Snape desaparatou na sala e voou para a cozinha. Ele torcia para que Hermione não o estivesse esperando. Eram pouco mais de meia-noite ainda, mas ele dissera que não esperava voltar antes do amanhecer. Não era verdade. Ele apenas não queria encontrá-la depois de fazer tudo o que ele sabia que faria.
Uma vez na cozinha, ele abriu a garrafa de uísque-de-fogo e encheu um copo e bebeu de um gole só. Ele respirava rápido, agitado. Ele não vira Hermione parada encostada no batente até que ela se moveu.
Ele olhou para ela com uma expressão vazia e, tentando controlar o turbilhão de emoções que estava sentindo, disse friamente:
- Eu estava sob a impressão de ter-lhe dito para não me esperar.
- E eu estava sob a impressão de ter deixado bem claro que eu não conseguiria dormir enquanto estivesse preocupada com você – ela disse, trincando os dentes.
Snape estreitou os olhos. Péssima hora para desafiá-lo. Ele não queria isso agora. Ele queria ir para o inferno, ele queria se trancar em seu quarto e morrer lá dentro. Ele não podia olhar para ela e deixar de imaginar que poderia ter sido ela no lugar daquelas meninas.
- Vá para a sua cama e nós nos veremos amanhã, no laboratório – ele disse, sério, tentando controlar a voz para se manter fria. Ele não queria ameaçá-la, nem assustá-la, mas ele precisava de um tempo para pensar antes de encará-la de novo.
- Pare de falar comigo como se eu fosse uma puta de rua – ela disse, brava. – Eu estava preocupada, eu queria saber se você ficaria bem, eu queria estar aqui para você quando você chegasse – ela suspirou. – Poxa vida, Severo, você não poderia ser mais razoável?
- É difícil ser razoável depois de cometer dois estupros seguidos de assassinatos – ele trincou os dentes com uma expressão ameaçadora. – Vá para o seu quarto e me deixe em paz, ao menos por hoje.
Hermione arregalara os olhos logo no começo da frase, e quando ele terminou, uma lágrima escorreu pelo rosto dela. Snape sentiu uma fisgada no peito. Ele se sentiu egoísta. Como pudera deixá-la se aproximar dele, sabendo que ele era um monstro e que ela sentiria pena? Ela só se aproximara por pena. Ele sentiu-se ainda pior.
- Hermione, vá embora daqui – ele disse, mais baixo, mais calmo. – Deixe-me.
Ela ainda olhava para ele, como que presa ali.
- Talvez... – ela engoliu em seco. – Talvez fosse melhor para você me dizer o que houve.
Ele olhou para ela, e novamente estreitou os olhos.
- Você tem algum problema de surdez? Eu já disse o que houve – ele sentou-se na cadeira, cansado, derrotado. – Será que você não pode simplesmente... ir?
Ela engoliu em seco mais uma vez. Ele via que ela estava assustada. Mas ela abaixou-se ao lado dele e apoiou as mãos nas pernas dele. Ele olhou para ela, que o encarava com um sorrisinho amigável. Ela tremia de medo, ele sentiu, mas ainda estava lá.
- Severo, você já disse mesmo – disse ela. – Eu creio que já vi você chegar assim uma ou duas vezes. Mas me lembro que, logo depois do dia do laboratório, você me disse que nunca tinha feito. Você disse que lhes dava uma morte rápida e sem dor, que era o mínimo que podia fazer.
Snape olhava para o chão, ou para qualquer lugar que não fosse ela.
- Quando eu disse que estaria aqui para você, eu disse de verdade. Não pretendo sair correndo. Quando você falou de "festinha na Mansão Malfoy" eu imaginei algo assim. E você tem um papel a representar. Deve ser horrível estar no seu lugar, Severo, mas deve ser ainda pior ter de fazer coisas ruins e engolir os fantasmas depois.
Ela segurou as mãos dele, e ele as apertou. Ela sorriu. Estava quase conseguindo. Mais um empurrãozinho e talvez ele ficasse razoável.
- Você teve de dar uma exibição pública para os outros, é isso?
Snape desviou o olhar para ela e sentiu-a estremecer – de medo – e sentiu que precisava afastá-la de si o mais rápido possível. Por que ela estava ali? Ela estava com medo dele, ela estava apavorada com o que ele tinha feito, por que ainda estava ali?
Hermione olhou para dentro dos olhos dele e viu que ele não pretendia responder. Mas, apesar de saber que ele ficaria agressivo por estar com raiva de si mesmo, ela acreditava que ele não jogaria essa raiva contra ela.
- Severo, espere. Antes de você gritar comigo, me empurrar para fora, me arrastar para o meu quarto e me trancar lá dentro, considere o que estou dizendo. Você precisa de uma válvula de escape, antes que essa pressão toda faça você explodir.
- Eu não preciso de nada disso, eu preciso que você vá embora e me deixe em paz – disse ele. – Eu estou satisfeito apenas com sexo, não estou precisando de uma melhor amiga ou de uma confidente. Eu não quero que você se intrometa nos meus assuntos.
Hermione suspirou e levantou-se.
- Você vai precisar de muito mais do que essa pose de comensal malvado para me afastar – ela se dirigiu para a porta da cozinha.
Ela sentiu um aperto em seu braço e então estava imprensada contra a parede, com as pernas separadas por uma das dele; suas mãos presas na parede acima de sua cabeça por uma das dele. A outra mão ele usou para segurar o queixo dela e fazê-la encará-lo.
- O que eu preciso para fazer você entender que eu não mereço essa compaixão? Preciso mostrar a você o que eu fiz?
- Isso vai fazer você se sentir melhor? – perguntou ela, com a voz calma, mas a expressão assustada.
Snape a forçou mais contra a parede. Ele ia falar alguma coisa, mas sua garganta deu um nó. Ele afastou-se dela e deu as costas.
- Hermione, elas tinham a sua idade... Poderia ter sido você ali... Poderia ter sido você...
Hermione sentiu os olhos marejarem. E respirou aliviada. Tinha conseguido. Ela não se aproximou; ele parecia precisar de espaço. Ela fez silêncio, esperando.
- Eu... eu as levei para um quartinho, como de hábito. Todos ali sabem que eu detesto exibições – ele respirava com dificuldade; ela suspeitava que, se ele não estivesse chorando, estava quase. – Mas mesmo assim... eu não poderia ajudá-las a fugir... Eu... eles iam querer ver os corpos... Eu não podia...
Agora Hermione abraçou-o e encostou a cabeça nas costas dele. Mas sentiu algo no bolso interno das vestes dele e, abrindo-o, tirou um vidrinho e olhou-o. Ela sabia que poção era aquela. Ela mesma havia preparado. Ele não se virou para ela.
- Francamente, Severo, pelo jeito que você estava falando eu achei que você havia espancado as meninas até a morte!
Ele virou-se para ela, algo surpreso.
- Eu acho difícil imaginar você fazendo isso, mas do jeito que você falou eu quase acreditei – disse ela. E olhou para o vidrinho de novo. – E essa poção não deixa resquícios de magia no corpo. Você é mesmo inteligente, mas já estou cortando o seu suposto "estupro" como a causa do seu estresse. É por ter de matá-las que você está assim, não é? Bom, provavelmente é melhor para elas, porque Deus sabe o que os outros teriam feito se você as deixasse vivas. E elas acabariam morrendo depois.
- Você fala assim porque você não estava no lugar delas – ele cerrou os dentes de novo.
- Não, eu não estava – Hermione concedeu e novamente olhou para o vidrinho. – Como você as fez beber isso?
- Eu dei a elas e as mandei beberem, oras – disse Snape, como se fosse óbvio.
- Ah, então elas beberam algo que um estuprador cruel deu a elas apenas por que ele mandou? – perguntou Hermione, cruzando os braços.
Snape abriu a boca para falar, mas fechou-a. Hermione esperou.
- Eu expliquei a situação a elas – ele disse simplesmente.
Hermione deu um sorriso afetuoso.
- Severo, você não imagina... Isso deve ter ajudado as meninas...
- Ah, sim. Olha, eu sou uma bruxo que estou fingindo adorar isso porque trabalho para uma organização que pretende acabar com essa raça imunda desses homens que vocês viram hoje. Então, eu vou ter de estuprar e matar vocês duas, mas tenho aqui uma poção que fará com que vocês não sintam dor. Realmente, Hermione.
- O que elas disseram? – perguntou ela gentilmente.
- Uma delas era virgem... – ele fez uma cara de interrogação. – Você nasceu trouxa...
- Sim?
- O que é um anjo da guarda? – ele perguntou.
Hermione sorriu mais abertamente.
- Onde você ouviu isso?
- Uma delas disse que eu era isso – ele disse, fechando a cara.
Ela se aproximou e acariciou o rosto dele. Ele fechou os olhos e inclinou-se ao toque.
- Um anjo da guarda é uma figura que aparece nas religiões trouxas... pelo menos em algumas delas... É como se fosse um guardião protetor que não vemos, mas que cuida de nós.
Snape abriu olhos.
- Você deve estar debochando de mim – ele disse, sério.
- Não, não. Eu poderia procurar algum livro sobre isso e te mostrar. É verdade.
Snape bufou.
- Como elas...? – ele olhou para Hermione e desviou o olhar.
- Elas devem ter visto os outros. Você deve ter sido uma bênção para quem estava esperando algo bem pior.
Ele não respondeu.
- Sevie, eu não faço idéia do quanto é horrível estar no seu lugar e ter de fazer essas coisas, mas, uma vez que elas já estavam lá e sofreriam de qualquer jeito, você não se sente melhor por saber que conseguiu salvar pelo menos duas moças da dor e da humilhação?
- Elas passaram por isso também.
Hermione pôs o vidrinho em cima da mesa como quem assina uma sentença, e disse:
- Claro. E uma delas disse que você era um anjo da guarda num momento de medo e dor e ódio, né?
Snape cruzou os braços.
- Isso não me consola.
- Nem deveria. Mas acredito que, se estivesse no lugar delas, eu teria preferido a solução menos ruim que você ofereceu. Sem sentir dor, morrer rápido. Eu posso imaginar as mãos de Malfoy em mim...
Snape abraçou-a no segundo seguinte.
- Isso não vai acontecer, nunca, não vai, eu não vou deixar – ele disse, abraçando-a com força.
Ela retribuiu o abraço.
- Eu acredito em você, Severo, mas você não pode se culpar por algo que você não poderia evitar.
- Você não pensaria assim se estivesse no meu lugar.
- É, talvez não. Mas eu pensaria assim se estivesse no lugar de alguma das duas.
Snape fechou a cara. Vencido por uma menina de dezoito anos.
- Venha, vamos pro meu quarto – disse ela. – Você precisa de uma massagem e uma boa noite de sono.
- Hermione, eu não...
Ela apontou a varinha para ele em um segundo.
- Se você não quiser ficar sob uma Imperius você vai subir as escadas atrás de mim quietinho e obediente.
Snape estreitou os olhos.
- Abaixe isso agora.
Hermione manteve a varinha firme.
- Não me ameace, Severo Snape. Você não quer me ver muito brava.
- Estou assustadíssimo – ele disse, mas andou para fora da cozinha.
Hermione baixou a varinha e seguiu-o. Ele parou na frente de seu próprio quarto, e Hermione olhou-o, séria.
- A minha cama é maior – ele explicou, displicentemente.
Ela assentiu e entrou antes dele. Snape entrou em seguida e trancou a porta.
- Um banho quente e longo? – perguntou ela gentilmente, ajudando-o a tirar o casaco.
Snape assentiu em silêncio. Ele não queria estragar a vida dela. Ele não queria que ela perdesse o tempo dela com ele. Ele não queria deixá-la lavar suas mágoas. Mas era tão bom que ela estivesse ali. Ele não mais sentia que podia feri-la, mas que ela podia curá -lo.
A manhã estava fria, e ainda era muito cedo. Snape acordou com uma jovem de cabelos cacheados em seus braços, de costas pra ele. O corpo quente contra o seu era tudo que ele sentia que não merecia, mas ela insistira tanto.
Ele olhou para o que podia ver dela daquele ângulo. A orelha, um pedaço da maçã do rosto, a ponta do nariz delicado, os cílios longos fechados. Ela parecia calma e segura em seu sono. Ele não tivera pesadelos com o que tinha feito pela primeira vez, desde que se tornara comensal da morte. Tivera um sono tranqüilo e ininterrupto. E devia isso a ela.
Deu um beijo leve no lado do pescoço dela. O pijama que ela usava era meio infantil, o que aumentava a sensação que ele segurava uma moça frágil, que ele sabia que ela não era.
Ele a abraçou mais forte e afundou o rosto no ombro coberto de cachos dela. Sentiu-a se mexer e se espreguiçar de leve. E ela virou-se e olhou-o com a cara amassada.
- Você dormiu bem? – ela perguntou.
- Sim. Você...?
Ela assentiu e abraçou-o, e encostou a cabeça no peito dele. Ele a abraçou forte.
- Severo – ela chamou baixo.
- Pode falar.
- O que você sente por mim? – perguntou ela, num sussurro.
- Eu amo você, Hermione – ele disse simplesmente.
Ele a sentiu abraçá-lo mais forte e prendeu a respiração ao ouvi-la murmurar:
- Acho que estou me apaixonando por você.
- Não diga isso – ele disse, agora acariciando os cachos dela.
- Por quê? – ela olhou para ele.
- Eu não mereço você – disse ele, ainda acariciando os cachos dela. – Você é... é tão jovem e cheia de vida e livre... Eu sou um homem mais velho, negro e perseguido pelas coisas que fiz.
- Eu não ligo pra isso – ela murmurou e voltou a encostar a cabeça no peito dele.
- Mas eu me importo.
- Claro, se você me ama mesmo – disse ela. – Mas você não deveria se impor um destino tão cruel. Eu sei o que você faz e fez; a escolha é minha também.
- Você está sendo impertinente.
- Você já sabia que eu era assim desde a primeira vez que eu pisei na sua sala – volveu ela.
Ele suspirou. Sim, ele sabia. Era impossível não amá-la, mesmo ela sendo uma impertinente. Ela era tão linda, e tão pequena e tão frágil sob sua forma.
Ela olhou para ele de novo e beijou-o. Pego de surpresa, ele a afastou de si.
- Hermione, sinto muito – disse ele. – Por mais que eu adore estar com você desse modo, eu não vou conseguir tocá-la assim... hoje.
Hermione deu um beijo na bochecha dele e voltou a abraçá-lo.
- Eu não tinha segundas intenções. Era só um beijo.
Snape não respondeu. Ele continuou abraçado com ela. E ficaram assim por muito tempo até que os primeiros raios do sol apareceram no céu.
- Você deveria ir para o seu quarto, ou para qualquer outro lugar.
- Sabe, eu estava pensando...
- O que, dessa vez?
- Calma. É que eu não vejo razão para esconder de todos que nós estamos... juntos.
Snape fitou-a.
- Que tal eu ser o morcegão das masmorras? O pior de todos os professores, o espião, o detestável Snape? Ex-comensal da morte, que tem como missão dada pelo próprio Lorde das Trevas seduzir você e tirar informações?
Hermione suspirou.
- Não ligo para o que vão pensar.
- Hermione, não. Agüentar os membros da Ordem olhando para mim como um traidor é ruim o suficiente, sem ter o peso de estar transando com uma aluna.
- Ex-aluna – ela corrigiu. – Se você tem vergonha de estar comigo, aí já é outra história. Não vou insistir nisso. Eu só não queria que você achasse que eu tenho vergonha de você.
- Eu não tenho vergonha de você – disse ele.
- Então qual é o problema?
- Hermione, alguma vez você considerou a possibilidade de eu morrer no meio disso tudo? Você acha que tenho chances de sobreviver a esta guerra e ser feliz para sempre?
- Pára com isso! – ela disse, brava. – Eu também tenho chances de morrer. Todos nós temos.
- Você quer um compromisso sério? Uma aliança, quem sabe? – Snape bufou. – Estamos bem assim.
- Você disse que me amava – disse ela, ressentida, virando-se na cama e dando as costas para ele.
- É a verdade, mas isso não significa que eu vá pedir em casamento em algum futuro próximo.
- Eu não pedi isso – volveu ela. – Nem todo mundo que tem algum compromisso pretende se casar um dia. É só que eu não vejo por que esconder de todos que nós estamos juntos. Quero dizer, não estou dizendo que vamos ficar nos agarrando no sofá, mas não precisa fingir que somos apenas professor e aluna, coisa que já não somos faz tempo.
Snape não respondeu.
- Eu também não estou pretendendo chegar no café da manhã e anunciar que eu e você estamos transando – ela disse.
- Então o que você quer? – perguntou ele.
- Eu quero poder sair do seu quarto sem nenhum problema, quero poder conversar com você normalmente...
- Você não conhece nada sobre mim, Hermione – disse ele.
- Diz a lenda que namoros servem para isso.
- Namoro – Snape repetiu a palavra com desprezo. – Homens de quarenta anos não namoram.
- Que seja – disse ela. – Nós conversamos, nos entendemos. O que você fez no passado não importa. Você pode me contar, se quiser, ou não contar, se não se sentir à vontade.
- Hermione, eu gostaria que você entendesse a gravidade de assumir que tem qualquer espécie de relação comigo, ainda que fosse uma simples amizade, o que não é o caso – ele disse, apoiando-se sobre um cotovelo e virado para ela.
- Você subestima meu poder de entendimento, né? – ela suspirou e se levantou. – Sabe, você acaba ficando chato com essa história.
Ela riu quando ele arqueou a sobrancelha direita para ela.
- É, já está ficando meio repetitivo, e isso me deixa entediada – ela parou com as mãos na cintura. – Blah blah blah eu sou velho pra você... blah blah blah eu sou um espião... blah blah blah eu faço coisas terríveis... Esse discurso já está cansando. Você poderia inventar outro.
Snape estreitou os olhos, mas havia qualquer coisa de divertimento neles. Ele se levantou.
- Você se cansou dos meus discursos, srta. Granger? – perguntou ele.
Hermione riu.
- Não de todos, claro – ela se corrigiu.
Ele a abraçou e disse:
- Talvez seja bom deixar as coisas meio subentendidas afinal – disse Snape, e sorriu de leve quando viu os olhos dela brilharem. – Isso chegará aos ouvidos do Lorde das Trevas, você sabe.
Hermione bufou.
- Você só está preocupado com o seu Lorde, né? – ela cruzou os braços.
- Claro – disse Snape, apertando o abraço. – É ele que torna a minha vida um inferno desde que me juntei a ele, e ainda mais desde que me arrependi... uns seis ou sete meses depois de ter tomado a marca negra.
Hermione sorriu.
- Olha só que menino comportado. Você até já começou a falar.
Snape não respondeu. Apenas soltou-a e foi ao armário para pôr uma roupa de dia, em vez de seu pijama.
- Oh, certo, então – disse Hermione. – Já que você escolheu me ignorar e eu vou sair à francesa.
Snape deu um beijo na testa dela e voltou à sua roupa.
- Hermione, só não responda a nenhuma provocação de Moody.
Hermione sorriu, com a mão na maçaneta.
- Eu vou fazer o meu melhor.
Quando ela abriu a porta, entretanto, deu de cara com Moody, que vinha pelo corredor. O auror abriu um sorriso maquiavélico e olhou para Snape lá dentro. O professor praguejou, e olhou para Moody.
- Algum problema? – questionou ele.
- Exceto que temos uma aluna no quarto de um professor – disse Moody com o mesmo sorrisinho.
- Uma ex-aluna saindo do quarto de seu ex-professor – corrigiu Hermione.
- O que dá no mesmo – disse Moody.
- Desocupe a porta, que eu tenho que me trocar – disse Hermione.
- Você está sob algum feitiço, Srta. Granger? Nunca se sabe o que um comensal da morte pode fazer...
Snape tinha a varinha dele apontada para o peito de Moody no segundo seguinte.
- Repita isso – disse ele entre dentes.
- Eu disse que ela deve estar sob algum feitiço, porque nunca se sabe o que um comensal da morte pode fazer para chegar aonde quer – disse Moody, o sorriso dando lugar a uma cara de desprezo.
Hermione entrou de volta no quarto e abaixou a varinha de Snape.
- Severo, eu sei que estou aqui porque eu quero – disse ela com um sorriso terno. – Você dá valor demais ao que essa gente pensa.
- É porque essa gente vai chegar lá embaixo dizendo que eu agarrei você à força – disse Snape com os olhos fixos em Moody.
- Sabemos que eu gostaria que tivesse sido assim, mas não foi – ela disse.
Snape deu um sorrisinho no canto da boca e assentiu e guardou sua varinha.
Moody ia abrir a boca, mas Hermione saiu e fechou a porta pelo lado de fora antes.
- Se você continuar com essa palhaçada, eu juro que vou azarar você – disse ela. – Você não tem um trabalho para cuidar?
- Prender comensais da morte.
- Então vá fazer isso e deixe Severo em paz – disse Hermione calmamente. E entrou em seu quarto.
Na mesa do café da manhã, quando Hermione entrou, já encontrou Snape lá embaixo. Parecia que todos estavam lá dessa vez. Até Shakebolt estava lá.
- Bom dia, Granger – disse Moody. – Você quer falar para seus amigos que dormiu com Snape hoje?
Silêncio mortal. Os olhos correram de Hermione para Snape. Ele tinha a mão comprimindo a varinha em seu bolso. Rony fez uma cara de desgosto. Todos tinham uma expressão algo espantada, à exceção de Dumbledore e Harry.
- Para que eu diria alguma coisa, quando você já gritou ao mundo, não? – perguntou ela, tomando seu lugar ao lado de Snape.
Comentários se formaram, mas as expressões estavam chocadas.
- É verdade isso, Mione? – perguntou Rony. – Quer dizer... você e o morc... o professor Snape estão...?
Hermione suspirou.
- Algum problema, Ronald?
- Ahn... eu não... é... – começou ele.
- Isso é uma... uma... eu nem sei o que dizer! – exclamou Minerva ultrajada. – Severo, isso é...
- Silêncio – disse Dumbledore, e logo foi obedecido. – Você fala como se fosse absurdo, quando nós todos sabemos como Severo se sente em relação à srta. Granger há algum tempo.
Hermione olhou para Snape, que respirou fundo. Ela via que ele estava à beira de um ataque de nervos.
- Vocês poderiam parar de discutir isso – disse Snape, controlando-se para não se levantar e voar dali.
- Ah, então por isso que a Mione não podia sair, né? – perguntou Fred.
Os olhos de Hermione se arregalaram na direção dele. Snape cerrou os punhos.
- Claro, ele pediu para não deixarem ela sair para que nada acontecesse com ela – disse George.
- O que? – perguntou Hermione, agora olhando para Snape.
Snape tinha a cabeça baixa e não sabia se sentia ódio dos gêmeos ou pânico que Hermione soubesse daquilo daquele modo.
- Isso é óbvio, não – disse Moody. – Ele queria ter um bom par de pernas garantido quando voltasse para casa.
E todos viram Moody atravessar a parede e uma Hermione em pé com a varinha em punho.
- Chega – disse Dumbledore.
- Agora acaba – disse Hermione com os olhos faiscando. – Com ele inconsciente tudo vai ficar em paz.
Ela bufou e saiu batendo o pé escadas acima.
Snape suspirou e fez que não com a cabeça.
- Se ela quiser sair de novo, eu vou estuporar alguém – disse Snape. – Os gêmeos são meus primeiros candidatos.
- Severo, não comece – disse McGonagall. – Você é incapaz de ver a impropriedade disso? Uma ex-aluna, por Merlin!
- Vá para o meio do inferno – vociferou Snape com aquele barítono perigoso digno de um discurso de primeiro dia de aula.
Madame Pomfrey se levantara para ir ver Moody, e logo voltou à cozinha.
- Eu recomendo St. Mungus – disse ela.
- Não mandamos nem Lupin para o St. Mungus – disse Harry.
- Pois é; Lupin não foi ferido por um feitiço – disse a medibruxa. – Muito menos de uma srta. Granger irritada.
- Com o que ela o atingiu? – perguntou Dumbledore calmamente.
- Sectusempra, pelo que posso dizer – disse madame Pomfrey.
Minerva olhou para Snape, que havia levantado a cabeça para a medibruxa.
- Você não está falando sério – disse ele.
- Você entende dessa melhor do que eu, Severo – disse madame Pomfrey.
Snape levantou-se e atravessou a parede destruída para ver um Moody aberto ao meio, sangrando. Ele fez uma careta.
- É, é um Sectusempra. De onde ela aprendeu isso?
- Você não sabe, Severo? – perguntou Minerva.
- Fui eu, professor – disse Harry, e todos olharam para ele, incluindo Snape. – Eu... eu lancei essa no Draco lá pelo meio do sexto ano, se o senhor se lembra.
- É, você estava usando o meu livro de Poções para se sobressair nas aula de Slugornh.
- Mais ou menos – admitiu Harry, e olhou para McGonagall. – Ela conhece esse feitiço por minha causa. Mas eu não sabia que ela era capaz de lançar esse...
- Diga um feitiço que Hermione Granger é incapaz de lançar, Potter – disse Snape num tom perigoso. – Eu provavelmente terei um destino parecido com o de Moody, mas vou subir mesmo assim.
- Severo, eu vou falar com a srta. Granger – disse Dumbledore.
- Não – disse Snape, e saiu rumo ao primeiro andar da casa.
Ela não estava no quarto dela, então ele subiu ao sótão. Ela estava lá no laboratório, com a cabeça baixa na bancada como tantas vezes ele estivera. Ele bateu na porta aberta e entrou. Ela não ergueu o olhar.
- Hermione, acho que você exagerou – disse ele cuidadosamente.
- Ah, ele está morto? – perguntou ela.
- Não, mas será mandado para St. Mungus.
- Então eu não exagerei – disse ela.
- Hermione...
Ela ergueu a cabeça e olhou para ele.
- Você disse ao professor Dumbledore para não me deixar sair e não me deixar saber de nada?
- Disse.
Ela abriu a boca para falar, mas fechou-a. Então se forçou a falar:
- Como você pôde fazer isso comigo?
- Porque eu queria que você continuasse segura – disse ele.
Ela fez uma cara de raiva, que logo se anuviou.
- Eu te odeio – disse ela antes que conseguisse segurar as palavras.
Por um momento, Snape ficou desnorteado. Ela poderia jurar que viu os olhos dele encherem de lágrimas, mas foi tão rápido que ela poderia ter imaginado. Logo ele disse com a voz inexpressiva:
- Eu mereço.
Ela quis se corrigir, mas Dumbledore apareceu ali.
- Severo, saia.
- Não vou sair – disse o professor entre dentes.
- Então ouça – o diretor olhou para Hermione com um ar terno. – Srta. Granger, eu sei que você está revoltada, mas entenda. Eu não poderia discordar de Severo. Imagine se toda vez que você saísse ele ficasse do modo como ficou quando você foi com Lupin ao Beco Diagonal. Eu teria meu único espião morto em dois tempos.
- Vocês poderiam ter sido honestos comigo! Vocês não sabem como me senti! – acusou ela com um grito revoltado.
- Eu não sei, mas posso imaginar – disse Dumbledore. – Espero poder consertar isso.
Hermione olhou para ele, e Snape fez o mesmo.
- Eu sairei com Harry para procurar o último horcrux que nos falta para podermos atacar Voldemort. Você pode se juntar a nós.
O sorriso que Hermione abriu rivalizaria com todas as estrelas do céu brilhando juntas. Snape engoliu em seco e disse sobriamente:
- O que eu lhe disse outro dia no laboratório ainda está valendo, Dumbledore – disse o professor, forçando uma voz fria.
O sorriso de Hermione sumiu, e agora ela parecia entre curiosa e assustada.
- Severo, a srta. Granger é uma menina inteligente, e ela já mostrou que sabe se defender – disse Dumbledore. – Dê uma chance a ela.
Snape fechou os olhos. Os rostos de Sarah e Angelina dançavam em sua mente.
- Eu falei sério naquele dia – disse Snape, e deixou o laboratório.
Dumbledore suspirou e sentou-se a uma bancada.
- Do que... do que ele estava falando, professor? – perguntou Hermione.
O diretor suspirou.
- Srta. Granger, o que você sabe sobre a razão de Severo ter voltado ao lado da Ordem? – perguntou ele gentilmente.
- Bom... nada, na verdade. Imagino que tenha sido algo terrível o que ele viu ou teve de fazer...
- Severo amava Lílian Potter – disse Dumbledore. O queixo de Hermione caiu. – Ainda a ama. Na época, ele achava que o amor que sentia por ela era a única coisa pura que existia na vida dele. Hoje ele olha para trás e ainda vê isso, mas acha que o amor que sentia por ela era um amor fraternal. Ele a protegia. Tiveram uma briga no quinto ano e nunca mais se falaram, mas ainda se gostavam. Quando Voldemort a matou junto com Tiago, ele o odiou e ainda odeia. Odeia com toda a força que só o amor é capaz de reunir. Por isso, naquela mesma noite, ele me procurou. E ele me disse, desde sempre, que só está ao lado da Ordem porque a Ordem está trabalhando contra Voldemort. E naquele dia no laboratório, depois que Harry contou a ele sobre a sua saída com Lupin e meus planos para ela, ele me disse que eu estava fazendo a mesma coisa que Voldemort havia feito.
Hermione tinha a boca aberta em espanto. Realmente, ela não fazia idéia de como Snape era, do que ele pensava, do que sentia.
- Ele disse que só estaria ao meu lado enquanto eu estivesse contra Voldemort e enquanto não jogasse você no meio do jogo. Lílian havia sido a única pessoa que ele amou. Até você. A única exigência que ele me fazia para ser meu espião e meu fantoche era manter você fora do jogo, fora da linha de fogo.
- Então... – Hermione suspirou. – Ele disse que não será espião para a Ordem se eu puder sair e ajudar vocês?
- Quase isso – disse Dumbledore. – Ele disse que ainda lutará contra Voldemort, mas não fará mais parte da Ordem. E trabalhará do jeito dele. Você conhece algo do jeito dele.
Hermione assentiu.
- O que ele disse agora há pouco...
- Que se você começar a participar das missões ele não estará mais aqui conosco.
- Mas isso é... é ridículo! – disse Hermione.
- Não é ridículo – disse Dumbledore, olhando para baixo. – Ele teme por tudo perder você. É o único medo que ele tem. Se você se esforçar você vai entender. Ele ama você, e ele teme que aconteça com você o que aconteceu com Lílian. Não deve ser tão difícil compreender.
- Só que ele se esqueceu de contar a minha felicidade no meio disso. Eu estou trancada enquanto meus amigos estão arriscando suas vidas. Ele não pensa nisso?
- Ele acredita que você está ajudando sem se arriscar. Você pode treinar seus amigos, preparar as poções necessárias. Pode ajudar sem precisar sair – Dumbledore suspirou. – Só espero que essa pequena concessão que lhe fiz não cause problemas.
- Não vai causar – disse Hermione levantando-se. – Eu vou conversar com ele, professor.
Hermione voou escadas abaixo. E não viu Harry parado do lado de fora da porta.
- Algum plano, professor? – perguntou Harry, sério, mas triste.
Dumbledore sacudiu a cabeça negativamente.
- Você não faz idéia do quanto é difícil lidar com Severo.
- Eu faço sim – disse Harry. – Antes eu o odiava porque achava que o que ele fazia é perseguição gratuita, mas quanto mais ouço dele mais o entendo. Deve ser tão difícil estar no lugar dele e ter que fazer o que ele faz, e ter e se preocupar com todos. Isso deve mexer com os miolos dele.
- Acredite, Harry, mexe – disse Dumbledore. – Eu não sei como ele vai reagir. Dessa vez, estou pronto a jurar. Ele tem algum plano, disso estou certo. Se ele não tivesse, teria avançado para mim com uma varinha em punho, como tantas outras vezes...
Harry cruzou os braços e encostou-se à parede. O clima estava tenso. Ali no laboratório e em toda a Mansão Black.
Hermione bateu à porta do quarto de Snape cem vezes, mas ele não abriu, então ela entrou lá. Ele não estava nem ali nem no banheiro. Ela desceu. Ela revirou a casa inteira. Ele não estava em lugar nenhum. Por fim, ela desceu ao quarto de hóspedes, em que Lupin estava terminando sua recuperação.
- Oi, Remo, o Severo passou por aqui?
- Não – disse Lupin, curioso. – Mas ouvi alguém dizer que ele aparatou sabe-se lá para onde.
Hermione ficou pálida e agradeceu ao lobisomem, deixando-o a sós. Aonde Snape fora? Será que fora para Voldemort? Não, impossível. Ele não faria isso. Era Voldemort que queria fazer mal a ela, não Dumbledore.
Será que Snape seria tão irracional? Não. Mas aonde ele fora, então? Se não fora para Voldemort, para onde mais teria ido?