois do aniversário do Harry), Luisa Lima (ah minha querida, obrigada mesmo! Valeu!), Ginny Potter, Alessandra Amorim, Belzinha (Bel, querida, eu estou baixando as músicas que vc sugeriu para ouvi-las. Desculpe não responder quando vc as mandou, mas como estive fora de casa e a volta foi tumultuada, já viu, né? No findi eu te mando um comentário detalhado de cada uma.), iagoooo, Mirella Silveira, Gina W. Potter (O nome do “bicho” é górgone, elas eram, na mitologia, três, uma das irmãs é que se chamava Medusa, mas esta o Perseu matou =D), Nath Evans, Tonks Butterfly (tô na dívida né querida? Mas realmente está difícil conseguir ler e meus comentários saem ainda mais apressados, mas apareço), Andressa, Danielle Pereira.
Beijo grande e estalado
Sally
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