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2. Estrada


Fic: Adoráveis Férias Infernais - CONCLUÍDA


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Lily me ajudou a largar minhas últimas mochilas e a caixa com biscoitos e água no carro, logo em seguida desaparecendo ao aparatar para casa ou qualquer outro lugar para onde ela fosse. Eu não tinha me dado ao trabalho de comunicar meu pai para onde eu estava indo, mas eu sabia que até a noite, eu receberia uma coruja. Talvez minha avó resolvesse entrar em contato comigo por achar que eu estaria em grande perigo na casa do Comensal da Morte. Quem sabe ela achava que minha mãe resolvera se tatuar e entrar para uma gangue?


Apesar de eu achar totalmente ridículo quando as pessoas perdiam tempo imaginando o porquê da separação e do novo casamento da minha mãe, eu nunca havia me deixado pensar nas causas por mais tempo do que o necessário. Eu não me via como parte muito importante nesse quesito e quase sempre me isentava dessas discussões e das perguntas que as pessoas costumavam fazer. Eram sempre as mesmas: O que será que deu nela? Como você está lidando com isso? Ele fez alguma coisa malvada com você? A última era a mais engraçada; eu nunca sabia se respondia ironicamente que sim, que ele tinha sido malvado ao me oferecer alface durante o jantar. Eu detesto alface.


Estiquei meus dedos para o rádio com mp3 do meu Opala SS 1976[1] vintage vermelho que eu, carinhosamente, chamava de Josh, em homenagem ao vocalista da minha banda favorita. Como que por coincidência a música aleatória que encheu o carro fora justamente Regular John[2] do lendário álbum de 1998. Eu havia comprado aquele carro algumas semanas depois de conseguir um apartamento juntamente com Johanna. Eu não havia me mudado de casa e buscado minha independência em vão. Eu estava triste justamente por conta disso.


Eu saíra de casa assim que me formara em Hogwats; parecia ter previsto a separação dos meus pais, coisa que aconteceu alguns meses depois de eu conseguir o mais perfeito estágio no Departamento de Criaturas Mágicas do Ministério da Magia. Claro que a influência de minha mãe me ajudara, mas se eu ainda estava lá, agora contratada como pesquisadora, era visível que eu tinha mérito próprio. Eu sempre amara Hinkypunks, toda a minha pesquisa era voltada para isso e eu apenas estava esperando uma boa oportunidade para me desvencilhar de Londres e partir ao encontro de tais criaturas nos longínquos pântanos do País de Gales.


Eu não podia dizer que não era esforçada no que fazia. Johanna costumava dizer que eu não tinha uma vida, que eu vivia em função da minha carreira. Não podia discordar disso agora que revia tudo. Não havia nada mais importante para mim do que minha carreira e minhas pesquisas. Nada parecia ser suficiente para me preencher. Johanna também dizia que isso era culpa de eu nunca ter encontrado um cara com quem quisesse me envolver ou então eu saberia dosar a atenção que eu tinha na minha carreira.


Eu sempre afirmava que ela era maluca por dizer isso. A única coisa que havia estragado meu namoro de dois anos com Lucca Bones fora sua extrema falta de visão estratégica e sua despreocupação com os fatos reais da vida. Ok, eu posso ter exagerado, mas não havia outro motivo que eu considerasse tão importante para servir de motivo psicológico de eu ser do modo como era. Johanna também inventara de culpar a separação dos meus pais e o novo casamento da minha mãe. Como era possível que as pessoas se preocupassem mais com esse fato do que eu, que era a maior interessada?


Nos dias atuais, eu não via nada mais de tão errado no que minha mãe fizera. Ela agiu como eu imaginei que ela agiria, nada diferente da Hermione que o mundo conhecia. Ela apenas contava com a diferença de agora ser chamada de Hermione Malfoy. Hoje em dia eu não estranhava mais, mas quando ela se casou, três anos antes, eu chegava a franzir as sobrancelhas e me achar uma extraterrestre ao mencionar o novo sobrenome.


Eu tinha 18 anos quando tudo aconteceu. Era uma recém formada na escola, recém contratada como estagiária e recém moradora independente de um apartamento de dois quartos no Beco Diagonal. Estava me sustentando com meu salário e com pesquisas terceirizadas que fazia por fora. Meus pais estavam casados há 19 anos e moravam no mesmo sobrado de periferia bruxa, próximos às casas de meus tios Harry e Gina. Não foi novidade para mim quando os dois apareceram na sala do meu apartamento com as piores expressões faciais de todos os tempos. Eu lembro de ter largado minha bolsa no chão e de ter sentado sobre a mesa de centro na sala, olhando os dois de perto. Minha mãe chorava.


- Rose – ela começara, falando diretamente para mim. Hermione tinha as lágrimas penduradas nos cílios cobertos de rímel transparente. Naquele momento, eu me comovi mais com a expressão do rosto dela do que com a expressão de raiva contida que meu pai tinha. Apesar de ser engraçado quando Ron usava daquela expressão, eu não consegui rir; apenas fiquei quieta, olhando profundamente nos olhos escuros da minha mãe. Ela tentava fugir, mas eu não precisava olhar nos olhos dela para saber o que estava acontecendo.


- Vocês estão se separando – eu fui mais rápida, cortando toda a lamentação e a dificuldade que seria para meus pais me contar que estavam separados. Eu não tive um espasmo e não senti que aquilo era o fim do mundo. Ele já não vinham se dando bem há meses.


- É, nosso casamento não está como antes e acredito que não vamos conseguir consertá-lo – Hermione me tranqüilizou, tocando meu joelho e lutando para sorrir. Ela estava triste, mas não parecia triste por estar se separando.


- Sem esquecermos de que sua mãe já tem um namorado e pretende se casar com ele – Ron foi altamente desagradável, me forçando a virar o rosto para ele e franzir as sobrancelhas. Minha expressão mais incrédula foi posta na minha cara, juntamente com minha coluna torta de propósito. Minha típica imagem de incredulidade.


O caso era que minha mãe, antes do estouro da Guerra Bruxa, fora apaixonada e tivera um caso com um colega de escola que se envolveu  com as artes das trevas, Draco Malfoy. Justamente por conta disso, ela resolvera que o melhor era esquecer Draco casando-se com meu pai. Eu nasci um ano depois do casamento deles e desde então, minha mãe vinha cultivando tal união apenas por minha causa.


Quando eu saí de casa, ela percebeu que não precisava mais daquilo e aquela percepção se somou ao fato de Draco Malfoy ter terminado sua pena em Azkaban e imediatamente ter procurado por ela. Desde então, minha mãe casou-se com Draco Malfoy, constituiu uma família no condado de Oxford e ainda tem seu alto cargo no Ministério da Magia, agora trabalhando em casa por conta da idade do meu irmãozinho Arthur.


Eu nunca poderia ter ido contra a felicidade da minha mãe. Infelizmente, para, praticamente, toda a família Weasley e Potter eu era uma traidora, assim como Hermione. Meu pai ainda falava comigo, mas isso parecia ficar cada vez mais escasso. Quando ele soubesse que eu estava indo morar com minha mãe por aqueles dois meses, acho que o intervalo de tempo que levava o “saber se minha filha está bem” se tornaria um intervalo de séculos.


Regular John foi transformada em campainha quando meu telefone celular começou a tocar. Apesar de eu ser uma bruxa e passar vinte e quatro horas por dia dentro do mundo mágico, eu mantinha um celular. A única pessoa que me ligava era minha mãe por morar em um bairro trouxa, onde corujas enviando cartas seria suspeito, e pela minha olhada rápida no visor sensível ao toque, era ela.


- Oi mãe – cumprimentei, baixando o volume do rádio com uma das mãos enquanto equilibrava o telefone no ombro. Meu pescoço reclamou, então tentei ser o mais rápida que consegui.


- Rose – ela me cumprimentou e eu podia jurar que ela estava sorrindo.


- Ainda estou longe, mãe – eu informei, procurando qualquer placa que pudesse me dizer quantos quilômetros ainda faltavam para que eu conseguisse chegar até Oxford. – Acredito que em uma hora, eu esteja aí.


- Tudo bem – ela me tranqüilizou e eu ouvi a vozinha fina de Arthur ao fundo, seguida pela voz grossa de Draco. Pelo que eu pude captar, meu pequenino irmão de olhos iguais aos meus, tentara alcançar um bibelô de cristal da estante de livros. Fora repreendido pelo pai. – Nós ainda estamos pensando no que preparar para o jantar... Você quer escolher?


- Não precisa – eu dispensei, apenas sendo educada. Se eu fosse atrevida o suficiente para mudar o cardápio daquela casa, eu escolheria uma lasanha de camarão. Porém, eu sabia que Draco era alérgico a frutos do mar e aquela não era minha casa. – Eu como qualquer coisa, acho que vou chegar tarde o suficiente para não dar tempo de jantar.


- Bobagem – Hermione ralhou e eu percebi que ela se afastou de Draco e Arthur, porque o som da vozinha do meu irmão desapareceu, dando lugar a um ruído de música country. Era baixo, mas ainda assim alto o suficiente para escapar pelo telefone. Ninguém naquela casa gostava de música country.


- Mãe, você está ouvindo música country? – estranhei, franzindo as sobrancelhas. Minha mãe se moveu pela casa novamente e dessa vez, eu tinha certeza de que ela se trancara em seu próprio quarto, pois a música desaparecera e o clique da fechadura foi audível.


- Não – ela disse com a voz entrecortada. – É o Scorpius, ele está lavando o carro de Draco e gosta de ouvir música enquanto faz isso.


Eu arregalei os olhos quando ouvi aquele nome. Se eu fosse distraída enquanto dirigia, eu teria batido o carro e voado longe. O único detalhe que eu detestava em Draco era que ele tinha um filho. Por mais incrível que parecesse, ele havia conseguido engravidar uma das filhas da conceituada família Greengrass antes de ser preso. Astória fora quem criara o filho. Eu rugi por dentro enquanto ouvia a respiração pesada da minha mãe. Ela sabia que deveria ter mantido o segredo até eu chegar lá.


Eu odiava Scorpius Malfoy. Ele tinha tudo que eu odiava em um garoto. Era arrogante, briguento, não gostava de estudar e não pensava em seu futuro. Apenas por seu comportamento durante a escola, eu já o detestava. Eu não sabia como ele havia conseguido se formar... E agora ele estava na casa onde eu moraria? Por favor, que ele esteja apenas de passagem!


- O que ele está fazendo aí? – tentei manter minha voz controlada. Tudo o que eu menos podia fazer era arrumar uma briga com ele antes mesmo de chegar lá. Como eu queria gritar!


- É uma história longa, Rose – minha mãe ponderou rapidamente mudando de assunto. – Suas caixas já chegaram, eu as coloquei no seu quarto e nós arrumaremos tudo durante o final de semana. O que você acha?


- Perfeito, mãe – eu sorri.


Eu nunca poderia reclamar da mãe maravilhosa que Hermione era. Sempre atenciosa comigo e sempre bondosa com tudo e todos. Eu já conhecia a casa onde eu moraria e já sabia que meu quarto ficava ao lado do quarto de Scorpius. Nossos pais se preocuparam em comprar uma casa com quatro quartos quando se mudaram, justamente preocupados com o fato de os filhos pródigos retornarem a casa. Eu é que nunca imaginei que teria de voltar a usar o quarto separado para mim durante mais do que uma semana, e por tempo suficiente para deixar de ser uma visita.


Eu começara a odiar cada minuto dentro daquele carro; cada segundo naquele caminho. Por duas vezes pensei em voltar e me refugiar na casa da minha avó pedindo desculpas. Mas eu não era mais uma criança contrariada. Segui meu caminho, irritada o suficiente para desligar o rádio com um movimento só, antes que eu começasse a me irritar ainda com a música e passasse a odiá-la. E uma das coisas que eu não podia fazer era odiar a voz de Josh Homme[3].






[1] Sei que o Opala é um carro brasileiro, mas eu amo demais esse carro para não colocá-lo em uma história em que ele é quase um protagonista.


[2] Da banda americana Queens of the Stone Age


[3] Vocalista da banda americana Queens of the Stone Age

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Comentários: 1

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Enviado por Camila Rosa em 29/08/2011

Amei o carro, bem bonito.

E imaginei a cena perfeitamente, com ela no carro escutando a música.

E falando no celular.

Ai ai essas férias serão interessantes.

Beijos

Nota: 5

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