Era madrugada alta quando a sombra negra desaparatou na sala do largo Grimmauld, nº 12. Hermione acordou com um sobressalto e caiu do sofá. Ela tinha a respiração acelerada com o susto quando olhou para os olhos negros que a fitavam de cima.
- Severo, você me assustou! – murmurou ela.
- Se você me odeia, por que me esperaria voltar? – a voz dele não tinha emoção nenhuma. – É um mistério para mim.
- Sevie, eu falei sem pensar... – murmurou ela em tom de desculpas. – Eu não quis dizer aquilo.
- Mas é bom – disse ele. – Assim você vai sofrer menos no final – ele falava como se não tivesse ouvido o que ela dissera.
- Desculpe, eu não quis... eu não...
Ela arregalou os olhos quando o viu apontar a varinha para ela.
- Severo, o que você vai fazer? Eu... – ela estava assustada, e recuou.
- Eu não peço que me perdoe. Não estou arrependido.
No segundo seguinte Hermione desfaleceu nos braços que a seguraram. E Snape os desaparatou dali.
A manhã na Mansão Black trouxe alguns membros da Ordem à cozinha. McGonagall se mudara para lá, e estava presente. Poppy não estava, pois acompanhava Moody em St. Mungus. Decidiram que era melhor dizer aos curandeiros que o auror fora atacado por um comensal.
Dumbledore parecia cansado, e uns vinte anos mais velho. Snape entrou na cozinha com capa farfalhando às suas costas. Rony, Harry e Gina já estavam à mesa, e Lupin se juntava a eles pela primeira vez desde o dia do encontro com os comensais no Beco Diagonal.
- Onde está Hermione, Severo? – perguntou McGonagal. – Em todas as vezes que vim aqui ela sempre foi uma das primeiras a descer.
- Deve estar no quarto dela sofrendo de autopiedade – disse Snape friamente. – Como eu vou saber?
Os outros se entreolharam.
- Bom, eu vou falar com ela – disse Gina. – Ela disse que ia esperar você chegar quando fui dormir. Ela não estava na sala?
- Não, até onde vi – disse Snape. – A menos que estivesse dormindo no sofá, porque passei direto.
Gina se levantou.
- Bom, vou falar com ela.
Snape assentiu.
- Potter, já é a segunda ou terceira noite que falto às nossas aulas. Você andou praticando?
- Sim, senhor.
- Ótimo – disse ele, levantando-se. – Tenho de falar com você, pois sairei hoje e só voltarei à noite ou de madrugada.
- Ahn... claro – disse Harry, levantando-se também.
Snape subiu sem mais dizer; Harry em seus calcanhares. Entraram na sala de treinamento e Harry achou estranho Snape trancar a sala e envolvê-la inteira num feitiço silenciador.
- O senhor vai me contar algum segredo?
- Levei a srta. Granger para Spinner's End ontem à noite quando voltei – disse Snape sem rodeios.
Harry deixou o queixo cair, mas tratou de fechar a boca logo. Qualquer esforço para falar lhe parecia inútil. Snape cruzou a sala e sentou-se numa das poltronas.
- Estou dizendo isso para você porque acredito que você seja capaz de entender, depois de ter ouvido Dumbledore contar minha triste história à srta. Granger.
Harry ainda era incapaz de articular palavras.
- Você está chocado. Você pode correr e contar a todos, se quiser. Eu vou continuar sendo espião para a Ordem, vou continuar freqüentando esta casa, enquanto não quiserem me matar, mas garanto que nem Dumbledore será capaz de tirá-la de lá se eu não permitir.
- Você a seqüestrou! – exclamou Harry, espantado.
- De certa forma – disse Snape. – Ela estava dormindo quando saí e pretendo chegar lá antes de ela acordar. Ela está sem a varinha, mas ela consegue fazer magias rudimentares sem ela, então é melhor eu voltar logo.
- Ela vai odiar você para sempre – disse Harry. – Você não tem o direito de... de prendê-la numa redoma de vidro.
- Não, não mesmo – disse Snape. – Mas se você fosse comensal e visse o que eu vejo... se você soubesse o que eles fazem com nascidas-trouxas, você entenderia. Aliás, tenho um quarto para a sua Weasley, se você quiser, porque em pouco tempo ela será o objetivo do lorde das Trevas. Você sabe, uma traidora do sangue, como ele chama.
Harry ficou branco e engoliu em seco.
- Eu não posso...
- Eu deveria compartilhar algumas memórias com você – disse Snape. – Eu farei, quando você for bom em oclumência. Você está mesmo praticando, tive dificuldade de ver seus pensamentos durante essa nossa conversa.
Harry deu um sorrisinho.
- Você... você está planejando trancá-la lá até o fim da guerra?
- Não – disse ele. – Eu vou esperar ela se acalmar até poder ser confiada com uma varinha...
Harry deu uma risadinha ao pensamento.
- E vou treiná-la até ter certeza de que ela poderá lidar com quantos comensais aparecerem, de surpresa ou não, pelas costas ou não. É o que deveriam ter feito durante esse tempo que ela ficou aqui, mas a deixaram sozinha, pensando no quanto injustiçada ela foi.
Harry assentiu.
- Eu... eu não vou dizer a ninguém.
- Bom, alguma hora a srta. Weasley vai descer e dizer que Hermione não está no quarto dela.
- Eu posso falar com Gina antes? Isto é, se o senhor permitir?
- Pode. Eu... você e ela serão bem-vindos na minha casa. Acho que Hermione ficará menos irritada se vocês forem vê-la. Eu poderei treinar você e a srta. Weasley se for de sua vontade.
Harry assentiu.
- Obrigado, professor. Você ainda é um cretino bastardo... você está sendo egoísta... Mas eu... eu entendo.
- Estou lisonjeado, Potter.
- Sério, professor. Você ainda é o Snape... mas se a gente para pra pensar... tudo tem sua razão de ser, né?
- Você é filho da Lílian, eu devo a sua segurança a ela, e o mínimo que eu posso fazer é... cuidar... ahn... da sua segurança.
Harry sorriu.
- Não é o mínimo. Vou correr pra alcançar a Gina.
Com um gesto de varinha os feitiços se desfizeram e a porta foi liberada. E Snape aparatou dali.
Hermione acordou sentindo uma tontura estranha. Sentou-se e, ao olhar em volta, viu que estava num quarto estranho. E então se lembrou da noite anterior. Snape. Ela procurou nos bolsos e viu que estava sem sua varinha.
Então se levantou irritada. Abriu a porta do quarto e deu de cara com uma escada estreita de madeira. Curiosa, desceu por ela, assustada, receosa. Onde estava? Aonde Snape a levara?
Ao pé da escada era como se fosse uma parede. Ela encostou nela, incerta, e foi como se a parede subisse para o teto. Ela se viu numa sala de estar velha. Havia estantes e livros em todo o lugar. E Snape estava sentado no sofá. Ele tinha uma revista nas mãos – a que ela dera para ele – mas agora olhava para ela, cuidadosamente sem expressão nenhuma.
- Onde estamos?
- Em minha casa, Spinner's End – respondeu ele.
- Por que estou aqui?
- Porque eu não vou deixar você ir a nenhuma missão enquanto não tiver certeza de que você está preparada para se proteger.
Hermione cerrou os dentes, mas forçou-se a continuar calma.
- Você não tem esse direito. Onde está minha varinha?
- Guardada em algum lugar a que você não terá acesso, até que eu decida que você pode ser confiada com uma varinha.
Ela cerrou os punhos.
- Sou uma prisioneira agora?
- Mais ou menos, dependendo do modo como você encarar.
- Eu vou continuar trancada, dessa vez em outro buraco do mundo, porque você acha que eu sou incapaz de me defender – ela atestou, e o ódio dela era tangível. – Você é o homem mais desprezível que já tive a oportunidade de conhecer.
- E graças a mim, continuarei sendo o homem mais desprezível que você terá a oportunidade de conhecer – volveu Snape, levantando-se.
Ela recuou, olhando para os olhos dele.
- É claro. Porque você é um anjo da guarda, não é mesmo? – ela perguntou.
- Não. É um sentimento totalmente egoísta. Eu disse que não posso perder você. Eu não pretendo morrer antes dessa guerra acabar.
- Por causa da vingança pela morte da sua preciosa Lily.
- Também isso – disse ele, sério.
Hermione bufou.
- Alguém sabe que eu estou aqui?
- Por enquanto o Potter e sua amiga Weasley, segundo creio. Pelo menos, quando contei a ele, ele disse que contaria a ela.
- E os outros?
- Ou vão saber que fui eu ou vão achar que você fugiu, oras.
- Você é...
- Sim, um monstro. Mas estou pensando em treinar você em duelo quando você se acalmar, ainda que isso demore semanas. E eu disse ao Potter que ele e a srta. Weasley podem vir ver você.
- Que ótimo, uma presa que tem direito a visitas! – exclamou ela, agora gritando.
- Você preferia ficar trancada no quarto como uma presa de verdade? – volveu ele, rangendo os dentes. – Você vai ficar aqui, e eu posso ser o pior monstro do mundo; mas estou preocupado com você, estou com medo por você, eu vejo o seu rosto naquelas meninas, e você não vai sair daqui até eu ter certeza de que está pronta a enfrentar qualquer situação.
- Até estupros? – ela gritou. – Você vai me treinar nisso também?
Hermione sabia que aquelas palavras causariam efeito. Por um momento, achou que Snape iria bater nela, mas depois só o que viu foi ele lhe dando as costas e sumindo de vista por uma outra porta.
Ela suspirou e sentou-se no sofá. E chorou. Chorou por estar presa, chorou por ter sido tão cruel com ele. Chorou por estar chorando. Ela chorou por tanto tempo que não viu as horas passarem. Logo seu estômago roncava com ferocidade. Deu um pulinho de susto quando Snape aparatou na frente dela.
- Venha aqui, Granger – ele disse, entrando por outra porta.
Hermione não obedeceu. Ficou no sofá. Ela não conseguia entender como Snape podia ter tanto sentimento de posse em relação a ela. Ele a amava, mas isso não lhe dava o direito de decidir por ela, de obrigá-la a permanecer ali.
Snape apareceu na porta.
- Venha aqui – ele disse.
- Não – disse ela. – Você pode me manter presa, mas não vai me obrigar a fazer nada que eu não queira.
Ele bufou e aproximou-se a passadas largas. Ela levantou-se e tentou correr para o outro lado, mas ele segurou seu braço e a arrastou na direção da porta por onde ele entrara antes.
Ela se viu numa cozinha. Ele a forçou a sentar-se na cadeira e pôs um prato e talheres para ela.
- A srta. Weasley separou para você – disse ele para o ar. E saiu da cozinha.
Hermione fitou seu prato séria. Era a comida de Molly. Ele trouxera comida para ela. Ela voltou a chorar. Céus, ela dissera mais cedo que ele iria violentá-la. Ela sabia como ele se sentia em relação a isso. Sabia que ele a amava. Ela só quisera feri-lo porque ela estava frustrada, mas sentiu-se mal, sentiu-se cruel. Ele já tinha tantos problemas, tantos demônios que enfrentar, e ela o fizera se sentir pior.
Sem vontade de comer, mas com fome, ela forçou a comida abaixo até esvaziar seu prato. E levantou-se e lavou a louça. E achou uma vassoura e varreu a cozinha. E secou a louça e guardou tudo.
Quando voltou para a sala, encontrou-a vazia. Então ela olhou em volta. Havia mais umas duas portas. Ela foi para uma delas e entrou. Havia um corredor e uma porta trancada ao final dele.
Ela voltou e foi para a outra porta. Esta estava entreaberta e havia uma escadinha, estreita como a que separava seu quarto da sala, mas esta descia em vez de subir. Um porão. Ela desceu e olhou para baixo. Um laboratório. Ela olhou em volta e viu Snape cortando ingredientes. Ele parecia concentrado. Ele tinha uma mão enfaixada e ainda sangrando. Ele tinha os olhos vermelhos e inchados. Ele cortava tudo rápido. A faca escorregou e cortou a faixa que enrolava sua mão já enfaixada e rasgou a pele outra vez. Praguejou baixinho.
Hermione sentiu lágrimas virem aos seus olhos.
- Severo...
Ela fez menção de entrar, mas quando ele olhou para ela, só rancor estava naqueles olhos negros, tanto que ela estacou.
- Saia daqui – rosnou ele.
- Eu sinto...
- FORA! – ele sacou a varinha e ela sentiu-se voar porta afora e escadas acima e cair sentada no sofá.
Hermione chorou de novo, e mais. Sentiu-se terrível. Sem dúvida que Snape estava daquele jeito por causa dela. Ele parecia horrível. Ele devia estar remoendo a acusação dela repetidamente. Ela sentiu um peso no estômago e um vazio. O que ela tinha feito com aquele homem? Onde estava o velho professor Snape? Aquele maldito bastardo que os infernizava no colégio?
No lugar dele havia um homem que sentia e que tinha uma vida e uma consciência que gritavam contra ele. Ele parecia péssimo. Ele estava magoado. Era óbvio.
Ela suspirou. Não adiantava nada chorar tanto. Ela olhou em volta. Agora que reparava, a casa parecia desabitada há muito tempo. Estava limpa, mas parecia desabitada.
Ela olhou para os livros nas estantes e olhou para o sofá arrumado de qualquer jeito. Então ela começou a arrumar a sala, ajeitou o sofá, pegou vassoura, balde, sabão e rodo e pano e começou a limpar a lareira e os porta-retratos. Limpou a colcha do sofá a esfregão e começou a tirar pó dos livros. Já escurecia quando ela se deixou cair no sofá, exausta.
Ela respirou um pouco e começou a guardar os materiais de limpeza. Depois, lançando um olhar à porta fechada do laboratório, subiu para o que seria seu quarto.
Olhou em volta e suspirou ao ver uma mala – sua mala. Abriu-a e encontrou várias roupas, e roupas de baixo também. Parecia que todo o seu guarda-roupa estava ali. Ela pegou uma fio-dental branca e sua calça pantalona branca e a babylook de mangas compridas verde-musgo porque sabia que ele gostava e foi para o banheiro para tomar banho. Notou que seu xampu e condicionador e creme e pente estavam lá.
Ela entrou em baixo do chuveiro quente e respirou fundo. Tinha que achar um modo de se desculpar. Até porque, se ele não confiasse nela, ela continuaria sem sua varinha e não poderia treinar com ele e não poderia sair logo dali.
Quando saiu do banho com os cabelos molhados, tentando secá-los com a toalha, depois de penteá-los, ela viu que havia uma mesinha com uma refeição lá dentro. Ela suspirou, passando direto para a porta. Com um grito de ódio, notou que estava trancada.
Cansada, irritada, ela começou a esmurrar a porta e a gritar.
- Abre isso já, abre essa porta, Severo Snape! Me tira daqui! Abre essa porta!
Ela chutou a porta, socou a porta, gritou até não ter mais forças, mas nem Snape apareceu nem a porta se abalou. Exausta das atividades do dia, ela sentou-se para comer, amargurando estar ali. Snape estava mesmo com raiva dela, mas ela não esperava que ele sequer desse a ela uma oportunidade de se explicar.
Terminou de comer e olhou em volta. Havia uma caixa a um canto, e ela foi ver o que era. Seus livros estavam bem ali. Ela suspirou. Ele não fora cruel com ela, afinal. Ele só queria seu melhor. Ele poderia até ser um fracasso em saber o que era o melhor, mas ele estava se esforçando. Mas por que a trancara ali?
Quando ela finalmente se deitou, depois de muitas passadas e um esforço surreal para secar seu cabelo, ela se revirou de um lado para o outro, sem conseguir dormir. Ela odiava mal entendidos. Ou ela se desculpava com Snape ou nunca mais teria paz na vida. Principalmente depois de ver como ele estava se sentindo.
Já era quase de manhã quando ela acordou. Numa casa vazia.