Snape entrou em sua casa em Spinner's End e se preocupou se Hermione não ficaria aflita se ele não voltasse. Foi só esse pensamento que o fez escrever uma nota breve e enviá-la por seu patrono: "Estou bem, mas não voltarei para aí ainda".
Tendo feito isso, ele abriu seu uísque de fogo e não se deu ao trabalho de procurar um copo; bebeu direto do gargalo.
Ele se odiava. Ele queria morrer e queimar no inferno eternamente por cada maldita coisa que tinha feito, desde quando um estudante retraído de quem alguns judiavam, até quando se tornou comensal, até o que vivia ainda hoje.
Ele queria que todas as vidas que ele tirara o atormentassem para todo o sempre, porque era exatamente isso o que ele merecia. Ele se odiava com todo o ódio que possuía, mais do que odiara Tiago, mas do que odiava Voldemort.
Bebeu um gole e já sentiu a tontura característica. Sabia que quando acordasse sua cabeça o mataria de dor, mas ele queria isso, ele merecia isso, ele precisava sentir dor física, porque qualquer coisa era melhor do que a dor de sua consciência.
Tinha traído a promessa feita a Hermione, sabendo que Elisabeth Adams não significou nada para ele nem nunca significaria, mas lembrando-se de como Hermione falara, e ele tinha certeza que jamais poderia encará-la outra vez se não contasse a verdade a ela.
Quem era ele para amá-la? Como ele pudera ser tão egoísta ao envolver sua doce Hermione em sua vida e fazê-la gostar dele? Ele era um assassino cruel, ele torturara inocentes. Ela já ouvira falar disso tantas vezes, por que raios gostava dele?
Seus pensamentos começaram a ficar difusos, pois metade da garrafa de uísque já se fora, mas ele se recusava a desfalecer. Ele ia esvaziar aquela garrafa inteira, porque ele tinha que morrer e tinha que sofrer. Ele não ia sair vivo daquela maldita casa morta. Ele ia preparar uma poção forte o bastante e ia bebê-la e estaria morto. Fim da história.
Hermione recebeu o bilhete, mas de modo nenhum aquilo a deixou aliviada. Ela ficou sim preocupada. Será que Voldemort o mandara numa missão? Ela nem poderia escrever para ele; e se algum comensal ou o próprio Voldemort vissem seu recado para ele? Ele estaria morto.
Ela andou de um lado para o outro e por fim começou a chorar. Talvez ele não tivesse tido tempo de explicar o que ocorrera naquele diminuto bilhete, ou talvez ele não quisesse, mas ela tinha certeza de que aquilo não era nada bom.
Ela se sentou no chão, cansada de andar e esperou. Ela tinha de esperar. A incerteza é a pior coisa do mundo, sem a menor dúvida, porque ela consome, ela leva à exaustão e aos piores tipos de pensamentos. A incerteza é cruel.
Quando Hermione percebeu, era manhã alta, então ela se arrumou e desceu, rezando para que Snape já tivesse voltado. Não com tanta sorte; nem sinal dele em lugar nenhum da casa.
Ela entrou em pânico. Subiu ao laboratório para fazer as poções que estavam em falta, mas sua cabeça girava e ela não conseguia atinar para o que estava fazendo. Estava sufocada, com medo.
Snape bebera a garrafa inteira e metade de uma garrafa de uísque, e tinha vomitado em suas próprias vestes e no tapete e no sofá da sala, mas não estava preocupado. Ninguém precisa ir bonito para o inferno.
Ele acordou sentindo uma dor de cabeça infernal, mas era tão fraca para aliviar seus pensamentos, a lembrança do rosto aterrorizado daqueles trouxas, o nojo de ter feito sexo com aquela mulher, daquele jeito, na frente de tanta gente.
Ele se arrastou para a cozinha, pois seu estômago roncava febrilmente, mas ele pensou melhor e decidiu não comer. Se a poção não o matasse, a fome certamente o faria.
No caminho para o laboratório ele pegou mais duas garrafas de vinho e uma de vodka e com sorte talvez ele morresse antes, de overdose.
Pegou seu caldeirão e uns ingredientes. Talvez pudesse usar dois ingredientes reagentes e explodir sua casa com ele dentro. Isso certamente poderia dar certo e seria ainda mais rápido que a overdose. Se bem que ele não merecia morrer rápido; ele não dera essa chance àqueles trouxas. Bem, a poção que ele tinha em mente demoraria dois dias para matá-lo, mas iria destruindo-o durante o processo, então tudo bem.
E a outra vantagem disso é que depois de morto talvez Hermione o perdoasse por ele ter traído a promessa feita a ela. A morte era mesmo a melhor solução para seus problemas.
Com esses pensamentos girando em sua cabeça e uma terrível mistura de bebidas alcoólicas enchendo seu estômago, ele começou a cortar e a separar os ingredientes.
Hermione estava sentindo um nó na garganta tão forte que não achou aquilo normal. Não podia ser. Ela precisava falar com Snape.
Pegou sua coruja e escreveu em linhas gerais, perguntando se ele estava bem. Se caísse nas mãos de alguém errado, só achariam que ela era a menininha idiota convencida por ele.
E mandou a coruja. Ela demorou horas a voltar e, quando voltou, não trouxe resposta, mas nem o bilhete de volta. Hermione respirou fundo. Tinha que pensar. Se Voldemort pedira algo para ele, era mais provável que fosse na área de poções e, nesse caso, ele só poderia estar em Spinner's End, que era onde ele tinha um bom laboratório e paz para trabalhar.
Ela foi para a lareira, pegou um pouco de pó de flu e disse seu destino. Sentiu-se puxada e logo atirada na sala de Spinner's End, que, conforme notou, estava cheia de vômito seco e garrafas de bebidas.
Ótimo, pensou ela, brava, eu apavorada e ele veio encher a cara!
Ela olhou em volta. O lugar estava deplorável, e fedia de um jeito particular. As janelas fechadas não ajudavam nada, ela reconhecia.
Hermione foi direto para o laboratório e encontrou a porta aberta. Sentiu uma dor forte no coração ao ver Snape completamente bêbado, com uma garrafa de vodka numa mão e uma garrafa de vinho já vazia na bancada, enquanto ele mexia o caldeirão. Ele estava com as vestes imundas em vômito e álcool, e ingredientes, e sangue, o que a fez suspeitar que ele se ferira enquanto preparava os ingredientes.
O cheiro da poção não lhe era familiar, mas o aspecto, ao menos daquela distância, a fazia se lembrar vagamente de... não, não podia ser.
Ela se aproximou já com lágrimas nos olhos.
- Severo... O que você fez com você?
Ele olhou para ela, e havia dor e raiva e amargura, tudo misturado ali.
- O que você veio fazer aqui, sua sangue-ruim suja?
Ela sentiu o coração acelerar e as lágrimas escorrerem.
- Você está bêbado! – ela disse, gritando, ofendida e triste, menos pela ofensa do que por saber que ele não queria dizer aquilo.
- Que brilhante constatação – debochou ele. – Eu não quis sua presença, não quero falar com você, então vá embora daqui.
Ele sabia que aquilo não ia adiantar; ele já tinha tentado daquele modo antes. Sua poção estava quase pronta. Tinha apenas que esfriar.
- O que é isso que você está fazendo? – questionou ela.
Ele sacou a varinha, mas a dela já estava em mãos e ela o desarmou com um Expelliarmus não-verbal. Ele estreitou os olhos.
- Como você ousa? – os olhos dele faiscaram de ódio, e ele se levantou de um salto e segurou o braço dela, arrastando-a para as escadas. – Eu não quero você aqui, eu não preciso de você, sua menininha idiota!
Snape apertou seu braço com força enquanto a puxava dali, e a empurrou para as escadas.
- Suba isso, vá embora e NÃO VOLTE! – bradou ele.
Mas Hermione caiu nos degraus e ficou sentada lá, olhando para ele, sentindo tanta pena que não conseguia se sentir ofendida.
Ela olhou para a poção e o cheiro daquilo a estava deixando nauseada. Ela apontou a varinha para o caldeirão e pensou Evanesco e o caldeirão estava vazio. Ele olhou para o caldeirão e, notando o que ela fizera, virou-se para ela com ainda mais raiva.
- VOCÊ É LOUCA? POR QUE VOCÊ FEZ ISSO? QUEM VOCÊ PENSA QUE É?
Ela se levantou e disse, altiva:
- Vá tomar um banho, que você está fedendo, e beba uma poção para ficar sóbrio. Estarei na cozinha, preparando algo para você comer.
Snape segurou os cabelos dela com uma mão e um dos braços dela com outra e a puxou escadas acima.
- Eu não preciso de mais uma puta particular, eu já arrumei uma mais vadia ontem!
E a jogou no sofá com toda a força em que ele queria bater em si mesmo. Hermione olhou para ele, desajeitada como estava no sofá, não assustada, mas tentando compreender o sentido daquelas palavras.
Snape se deixou escorregar para o chão e escondeu o rosto nas mãos, e o modo como seus ombros sacudiam a fez notar que ele estava chorando. Chorando! Nunca em sua vida imaginara aquela cena. Ela já o vira com os olhos vermelhos, mas chorando mesmo era a primeira vez.
- Você transou com aquela comensal, não foi? – murmurou ela, com uma vozinha fraca.
- SIM! – gritou ele com raiva, olhando para ela. Mas era raiva de si mesmo, não dela. Ele a amava por estar ali, por ela ser tão paciente, mas odiava não merecer metade da preocupação dela. – Na frente de uns vinte comensais da morte, logo depois de ter matado e torturado uns... dez, quinze trouxas!
Hermione olhava para ele sem dizer nada, tentando imaginar o que era para ele estar naquela situação miserável, e ter feito o que ele tinha feito, quando ela sabia que ele se recriminava por cada atrocidade que tinha cometido em sua vida.
Ela não era uma mocinha de novela mexicana, ela não se esqueceria de tudo o que ele havia dito a ela naquela noite por causa da grosseria dele estando bêbado e com ódio de si mesmo.
Com carinho ela se levantou do sofá e se abaixou ao lado dele, olhando-o nos olhos.
- Severo, eu vou te encher de tapa quando você estiver sóbrio, e você realmente me machucou quando segurou o meu braço... – ele desviou o olhar. – Mas agora eu vou levar você lá para cima e tomar banho com você, e depois nós vamos comer e vou te dar uma poção. Venha.
Ele era o mais miserável e o mais feliz dos homens. Sem saber como resistir, sentindo-se ainda mais culpado por ter agido daquela forma repugnante com ela, ele se levantou e a seguiu escadas acima. Ela lhe havia dado a mão e no mesmo instante ele sentiu vergonha por estar naquele estado na presença dela.
Hermione o ajudou a se despir das vestes sujas e temperou a água na banheira para ficar quente e agradável.
- Entra aí – disse ela.
- E você...? – Severo Snape envergonhado era outra história.
- Eu vou descer e fazer o almoço – disse ela. – Mas antes vou à Mansão Black para pegar roupas limpas para você.
Ele assentiu.
Ele desceu, já vestido e arrumado, sentindo o cheiro da comida dela e adentrou a cozinha, observando-a terminar de pôr a mesa. Observou um cálice com uma poção em cima da mesa, e isso o lembrou da primeira vez em que ficaram sozinhos na sede da Ordem.
Suspirando, Snape pegou o cálice e o bebeu de um gole só, e, em silêncio, sentou-se à mesa enquanto ela punha sua comida e um suco de abóbora em seu copo.
- Melhor? – perguntou ela gentilmente.
- Dificilmente – tornou ele, olhando para seu prato e finalmente se decidindo a pegar o garfo e começar a comer.
Ela começou a comer também, e em silêncio eles almoçaram. Hermione não falaria nada; ela sabia que tinha de deixá-lo começar. Depois que acabaram, ele disse:
- Hermione, me desculpe.
Ela considerou um momento.
- Eu só desculparei porque eu sou uma sabe-tudo que entende você melhor do que muita gente, e eu sei o quanto você se condena por eu gostar de você, e essas crises ficam piores quando você faz alguma coisa que te faz pensar que te torna menos merecedor ainda do meu amor.
Snape torceu o nariz e olhou para o lado, sabendo o quanto aquilo era verdade, e ainda assim envergonhado demais para admitir. Mas ela não disse mais nada, o que era quase uma declaração de que ela estava esperando explicações. Ele não podia lhe negar isso depois do modo como agira com ela.
- Eu... quando cheguei ontem, o Lorde das Trevas estava um pouco desconfiado. Não sei por quê, mas ao que parece, uma das enfermeiras espiãs dele em St. Mungus nos acompanhou dia a dia sem sabermos, ou sem você e aquele médico idiota saberem. Ele mencionou o quanto sou convincente e que é difícil saber onde está minha lealdade.
Ele ouviu Hermione prender a respiração, mas continuou contando.
- Eu perguntei o que ele consideraria prova da minha lealdade e ele disse que poderia me mandar matar você e passar de vez para o lado dele, sem espionar. Eu me mantive indiferente e dei uma resposta apropriada. Mas ainda assim ele não parecia convencido. Então ele mencionou os trouxas que trouxe especialmente para mim, e eu não tive alternativa. Foi quando perguntei da srta. Adams, porque eu sei que procurar outra mulher, para ele, seria prova cabal de que não estou perdidamente apaixonado por você.
Aqui Snape parou um pouco com a narrativa, e observou o olhar de Hermione fixo no prato e sentindo-se pior do que antes.
- Eu pedi para que ela assistisse ao que eu faria com os trouxas, e eu... eu fiz. Depois saí da sala e os comensais estavam pedindo outro tipo show. Eu... eu não gostaria de falar dessa parte.
Ele suspirou.
- Fez bem para você falar? – questionou ela, depois de um breve silêncio.
- Não. Mas se não tivesse falado também não me sentiria melhor.
- Você já está sóbrio e sem dor de cabeça? – perguntou ela.
- Acredito que sim.
- Ótimo...
Ela desferiu um tapa no rosto dele, e ele não esboçou reação, tamanha surpresa. Levantando-se, ela disse:
- Você não pode me punir quando estiver sentindo ódio de si mesmo. Se você quiser expressar raiva, quebre vidros, grite até perder a voz ou soque a parede até quebrar os dedos, mas não me arraste para cá e para lá como se eu fosse uma boneca de pano sem terminações nervosas! Você ainda é homem, ainda é mais forte fisicamente, e essa sua língua afiada é capaz de me rasgar ao meio, como sempre foi. Nós vamos nos falar quando você começar a agir feito o adulto que é. E se eu tiver que voltar aqui para buscar você de novo, Voldemort será o menor dos seus problemas, Severo.
E ela aparatou dali.
Snape soltou a respiração que não percebera que havia prendido. Ele nunca antes havia testemunhado a fúria de Hermione, mas estranhamente as ameaças e a grosseria dela lhe fizeram bem, tanto quanto o tapa. Beber não lhe fora punição o bastante, mas ele se sentia punido depois da bronca que ela lhe dera, e o castigo pelos crimes é anistia, ao menos em parte.
Ele olhou para os pratos e os fez se lavarem sozinhos na pia, e logo aparatou dali para a Mansão Black.