Fiquei quieta durante a maior parte do jantar. A casa não tinha uma sala de jantar, então as refeições eram todas feitas em uma mesa de seis lugares na cozinha, exatamente aos moldes da classe média inglesa. Não diferente das outras vezes, Hermione e Draco sentaram-se nas pontas da mesa ovalada, enquanto Arthur remexia a comida em sua cadeirinha alta. Quanto a mim, restava sentar-me em frente a Scorpius, que se alimentava como um condenado.
Baixei os olhos para o meu prato, vendo que minha lasanha de camarão estava terminando. Eu não podia, mesmo, reclamar da comida; Scorpius sabia que o pai era alérgico a frutos do mar e ainda assim conservou meu prato predileto como cardápio. Draco teve de contentar-se com uma porção de lasanha de carne bovina que o filho havia feito em uma vasilha menor.
- Então – ele recitou, engolindo o último pedaço de seu jantar; seu prato se apresentava limpo. Ele não se dirigiu a ninguém especificamente, mas eu sentia que devia ser eu a dar uma atenção maior. – estou aprovado como cozinheiro?
- Pode inclusive arrumar um casamento – eu brinquei sem erguer meus olhos, mas mostrando pela minha voz, que eu estava sendo irônica. Minha mãe riu; riu ainda mais do que era necessário. Eu não dissera aquilo para ser engraçada ou simpática. No mínimo, educada.
- Não que eu queira – ele revidou, colocando os cotovelos na mesa e apoiando o queixo nos dedos, observando enquanto Draco e Hermione terminavam seus respectivos pratos. Eu demorei ainda mais um pouco para terminar porque, eu tinha de admitir, estava muito bom.
- Não que você consiga – eu engoli a última porção do meu jantar e disse a frase num impulso desgovernado. Minha voz saiu azeda e suja; desagradável o bastante para que aquelas palavras fossem entendidas como uma ofensa.
- Rose – minha mãe ralhou devagar, com aquela voz que usava para indicar para Arthur que ela já havia avisado sobre tal peripécia e que ficaria muito brava se ele fizesse novamente.
Draco olhou de Hermione para mim e de mim para Scorpius, sem entender o que acontecia. Ele não tinha idéia do que eu achava e do tamanho asco que eu sentia de seu filho mais velho, mas minha mãe tinha total consciência daquilo. Ela sabia que se eu havia dito tal frase, não fora apenas uma provocação de antigos colegas de escola ou de velhos amigos. Ela sabia que aquela frase vinha carregada de nojo e de todas as coisas ruins que eu vira Scorpius fazer durante a escola. Eu ergui meus olhos para ele, e ele me olhava indiferentemente, como se eu apenas tivesse comentado sobre o tempo.
- Porque você foi o cozinheiro hoje? – perguntei, mostrando toda a minha curiosidade no olhar de águia que lançava sobre ele. Minha mãe pigarreou, novamente ralhando comigo, mas eu continuei encarando o rapaz da mesma maneira. – É estranho, porque nunca imaginei que você cozinhasse... Ainda mais quando fosse o primeiro dia da minha moradia temporária aqui.
Scorpius ficou em silêncio por algum tempo e depois umedeceu os lábios, erguendo o canto da boca. Ele tinha aquela expressão maliciosa em seu rosto, aquela expressão que eu sempre vira quando ele e seus colegas de casa bancavam os valentões com os jovens Scamander. Eu não tive medo ou qualquer coisa parecida, mas senti um arrepio subir minha espinha me fazendo tremer.
- Eu gosto de cozinhar – ele começou, se erguendo da cadeira e segurando seu prato vazio nas mãos. Meu olhar acompanhou seu rosto, o que fez minha cabeça se projetar para cima, para o alto de seus 1,80cm de altura; ou talvez mais do que isso. – Você é muito desconfiada, Rose.
- Eu tenho motivos para isso, não tenho? – provoquei, me erguendo também e segurando meu prato, assim como ele fazia. Eu não pretendia brigar com ele e nada parecido com isso, mas eu não queria discutir com Scorpius estando meio metro abaixo dele. Em pé, eu podia me contar com a vantagem de ter apenas uns vinte centímetros de diferença.
- Pode até ter – ele começou, andando até a pia e em seguida virando-se para mim, com o quadril no balcão de madeira clara. – Mas eu acho que você se acha especial. Ou simplesmente quer atenção...
Ele não terminou a frase de um modo conclusivo. Pelo tom que usou na última palavra, aquela frase poderia ter continuado e, eu tinha certeza, seria levada para um ponto que não condizia com a realidade. Aquela era mais uma das coisas que eu odiava nele: a segurança em insinuar coisas inexistentes. Caminhei até a pia mantendo meu olhar nele e larguei meu prato sobre o dele.
- Escuta aqui – eu comecei, apontando o dedo na direção de Scorpius e usando de todo o meu poder maldoso; aquele que eu havia aprendido nos anos em que atuara como monitora. Tal poder não parecia mais surgir efeito sobre ele, porque os olhos de Scorpius não se apertaram como costumavam fazer. Ele apenas ergueu um dos cantos da boca, me olhando profundamente.
- Chega! – Draco gritou antes que eu pudesse acusar todas as coisas que eu odiava em Scorpius; todas aquelas coisas que em sete anos na escola eu não pude dizer por que achava que era educada demais para isso.
Eu já não me via como a menina que queria impressionar os professores e alunos com sua educação praticamente adquirida por si própria, então eu podia muito bem dizer aquelas verdades e só esperar que ele chorasse. Por um momento me senti malvada; ainda mais malvada do que eu queria parecer. Durante o momento em que eu pretendia fazer o meu discurso, eu não queria que ele apenas refletisse ou que pensasse naquilo.
Pelo contrário, eu nem ao menos pensei em tal opção. Eu queria humilhá-lo. Eu queria que o pai dele soubesse exatamente quem ele era e o que ele havia feito durante sua vida. Eu queria que ele fosse expulso dali. Eu queria me livrar dele e senti aquele peso no estômago, enquanto desejava isso. Scorpius baixou imediatamente os olhos quando o pai falou, um pleno sinal de respeito, algo que eu não esperava.
Como que para amenizar a situação grotesca, Arthur soltou uma risada alta, mostrando os dois únicos dentes que nasciam em sua gengiva inferior. Não consegui me conter ao pequeno e baixei o dedo sem olhar para Scorpius novamente. Minha mãe tinha se erguido da cadeira e agora carregava os pratos restantes na mesa para a pia. Seu rosto estava carrancudo e ela abria a boca para falar. Eu tremi; sabia que nada de muito bom poderia vir daquela expressão.
- A louça é de vocês dois – ela anunciou, voltando-se para Arthur e tirando o menino da cadeirinha alta. – Já que foram mais crianças que o irmão de vocês, o castigo é a limpeza da cozinha. – ela segurou Arthur no colo e se direcionou para a sala de estar; Draco já havia ligado no programa de investigação policial que os dois não perdiam. – E, Scorpius, não adianta vir com a desculpa de que você cozinhou... Rose, leve suas malas para o seu quarto e nós conversamos depois que eu colocar o Arthur na cama.
Depois que ela saiu da cozinha eu me voltei para Scorpius. Ele finalmente erguera os olhos e agora, olhava de mim para a pia e da pia para mim. Deixei meus ombros caírem e me voltei para a louça suja, enquanto Scorpius retirava o restante da louça que estava na mesa. Eu não podia negar que éramos um ótimo time; e isso acontecia justamente porque nós não conversamos e ignoramos a presença um do outro. Sucesso absoluto.
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N/A: eu não deveria postar hoje, mas como eu amei os comentários e eles pediam que eu não demorasse, eu resolvi postar hoje, na metade da semana. Mas não se acostumem, esse capítulo é quase uma continuação do anterior quanto a acontecimentos das coisas (não em relação a história, se deu para entender), então postei com quase nenhuma culpa. A N/A é enorme porque eu quero agradecer. Mas eu quero agradecer mesmo!
Felipe, eu simplesmente amo ler os teus comentários super construtivos que me fazem prestar atenção em coisas que eu não prestaria normalmente... E, eu já disse lá na Money Honey, mas eu tenho uma inveja boa tremenda das tuas profundas análises! Pokerwell, acho uma honra te ter por aqui porque eu acho a tua fic uma das melhores que eu leio no momento, então obrigada por acompanhar a minha e comentar sempre! *-* Carol, eu ria enquanto montava também esse estilo no meu P.O. Parece estranho no Scorpius, menino inglês, mas acho interessante...!
Só fiquei triste de ver que alguém desistiu da fic :’( Bem, chega de N/A! Beijos!