Paris, França. 1 de setembro de 1971
Os timbres joviais se desfaziam em bocejos mecânicos e conversas evasivas àquela hora da manhã. Situados na estação francesa, despediam-se dos pais com a classe que lhes fora ensinada. E, com todo aquele refino, os mais novos só podiam afirmar sua idade por conta da baixa estatura, já que se portavam como seus pais e não como crianças de 11 anos. Ali, a garotinha era só exceção, mas estava prestes a encontrar uma menininha que partilhava da mesma opinião. A pequena Fileveille seguiu carrancuda, os olhos audaciosos fitando à cada um dos presentes que se empurravam e apressavam em busca de uma cabine vazia. Lena mal teve tempo de se mexer e fora empurrada pra dentro de um camarote qualquer. De lá, uma figurinha graciosa sobressaltou-se, e em seu semblante inocente fora visível um misto de interesse e receio em relação à garotinha de pose imponente, braço engessado e sorriso arteiro que encontrava-se ali parada, parecendo impaciente por ter sido empurrada. Mas Lena, que via graça no inusitado, sorriu, porque lera nos olhos azuis de Sarah Delacour que sua vontade de estar ali era tão duvidosa quanto à sua própria. E tinha razão; a garotinha esperara o verão inteiro pela carta de Hogwarts, mas a mãe lhe dera apenas a de Beauxbattons, de modo que ali estava, sem qualquer nível de entusiasmo à dois segundos antes da estranha aparecer, mas Sarah não coibiu um sorriso ingênuo - que, anos mais tarde, seria extremamente raro de notar em seu semblante – e mediu-a de cima baixo enquanto Helena sentava-se e disparava à tagarelar, acostumada à entabular conversas.
- Madame Máxime bajulou meus pais por dois meses inteiros, mas aposto que ela vai se arrepender quando chegarmos lá. Você é a mini Delacour, não é? - começou ela, endereçando-lhe o sorriso travesso que lhe era típico.
Sarah assentiu, reconhecendo o rosto da colega. Os anos de reuniões entre as duas importantes famílias da sociedade francesa a fizeram reconhecer a menina que, pelo que todos diziam, tinha uma face angelical e uma mente diabólica, de forma que Aimée Delacour jamais a deixara se aproximar. Sarah achava meio cômico que alguém se comportasse tão mal, afinal, ela própria se portava como a legítima daminha que era. E então, logo percebera, as duas ganhavam fama de formas distintas... Ao longo dos anos, continuariam ganhando: Por hora, basta saber que, pelo o que as duas mocinhas conversaram dentro do trem, ficou concreto que nada nelas seria previsível, exceto a eterna duração daquela amizade.
Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, 2 de setembro de 1971
- Balth, Balth. A professora Minerva me elogiou hoje na sala, disse que sou uma aluna muito promissora em transfiguração. Logo no meu primeiro dia! – Exaltada de orgulho, a baixinha quase gritava no meio da biblioteca, mas Balthazar, ao invés de comemorar com a meia-irmã, sequer desviou o olhar do pergaminho e retrucou com sua típica indiferença.
- Grande coisa, Charlotte, mas fale baixo que eu preciso estudar. O segundo ano não é tão fácil quanto o primeiro e eu não tenho tempo pra comemorar com você.
- Qual é, cara! Não dá pra, pelo menos, sorrir? Não é que ela vá te morder ou coisa parecida. - Sirius Black, seu colega de sala, interrompeu-o e endereçou uma piscadela à Charlotte, que quase não disfarçou um suspiro quando o belo garoto a defendera.
- O que faz aqui, Black? Você não é de vir à biblioteca. - resmungou Balth, mas ainda não havia desgrudado os olhos do pergaminho.
- Bem... não é da sua conta mas... só estamos vendo uns livros aí com o Aluado. - Dotando-se da arrogância comum, Sirius apontou à Remus e James. O primeiro, Balthazar notara, parecia pálido e cansado; mal teve tempo de se perguntar se Lupin estaria doente quando um garotinho atarracado irrompeu de um dos corredores das prateleiras, gritando excitado e atrapalhado, quase derrubando os pergaminhos de Balth quando chegou.
- Sirius, Sirius... é verdade? Ontem aconteceu de novo? Aposto que você foi tão valente quando o Alu...
- Cale a boca, Rabicho! - gemeu Sirius entre os dentes, e pela primeira vez pareceu desconcertado. Os irmãos Owens nem puderam indagar sobre o que se passava quando Sirius Black arrastou Peter para junto de seu grupo, os tais Marotos.
- Por que não vai dar uma voltinha, Charlie? - sugeriu Balth, louco para se livrar da meia-irmã.
Academia Beauxbattons, 20 de dezembro de 1971
- Acho que vou viver como um trouxa depois que terminar a escola. Esse tal Lorde alguma coisa vai dar o que falar e eu não quero estar por perto quando isso acontecer, acho que meu pai sabe de alguma coisa à respeito.
- King... seu pai sempre sabe de coisas à respeito das artes das trevas. - Harold obviamente já imaginava que a pressão dos pais em cima do garoto já começava a surtir efeito. Mal tinham feito 13 anos e King falava sobre o que fazer no futuro. - Pare de falar e presta atenção, essas garotas são umas gracinhas e você aí falando do seu pai? - Observou Harold, sorrindo para o grupo de quartanistas que ali passava. O garoto ainda estava no segundo ano, mas os cabelos loiros desgrenhados e o belo par de olhos azuis faziam efeito em qualquer menina. Estavam ali para buscar sua irmã, e King passaria as férias de natal com a família Delacour, mas avoada como só Sarah sabia ser, demoraria uns 20 minutos para chegar, de forma que ele não viu nada de errado em “apreciar a beleza” do castelo francês. Entretanto, a irmã só dera o ar da graça quando os dois começaram à se divertir com os olhares insistentes das alunas.
- Você não devia arrumar tanta encrenca, Lena. Madame Máxime já está possessa com você. – advertiu Sarah, sabendo que estava certa. Afinal, sua melhor amiga mais parecia uma máquina de arranjar problemas. Era divertido tê-la por perto com suas maluquices, mas aquilo trazia conseqüências desagradáveis. Metade das crianças de sua classe já seguiam Lena como se a menina fosse algum tipo de revolucionária que dominaria o castelo, e a outra metade a detestava porque os pais vivam dizendo que ela não era uma verdadeira lady da alta sociedade, mas a menina pouco se importava.
- Relaxa, sardenta... eu vou fugir mesmo daqui depois das férias e vou pra Hogwarts, ou pra Durmstrang com o Alex, você devia vir comigo, mas insiste que não tem a carta.
- Aquela ali deve ser Helena Fileveille, segundo minha mãe, Madame Maxime e mais algumas pessoas ela é o demônio em forma de criança. - comentou Harold, os braços cruzados e o olhar fixo nas duas garotinhas que não notaram a presença deles no final do corredor.
- Pode até ser... mas ela e sua irmã são bem bonitinhas e aposto que vão dar um belo trabalho quando crescerem.
- Cara... você tá falando da minha irmã, mais respeito! - retrucou Harold, mas mal pode começar seu discurso sobre como Sarah era uma pirralhinha doce e inocente que jamais aprontaria nada quando a menina atirou-se em seu pescoço, abraçando-o como só uma irmã faria. Ele, por sua vez, viu-se desconcertado com a cena, afinal, estava na frente do melhor amigo.
- Dá pra parar pirralha? Desde quando te dou liberdade para isso?! - A resposta era: SEMPRE. Mas ele não queria que King achasse que ele fosse algum tipo de garoto sensível que se importava tanto com a irmã.
...Mas não era?
- Mas eu sempre te abraço... - argumentava a bela loirinha, entre decepcionada e confusa. Mas Lena lhe explicou, risonha.
- Não liga não. Ele ta naquela fase do “não quero minha irmã por perto”... - e apesar de não haver malícia no comentário, Harold deixou-se levar pelo que a mãe lhe dizia e retrucou, sem muita piedade.
- E o que você sabe sobre isso gordinha? Ah... esqueci... você é a sabe-tudo da Helena Fileveille... já ouvi falar muito de você! - provocou, mas no instante seguinte sobressaltou-se. Ela estava retrucando? Não devia... sair correndo chorando ou algo assim?
- Bom... Não devo saber muita coisa assim como você não sabe nada sobre mim, e gordinha é a senhora sua mãe. Entende? - respondeu, e com certa razão, afinal de gorda não tinha nada. Apenas aparentava mais ser mais nova do que era por conta da carinha angelical, e ainda não tinha perdido as gordurinhas de criança, mas nem de longe aquilo era o bastante pra defini-la como gorda. Entretanto, Harold continuou.
- Olha aqui, sua pirralha. Acha mesmo que pode me enfrentar? - ele aproximou-se dela, engrossando o tom. Devia ser uns 30 centímetros mais alto que a garotinha, que, ainda nas pontas dos pés, tinha que olhar pra cima se quisesse encará-lo.
- Tenho certeza que sim, loiro aguado!
- Escuta... Por que você não vai brincar com suas bonecas, baixinha? - rebateu, e a menina saíra das pontas dos pés, por um instante se sentiu vitorioso, mas ela lhe virou um chute potente nas imediações da virilha e, enquanto ele dobrava o tronco e mal gritava de dor, ela exibiu um sorriso angelical e antes de sair numa pose imponente e triunfante, respondendo irônica
- Seu desejo é uma ordem, capitão! - quando a garotinha já estava longe, Sarah virou as costas para o irmão, e recolheu seu malão, irritada.
- Qual é o problema com você? - Harold sobressaltou-se, a irmã nunca falava naquele modo petulante, sem dúvida aprendera com a tal amiguinha.
- Aquela garota me paga! - sussurrou ele, recobrando a postura ao que King ria divertido, recolhendo a outra mala que a pequena Delacour havia deixado.
- Caramba... Isso vai durar e por muuuito tempo!
Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, 20 de dezembro de 1971
- Vamos Roxie, saia daí… Eu só disse que não queria namorar você, mas não é que eu não goste de você. - exclamou um Balthazar mais paciente, tentando fazê-la se destrancar do armário de vassouras. O rosto ardia envergonhado, percebendo o tumulto ao seu redor.
- O quê? Ela ainda está aí dentro? - Indagou Sirius, entre surpreso e divertido com a situação. James, que tinha um dos braços pendurado no ombro do amigo fez menção de dizer algo. Mas os três ouviram Severus, no seu canto, murmurar por trás do livro.
- Que ceninha deprimente!
- Deprimente é você, Ranhoso. Agora volta pro seu livro que você ganha mais! - retrucou Potter, e Snape via-se prestes à responder quando Lily Evans aparecera, e ele se lembrara de que a amiga não era lá muito fã de suas brigas.
- Já disse que não vou sair daqui. Você é um imbecil, Balthazar Teutul. - Ouviu-se um baque na porta do armário de vassouras: Roxanne Wood havia acabado de chutar a madeira da passagem.
- Aff... você nem tem jeito com as garotas, Balthazar...Você vai ver, aposto cem galeões que ela me deixa entrar. - Sirius passou a mão pelos cabelos, convencido de que conseguiria. Balth, já acostumado com a arrogância do garoto, apenas fez um sinal debochado para que adentrasse o recinto. Black se aproximou da porta, e, usando da lábia sedutora, convencia a menina.
- Escute, Roxie....Você não merece isso, é uma barbaridade o que ele fez não acha? Se me deixar entrar, podemos conversar. - e, após alguns instantes silenciosos, a primeiranista abriu a porta. Sirius desceu as escadas, sem antes exibir seu sorriso presunçoso. E lá encontrara a menininha sentada, olhando-o com desconfiança. Ele riu-se, mas se aproximou e sentou ao lado dela, pousando-lhe a mão no ombro.
- E então... Por que não saímos daqui?
- Balth é um imbecil, eu disse que era namorada dele e ele disse que não! - resmungou a menina, e o garoto abafou uma risada: garotas eram tão mimadas, ás vezes.
- Ah... qual é... ele nem é tão bonito assim. Você é, tipo assim, uma princesinha... merece coisa melhor, não acha? - E foi naquele instante, que a menina sorriu e se levantou. Sirius mal sabia, mas arranjara a sua primeira admiradora de verdade que lhe traria muitas dores de cabeça. Mas os garotos ainda lhe deviam os cem galeões...
Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, 2 de setembro de 1972
- Desculpe... eu ajudo! - Theodore Rookwood, um quartanista da sonserina, havia acabado de esbarrar com uma garota da mesma casa, embora fosse do segundo ano. Entretanto, o grifinório Aaron Sheppard o puxou, antes que ele pudesse ajudá-la à recolher seus livros e, não muito piedoso, murmurou ao moreno.
- Qual é, cara, ficou doido? Todo mundo sabe que com a Möller não se mexe, ela é uma vampira, saca? Quer que ela pule em você e te torne um vampiro ou te mate? - Antes curioso com a reação do colega, agora o rapaz se vira um tanto amedrontado, mas não pôde dizer muita coisa, já que outro grifinório prestou-se à ajudá-la.
- Babacas... - murmurou a loira, meio irrequieta com sua situação. Era seu segundo ano em Hogwarts, e, por mais que evitasse ficar perto de encrencas por conta de sua natureza, elas sempre lhe perseguiam. Já quase terminava de juntar seus livros quando sentira um garoto se abaixar ao seu lado.
- Oi... eu sou King Kutcher. - Ele sorriu, mas Bea não retribuiu o cumprimento e baixou o olhar, de modo que ele teve de insistir para que ela lhe dissesse o nome. - E você? Não tem nome? - Perguntou ele, admirado com a aparência da garota. Era bonita como a maioria das meninas ali, entretanto, possuía algo diferente: talvez fossem os traços de nobreza, ou os olhos misteriosos, quase adultos. Como parecia uma pessoa reservada, ela o fazia querer conhecê-la.
-Beatrice... - Disse simplesmente, mas depois acrescentou: – olha aqui, se você veio me encher, perdeu o seu tempo. Eu to atrasada pra minha aula de Herbologia, ta legal?
- Ah, ótimo... eu estou indo pra lá também! – mentiu. Sequer era do segundo ano, mas do terceiro. Contudo, a lorota lhe valera uma conversa agradável e uma nova amizade, sendo ele sociável e ela um tanto doce, depois que se conhecia.
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