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5. Adagas e espadas


Fic: A noiva


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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CAPÍTULO CINCO

Harry Potter estava de bom humor. Manteve o sorriso e o passo lento até que, por fim, sua esposa o alcançou. Teve vontade de rir, pois era evidente que esta noiva ingênua tinha tentado provocá-lo para fazê-lo zangar-se, atrasando-se em segui-lo. Mas Gina ignorava que ele era um homem paciente, em especial quando se tratava de algo tão insignificante como uma mulher. Era engraçado que uma simples mulher se atrevesse a desafiá-lo.
Assim que a ouviu aproximar-se, apertou o passo até que os dois cavalos partiram ao trote. Gina o seguia, tratando de não dar importância ao pó que voava para seu rosto. Estava decidida a manter esse passo diabólico sem exalar um protesto. Também esperava que o marido olhasse por cima do ombro e visse como ela estava bem. Quando ele a olhasse, ela iria devolver com sua expressão mais serena, embora lhe custasse a vida.
Harry Potter não se voltou.
Apesar de Gina ser uma destra amazona, não estava habituada aos arreios novos e à sela rígida. Sentia-se mais cômoda montando sem ela.
O traseiro e as coxas da moça recebiam constantes sacudidas. A rota para o norte, rochosa e mal cuidada, fazia que as sacudidas fossem mais dolorosas ainda. O caminho estava atravessado por arbustos e havia que afastar os ramos baixos ao mesmo tempo em que controlava a sua cavalgadura. Quando se convenceu de que Harry nem sequer lembrava que ela ia atrás, permitiu-se fazer uma careta, e logo começou a regatear com o Criador, prometendo ordenar vinte missas diárias seguidas e não se perder em fantasias se permitsse que seu marido endiabrado diminuísse um pouco a marcha.
Deus não estava de humor para regateio. Essa foi a conclusão de Gina ao ver que alcançavam Rony e Hermione. Imediatamente, Harry tomou a dianteira sem cortar o passo nenhuma vez. Gina se manteve atrás de seu marido. Hermione, com aspecto tão fatigado quanto uma bota velha, seguia atrás, e Rony ia à retaguarda.
Gina sabia que iam a marcha forçada por motivos de segurança. Tinha ouvido histórias sobre bandos de criminosos que atacavam vítimas despreparadas. Supôs que um dos guerreiros protegia as mulheres de um possível ataque frontal, enquanto que o outro cobria a retaguarda pelo mesmo motivo. Se os bandidos tentassem separar os quatro, teriam que passar sobre Harry ou Rony para apoderar-se das noivas.
Oh, sim, compreendia bem as razões, mas estava demasiado preocupada com Hermione!
Tinham cavalgado quase duas horas até que por fim a irmã não agüentou mais. Gina estava muito orgulhosa de que Hermione tivesse suportado tanto tempo sem queixar-se. Hermione não tinha disposição para agüentar desconfortos de nenhuma classe.
—Queria parar por uns minutos — disse Hermione.
— Não, garota — exclamou Rony.
Gina não podia acreditar que tivesse uma atitude tão dura. Girou e viu que o marido de Hermione enfatizava a negativa mo vendo a cabeça.
O semblante dolorido de Hermione deixou Gina intranqüila. Estava quase gritando com o marido para que se detivessem para um breve descanso quando ouviu uma exclamação aguda.
Quando se voltou outra vez, viu o cavalo de Hermione atrás de si, mas ela não estava.
Todos se detiveram, até Harry Potter.
Rony se aproximou da noiva enquanto Gina e Harry desmontavam. A pobre Hermione tinha caído de costas em meio de um arbusto denso. Enquanto Gina apeava, Rony fez Hermione levantar-se com suavidade.
— Está machucada, moça? —perguntou com voz preocupada.
Hermione afastou o cabelo dos olhos e respondeu:
—Só um pouquinho, milorde.
Várias folhas estavam grudadas ao cabelo de Hermione e Rony se dedicou a tirá-las. Gina observou o modo terno com que a tratava e pensou que, afinal, ele tinha certas qualidades que o redimiam.
— O que aconteceu, afinal? —perguntou Harry, às costas de Gina.
Gina saltou ao ouvi-lo e logo se voltou e o encarou.
— Hermione caiu do cavalo.
— Caiu do cavalo?— Harry parecia incrédulo.
— É inglesa, Harry, lembra? — exclamou Rony.
— E o que isso tem a ver? — perguntou Gina. Olhou de um a outro guerreiro e viu que eles tentavam esconder os sorrisos.
—Poderia ter quebrado o pescoço — murmurou Gina.
—Mas não quebrou — respondeu Harry.
—Mas poderia ter quebrado — insistiu Gina, furiosa pela atitude fria do homem.
—Já está tudo bem — afirmou Rony, atraindo a atenção de Gina—. Não é, Hermione?
—Estou bem — disse Hermione, ruborizando-se por ser o centro das atenções.
— Não está bem — teimou Gina, voltando-se para Harry. Este se aproximou de uma maneira indecente enquanto a garota não o notava, e Gina quase se chocou com ele. Recuou um passo e teve que jogar a cabeça para trás para poder olhá-lo nos olhos.
—Hermione está cansada porque... —interrompeu-se ao ver uma faísca dourada nos escuros olhos verdes. Eram subjugantes, assim Gina baixou o olhar ao peito de Harry para poder dominar seus pensamentos.
—Por que...? —insistiu Harry.
—Hermione está muito exausta para prosseguir, milorde. Precisa descansar. Não está acostumada a cavalgar distâncias tão grandes.
— E você, inglesa? Está acostumada? Gina deu de ombros.
— Neste momento não estamos falando de mim. Hermione é mais importante. Sem dúvida, pode ver como ela está fatigada. Uns minutos não o prejudicarão.
Ergueu o olhar, viu a expressão de Harry e se perguntou o que havia dito para provocar uma expressão tão feroz.
— Hermione é uma dama delicada — explicou Gina, dirigindo-se ao peito de Harry.
— E você não?
— Sim, é obvio que sim —gaguejou Gina. O homem distorcia suas palavras—. É muito pouco cortês de sua parte sugerir o contrário.
Levantou o olhar outra vez e topou com o sorriso de Harry.
De repente compreendeu que não tentava ofendê-la. E dirigia a ela um sorriso tão terno e sincero que Gina sentiu como se tivesse o estômago cheio de borboletas. Transbordou de alegria.
Não soube como reagir.
— Esposa, sempre é tão séria?
A pergunta soou como uma carícia e teve o mesmo efeito de uma carícia em seu coração.
Deus era testemunha que Gina reagia de maneira estranha diante daquele bárbaro. Chegou à conclusão de que estava tão fatigada quanto Hermione. Sem dúvida era por isso pelo que Harry Potter começava a atraí-la. Uma mecha de cabelo caíra sobre a testa, dando-lhe a aparência de um menino. Isso era lamentável, pois Gina sempre tivera inclinação pelos despreocupados e loquazes.
Sem medir as conseqüências, Gina estendeu a mão e colocou a mecha de volta em seu lugar. Não queria que Harry parecesse um garoto. Queria que continuasse tendo um aspecto aterrador. Assim, seu coração deixaria de palpitar nos ouvidos e poderia recuperar o fôlego.
Harry não se moveu quando o tocou, mas gostou da sensação da mão de Gina sobre a testa. O gesto terno o surpreendeu: queria que o tocasse outra vez.
— O que foi? —perguntou com tom suave.
— Seu cabelo está muito comprido — respondeu Gina, sem atrever-se a dizer a verdade.
— Não.
—Tem que cortálo— Não posso confiar num homem com o cabelo quase tão comprido quanto o meu — murmurou.
— O que?
— Não posso confiar em um homem que tem o cabelo quase tão comprido quanto o meu — repetiu.
Até para ela a explicação pareceu absurda. Ruborizou-se e franziu o cenho para dissimular sua confusão.
— Perguntei se é sempre tão séria — lembrou Harry, sorridente.
— Perguntou?
Que o Céu a amparasse; não podia concentrar-se na conversa! Claro que era culpa de Harry, pois com esse sorriso todo pensamento se apagava.
—Sim.
Harry dissimulou a diversão que sentia, pois imaginou que a noiva pensaria que estava rindo dela. Por alguma razão que não alcançava a entender, não queria ferir os ternos sentimentos de Gina. “É uma reação estranha”, pensou, “pois nunca me importaram muito os sentimentos das mulheres”.
Certamente que nesse momento lhe importavam, embora se desculpasse recordando que, afinal das contas, era inglesa e devia ser mais afetada que uma forte moça das Terras Altas.
Gina retorcia as mãos e Harry pensou que não se dava conta daquele gesto tão significativo. Era um sinal de temor, se bem que Gina contradizia aquela fraqueza olhando-o com valentia aos olhos. As maçãs altas do rosto estavam vermelhas de rubor. Harry sabia que devia estar tão esgotada como sua irmã. Nenhuma mulher tinha tantas energias. O passo que Harry tinha estabelecido era rigoroso, mas necessário, pois enquanto estivessem em território inglês, corriam perigo. Entretanto, sua flamejante noiva não se queixou nem implorou que parassem, e isso o agradava sobremaneira. Bill, o segundo comandante de Harry, diria que a moça tinha garra. Vindo de um escocês, era um elogio importante para uma mulher, e Gina acabava de ganhá-lo pelo mero feito de enfrentar Harry.
Este chegou à conclusão de que Bill riria dele se pudesse vê-lo nesse momento. Ao notar que estava portando-se como um simplório, desfez o sorriso. Até então, nunca tinha passado tanto tempo falando com uma mulher. E agora olhava para sua esposa como se jamais tivesse visto uma bela mulher. Diabos, até reagia fisicamente, podia sentir uma ereção!
Era hora de afastá-la de seus pensamentos.
— Você está retorcendo as mãos —murmurou, enquanto estendia a mão para detê-la. Nesse momento não sorria, porém Gina preferiu não chamar sua a atenção.
—Pensava que era seu pescoço — disse Gina, reagindo ante a súbita mudança de expressão do homem —. Sim, milorde, sou séria quase o tempo todo— apressou-se a dizer, esperando faze-lo esquecer o insulto—. Quando me afasto da Inglaterra, fico muito séria. Estou abandonando minha terra natal.
—Pela mesma razão, eu sorrio — disse Harry.
Nesse instante não sorria, mas Gina preferiu não faze-lo perceber.
— Está feliz por retornar à pátria?
—Porque retornamos à pátria. — Outra vez, a voz ressoava com tons de aço.
—A Inglaterra é minha pátria.
—Era — corrigiu-a, decidido a tirá-la do engano—. Agora, a Escócia é sua pátria.
—Quer que eu dedique minha lealdade a Escócia?
—Se eu quero, você pergunta? — disse, rindo—. Eu não quero, esposa. Ordeno. Será leal à Escócia e a mim.
Gina começou a retorcer as mãos outra vez. Além disso, ao fazer a pergunta tinha erguido a voz, mas Harry decidiu não zangar-se por essa atitude. Sabia que precisava de tempo para refletir sobre a questão. Como era um homem paciente, resolveu dar-lhe uma ou duas horas para concordar com ele.
Pensou que se mostrava muito considerado, e que não devia permitir que esse comportamento se convertesse em um hábito.
— Vejamos se eu entendo — começou Gina —. Realmente acha que eu...?
— É muito simples, esposa. Se for leal a Escócia, é leal a mim. Quando você estiver acostumada, entenderá que é o correto.
— Quando eu estiver que? — A voz de Gina era suspeitamente macia.
— Quando você estiver acostumada — repetiu Harry.
A garganta de Gina doía pela ânsia de gritar com este indivíduo arrogante. Então, lembrou-se da sugestão de Beak de não instigar o aborrecimento do senhor até saber que tipo de reação provocaria.
“Melhor, serei cautelosa”, disse para si mesma. Todos sabiam que os escoceses distribuíam chicotadas antes de pensar no efeito. Todos eles surravam as esposas sempre que queriam.
— Potter, as ovelhas se acostumam.Não é a mesma coisa.
— É, sim — ele a contradisse com um sorriso preguiçoso.
—Não, não é — retorquiu Gina—. Terá que aceitar minha palavra a respeito.
—Inglesa, por acaso está me provocando?
O tom era duro o bastante para amedrontá-la, mas Harry estava resolvido a fazê-la entender qual era seu lugar.
Esperava que Gina se encolhesse... e pedisse perdão.
—Sim, estou provocando-o — afirmou Gina com um vigoroso gesto de assentimento, ao ver que Harry adotava uma expressão incrédula.
Deus era testemunha de que nesse momento Harry não sabia o que fazer com Gina! A voz e a postura da jovem exsudavam autoridade e já não retorcia as mãos, mas sim as mantinha dos lados do corpo, com os punhos cerrados. Harry soube que na verdade não poderia permitir semelhante insolência: uma esposa sempre devia concordar com o marido. Era óbvio que Gina também não tinha ouvido falar deste mandato sagrado. Se até se atrevia a enfrentá-lo como se fossem iguais...!
Essa idéia lhe provocou risada; sem dúvida, a mulher era louca, mas tinha garra.
—Estive muito tempo na Inglaterra, esposa — afirmou —. Do contrário, não toleraria seus bate-bocas.
— Quando vai deixar de me chamar “esposa”? Tenho nome. Não pode me chamar de Ginevra?
— É um nome de planta.
A jovem sentiu desejos de estrangulá-lo.
— É meu nome.
— Acharemos outro.
— Não.
— Atreve-se a discutir comigo outra vez?
A moça desejou ser tão grande como Harry, pois assim não se atreveria a rir dela. Gina inspirou profundamente.
— Diz que meus argumentos são intoleráveis e, no entanto, uma vez que eu esteja acostumada — como afirmou disse com tanta grosseria — se liberará da confusão e verá que o que afirmo é correto.
— Duvido muito, pois não tenho idéia de a que você se refere — retrucou o homem.
— Agora me ofende.
— Sério?
— Sim.
Harry deu de ombros.
— É meu direito, esposa.
Gina começou a rezar, pedindo paciência.
—Entendo — murmurou com voz rouca—. Nesse caso, devo supor que eu também tenho direito a insultá-lo.
—Não é assim.
Gina se rendeu. Esse indivíduo era tão teimoso quanto ela mesma.
— Já cruzamos a fronteira?
Harry negou com a cabeça.
— Estamos muito perto.
— E por que sorri?
— Por antecipação.
Harry começou a lhe voltar as costas, mas Gina o deteve com outra pergunta.
— Realmente, odeia a Inglaterra, não? —disse, sem poder ocultar o assombro.
A mera idéia de que alguém odiasse sua pátria estava além de sua compreensão. Todos amavam a Inglaterra, até os escoceses que se lançavam troncos uns aos outros. A Inglaterra era a Roma dos tempos modernos...! A grande importância de sua pátria era indiscutível.
— Odeio a Inglaterra quase sempre, mas há exceções.
— Ah, é?
Harry fez um lento gesto afirmativo.
— Bom, quando não detesta a Inglaterra, pois?
— Quando a ataco.
— Realmente admite semelhante pecado? —perguntou, atônita.
O sorriso de Harry se alargou. O rubor de Gina fez-se tão intenso que parecia arder: essa sua esposa exibia uma honestidade refrescante em cada uma de suas reações. Num homem, seria um traço fatal, pois daria aviso aos outros do que esse sujeito pensava, mas era encantador em uma mulher. Em especial, em sua mulher.
— Então?
O homem soltou um prolongado suspiro. Lamentável, pelo visto a esposa de Harry carecia por completo de senso de humor. Não sabia quando estava brincando.
— Suba ao cavalo. O sol já está baixando —. Poderá descansar quando estivermos em lugar seguro.
— Em lugar seguro?
— Na Escócia.
Gina quis lhe perguntar se pensava que a segurança e Escócia eram sinônimos, mas resolveu não fazê-lo. Imaginou que a resposta de Harry a irritaria.
Gina já tinha aprendido duas coisas desagradáveis a respeito do marido. Uma: não gostava que o questionassem nem que o contradissessem. Gina sabia que isso representaria um problema, pois estava resolvida a questioná-lo e a contradizê-lo sempre que quisesse. Não lhe importava se gostava ou não. Dois: quando a olhava carrancudo, não a agradava absolutamente. Esse segundo defeito era quase tão inquietante como o primeiro. O humor de Harry mudava como o vento. As afirmações mais inocentes o faziam ficar carrancudo.
— Gina, não me fará subir outra vez nesse maldito cavalo — disse Hermione, puxando o braço de sua irmã para que lhe desse atenção.
Harry a ouviu, mas fez de conta que não. Voltou-se e caminhou até seu próprio cavalo. Gina o observou, pensando que a tinha deixado de lado como se não fosse mais que uma vulgar poeira.
— Este homem sim que é grosseiro — murmurou.
— Gina, está me escutando? — disse Hermione —. Terá que insistir para que descansemos o resto da noite.
Gina se compadeceu de sua irmã. O rosto de Hermione estava sujo de terra: parecia tão esgotada como a própria Gina se sentia. Esta tinha muito mais energia que sua irmã, mas tinha estado em pé quase toda a noite, assistindo o filho doente de um dos criados.
Não se animou a oferecer sua simpatia a Hermione, pois sabia que nesse momento necessitava uma mão firme. Se Gina demonstrava um mínimo de compaixão, Hermione começaria a chorar, e essa perspectiva era arrepiante. Quando Hermione começava, era pior do que as gêmeas.
— O que aconteceu com seu orgulho? —perguntou-lhe Gina—. Não é próprio de uma dama usar uma palavra como “maldito”. Só os servos empregam palavras tão grosseiras, Hermione.
A bravata desapareceu do semblante de Hermione.
— Como pode me passar um sermão neste momento, pelo amor de Deus? —gemeu—. Quero voltar para casa. Sinto falta do papai.
— Chega! —ordenou Gina em um tom muito mais áspero. Deu um tapinha no ombro da irmã para suavizar a repreensão e murmurou:
—O mal está feito. Estamos casadas com os escoceses e não há nada a fazer. Não se zangue, pois nos envergonharás a ambas. Além disso, falta pouco para chegar às Terras Altas — exagerou —. Harry me prometeu que pararíamos para passar a noite assim que cruzássemos a fronteira. Pode agüentar uns minutos mais, irmã, para demonstrar ao seu marido que é uma mulher valente.
Hermione assentiu.
— E se ele for muito lento para reparar nisso?
— Nesse caso, terei muito prazer em fazê-lo notar — prometeu Gina.
— Gina, alguma vez em sua vida imaginou que estaria em semelhante situação? Estamos casadas com escoceses!
— Não, Hermione, nunca me ocorreu.
— Deus deve estar muito zangado conosco.
— Deus não — esclareceu Gina—. Nosso rei.
O penoso suspiro de Hermione a seguiu enquanto caminhava até seu cavalo. Gina a observou até que chegou junto a Rony. O lorde escocês sorria e Gina supôs que o divertia ver sua esposa caminhando como uma anciã, com os joelhos trêmulos.
Gina sacudiu a cabeça pensando no estado lamentável de sua irmã, até que compreendeu que ela estava igual. As pernas tremiam como folhas secas. Jogou a culpa nessa absurda sela que teve que aceitar para que Harry pensasse que era uma dama.
Teve que fazer três tentativas para montar em Fogo Selvagem. Havia deixado a égua nervosa. O animal começou a corcovear e Gina teve que empregar bastante tempo para acalmá-la.
Sem dúvida, Fogo Selvagem gostava tanto da sela quanto Gina.
Rony tinha ajudado Hermione a montar, mas Harry não mostrou o mesmo cavalheirismo e nem sequer a olhou. Perguntou-se o que era que incitava a atenção do marido, pois viu que observava com atenção a área de onde vinham.

Gina resolveu lhe fazer tão pouco caso como que Harry fazia a ela, e se voltou para brindar uma palavra de ânimo a sua irmã.
Não ouviu quando Harry se aproximava. De repente, estava junto dela. Antes que Gina pudesse reagir, havia descido do cavalo. Depois, arrastou-a até um penhasco irregular próximo ao arbusto sobre o que tinha caído Hermione. Harry empurrou Gina contra a rocha com uma mão, bateu no flanco de Fogo Selvagem com a outra e deu as costas à mulher para logo se aproximar de Rony.
O resto da pergunta de Gina ficou esquecido quando Hermione foi empurrada para junto dela. Rony se situou em frente a elas. Suas costas largas mantinham as duas moças apertadas contra a rocha detrás dele.
Quando Gina viu que Rony tirava a espada, compreendeu o que acontecia. Aspirou profundamente observando que Rony olhava Harry e erguia três dedos.
Harry moveu a cabeça e ergueu quatro dedos.
Hermione ainda não compreendia o perigo. Ao ver que ia protestar, Gina cobriu sua boca com a mão.
Harry voltou para centro da pequena clareira. Gina afastou o cabelo do rosto de Hermione para que pudesse vê-la bem.
Ainda não tinha sacado uma arma, e logo Gina reparou que não a tinha. Bom Deus! Estava quase indefeso!
Gina se sentiu desesperada por temor à segurança de Harry. E do temor chegou a fúria. Que tipo de guerreiro viajava através de um território selvagem sem uma arma?
“Um muito distraído”, concluiu Gina franzindo a testa. Talvez tivesse perdido a espada em algum ponto do trajeto para Londres e não se incomodou em substitui-la.
É obvio, teria que intervir. Harry Potter era seu marido, e ninguém o machucaria enquanto Gina tivesse fôlego. Negou-se a reconhecer que não queria vê-lo ferido e disse a si mesma que não queria ficar viúva no dia do casamento... e isso era tudo.
Gina tirou uma pequena adaga que levava na cintura com a esperança de ter tempo de alcançar Harry. Se empregada com habilidade, a adaga podia provocar feridas graves. Recordou que também contavam com a espada de Rony. Rogou que o amigo de Harry soubesse como brandir a espada, e estava a ponto de lhe pedir que ajudasse seu marido quando de repente Harry se voltou.
Aproximava-se de Rony. Ao lhe ver o semblante, Gina começou a tremer. A expressão furiosa desses gélidos olhos escuros a aterrou. Percebia a força brutal dos braços e as coxas fortes do marido. Também percebeu a cólera, que a inundou como uma onda quente. De Harry irradiava um poder que parecia formar uma espessa névoa em torno dele.
Embora Gina nunca tinha visto uma aparência semelhante, reconheceu-a. Estava disposto a matar.
Hermione começou a chorar.
—É um javali selvagem, não é, Gina?
—Não, Hermione —murmurou Gina. Sem afastar a vista de seu marido, apertou o braço da irmã—. Tudo ficará bem. Nossos maridos nos manterão a salvo, você vai ver.
Gina quase acreditou em sua própria afirmação, até que viu os bandidos que se aproximavam lentamente de Harry. Então pensou que nem tudo poderia sair bem.
Harry se havia afastado bastante deles e Gina pensou que tratava de atrair aos bandidos para o mais longe possível das mulheres.
Os assaltantes o seguiram com lentidão. Iam como se não tivessem pressa em matar. Harry era muito mais corpulento que os inimigos, mas estava desarmado. As circunstâncias não o favoreciam. Dois dos quatro bandidos levavam paus escuros. Os outros dois, brandiam alfanjes curvos no ar provocando sons sibilantes. Nas lâminas se via manchas de sangue seco, sinal de que os anteriores ataques tinham tido êxito.
Gina acreditou que ia desmaiar. Esses sujeitos possuiam aparências terríveis. Ao parecer, desfrutavam dessa espécie de jogo; de fato, dois deles sorriam. Os poucos dentes que restavam eram tão negros quanto os garrotes.
—Rony, por favor, vá ajudar Harry —ordenou Gina com voz debilitada pelo temor.
—São só quatro, moça. Tudo terminará em um minuto.
Essa resposta a enfureceu. Sabia que Rony estava com elas para protege-las, mas mesmo assim não lhe parecia uma atitude nobre, pois quem estava a ponto de ser massacrado era seu amigo.
Gina passou a mão sobre o ombro de Hermione e empurrou as costas de Rony.
—Harry não tem uma arma para defender-se. Dê-lhe minha adaga ou sua espada, Rony.
—Harry não precisa de uma arma —disse, em um tom tão alegre que Gina acreditou que havia enlouquecido.
Desistiu de continuar discutindo com ele.
—Ou você vai ajuda-lo, ou vou eu.
—De acordo, garota, se insistir... — Rony afastou as mãos de Hermione de sua própria vestimenta e se encaminhou para os homens que rodeavam Harry.
Mas ao chegar ao extremo da clareira, deteve-se. Gina não pôde acreditar o que viu. Com toda calma, Rony voltou a guardar a espada na bainha, cruzou os braços sobre o peito... e sorriu para Harry!
Harry lhe devolveu o sorriso.
—Casadas com atrasados mentais! —disse Gina a Hermione. Compreendeu que estava mais assustada que aborrecida, pois sua voz tremeu em meio à quietude.
De súbito, um profundo bramido atraiu a atenção da jovem: era Harry o que lançava seu grito de guerra. Esse som arrepiante fez Hermione gritar, apavorada.
O círculo se fechou em torno de Harry. O guerreiro esperou que o primeiro dos atacantes estivesse à distância justa, e se moveu com tal velocidade que, aos olhos de Gina, ele se converteu num borrão. Viu-o agarrar o sujeito pelo pescoço e pela mandíbula, e ouviu o horrendo som de ossos que se quebravam quando Harry torceu o pescoço do inimigo até deixá-lo numa posição antinatural.
No preciso momento em que outros dois bandidos o atacavam gritando da esquerda, Harry jogou no primeiro para o chão. Fez chocar as cabeças dos dois atacantes, e os jogou onde o outro homem jazia imóvel.
O último dos quatro inimigos tratou de tomar vantagem, atacando por trás. Harry deu uma volta, grudou a bota na virilha do sujeito em um movimento que pareceu não lhe custar o menor esforço, e por fim o ergueu do chão com um poderoso golpe de punho sob a mandíbula.
O montão sobre o solo adquiriu as proporções de uma pirâmide. A jactância de Rony ao dizer que logo tudo terminaria demonstrou ser correta, pois tudo havia acontecido em menos de um minuto.
Harry não parecia estar sequer sem fôlego. Gina acabava de digerir essa idéia assombrosa quando outro ruído captou sua atenção. Girou no mesmo momento em que três homens corpulentos chegavam correndo em sua direção, saindo de entre os arbustos do lado oposto do penhasco.
Deslizaram-se como serpentes através da vegetação para alcançar à presa.
— Hermione! —gritou Gina.
— Você tem que me proteger! —gritou Hermione.
Antes que Gina pudesse responder, a irmã a afastou da rocha, apertou-se contra o penhasco e logo se colocou atrás de Gina. Embora Hermione fosse quase uma cabeça mais alta que a irmã caçula, encurvou os ombros em um oco do penhasco, esmagou o rosto entre as omoplatas de Gina e ficou a salvo do ataque. O penhasco protegia suas costas, e a irmã, a frente.
Gina não tentou cobrir-se a si mesma. Sabia qual era seu dever. Hermione era prioridade e, se necessário, daria a vida para salvá-la.
Quando os três homens já estavam quase sobre elas, Gina lembrou da pequena adaga que tinha na mão. Apontou e lançou a arma sobre o maior dos três sujeitos. Acertou; o bandido guinchou e caiu.
Rony se ocupou do segundo dos três homens, e jogou o vilão ao chão com um forte golpe na cintura. Harry tinha que cobrir uma distância maior. Quando alcançou a presa, já era muito tarde. Apesar de Gina lutar como uma gata selvagem, o canalha a apanhou em um abraço fatal e apoiou a faca sobre seu coração.
—Fique onde está! —gritou o bandido a Harry em um tom muito agudo—. Agora não tenho nada a perder. Se você se aproximar, eu a mato. Posso quebrar o lindo pescoço da garota com toda facilidade.
Rony tinha concluído a briga e se aproximava lentamente por trás, mas Harry lhe indicou que se detivesse quando o vilão olhou assustado por cima do ombro. Ante a nova ameaça, agarrou com mais força os cabelos de Gina, enroscou-os ao redor da mão e jogou a cabeça dela para trás.
Harry viu a expressão selvagem e encurralada nos olhos turvos do sujeito. Era evidente que o canalha estava apavorado, pois viu que suas mãos tremiam. Era de estatura média, de face marcada e ventre volumoso. Harry soube que o mataria com rapidez quando soltasse Gina e esta já não corresse mais perigo. Mas nesse momento o homem era presa do pânico e isso o fazia tão imprevisível como um rato encurralado. Se o provocava... ou se acreditasse não ter esperanças, o inimigo poderia matar Gina.
É obvio que não tinha esperanças! Ia morrer. No momento em que tocou Gina, o destino do bandido havia sido selado.
Harry conteve a fúria aguardando uma oportunidade. Compôs uma atitude despreocupada, cruzou os braços sobre o peito e se fingiu aborrecido.
—Estou avisando —gritou o sujeito—. E faça a outra mulher se calar! Com esses gritos, não posso pensar.
Imediatamente, Rony se aproximou de Hermione. Tampou-lhe a boca com a mão para obrigá-la a ficar em silêncio, sem lhe dirigir nenhum olhar de simpatia. Concentrou-se por inteiro no homem que segurava Gina, esperando também uma ocasião para atacar.
Pouco a pouco, o medo se dissipou do olhar do inimigo, que lançou um risinho torto, imaginando que a vitória estava de seu lado. Então, Harry soube que o tinha apanhado. O rato se preparava para escapulir da ratoeira. Estava contente, e essa falsa confiança seria sua perdição.
— Ela é sua mulher? —vociferou para Harry.
— Sim.
— Você a ama?
Harry encolheu os ombros.
— Sim, a ama! —exclamou o inimigo, rindo alegremente, com um retinindo que arrepiava os nervos—. Não quer que mate seu tesouro, quer? — Puxou o cabelo de Gina para obrigá-la a fazer uma careta e demonstrar assim seu próprio poder e como a moça estava indefesa, mas ao observar a megera que tinha capturado, compreendeu que tinha fracassado.
A cativa o olhava com expressão hostil. O bandido sabia que estava dolorida, mas se negava a gritar.
Harry evitou olhar sua esposa, pois compreendeu que se percebesse o temor nos olhos de Gina, perderia a concentração. Se o fazia, não poderia controlar a ira. Mas quando o delinqüente retorceu com tanta força o cabelo de Gina, Harry a olhou de maneira instintiva.
Não parecia assustada, mas sim furiosa. Harry ficou tão surpreso pela coragem da esposa que esteve a ponto de sorrir.
— Traga-me um desses magníficos cavalos — ordenou o vilão —. Quando me sentir a salvo e estiver certo de que não irá atrás de mim, soltarei sua dama.
Harry moveu a cabeça.
— Não.
— O que disse?
— Disse que não —respondeu Harry, com voz tão serena como uma brisa suave—. Pode ficar com a garota, mas não com o cavalo.
Gina lançou uma exclamação abafada.
— Cale a boca, cadela! —murmurou o inimigo. Apertou a lâmina da faca sobre a garganta sem deixar de olhar para Harry—. Quero as duas coisas, maldito seja sua pele! Harry voltou a negar com a cabeça.
—Se quiser, leve a mulher, mas o cavalo não.
— Já disse que quero os dois! —A voz do sujeito soava como o piar de um pássaro apanhado.
—Não.
—Dê-lhe as duas coisas, Harry —interveio Rony—. Pode substituir os dois com toda facilidade.
Gina não pôde acreditar no que ouvia e sentiu ânsias de chorar.
— Harry? —murmurou em tom Angustiado—. Não pode estar falando sério!
— Já disse que feche a boca! —repetiu o vilão, dando outro puxão cruel para enfatizar a ordem.
Em vingança, Gina pisou o pé do homem com toda força.
—Rony, traga o cavalo de Gina —ordenou Harry —. Já.
—Que a outra mulher vá buscá-lo —gritou o bandido.
Rony não lhe deu atenção e se aproximou de Fogo Selvagem.
Gina não podia acreditar no que estava acontecendo. Podia jurar que ouvia Rony assobiando. Sabia que os escoceses detestavam os ingleses, mas este comportamento espantoso era simplesmente inconcebível. Desesperada-se, tratou de fazer com que o medo não a dominasse, mas Harry não facilitava. Lançou-lhe um breve olhar e logo a ignorou. “Que Deus me ajude”, pensou, “até pareceu aborrecido... até que o atacante o pediu o cavalo!” Nesse momento, Harry já não parecia aborrecido... mas furioso!
Afinal de contas, Cholie tinha razão. Os escoceses apreciavam mais os cavalos que as mulheres.
Se tivesse algo no estômago, sem dúvida a essas alturas teria vomitado. O miserável que a apertava de um modo tão indecente cheirava como um urinol esquecido. Cada vez que Gina tomava fôlego, sentia náuseas.
—Ponha ao cavalo entre o homem e eu —ordenou o bandido.
Harry aguardava uma oportunidade. Quando Rony se aproximou, arrebatou-lhe a rédea e empurrou Fogo Selvagem para tão perto do inimigo quanto pôde.
O que aconteceu a seguir sobressaltou Gina de tal modo que não teve tempo de reagir. De repente, sentiu que voava pelo ar como um disco. Ouviu que o vilão lançava um grito de agonia e, ao mesmo tempo, Rony a tomava entre os braços.
Gina girou e, nesse mesmo instante, viu que Harry cravava sua própria adaga no pescoço do inimigo.
Então, a jovem vomitou duas vezes e Rony se apressou a deixá-la sobre o chão. Hermione atravessou correndo a clareira e se jogou sobre sua irmã. O perigo tinha terminado, mas Hermione continua gritando até ficar sem fôlego.
Gina fechou os olhos e se concentrou em tentar aquietar o tumulto de seu coração. Hermione a apertava com tanta força que não a deixava respirar.
De súbito, Gina começou a tremer como uma folha na tormenta e sentiu as pernas frágeis como gravetos.
—Já pode abrir os olhos — ordenou Harry.
Ao fazê-lo, Gina viu seu marido quase grudado a si.
Os olhos de Harry já não pareciam tão gelados. Para dizer a verdade, Gina pensou que estava a ponto de sorrir e isso a deixou perplexa. Acabava de vê-lo matar com facilidade, de uma maneira brutal, quase negligente... e agora parecia a ponto de sorrir!
Gina não soube se queria fugir de Harry ou ficar e estrangula-lo.
Enquanto observava o marido, ouviu que Rony ordenava a Hermione que se aproximasse dele e sentiu que as mãos da irmã a soltavam. Gina não tinha forças para ajudar a irmã nesse momento, mas se perguntou por que Rony parecia tão furioso com Hermione, e Harry tão alegre.
Gina não reparou que tinha as mãos apertadas, mas Harry sim.
—Tudo terminou —disse em tom suave.
Gina olhou ao homem que Harry acabava de matar, e imediatamente começou a tremer.
Harry se interpôs para bloquear a visão. Ergueu a adaga de Gina com intenção de devolve-la, mas interrompeu o movimento ao ver como ela estava agitada. Reagia como se a adaga estivesse possuída por demônios.
—Isto é seu, não? —perguntou Harry, perplexo pela expressão aterrada de Gina.
A jovem deu um passo a um lado e contemplou outra vez ao homem morto, olhando o buraco por onde tinha penetrado a adaga.
Harry se interpôs outra vez.
— Gina,
Gina começou a recuar, afastando-se dele.
—Não quero mais essa adaga. Jogue-a fora. Tenho outra em minha bolsa de viagem.
—Está morto, esposa —afirmou Harry, tratando de faze-la raciocinar —. Não é necessário que continue olhando. Já não pode fazer-lhe mal.
—Sim, está morto —exclamou Gina com gesto veemente—. Harry, lançou-me pelo ar, como um...
— Sim.
Gina assentiu outra vez.
— Você o matou com tanta facilidade... eu nunca vi...!
Ao ver que não terminava a frase, Harry suspirou.
—Me alegro que tenha notado —disse.
A moça lhe dirigiu um olhar incrédulo e continuou recuando, afastando-se de Harry.
— Você se alegra...? Marido, pensa que isso é um elogio? —interrompeu-se, inspirou fundo para aliviar a dor na garganta, e olhou a arma que Harry tinha na mão—. Jogue-a fora, por favor. Não quero vê-la.
— É a vista do sangue que a perturba? —perguntou Harry. A conduta da mulher o confundia. Uns momentos antes, lutando com o homem que a apanhou, havia-se portado como uma tigresa, e agora parecia uma menina assustada.
Harry fez nova tentativa de tranqüilizá-la e jogou a adaga sobre o ombro.
Se Gina não tivesse estado tão Angustiada, Harry haveria rido.
—Sim... quero dizer, não —resmungou de repente Gina.
— Não o quê? —perguntou Harry.
— Você perguntou se me perturba ver sangue — explicou Gina precipitadamente—. E eu respondi.
— Respondeu?
De modo automático, Gina passou os dedos pelo cabelo, desordenando-o mais ainda, e murmurou:
—Este sangue me adoece.
Depois, lançou um suspiro forçado. Pensou em dizer que estava acostumada a ver sangue, que era curandeira e que possivelmente tivesse visto sangue bastante para tingir de vermelho um rio, mas a explicação lhe custava um esforço terrível. “Ainda estou reagindo ante a terrível prova que acabo de sofrer”, pensou, “e à força incrível de meu marido”.
Além disso, tentava aceitar a dolorosa verdade de que Harry tinha estado muito disposto a entregá-la. Na realidade, o cavalo era mais importante para ele que a própria Gina.
Pensou que teria pesadelos durante um mês.
Subitamente, Harry se aproximou e a abraçou.
—Se retroceder um passo mais, cairá sobre a pilha.
Gina lançou um olhar por cima do ombro, viu os cadáveres e sentiu que os joelhos afrouxavam. Se Harry não a houvesse sustentado, teria caído.
Mas até nesse estado de comoção, não deixou de perceber a suavidade com que Harry a tratava. Era uma contradição, levando em conta que era um homem tão corpulento. Parecia impossível que uma pessoa desse tamanho fosse tão gentil. E também, que tivesse liquidado quatro homens armados sem mostrar o menor sinal de fadiga. Se nem sequer tinha suado!
— Você falou sério, Harry? — sussurrou Gina.
— O que?
Como não respondeu rápido o bastante para o gosto de Harry, ergueu o queixo para ver sua expressão.
— Falei a sério o que, esposa?
— Quando disse a esse indivíduo horrível que podia ficar comigo, mas não com o cavalo — ela esclareceu—. Acaso era isso o que queria dizer?
— Não.
Imediatamente, Gina relaxou sobre ele.
— Então por que deu a impressão de que falava sério?
Harry a escutou, embora o sussurro de Gina fosse quase inaudível. Custou-lhe acreditar que semelhante coisa a afligisse. Entrega-la? Jamais!
— Queria faze-lo acreditar que controlava a situação, garota.
— Ele a controlava, Harry —repôs Gina—. Era quem tinha a faca.
— Ah, entendo —disse Harry em tom mais alegre—. Nesse caso, também os homens que me rodeavam controlavam a situação.
— Bom, não —murmurou Gina—. O que quis dizer é que eles tinham armas, mas você foi... quem se encarregou.
Antes que Harry pudesse responder ao comentário, Gina adicionou:
—Foi um truque, verdade? Mentiu.
—Exatamente.
Gina exalou outro suspiro, e os estremecimentos trouxeram a lembrança de como havia se assustado. Imediatamente se separou de Harry.
Gina estava furiosa outra vez. Soltava fogo pelos olhos. Harry não entendeu por que estava zangada naquele momento. Aquela mulher era um verdadeiro enigma para ele.
Sem atender a ordem de Gina de soltá-la, Harry rodeou os ombros com o braço, ergueu-a contra seu quadril e a levou onde estava Rony com os cavalos já reunidos.
Quando a depositou sobre o lombo de Fogo Selvagem, Gina não pronunciou uma palavra de agradecimento. Manteve os olhos baixos até que Harry lhe entregou as rédeas. As mãos de Harry a roçaram, sobressaltando-a, e afastou as próprias bruscamente.
— Olhe para mim.
Esperou até que ela obedecesse antes de voltar a falar.
—Esposa, você demonstrou sua valentia. Estou muito satisfeito.
Surpresa, Gina abriu os olhos. Harry sorriu. Acabava de descobrir o modo mais singelo de apaziguá-la: elogios. Por acaso não era verdade que todas as mulheres ficavam contentes se seus maridos as elogiavam de vez em quando? Harry prometeu a si mesmo lembrar desse segredo e empregá-lo no futuro.
—Talvez você esteja feliz comigo, marido, mas certamente que eu não estou satisfeita contigo... escocês arrogante!
Harry ficou tão assombrado pelo tom irado de Gina como pela resposta.
— Não se interessa por minha aprovação?
Gina não respondeu, mas seu semblante colérico mostrou a Harry que a tinha julgado mal: não era uma mulher para deixar-se adular. Harry assentiu satisfeito.
—Diga por que estava tão assustada.
Gina moveu a cabeça e olhou as mãos enquanto Harry observava o semblante carrancudo de sua esposa.
—Fiz uma pergunta —insistiu o homem.
— É outro mandamento que rege nas Terras Altas?
—Sim, é —respondeu Harry, sorridente.
— Por que será que no resto do mundo só é necessário obedecer dez mandamentos para ir ao Céu, enquanto que vocês, os escoceses, têm tantos? Será por que são grandes pecadores?
—Quando recupera a valentia, as coisas mudam, não? —disse Harry.
— Valentia?
— Não importa.
Harry sorriu para demonstrar como estava satisfeito, mas Gina pensou que estava louco.
—Harry, agora quero partir.
—Não partiremos até que me diga por que estava tão assustada.
—Preocupada, Harry. Estava preocupada.
—Está bem, estava preocupada —acessou Harry.
— Quer saber a verdade? —perguntou a jovem.
—A verdade.
—Quando estava lutando... bom, houve um momento em que me olhava e eu pensei que nunca poderia deixa-lo zangado, porque não poderia me defender frente a sua força superior.
Harry teve que se inclinar para poder escutar a explicação. Gina parecia muito abatida, e o marido conteve a risada.
—Será difícil para mim, Harry —prosseguiu Gina—. Sei que isto talvez o surpreenda, mas penso que haverá ocasiões em que vou irritá-lo.
—Isso não me surpreende absolutamente.
— Por que não? —perguntou Gina com ar carrancudo.
—Neste momento está me irritando. Gina, jamais irei machucá-la.
A moça o olhou por um longo tempo.
— E se a fúria o dominar? Harry, os escoceses têm um caráter feroz: sem dúvida terá que admiti-lo.
— Nunca perderei o controle com você, dou minha palavra.
— E se perder? — insistiu.
— Mesmo assim, não a machucarei.
Por fim, Gina acreditou e deixou de afastar-lhe as mãos.
—Ouvi dizer que todos os escoceses batem em suas esposas.
—Eu ouvi o mesmo em relação aos ingleses.
—Alguns o fazem, outros não.
—Eu não.
Gina fez um gesto afirmativo.
— Não?
Harry negou com a cabeça. Estava convencido de que Gina se sentia segura com ele.
—Quando nos conhecemos, vi o temor em sua expressão. Embora acredite que é bom que uma esposa tenha um pouco de medo do seu marido, esse medo irracional que vi...
—Perdoe a grosseria de interrompê-lo, mas não posso deixar de dizer que não é bom que uma esposa tenha medo do marido. Claro que eu estava preocupada, não aflita, mas muitas mulheres teriam medo de você. Mas eu sou feita de uma fibra mais forte.
— Por que?
— Por que, o que? —perguntou Gina, perplexa pelo modo em que Harry sorria e pela maneira em que seu próprio coração reagia ante aquele sorriso endemoninhado.
— Por que muitas mulheres me temeriam?
Gina teve que afastar o olhar desses olhos formosos para poder responder com coerência.
—Porque é um homem... muito grande. Para falar a verdade, é o guerreiro mais imenso que vi.
— Por acaso viu outros? —perguntou-lhe Harry, dissimulando a exasperação.
Gina ficou carrancuda e depois sacudiu a cabeça.
—Na verdade, não.
—De modo que é meu tamanho o que a... preocupa.
—Além disso, é tão forte quanto toda uma legião de soldados, Harry, e acaba de matar quatro homens — adicionou —. Não acredito que já tenha esquecido.
—Só um.
— Um o que? —perguntou Gina, distraída pelas faíscas que brilhavam nos olhos do homem. Tinha a suspeita de que Harry queria rir-se dela.
—Só matei um homem — esclareceu —. O que se atreveu a tocá-la. Os outros não estão mortos, só muito feridos. Quer que os mate? —perguntou, com ar complacente.
—Não, por Deus! —assegurou Gina — E o que me diz do homem que Rony golpeou quando tentou machucar Hermione?
—Terá que perguntar a ele.
—Não quero perguntar nada.
—Esses canalhas também quiseram machucá-la, Gina.
—Hermione é mais importante.
—Acredita mesmo em semelhante absurdo?
—Harry, sempre foi meu dever proteger minhas irmãs.
—Por que não me pergunta pelo homem que feriu com a adaga? —perguntou Harry—. Teve boa pontaria, esposa — completou, com a intenção de elogiá-la outra vez —. Matou-o...
—Não quero falar disso —exclamou a jovem, deixando cair as rédeas de Fogo Selvagem.
“Agora, o que eu disse?”, perguntou-se Harry. A pequena e doce esposa parecia a ponto de desmaiar. Aquela mulher era um mistério para ele. Harry sacudiu a cabeça. Pelo visto, Gina tinha aversão ao crime. Por certo, era outro defeito do caráter da moça que, ao mesmo tempo, Harry admitia, o agradava.
Se permitisse, esta mulher abrandaria todas suas atitudes. Teria que se acostumar à morte, pois esse era o modo de vida nas desoladas Terras Altas. Só sobreviviam os mais fortes. “Terei que endurecê-la”, pensou Harry, “pois do contrário não poderá suportar o primeiro inverno duro”.
—De acordo, esposa —afirmou Harry—. Não falaremos disso.
Os ombros de Gina se afrouxaram. Harry advertiu que não estava muito firme sobre a sela e passou um braço pela cintura.
—O que fiz, foi em defesa própria — disse Gina—. Sem dúvida, Deus entenderá por que feri esse sujeito repugnante. Estava em jogo a vida de Hermione.
—Sim —concedeu Harry—. Feriu-o.
—Por outro lado, o padre Charles jamais entenderia. Harry, se chegasse a saber, me obrigaria a vestir negro pelo resto de minha vida.
— Você se refere ao sacerdote que nos casou? —perguntou Harry, outra vez perplexo.
Gina assentiu.
— Vocês se preocupam com as coisas mais estranhas —assinalou Harry—. A meu modo de ver, é um defeito de seu caráter.
— Você acha? Então, se confesse com o padre Charles e depois me repita que me preocupo com nada. Esse homem tem muita imaginação para as penitências.
Harry começou a rir. Ergueu Gina nos braços e se dirigiu à sua própria montaria.
Gina lhe rodeou o pescoço com os braços.
— O que está fazendo?
—Cavalgará comigo.
— Por que?
O suspiro de Harry foi tão forte que quase agitou o cabelo de Gina.
— Vai questionar cada coisa que eu faça ou diga?
Gina jogou a cabeça atrás para poder olhar seu rosto e Harry se deteve imediatamente. O brilho dos olhos da garota e o sorriso doce e lento inquietaram o homem.
—Ficará zangado com isso?
—Com o que?
—Eu questionando-o.
—Não, nunca me zangarei com você.
O sorriso de Gina deixou Harry encantado.
—Estou casada com um homem surpreendente —disse—. Nunca se zanga nem perde a calma.
—Inglesa, tem a audácia de me provocar?
A atenção de Harry estava concentrada na boca da moça. Desejou apanhar o lábio inferior de Gina entre os dentes, afundar a língua dentro dessa boca, saborear essa doçura de mel que agora lhe pertencia. Os dedos de Gina lhe acariciavam a nuca, não sabia se de maneira intencional ou não, e os seios suaves e cheios se apertavam contra o peito de Harry.
“Um homem não pode suportar tanta provocação”, pensou. Inclinou lentamente a cabeça para ela e Gina foi a seu encontro.
A boca de Gina era tão suave quanto se lembrava, igualmente provocadora. Foi um beijo suave, despojado de exigências, muito breve e frustrante... na opinião de Harry. Gina não abriu a boca, e se afastou no instante em que Harry ia invadi-la.
Pareceu extremamente satisfeita consigo mesma e Harry não deixou transparecer sua frustração. Embora fosse valente e bela, não sabia beijar.
Claro que, no seu devido tempo, Harry teria o dever de faze-la acostumar-se e sorriu com antecipação.
—Obrigada, Harry.
— Obrigado por que? —perguntou. Deixou-a sobre a sela e logo montou atrás dela com um movimento rápido. O traseiro de Gina se situou na união das coxas de Harry e se moveu para acomodar-se. Harry reagiu com uma careta. Rodeou sua cintura com o braço, elevou-a sobre seu próprio colo e a apertou contra si.
— Gina? —perguntou Harry, ao ver que Gina demorava a responder.
—Agradeço sua consideração.
O homem interpretou mal a resposta.
—É evidente que não cavalgou muito —disse—. Quando estivermos estabelecidos, vou ensina-la corretamente.
Gina não se incomodou em corrigi-lo. Se queria acreditar que não tinha sido educada, deixaria que acreditasse. De qualquer modo, não acreditaria que era hábil, nem tampouco que o que a incomodava era a sela nova. Se admitia que gostava de cavalgar em pelo, como faziam alguns guerreiros, Harry chegaria a conclusão de que não era de verdade uma dama. Deixaria que pensasse o que quisesse. “Beak tinha razão”, pensou Gina. Harry era muito paciente com ela. Se não pensasse que necessitava ajuda, não a teria sobre o colo como agora. Gina sorriu para si e se apoiou em seu marido. Era agradável ser mimada. Prometeu-se que, chegado o momento, esclareceria tudo. Mas por enquanto deixaria que ele tomasse conta de tudo.
“As esposas são um aborrecimento”, disse-se Harry, “mas esta... tem um aroma tão feminino, sinto-a tão suave, tão à vontade entre meus braços”. Continuava tentando afastar as mãos dos lados de seus seios. O acanhamento de Gina fez Harry sorrir, seguro de que quando se deitasse com ela esse apuro acabaria. Naquela noite ele a tomaria e a tornaria sua; essa noite, Gina se entregaria a ele.
“Para um escocês, sem dúvida tem um aroma muito atraente”, pensou Gina, sorrindo por essa tola confissão íntima.
No transcurso de um breve dia tinha passado de odiá-lo a quase gostar dele. Deus era testemunha de que com ele se sentia segura! Se os sentimentos de Gina seguiam esse curso tão irracional, deixaria que voltasse a beijá-la... em um ou dois dias. E se demonstrasse ser tudo o que ela desejava de um marido... bom, talvez depois de um cortejo prolongado e satisfatório poderia deitar-se com ele.
Era uma bênção que Harry fosse tão paciente. Gina explicaria os motivos de sua relutancia, e Harry estaria de acordo com seus termos.
E isso era tudo.

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Enviado por Lana Silva em 24/04/2012

Demaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiis o capitulo *-*

Nota: 5

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