Capítulo 10
Perseus
O corpo de Harry reagiu flácido ao puxão dado por Ginny e, pelo detalhe de um instante, os olhos do monstro não encontraram os seus. Ele jamais imaginou estar diante de algo assim. A mente de Harry parecia presa a um tipo de luta interna entre o que ele via e o que ele não queria acreditar ser real. Cada grito selvagem da górgone o congelava com a certeza de que iam morrer.
O rabo da cobra caiu com violência sobre a pedra que protegia a ele e Ginny e a rocha se desfez em pedacinhos. Novamente, foi a mão da menina que o salvou puxando-o para outro grupo de pedras. Agachados, os dois tentaram se afastar ao máximo da criatura. Os gritos da górgone soavam como medo líquido, injetando-se por seus ouvidos, descendo gelado pela garganta, paralisando suas entranhas.
Harry quis poder se separar desse lugar em que sua mente ficara prisioneira do pavor. Mas tudo o que ele conseguia perceber à sua volta, vinha da górgone. Seu corpo pesado e úmido se arrastando no chão num ruído nauseante. Os gritos horríveis, torturantes. As garras que arrancavam as formações de pedra do interior da caverna enquanto buscavam por eles. Demorou um pouco até que ele percebesse que duas mãos miúdas o sacudiam pelos braços.
– Não pense nela! Não pense nela! – O sussurro assustado de Ginny mal lhe chegava aos ouvidos. – Por favor, por favor... não pense nela! – Os olhos castanhos à sua frente suplicaram. – Não deixe tomar conta de você. É o poder dela: medo...
Lentamente, as mãos de Harry descongelaram e subiram até tocar os braços da menina. O ato de perceber algo além do pavor que ameaçava consumi-lo correu por ele fazendo seu sangue voltar a aquecer. Harry assentiu para Ginny e a menina respirou aliviada. Isso o fez voltar a se sentir senhor do próprio corpo. O pânico, o medo ainda estavam ali, mas se concentrar no fato de que ele tinha que salvar a garota fez sua mente começar, imediatamente, a fazer planos para sobreviverem.
Por algum estranho motivo, a górgone pareceu ter mudado de alvo e, ao invés de vir na direção deles, estava se afastando. A caverna ecoava com barulhos distintos, muito altos, ensurdecedores.
– Onde ela foi? – perguntou com urgência.
Ginny não conseguiu responder, apenas ergueu os ombros trêmulos. O rosto dela estava sujo de terra, lágrimas e muito, muito assustado. E isso o fazia muito real para Harry. Ele achou que olhar para ela era o único jeito de continuar lúcido. Sim, precisava ter isso em mente: ele estava ali para salvá-la! Ginny pareceu atemorizada que ele voltasse a se perder dentro do pânico.
– Fique comigo – ela pediu.
– Eu vou ficar – garantiu Harry e como prova segurou a mão dela com força. – Não vou abandonar você!
– O maior veneno dela é o medo – choramingou Ginny. – Você precisa se concentrar em alguma coisa que não seja ela. Não pode pensar nela ou vai ficar preso no medo. Por favor...
O garoto balançou a cabeça afirmativamente, mas algo faltava naquela lógica.
– Como vamos destruí-la sem pensar nela? – perguntou.
Ginny fez novamente uma expressão chorosa e amedrontada e Harry se apressou em tranqüilizá-la.
– Olhe, deixe que eu me preocupe com isso, certo? Você precisa continuar pensando em algo que a deixe segura. Qualquer coisa! Você consegue?
Ela o olhou com uma nova firmeza e balançou a cabeça.
– Ótimo – resfolegou Harry – e eu vou cumprir a promessa que fiz a você, certo? Eu...
– ROOON!!
O novo berro os fez saltar no mesmo lugar e algo viscoso e pesado desceu por dentro do peito de Harry. Sem soltarem as mãos, eles se voltaram para tentar olhar, cuidadosamente, além da pedra grande que os protegia. No instante seguinte, ele e Ginny gritavam também. Hermione estava inerte, presa pela cauda da górgone, e a criatura a balançava com repetida violência. Tudo foi muito rápido. Ron largou as pedras com as quais ele e Hermione tentaram distrair a criatura de perseguir Harry e Ginny; e, munido da espada, investiu sem nenhum cuidado contra a górgone. Nem houve tempo para eles gritarem novamente. Ron tinha se convertido numa forma cinzenta e sem vida. Ele, a espada, as roupas, tudo havia virado uma massa de pedra.
Harry precisou rapidamente segurar Ginny que tentou correr para o irmão, mas não havia mais o que fazer por ele. O monstro sequer prestou atenção à nova estátua, humana demais para o resto das estruturas de pedra. Ela olhou sobre o ombro e balançou mais uma vez o corpo mole de Hermione. Depois, jogou-a longe. Hermione se chocou contra uma das paredes da caverna com um estrondo e caiu no chão, inconsciente. Harry só teve tempo de puxar Ginny para baixo e se esconderem antes que a górgone se voltasse na direção dos dois. A raiva fazia companhia ao medo agora e Harry se apegou à sua força para que sua mente não voltasse a se perder. Um fio de razão nasceu dali.
– Ginny – chamou fazendo a menina segurar os soluços e olhá-lo – me escute. Você não pode morrer, entendeu? Você é a chave disso. Se você morrer, todos os outros morrem. Você tem de ficar viva!
– Mas... Ron e Mione...
Harry sabia que estava mentindo, porém tinha de tentar convencê-la.
– Hermione deve ter desmaiado e... o Ron... Ginny, eu tenho certeza de que deve haver alguma mágica para ajudá-lo. Agora, me escute, isso é importante: há uma entrada do outro lado da caverna. Você vai correr para lá, sair daqui e buscar ajuda enquanto eu a distraio, certo?
Ginny apertou a mão dele com mais força e negou com a cabeça.
– Eu não conseguiria... eu não vou sair sem você... e Ron... e...
O garoto passou rapidamente o braço sobre os ombros dela, mas não podia deixá-la chorar. Eles não sobreviveriam assim. Harry precisava pensar num jeito de escaparem e ainda tinha de lutar contra a própria dificuldade em aceitar que toda aquela situação era real e não um pesadelo do qual ele iria acordar. Lembrar que, há pouco mais de uma semana, apanhar do Dudley era o maior perigo que ele corria, também não ajudava.
Por outro lado, ela tinha razão em uma coisa. Harry não conseguiria distrair o monstro por muito tempo. A górgone poderia matá-lo e pegar Ginny com muita facilidade. Uma sensação de derrota o fez baixar a cabeça. Tinha de haver um jeito. Se Ginny morresse toda a casa estaria condenada. Seus pais, Remus, Sirius, Hagrid, Little Jonh... não restaria ninguém. Ele não podia simplesmente deixar que isso acontecesse. Não podia perder tudo, não agora.
Seus olhos bateram no escudo. Ainda estava preso ao seu corpo e jazia torto sobre suas pernas. Ele e Ginny estavam ali refletidos, abraçados, assustados. A mente dele pareceu se mexer do torpor e começar a trabalhar com uma impressionante rapidez. Harry ergueu o escudo e viu a imagem ainda mais nítida. Levantou um pouco mais e pode ver o topo da cabeça da górgone. Ela vinha na direção deles. Uma idéia maluca começou a tomar forma na sua mente. Não sabia nada sobre criaturas mágicas, mas sabia uma coisa sobre criaturas vivas: a maioria delas não continuava viva por muito tempo se não tivesse sua cabeça bem colada nos ombros. E talvez houvesse um jeito de chegar perto da górgone o suficiente para descolar a serpente da cabeça cheia de cobras.
Ginny acompanhou o seu olhar.
– O que você...?
Harry não respondeu. Tirou a alça do escudo e o prendeu ao braço esquerdo. Desembainhou a espada com a mão direita.
– Ginny? Você pode fazer uma coisa? Role umas pedras para o outro lado da caverna, talvez isso a distraia.
– Ela pode nos farejar – retrucou a menina.
– Certo... – nada estava certo, mas ele precisava manter a fé. Respirou profundamente. Só havia uma possibilidade. Teria de fazer a górgone vir até eles e abatê-la antes que ela os atacasse.
Avaliou o lugar em torno deles. Ele precisaria ficar em pé e não agachado como estava. Logo ao lado, havia uma coluna de pedra, porém assim que ele se movesse até lá, chamaria a atenção da criatura. Só que chamar a atenção era o que ele queria naquele momento, certo? Não. Na verdade, ele estava imaginando qual seria o momento em que seu pai apareceria pela porta e os salvaria. Contudo, seu pai não estava ali. Ninguém sabia que eles estavam ali e pela primeira vez Harry brigou consigo mesmo por não ter dado ouvidos a Hermione. Eles estavam sozinhos e a própria Hermione estava... Não! Se recusou a pensar nisso. Se ela estivesse, a culpa era dele, mas ainda assim, era preciso salvar Ginny. Virou-se para a menina.
– Fique aqui! O mais quieta que puder, está bem?
– Aonde você vai? – Harry apontou com a cabeça para a coluna de pedra. – Ela vai vê-lo!
– Eu sei... – tentou dar a sua voz mais firmeza do que realmente sentia. – Vai dar certo Ginny. Confie em mim.
– Eu confio – ela garantiu com mais fé do que Harry gostaria que ela tivesse nele.
Enchendo os pulmões de ar, Harry deu um impulso e correu para a nova posição. Ele soube que tinha sido visto quando um grito de júbilo selvagem voltou romper em seus ouvidos. A górgone começou a se arrastar mais rápido na direção deles e Harry ergueu o escudo até poder refletir cada movimento dela. Concentrou-se em calcular o tamanho da criatura. O corpo da serpente era imenso, mas a parte semi-humana que se erguia era pouco mais alta que ele. Depois, considerou o giro do corpo que teria de dar para acertar-lhe a cabeça. Pelo escudo, a górgone era feia e repulsiva, mas Harry podia olhá-la e perceber cada uma de suas fragilidades e como poderia lutar. Os braços eram finos e as garras, mesmo assustadoras, não eram maiores que as mãos de uma mulher. O pescoço alto e fino. Os olhos malévolos, mas pouco humanos, bestiais.
Talvez até tivesse sido fácil, se a criatura tivesse qualquer interesse em Harry. Mas ela não tinha.
Há poucos metros deles, a górgone parou e colocou a língua bifurcada para fora, provando o ar. A boca se arreganhou sobre as presas de serpente. Num movimento muito rápido, o rabo da cobra se ergueu no ar e, quando desceu, arrebatou Ginny do esconderijo, elevando-a vários metros acima do chão.
– NÃO!
Harry se esqueceu de olhar a criatura pelo escudo e só não foi petrificado porque ela estava interessada demais em sua presa. Ginny fechou os olhos com força, mas a górgone não parecia ter qualquer intenção de petrificá-la. Esquecendo completamente da presença de Harry, o monstro pôs toda a atenção na menina. Ela ergueu Ginny para o alto e todas as cobras verdes e vivas que saíam de sua cabeça se eriçaram excitadas, mostrando as presas e se inclinando para o corpo da garota. Era como se um estranho vento ondulasse a cabeleira, pois as serpentes todas agora se esforçavam para atingir Ginny. O horror tomou conta de Harry quando ele as viu começarem a atingir seu intento e picarem a menina. Essa devia ser a tortura. Ginny se curvava sobre si mesma urrando com a dor.
A raiva mexeu com Harry de um jeito que ele jamais havia sentido. Num assomo de força e decisão, ele empunhou novamente o escudo e voltou a se aproximar, andando de lado e cuidando os movimentos da criatura. O erro dela seria não lhe dar atenção. Mas, afinal, ela talvez não compreendesse como ele conseguia chegar tão perto. Mágica ou não mágica, com um corpo semi-humano ou não, aquela criatura era mais animalesca e mais tosca que ele. Harry se apegou a isso. Apegou-se a sua raiva, sua vontade de sobreviver, de salvar Ginny e os outros. Apegou-se ao fato de que ele realmente tinha um plano.
Por duas vezes, a górgone parou de torturar Ginny e o considerou. Seus olhos amarelos com fendas negras bateram vazios no escudo dele. Harry parou de se mover imediatamente, mas a criatura não pareceu perceber a diferença e voltou a colocar sua atenção em Gina. O garoto já estava bem perto agora. Um único golpe seria o suficiente. Um único golpe era tudo o que ele teria. Se errasse, estaria morto e logo, Ginny também.
Um lamento mais alto da menina deu a Harry o resto de coragem de que ele precisava. Respirou fundo e projetou o corpo com passos rápidos até girar a espada dos Potter no ar. Quando a lâmina fechou o círculo, ele compreendeu que havia falhado. Nenhuma resistência se opôs quando a espada atravessou o ar. Harry resfolegou esperando a morte e então ele viu o sangue escorrendo pela lâmina. Só depois ouviu o barulho. Um baque seco e algo rolou, outro baque e um pequeno lamento feminino. Finalmente, o ar ficou quase silencioso, somente um guiso fraco informava que os cabelos de serpente da górgone ainda protestavam.
O garoto se virou e pode ver, caído de bruços, o corpo de mulher que se estendia num longo rabo de cobra com escamas azuis. Uns poucos espasmos ainda o sacudiam. Há alguns passos dali, a cabeça jazia com a boca aberta de espanto e os olhos definitivamente fechados. As pequenas víboras verdes dos cabelos, morrendo, uma a uma.
Ele soltou a espada e o escudo e correu para Ginny. A menina tremia, enquanto tentava levantar e sair do meio das voltas do corpo serpentino da górgone. Harry a ajudou.
– Como você está?
Ginny tentou responder, mas os joelhos dela fraquejaram. Harry a segurou com mais força pela cintura.
– Você está envenenada – concluiu preocupado. Nem mesmo conseguiu sentir alívio por ter derrotado a criatura. – Vou tirar você daqui, Ginny. Precisamos de ajuda.
– Ron... – ela falou num fio de voz.
– Eu volto depois para...
Harry ergueu a cabeça para conferir a versão petrificada de Ron, mas a estátua não estava mais lá. Um Ron de carne e osso, com o rosto ainda muito pálido, se arrastava com movimentos duros na direção deles.
– Ron! – Harry gritou feliz e o outro se esforçou para sorrir. – Como?
– Acho que – ele deu um passo com as pernas endurecidas e mirou o corpo da górgone com asco – quando “isso” morreu, o poder dela terminou também. O que foi que matou... – Ron parou os olhos na espada ensangüentada um pouco adiante e engoliu em seco. – Uau... Foi você?
– É, foi – respondeu Harry, mas ele não tinha tempo para a admiração de Ron. – Ginny foi envenenada. E Hermione está ferida. – Ron se virou para os dois lados procurando pela outra menina. – Precisamos tirá-las daqui!
– Certo! Eu...
O plano de Ron morreu na primeira palavra. Harry acreditou que tinha visto o dia nascer dentro da caverna quando, junto à entrada, surgiu o rosto preocupado de James, depois o de sua mãe, Sirius e Remus. Agora tudo ficaria bem.
Horas mais tarde, Harry achou que, talvez, tivesse se precipitado um pouco em acreditar que sairia completamente ileso da aventura.
Depois que Ginny e Hermione foram socorridas, foi decidido que o melhor seria queimar o corpo da górgone e, com ele, o feitiço feito contra a casa dos Potter. Hagrid ficou responsável por incinerar e selar a entrada da caverna. Enquanto faziam o caminho de volta, Remus fez com que Harry e Ron repetissem até a exaustão cada detalhe do que tinha acontecido. Harry imaginou que a maior preocupação do capitão da guarda do seu pai fosse descobrir como a górgone havia ido parar no subsolo do castelo Potter. Sirius também quis saber tudo em detalhes, mas sua disposição era outra. Ele ouvia os garotos e chegava a repetir os pormenores em voz baixa, rindo, como quem decora para poder contar mais tarde. Estava orgulhoso do afilhado e Harry lhe lançou vários olhares agradecidos.
Os pais de Harry o tinham abraçado assustados e passaram um bom tempo verificando se ele estava fisicamente inteiro. Lily ficou muda por um longo tempo e Harry a conhecia o suficiente para saber que isso significava que ela estava revendo cada uma das horríveis possibilidades que felizmente não haviam acontecido. Depois, ela passou a murmurar continuamente: “O que eu faço com você?” Enquanto voltava a abraçá-lo e a conferir sua integridade. Harry implorou que ela parasse quando aquilo começou a ficar embaraçoso.
Mas foi a atitude de James que mais preocupou Harry. Ele não recebeu nem um único comentário do pai, fosse sobre o que fosse. Ele não pareceu bravo e assustado como no episódio da floresta. Mas tampouco exibia o sorriso orgulhoso de Sirius ou impressionado de Remus. Harry estava um pouco chateado com isso. Afinal de contas, mesmo tendo sido temerário, ele tinha se saído muito bem. E ele nem ao menos conhecia muitos feitiços. Claro que tinha tido sorte e, sem dúvida, o apoio de Ron, Hermione e Ginny fora fundamental. Mas ainda assim, ele tinha se saído bem e o pai mal lhe dirigira a palavra enquanto a Sra. Weasley cuidava dos ferimentos deles, preparava-lhes banheiras de água quente e os acomodava para dormir. James estava decepcionado com ele, só podia ser isso. E não fosse o seu cansaço, a atitude do pai, certamente, o teria deixado acordado a noite toda.
O fato é que, mesmo tendo dormido, Harry nem conseguiu aproveitar o que foi, provavelmente, a noite mais confortável e luxuosa de sua vida até aquele momento. Ele tinha ganhado um quarto só para ele, mas somente pode apreciar os detalhes na manhã seguinte. Era amplo e tinha uma janela alta com banco no caixilho. Dali era possível ver o lago e as colinas verdes que cercavam o castelo. Harry deduziu que estava em uma das torres traseiras da construção. Cortinas pesadas cobriam a janela que tinha o mesmo tipo de vidro da sala de jantar.
A sua nova cama, porém, lhe parecera ainda mais impressionante. Harry avaliou que umas três pessoas poderiam dormir ali com folga, desde que nenhuma delas não fosse o tio Vernon ou o Dudley. O colchão fofo era de penas de ganso e dos lados da cama se erguiam altos postes de madeira, de onde caíam cortinas como as da janela. Havia também uma lareira, um lavatório, uma cadeira e até uma pequena mesa. O luxo todo, porém, não estava só no ambiente. Harry quase caiu para trás quando viu as roupas que o esperavam quando acordou. Calças, botas novas e uma túnica num verde profundo, bordada com galões de ouro que se repetiam no cinto. Era tão refinado que o garoto se sentiu muito desconfortável ao vesti-las. Em sua vida anterior, ele não usaria algo como aquilo nem se estivesse indo se casar.
Um elfo doméstico cheio de mesuras lhe trouxe o desjejum no quarto, mas Harry não conseguiu comer muito. Ainda pensava em quando James o chamaria. O pai teria de lhe falar em algum momento, certo? E Harry teria de ouvir a decepção dele e, talvez, tudo no relacionamento deles desse para trás por causa disso. Afinal, havia uma coisa que até um camponês ignorante como Harry sabia: um lorde era responsável por todos os seus, e Harry tinha arriscado as vidas de Ron e Hermione, que era sua tia e irmã do seu pai. Sim, James tinha todas as razões para estar decepcionado com ele.
Uma batida leve na porta o arrancou desses pensamentos. A Sra. Weasley colocou a cabeça para dentro.
– Bom dia, querido – cumprimentou carinhosa abrindo a porta. – Dormiu bem?
– Sim, Sra. Weasley. Obrigado. Como estão Ron e Ginny?
Ela inspecionou o arranjo das roupas de Harry por um instante antes de responder.
– Estão ótimos. Ron está em perfeito estado e Ginny já não tem mais febre. Ah você não imagina como a minha menina ficou empolgada em saber que era você que a tinha salvado. Ela disse que você não tinha lhe dito sequer o nome.
Harry sorriu de lado.
– Acho que não deu tempo.
A Sra. Weasley se aproximou e começou a ajeitar a disposição da túnica dele, sem sequer consultá-lo e depois falou.
– Ela quer agradecer pessoalmente, claro, agora que está melhor.
– Não precisa – respondeu Harry, um pouco sem jeito. Porém, teve a impressão de que a Sra. Weasley não o ouviu, pois ela continuou a tagarelar, agora tentando baixar seu cabelo rebelde.
– Os irmãos dela também querem lhe agradecer e, se você disser quais são suas comidas favoritas eu vou fazê-las pessoalmente para você poder apreciá-las todas no almoço.
– Realmente, Sra. Weasley eu... – ele parou no olhar ansioso dela – eu gosto de tudo.
– Ah querido! Você é um rapazinho adorável, sabia? É muito bom tê-lo de volta ao lar. – Ela pareceu finalmente desistir de tentar controlar o cabelo espetado de Harry com um suspiro resignado. – Agora, se você já se alimentou, venha, querem falar com você.
Harry sentiu o estômago contrair e maldisse o pão branco que tinha engolido.
– Er... o meu pai?
Ela sorriu bondosamente.
– Sim, sim. Ele também. Venha.
Harry a seguiu enquanto era guiado por inúmeros corredores e salas e mais salas até chegarem a um gabinete que ficava, conforme lhe informou a Sra. Weasley, na torre mais ao sul. Como quase todas as salas e quartos importantes, ali também havia uma lareira, mas o lugar tinha um ar mais formal. Havia uma estante com alguns livros e pergaminhos. Uma mesa com penas e tinteiro. E várias cadeiras. A janela dava para uma parte do rio, mas era possível ver dali a estrada que levava a Godric’s Hallow.
– Aguarde um instante, está bem querido? – Ela disse entrando com ele na sala e fechando a porta. – Logo virão chamar você.
Harry assentiu. Molly Weasley lhe deu um pequeno sorriso e seguiu para uma segunda porta que Harry não tinha notado quando chegara. Ela passou rápido, mas o garoto conseguiu perceber que havia muita gente ali. As vozes cessaram assim que ela fechou novamente a porta pesada. O garoto desejou que aquilo não demorasse muito.
Mas demorou. Já tinha cruzado a sala umas cem vezes quando ouviu alguém mexer na porta. Levou ainda um instante para perceber que o barulho vinha da porta do corredor e não da que ele esperava ver surgir James e os outros. O rosto sardento de Ron apareceu ali.
– Oi – ele disse, um pouco incerto.
– Oi! O que você...?
Alguém empurrou Ron. Hermione apareceu no vão da porta.
– Por que o trouxeram para cá? – ela perguntou num sussurro.
– Não estou bem certo. A mãe do Ron disse que queriam falar comigo. Como você está? –
Hermione considerou a outra porta antes de responder.
– Bem, bem – disse desinteressada. Depois continuou: – James ficou muito estranho ontem quando falou comigo. Nunca o vi reagir tão duro.
– Ele está zangado comigo, não está?
– Acho que sim – respondeu Hermione como quem pede desculpas.
– Isso não é justo – disse uma outra voz, mais baixa, ainda no corredor.
Harry ergueu-se na ponta dos pés e viu Ginny se espremendo junto com os outros. Ficou um pouco desgostoso com isso. Ela e Hermione deveriam estar na cama.
– Vocês não deveriam estar aqui – sussurrou, ríspido, indo até a porta. – Eu me viro sozinho. Vocês duas deveriam estar se recuperando e você também Ron. Aliás, por que as deixou virem?
O rosto de Ron refletiu incredulidade.
– Ok, você realmente não conhece essas duas se imagina que eu poderia segurá-las em qualquer lugar.
Hermione rolou os olhos.
– Saia da frente Harry. Vamos esperá-los com você. – Ela forçou a porta, decidida, e entrou com Ron e Ginny em seu encalço.
– Mas eles querem falar comigo! Ninguém vai punir vocês. A responsabilidade é minha. Fui eu quem arriscou a vida de vocês.
– Fomos com você por nossa vontade – garantiu a garota. – Se James quer ficar zangado com você, vai ter de ficar comigo também. Ele não vai punir Ron, porque afinal, era a irmã dele.
Ainda com a mão segurando a porta, Harry os mirou, um pouco exasperado, mas grato.
– Certo. Mas Ginny não precisa ficar. Ela foi a vítima. – Não lhe agradava o fato de ser admoestado pelo pai por salvá-la, na frente dela.
– Então, ninguém melhor que eu para defender você, não é? – ela falou corando violentamente, mas sustentando o seu olhar.
Harry negou com a cabeça, derrotado, e fechou a porta. Ótimo! Seria humilhado em frente aos seus novos amigos. Quanto tempo demoraria para que aqueles olhares de admiração virassem desprezo por sua incapacidade de agir como um lorde cuidadoso e protetor?
A resposta viria logo, pois nesse instante a outra porta abriu e o rosto sorridente de Sirius apareceu ali. Ele demonstrou alguma surpresa em ver os outros três, depois, seu sorriso virou uma risada que parecia um latido alto e divertido.
– Ora, ora... devíamos ter imaginado algo assim. Bem, acho que você é ainda mais esperto que o James, Harry. Incluiu garotas. Venham! – chamou ainda rindo.
Hermione e Ron se colocaram imediatamente ao lado dele e Ginny fechou o grupo, muito decidida. Mesmo sem entender completamente o comentário do padrinho, Harry se sentiu muito grato por ter os três com ele. A lealdade deles o comoveu e o fez se sentir mais forte, embora a idéia da humilhação ainda o queimasse por dentro. Como um bloco, os quatro entraram na sala ao lado.
Era um aposento largo e arejado por uma janela grande. Havia algumas cadeiras encostadas às paredes e com uma poltrona confortável colocada no centro, de costas para a janela. Harry imaginou que fosse um lugar onde o seu pai recebesse audiências e arbitrasse a justiça junto aos camponeses e servos. Afinal, era o que, em geral, os lordes faziam. Porém, não era James que estava ocupando a cadeira mais alta naquele momento, e sim um simpático e imponente Alvo Dumbledore. Harry sequer conseguiu esconder a felicidade de vê-lo ali. Remus, Artur, Molly e Lily também estavam na sala. Todos receberam o garoto com amplos sorrisos. Menos James. O pai estava próximo à janela e estava mais sério do que Harry jamais o vira. Os adultos não pareceram incomodados, embora estivessem claramente surpresos, com a pequena comitiva que acompanhava o garoto.
– Bom dia, Harry! – Saudou Dumbledore, alegremente. – Eu realmente não esperava revê-lo tão cedo, mas confesso que, apesar da situação, estou muito satisfeito em reencontrá-lo.
– Eu também, senhor – Harry respondeu com um sorriso e se adiantou para apertar a mão estendida do Grande Alquimista.
Afinal, se Dumbledore estava satisfeito não poderia ser tão ruim, não é? Olhou ansioso para o pai, mas James mantinha os olhos no lado de fora da janela. Seu sorriso murchou. Lily avançou pela sala e lhe deu um beijo na bochecha. Harry ficou um pouco surpreso com a figura da mãe. Ela havia abandonado as roupas masculinas e, seu novo cabelo ruivo, escuro e brilhante, parecia ainda mais evidente em contraste com o vestido claro, encimado por uma sobre-túnica azul. Harry ainda a estranhava ruiva, mas não podia negar que ela estava simplesmente maravilhosa com o novo (antigo) cabelo e as roupas femininas e luxuosas. Ao contrário dele, Lily parecia em seu elemento.
Dumbledore ergueu a varinha e, com um floreio, fez aparecerem mais quatro cadeiras no meio da sala.
– É melhor você e seus amigos se sentarem, Harry. Temos coisas importantes para conversar – disse suavemente Dumbledore.
Os quatro trocaram um rápido olhar e obedeceram. Cada um deles ocupou uma das confortáveis cadeiras de campanha – dessas que se abrem, sem espaldar e com apoios para os braços – conjuradas pelo mago.
– Espero que não tenha se chateado em nos esperar, Harry, mas precisávamos discutir todas as possibilidades antes de lhes trazer as boas e... as más notícias.
A seriedade de Dumbledore nas últimas palavras fez Harry franzir a testa. Tinha sido muito tolo em preocupar-se apenas com as reações do pai às suas ações. Obviamente havia coisas mais sérias, como, por exemplo, a presença de um monstro nos subsolos do castelo que agora era a sua casa, ou o terrível feitiço que amarrava o destino de todos ao de Ginny. Ele lançou um rápido olhar para a menina, para conferir se ela parecia saudável. Ginny baixou o rosto imediatamente e corou. Harry voltou a mirar Dumbledore.
– Posso saber as boas, primeiro?
Os olhos azuis do alquimista faiscaram de divertimento.
– Com certeza. Creio que você vai ficar muito satisfeito em saber que o feitiço “mata-casa” foi completamente destruído, juntamente com a górgone que você tão valentemente matou.
Um peso deixou Harry e ele trocou olhares felizes com Ron, Hermione e Ginny.
– Sim, sim – Dumbledore acompanhou o alívio deles. – Vocês têm razões para estarem realmente orgulhosos. É claro que vocês três não deviam ter ido até lá sozinhos. E com certeza teria sido muito mais prudente e seguro pedir ajuda. Ainda assim, não posso deixar de parabenizar sua coragem e ação precisa contra a criatura.
James pigarreou alto.
– Obviamente que nenhum de nós espera que vocês repitam algo assim – completou Dumbledore e seu olhar foi direto para Harry. O garoto se apressou em concordar. Se aquilo era o que ele receberia de advertência, estava feliz em aceitar o que fosse.
– O problema, Harry – disse Remus, entrando na conversa – não é somente o que aconteceu, mas o que isso significa.
– É – comentou Sirius. – E essas é que são as más notícias.
– Entenda, Harry – prosseguiu Dumbledore chamando a sua atenção – o que ocorreu foi um ataque frontal a James e não temos dúvidas de que esse ataque veio de Voldemort e seus seguidores.
– E – continuou Remus – eles nem ao menos sabiam que você já estava novamente conosco. Portanto, o ataque não visava atingir a um dos meninos da profecia, mas unicamente ao James, como um dos líderes daqueles que se opõe a Voldemort.
Harry buscou o rosto do pai, mas James sequer havia se movido de sua posição junto à janela. Lily tinha os olhos presos às costas dele.
– Er... o senhor tem idéia de por quê? Quero dizer, o ataque e...
– Bem, - Dumbledore se recostou na cadeira e uniu os dedos longos em frente ao corpo – reunimos uma boa quantidade de palpites aqui. Acho que o mais significativo deles é o de que podemos esperar uma ação agressiva de nosso inimigo, para breve.
O sangue desceu do rosto de Harry.
– Breve quando?
Foi Sirius quem respondeu.
– O feitiço mata-casa leva cerca de um ano para agir completamente. Achamos que o tempo programado por Voldemort seja esse.
– É claro – seguiu Remus – que com os últimos acontecimentos, os planos dele podem mudar. Talvez, ele prolongue esse tempo.
– Ou o encurte – arrematou Dumbledore. – Talvez ele tente ataques mais ousados. E, de toda forma, não sabemos como ele agirá quando souber que você foi encontrado. – Ele se curvou para frente e encarou Harry com seriedade. – O que precisamos, Harry, é que você compreenda toda a complexidade de sua posição. Não podemos esconder sua existência aqui. Isso vai vazar, de uma forma ou de outra. Você ficará visível e vulnerável. Não há bruxo que não saiba que Voldemort quer você e muitos podem se sentir “tentados” a entregá-lo, seja por uma recompensa, seja para eliminar uma ameaça pessoal ou familiar, seja por pura ambição. Voldemort tem muitos meios de conquistar adeptos e seguidores, Harry. Você compreende isso?
O garoto balançou a cabeça para baixo.
– Ótimo. Agora veja – Dumbledore fez um gesto amplo para a sala – cada pessoa que está aqui, nesse momento, jurou defendê-lo com a própria vida se for necessário. Então, embora eu lhe peça cautela, eu posso afirmar também que você está o mais seguro que poderia estar em qualquer outra situação em nosso mundo.
Harry ficou sem saber o que dizer. Olhou todos os rostos da sala. O casal Weasley era o que sem dúvida parecia mais satisfeito em revelar-lhe aquele juramento. Talvez achassem que aquilo lhe soasse como um agradecimento por ele ter salvado Ginny, mas Harry se sentiu péssimo. Não queria ninguém jurando que morreria por ele. Respirou fundo e abriu a boca para protestar, mas foi interrompido por Hermione.
– Senhor... – ela chamou humildemente e Dumbledore a olhou, atencioso. – Acho que devemos nos preocupar também em treinar Harry o mais rápido possível, não é?
– Com certeza. Você tem toda a razão, minha cara. E eu conto com suas habilidades para isso. Eu mesmo vou procurar mestres que possam periodicamente vir até aqui e incrementar os estudos de Harry e, claro, acho que vocês se juntarão a ele nisso, não?
Hermione assentiu, mas os dois irmãos Weasley pareceram incertos. Dumbledore sorriu para eles.
– Acho que Harry precisa de amigos capazes e muito bem treinados – assegurou, olhando-os por sobre as lentes de vidro. Ron e Ginny pareceram gostar da idéia.
Harry, porém, resolveu chamar novamente a atenção para o assunto que mais o preocupava: o dos ataques de Voldemort.
– Um ano? – ele questionou.
– É só uma data, Harry – falou Sirius. – Pessoalmente, acho que ele vai se reorganizar já que seu truque com a “cobra” não deu certo. Teremos mais tempo.
James rosnou alguma coisa.
– Eu tendo a concordar com Sirius, James – assegurou Dumbledore. – Voldemort precisará de tempo agora. Eu duvido que ele não se sinta curioso a respeito de Harry. Ainda mais quando souber como ele agiu diante da górgone. Tentar eliminar um bebê é uma coisa. Harry é um rapaz agora. Acho que seria possível afirmar que Lord Voldemort vai ficar muito interessado em saber mais a respeito do jovem que ele acredita ter sido marcado para ser seu inimigo. A curiosidade dele nos dará tempo.
Não foi difícil para Harry perceber que gostava tão pouco da curiosidade de Voldemort a respeito dele quanto dos seus ataques. O bruxo provavelmente perceberia que nada tinha a temer vindo dele e voltaria a atacar James com força total.
– Por que vocês acham que ele planejou este ataque agora? – perguntou.
– Um conjunto de coisas – respondeu Remus. – Mas acho que podemos contar a ausência de Ricardo e o fato do Príncipe John ter assumido a regência. Essa conjuntura, com certeza, será fontes de problemas. É possível prever o aumento das hostilidades entre bruxos e comuns, e até alguns massacres. E, com certeza, John, ao invés de tentar acordos entre os senhores bruxos e comuns, vai fazer tudo para que as coisas piorem. Ele próprio vai incentivar as brigas entre normandos e saxões. Sei que parecem lutas separadas, mas não são. Ambos os lados usarão os bruxos como vilões. Uma guerra civil generalizada é tudo o que John precisa para dar um golpe no trono.
– E é tudo o que Voldemort precisa para alcançar grandes poderes e se livrar de Jonh assim que ele deixar de ser necessário – arrematou Sirius. – Além disso, não podemos esquecer que teremos um dos seus cães bem no nosso quintal.
– Sirius – Dumbledore chamou amigavelmente, mas sua voz era muito firme. – Severus não será um problema.
– Snape É um problema, Dumbledore.
– Ele já deu mostras...
– De que odeia James? – interrompeu Sirius. – Muitas. O tempo todo. Você pode confiar nele, Dumbledore. E eu não tenho idéia de como ele o convenceu de suas boas intenções. Mas para mim, Snape continua sendo o que sempre foi. É um deles que se aproximou de nós para bancar o leva e traz. – O padrinho de Harry não escondia nem o desgosto nem o ódio pelo novo xerife. – Eu definitivamente não o vejo saindo do seu caminho para dar qualquer apoio ao James.
– Você o julga muito mal, Sirius – disse Lily, falando pela primeira vez. A voz dela foi a única coisa a fazer com que James mudasse de posição e olhasse para a sala. – Foi ele quem nos avisou sobre Voldemort estar atrás do Harry.
– Sua ingenuidade às vezes me comove, Lily – o comentário seco de James fez o rosto de Lily se tingir como uma beterraba e Harry ficou esperando a explosão.
Felizmente, Dumbledore foi mais rápido.
– Eu sei que temos divergências a respeito de Severus, mas vocês mesmos votaram em mim como líder e eu reafirmo minha posição de confiança nele. Porém, posso colocar minha posição à disposição, caso vocês achem que estou velho demais para conduzir essas coisas.
Um silêncio pesado baixou na sala. Foi Artur quem o interrompeu.
– Ninguém quer que você deixe de ser o nosso líder, Dumbledore. Se você diz que devemos confiar em Seveurs, então... – ele pareceu um pouco desconfortável em continuar, mas depois tomou coragem e prosseguiu – acho que James e Sirius poderão passar por cima das divergências da juventude. Estou certo? – os dois homens desviaram os olhares contrafeitos, mas Remus incentivou Artur a prosseguir. – Afinal, o que todos queremos é a segurança de Harry, não é?
O pai de Harry baixou a cabeça e não retrucou. Era fácil notar que ele respeitava Artur e que ninguém ali levantaria a voz para ir contra as decisões de Dumbledore. Sirius fez um muxoxo e sentou resmungando, mas também ficou quieto sob o olhar insistente do alquimista. Por fim, Dumbledore sorriu e juntou as mãos, satisfeito.
– Ótimo. Acho que isso é satisfatório. – Ele bateu as mãos uma na outra e mudou para um tom de animação. – Agora, temos que nos preocupar com a agradável oportunidade de ver Harry desenvolver todos os seus talentos. Mas, acho que antes poderemos almoçar, não é mesmo Molly?
– Ah! Claro! – a Sra. Weasley se mexeu como se tivessem acendido um pavio, nela. – Eu vou providenciar já e... – fim da frase se perdeu porque ela saiu pela porta.
– Eu tenho mais uma pergunta – Harry interrompeu o movimento de sair da sala dos outros.
– Com certeza, meu rapaz – concordou Dumbledore. – E qual seria?
– Como aquele bicho veio parar aqui? A górgone? Quem teria feito o feitiço? Ginny disse que só viu a criatura.
Ele soube imediatamente que tinha chegado ao âmago da questão. James se apoiou na janela e Harry percebeu que as mãos do pai tremiam. Remus tinha os olhos no amigo e Sirius baixou a cabeça e mirou os pés. Lily olhava diretamente para frente, como se algo brigasse dentro dela.
Dumbledore deu um profundo suspiro antes de responder tristemente.
– Somente podemos supor, Harry. Provavelmente, bruxos ligados a Voldemort a tenham trazido para a região e elaborado o feitiço. Ele não se envolveu, pois tenho informações de que ele não tem se afastado de Londres por estes dias. Então, só pode ter sido algum ou alguns de seus seguidores.
– Malfoy – rosnou Sirius e, dessa vez, Artur concordou enfaticamente com ele.
– É possível, mas não temos provas, Sirius.
– Vocês os encontraram na estrada?
– Não, Harry – respondeu Remus. – Quando sua mãe notou que você havia desaparecido, ela nos chamou e nós voltamos imediatamente.
Dumbledore voltou a se virar para Harry.
– O mais incômodo disso tudo é que, só alguém com acesso ao castelo é que poderia ter deixado a criatura fazer uma toca sob ele.
– O senhor quer dizer...
– Sim, Harry. É o que quero dizer. Ainda temos um traidor. E muito próximo. Por isso – ele se inclinou e olhou diretamente nos olhos do garoto – eu gostaria de pedir a você muito, mas muito cuidado mesmo. Você precisará ter muita certeza para saber em quem deve confiar.
Aquilo soou de forma horrível para Harry. Especialmente, pelo efeito que teve sobre os rostos de James e Lily. Sua mãe parecia alguém preso em uma armadilha e seu pai... James arrancaria o caixilho da janela se fosse mais forte do que era. Remus caminhou até ele e pôs a mão em seu ombro. O silêncio se prolongou até que Dumbledore se levantou e gentilmente tomou as mãos de Lily.
– Acalme-se, minha querida. Se não somos os melhores, somos, ao menos, os mais dispostos. – Ele sorriu da própria piada. – Nada vai acontecer ao jovem Harry. Você acredita em mim, não é mesmo?
Ela olhou para Harry e depois para James, ainda de costas olhando pela janela, e quando voltou a mirar Dumbledore, assentiu. O alquimista pareceu satisfeito.
– Faz tempo que não venho ao castelo Potter, o que acha de sair comigo enquanto esperamos o almoço e redescobri-lo juntos? Claro, se a companhia desse velho não a importunar, nem tampouco a falta que ele sentiu de nossas antigas conversas.
O sorriso de Lily foi cheio de carinho e ela enganchou seu braço no de Dumbledore.
– Nada me daria mais prazer. Harry...
– Eu creio que Harry ainda tem algumas coisas para conversar com James – disse Dumbledore. – Estou certo?
James confirmou com um movimento seco de cabeça. Lily não pareceu gostar muito da idéia, mas deixou que Dumbledore a arrastasse para fora da sala. Remus saiu de perto do amigo e no caminho puxou Sirius e fez um sinal para que Ron, Hermione e Ginny também saíssem. Hermione foi a mais relutante. Ela provavelmente achava que podia interferir entre o irmão e o sobrinho e Harry ficou grato em saber que ela o defenderia, mas Remus a conduziu suavemente pelo braço. Os dois irmãos Weasley os seguiram. Ginny foi a última a passar pela porta antes de Remus fechá-la.
Estavam sozinhos e Harry achou que talvez fosse melhor falar antes de James. Se seu pai soubesse que ele tinha consciência dos seus erros, a conversa poderia ser bem mais fácil. Deu alguns passos em direção à janela.
– Senhor? Eu... eu sei que fui... – James se virou e o olhou com a testa franzida. – Sei que está decepcionado. Eu... quero pedir desculpas. Eu não devia ter colocado Ron e Hermione em perigo, eu...
– Harry! Eu não estou decepcionado com você, filho!
– Não?
– Não! – James finalmente sorria para ele. – Eu estou orgulhoso! Impressionado, maravilhado. E, eu confesso Harry, estou muito assustado. Mas decepcionado com você? Isso nunca! Você foi... incrível, garoto!
Do ponto de vista de Harry, poderia ter outra górgone atrás da porta naquele instante. Seu pai estava orgulhoso dele.
– Desculpe mal ter falado com você... eu... – James colocou a mão sobre o ombro do filho e caminhou com ele até a cadeira grande. Ele se encostou no braço da cadeira ficando com o rosto na mesma altura do de Harry. – Vou ser sincero com você. Eu não sei se sou o cara ideal para isso.
– Isso o quê?
– Ser seu pai.
A simplicidade com que James falou aquilo não poderia ter deixado Harry mais chocado.
– Não me entenda mal, Harry. Apenas... eu não sei se tenho sangue o bastante nas veias para agüentar tudo isso. Sério, eu nunca pensei que fosse tão difícil estar do lado de cá. – Ele riu baixinho da expressão de Harry. – Acredite, eu não o estou repreendendo, nem tenho moral para isso. Eu era terrível na sua idade. Na verdade, Sirius e eu éramos terríveis. Pensando nisso, agora... Eu devo ter feito o meu velho pai sofrer um bocado. – Seus olhos se perderam no passado por um instante e então, ele gargalhou. – É claro que eu sempre tomei o cuidado para que seu avô nunca soubesse das reais condições em que... – o riso sumiu e ele arregalou os olhos colocando novamente as mãos sobre os ombros de Harry. – Nunca ouse me esconder nada, ouviu?
– Eu...
James não chegou a deixá-lo completar o pensamento.
– Entendeu do que estou falando? Eu não posso nem me dar como exemplo a você. E, de repente, me dou conta de que você se parece comigo mais do que eu gostaria, ou pior... Você é, provavelmente, mais corajoso e destemido e eu...
Ele aproximou o seu rosto do de Harry, encarando-o com seriedade.
– O que estou querendo dizer é: faz apenas uma semana que nos reencontramos e eu já quase o perdi duas vezes, Harry. Nas duas vezes, eu falhei em protegê-lo.
– Não! Pai...
Um sorriso emocionado foi a resposta à palavra dita por Harry pela primeira vez e os dois haviam percebido isso.
– Eu falhei sim, meu filho. Não, não estou tirando a sua culpa ou seu pendor para se meter em encrencas. Mas eu também errei. E não foi a primeira vez, nem a segunda. Afinal, quando a sua mãe o tirou daqui foi exatamente o que aconteceu, não é?
– Eu sei que aquilo foi um mal entendido.
– É... eu também. Infelizmente, não é o suficiente. Nem para mim, nem para ela. – A sombra voltou aos olhos de James. Ele soltou o ar dos pulmões pesadamente. – Eu já perdi a sua mãe, Harry. Não posso perder você. De nenhuma maneira, entendeu? Agora, eu sei que eu não posso impedi-lo de ser o que é, mas eu preciso que você me prometa, com toda a sinceridade que for capaz: quando for se arriscar, ao menos, me chame para estar ao seu lado. Por favor, filho...
Harry ficou comovido com o apelo do pai. Não era exatamente o que ele esperava daquela conversa e percebeu o quanto ele ainda não sabia sobre James ou sobre como era ter um pai, de verdade. Ele ficou concordando com a cabeça até encontrar a voz novamente para falar.
– Claro, pai. Eu prometo.
James ainda demorou para soltá-lo, então ele se ergueu sorrindo, satisfeito.
– Pai...
– Sim, Harry.
– Você não a perdeu.
A expressão de James lhe disse claramente que aquele não era um assunto que ele esperava que o filho se metesse, mas Harry sustentou seu olhar.
– Eu conheço bem, Harry. Já foi difícil fazê-la confiar em mim uma vez. Depois do que aconteceu, – ele fez uma pausa contrariada – continua acontecendo... Não há muita esperança.
– Olha, quem viveu com ela nos últimos treze anos fui eu, certo? E eu garanto pai, ela jamais olhou para qualquer outro homem em todo esse tempo. Como ela nunca falava em você, eu sempre achei que você tivesse morrido e ela fosse a viúva mais sentida do mundo. Acha que, se ela não sentisse nada por você, não se envolveria com outro?
James o considerou antes de responder.
– Lily estava pensando na sua segurança.
– Eu acho que não. – Sua convicção fez o pai dar um pequeno sorriso. – Você... ainda gosta dela, não é?
Os olhos de James fugiram dos dele.
– Amaldiçoadamente – respondeu como se admitir aquilo lhe causasse uma dor física. – Mesmo depois de ela ter acreditado que eu poderia ser um mentiroso e um criminoso... Ainda a amo como se eu tivesse dezesseis anos.
– E você não vai perdoá-la? Não vai fazer nada para tê-la de volta?
– Você gostaria disso?
– Vê-los juntos? Felizes? Sem querer se matar cada vez que trocam mais de duas palavras? É, eu acho que ia gostar bastante.
James gargalhou.
– Acho que sua felicidade nunca será completa, filho. Mesmo em nossos melhores dias, nós brigávamos um pouco. Sirius dizia que quando não éramos embaraçosos, éramos intoleráveis. Embora... eu ache que nós éramos embaraçosos na maior parte do tempo. – Ele controlou o riso. – Não se preocupe com isso, certo? As coisas se ajeitarão, Harry... De um jeito ou de outro.
Ele passou o braço sobre os ombros do filho e caminhou com ele até a porta.
– Venha, agora. Eu quero lhe mostrar pessoalmente o castelo. Quero que conheça tudo. Cada lugar, cada passagem, secreta ou não. Afinal, é inadmissível que você não saiba se mover pela sua casa. Que cara é essa?
– Isso ainda é muito estranho para mim. Assim como essas roupas – confessou enquanto saíam pelo corredor.
– Você vai acabar se acostumando – falou James, agora mais solto e feliz. – Até mesmo uma pequena corte você já conseguiu. – Ele riu gostosamente da expressão do filho. – Acho que acabei perdendo a minha irmã nessa brincadeira. Quero dizer, pela atitude da Mione hoje, vejo que ela será mais sua irmã do que minha. Não estou reclamando, acredite. Fico feliz em poder dividi-la com você, tanto as defesas, quanto sua eterna disposição para reformar os hábitos dos que estão a sua volta. Ser amado por Hermione costuma ser bem trabalhoso.
– Deu para perceber – falou Harry, contrafeito. – O tal programa de estudos.
– Desculpe filho. Ela tem o apoio de sua mãe e eu ainda sou um cara esperto. Não tenho a menor intenção de combater as duas juntas.
– Pensei que você fosse o senhor do castelo.
– É, eu sou. Mas sei que minha cabeça fica melhor sobre os ombros que fora deles.
Harry resmungou e o pai continuou a rir, mas mudou o assunto.
– Fiquei muito feliz de você ter se acertado com o Ron também. Ele é um ótimo garoto e os irmãos costumam pegar um pouco no pé dele por ser mais jovem. Aliás, olhos abertos com os gêmeos.
– Por quê?
– Você descobrirá logo. E ainda tem a Ginny... Ela é uma gracinha, não é?
O garoto ergueu os ombros e concordou com um sorrisinho. James o olhou com atenção.
– Me diga uma coisa, filho. Afinal, agora que tudo passou, como se sente tendo salvado o dia e a donzela em perigo?
Harry piscou. Ainda não tivera tempo de pensar nisso. Mas foi fácil vasculhar a resposta.
– Muito bem. – James sorriu e os dois continuaram a caminhar, até que Harry juntou. – Acho que posso me acostumar com essa sensação.
O pai fechou os olhos e negou com a cabeça.
– Esse era o meu medo.
XX – XX – XX – XX – XX
N/B: (de joelhos, mãozinhas juntas) - Merlin, meu bom amigo, permita que um dia, quando eu crescer literariamente, eu consiga escrever assim! =D – Abençoada seja você, minha Anam! Mais um capítulo... UAU!!! – A tal górgone foi de dar pesadelos! (Sobre ela eu volto a falar lá no final do comentário, ok?) – Harry salvando Ginny, e o nascimento, ainda que despercebido, de tudo o que nós ansiamos para eles, me arrancou suspiros! O sentimento está lá, amanhecendo para o mundo! =D – MUITO BOM!!!!!! – James TodoBom também arrasou neste último trecho, e você foi testemunha do meu histerismo com aquele “Pai”, escrito ali em cima! ;D – Sobre meu amado Sirius... ô.ô – Bem, o tempo dirá o que o destino nos reserva! – (nem adianta reclamar, Patty! ;D) – Anam! Aplausos! Todos e sempre! CAPÍTULO MARAVILHOSO!!!!!!! – Beijo grande no seu coração! Tdoro! Até o próximo!- SUUUUUCEEESSSOOOOOOOO!!!!!! =D ...... – Ah, é... A górgone! Então. Quando eu já estava confeccionando bandeirolas apoiando um novo shipper, o Harry a matou! Graças a Merlin ele o fez, é claro! Mas que seria um excelente shipper, ah, seria! – Draco e a Górgone, que tal???? ;D – Brincadeirinha...
N/A: Sorry, gente. Eu tinha prometido no dia 30, depois 7, mas final de semestre é sempre uma correria bem estafante e, para falar a verdade, este capítulo deu mais trabalho do que eu tinha previsto no princípio. Demorei mesmo a gostar do resultado, mas finalmente, fiquei satisfeita.
A vocês, obrigada pela paciência em esperar.
Uns recadinhos básicos:
Continuem olhando os álbuns a cada capítulo, pois sempre tem coisa nova. Nossa Sô Prates continua talentosa e à mil! Quem não puder olhar no Multiply, pode conferir no Orkut da Sally. Se não conseguir, basta me adicionar, ok?
Eu fiz um cronograma básico da fic. Claro que posso mudar, mas para que ninguém me acuse de não estar pensando com o carinho devido, indico que a próxima atualização deve vir pelo dia 26 de julho.
Fico feliz que tenham curtido o meu “bichinho”.
O Robin vai demorar um pouco a voltar, mas a história dele continuará acontecendo. Nos próximos capítulos vocês irão conhecer a Marian.
Ok, eu nunca me canso de ler que vocês gostaram do capítulo, nem os comentários longos, nem os curtos, tá? Eu AMOOOOO cada um deles.
Infelizmente, não posso responder a todo mundo cuidadosamente. Mas não é desconsideração e sim consideração. Eu demoraria muito mais se fosse responder. Então, só respondi aos que fizeram perguntas que eu podia responder, rsrs. Aos outros... sintam-se afofados e agradecidos por cada elogio e palavra carinhosa. Amo vcs!
Gessy Silva; Thiago Florêncio (Sobre o Rony – ele é um pouco mais velho, logo, as antenas dele já ligaram um pouco); Guida Potter; Gonzaga; Clara (Sobre a Ginny, uma mistura Clarinha, até porque ela não é tão jovem quanto nos livros); Tonks Butterfly; Nath Evans; Doug Potter (Como vc raramente faz perguntas, vou responder essas hehe: na verdade, a coisa começa meio morna, não esqueça que falamos de Harry “tapado” Potter, lembra? E sim, quando as coisas estiverem se ajeitando a bela Megan aparece para complicar); Tonks & Lupin; Priscila Louredo; Danielle Pereira; Bruna Perazolo; Bruna Weasley; Drika Granger; Pedro Henrique Freitas, Jéssica M. Adams, Alessandra Amorim; Tatiane Evans; Charlotte Ravenclaw; Patrícia Ribeiro; Bruna Britti (Aguardo as fotos, querida! E amei o coment, sentimental =D); Ginny Potter; Regina McGonagall, Bernardo Cardoso; Fadinha Ruiva; Sô; Hellzita (Querida, obrigada pela leitura e os comentários, fiquei encantada em ler); Maionese; Kelly**, Thayse Couto; Gina W. Potter; Kika.
Por fim, eu publiquei uma short com a minha versão do dia seguinte da batalha das Relíquias da Morte. Quem ainda não leu e tiver tempo para conferir, eu adoraria. O link é: http://fanfic.potterish.com/menufic.php?id=29037
Tenho outra desse intervalo, que é muito doce, mas ainda não postei aqui. Então, fiquem atentos porque pode aparecer um link novo no perfil, ok?
Beijo grande e até breve
Sally
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