.The Woods
A noite já havia caído quando nos encontramos no bosque. Apesar do vento que açoitava as árvores ao nosso redor, e da neve que caia lentamente em flocos, cobrindo a terra em camadas de branco, não consegui sentir frio; estava tomado pela adrenalina desde que saíra sorrateiramente de casa, encostando a porta de trás para não acordar meus pais. Olhei para trás por um instante. As luzes da cidade brilhavam como vaga-lumes em meio à neve que caía continuamente.
-Então, você trouxe? – perguntou Bruce à Elena, tirando o gorro de lã que usava e passando a mão pelos cabelos vermelhos acobreados.
Elena tirou uma folha de papel amassada do bolso e sacudiu-a animadamente à nossa frente, com um sorrisinho nos lábios. - É claro que sim. Só espero que seja o certo, não quero ter que fazer esse tipo de coisa assustadora duas vezes.
-Não é tão assustador assim. – retruquei. – É só uma brincadeira. Se der certo, só temos a ganhar. Se não... bem o que poderia acontecer? – dei de ombros.
-Concordo. E também acho que vamos nos congelar se ficarmos aqui á toa como um bando de idiotas. – Bruce esfregou as mãos enluvadas uma na outra, e, sem cerimônia, adentrou o bosque, as sombras criadas pela luz da lua que ultrapassava a folhagem espessa das árvores lá em cima lançando filetes de luz sobre ele.
Eu e Elena o acompanhamos em silêncio, e eu podia sentir a ansiedade crescendo dentro de mim, subindo até a boca do meu estômago. Uma pequena parte de mim achava que isso não estava certo, que nada de bom poderia sair disso. Mas essa pequena parte também era a mesma que insistia para que eu fizesse os deveres de casa ou que eu tirasse a neve da entrada da garagem, então, como sempre fiz, ignorei-a.
Tirando pelo barulho de nossos passos afundando na neve, estávamos envoltos em total silêncio, nem era possível escutar o barulho dos carros que passavam ocasionalmente pela rodovia ali ao lado. Enquanto nos embrenhávamos ainda mais para dentro do bosque, observei os arredores: os pinheiros cobertos de neve, o leve assovio do vento que permeava as árvores, um corvo que nos observava de um galho distante... Parei por um instante. O corvo girou o pescoço de leve, seus olhinhos negros me fitaram, quase com um ar de curiosidade. Que loucura. É só um pássaro, disse a mim mesmo.
Continuei a andar.
Andamos por mais alguns minutos em silêncio, Bruce à frente e eu e Elena mais atrás. Uma lufada de vento bagunçou meu cabelo, e pisquei por um instante quando Elena tropeçou em um galho no chão de terra congelada.
-Você tá bem? – Bruce perguntou enquanto eu estendi a mão para ajuda-la. Sorrindo para mim por um instante, ela pegou minha mão e se içou para cima, virando-se para Bruce: - Sim. Acho que estou nervosa.
-Já estamos quase chegando lá, não se preocupe. – eu disse enquanto Bruce ajudava-a a tirar a neve que grudara em seu casaco.
-Ah, cara, não acredito que seu pai te deu um casaco da Burberry só porque você ganhou um A em história geral. – resmungou Bruce a Elena enquanto voltávamos a andar.
-Ei, foi o primeiro A da minha vida, ok? Acho que merecia muito bem um presente... – A voz de Elena se apagou enquanto chegávamos à clareira em que tudo aconteceria. Havíamos marcado uma das árvores com um “x” feito com o estilete que Bruce havia roubado do pai para podermos reconhecê-la.
Silêncio. Acho que agora que estávamos lá, devíamos estar todos tendo as mesmas ideias de como tudo isso era ridículo, e que devíamos sair do frio e voltar para casa como os derrotados e fracassados que éramos. Não. Eu não ia deixar. Já havíamos chegado até aqui, e não havia motivo para parar. Não estávamos matando ou roubando ninguém. Caramba, era um feitiço achado na internet, provavelmente, era alguma idiotice que alguém havia inventado num momento de tédio. Não era como se estivéssemos vendendo nossas almas pro diabo ou algo assim, era?
-Certo. – limpei a garganta. – Vamos logo com isso.
Elena tirou a bolsa do ombro e tirou de lá cinco velas rosas com pequenos desenhos de flores em volta. Fitei-as com as sobrancelhas arqueadas.
-Que foi? - ela notou meu olhar. – Eram as únicas que minha mãe tinha...
O som de Bruce quebrando o galho de um pinheiro ali perto e levando-o até o centro da clareira nos deu um susto. – Preciso da folha. – ele fez um sinal para que Elena lhe entregasse a folha de papel que guardara no bolso, o que ela fez. Lançando um olhar minucioso para a folha, Bruce começou a desenhar na terra, o som sinistro do galho afundando e se arrastando por ela enchendo meus ouvidos. Ignorando os tremores que ameaçavam me tomar, virei-me para Elena.
Um brilhou me cegou por um instante, algo que refletiu a luz que vinha da lua lá em cima bem nos meus olhos; Elena segurava uma faca de cozinha, do tipo grande e assustadora. Involuntariamente, dei um passo para trás, como se ela estivesse prestes a enfiar a faca no meu peito com um sorriso psicótico. Elena franziu o cenho para mim.
-Calma, Elijah, não vou te matar. Hoje. – ela riu de leve e se virou para fechar a bolsa pendurada em seu ombro.
-Essa era a única que sua mãe tinha também? – arqueei a sobrancelha para ela.
-Não, mas eu pensei que se formos fazer isso, façamos dramaticamente, não? – Elena deu de ombros.
-E eu concordo, e também acho que sou ótimo nisso de desenhar pentagramas, se querem saber. – Bruce lançou um olhar de satisfação para o pentagrama, uma estrela de cinco pontas, que havia desenhado com o galho na terra.
-Para de se gabar e diz logo o que a gente tem que fazer em seguida. – revirei os olhos pra ele.
-Tá bom, tá bom, Sr. Mau Humorado. – ele desembolou a folha que tirara do bolso, e leu-a rapidamente, sussurrando as palavras. – Ah, sim. Coloquem uma vela em cada ponta. Daí temos que... nossa, ok. – O rosto dele se transformou numa careta metida enquanto lia a folha. – “Do braço direito fazer uma oferenda à mãe terra, cada pessoa envolvida no feitiço deve deixar cair cinco gotas de seu sangue no centro do pentagrama”.
-Está realmente escrito “mãe terra” aí? – Elena fez uma careta de desgosto.
-Em letras maiúsculas. – Bruce sorriu.
-Quanta pretensão. – aninhei em meus braços todas as velas rosas ridículas largadas no chão e fui até o símbolo desenhado no chão, depositando uma vela em cada ponta do pentagrama. – Preciso de um isqueiro.
Elena tirou um pequeno isqueiro cinza do bolso do casaco e o entregou a mim. Andando em volta do pentagrama em sentido horário (não que fizesse alguma diferença, ou o feitiço teria especificado algo do tipo), acendi todas as velas, algumas depois de várias tentativas devido ao vento que soprava incessantemente, enquanto Bruce e Elena me observavam de um jeito solene e esquisito.
-Certo, agora à parte sangrenta da coisa. – Bruce disse. – Elena, já que você está com a faca, pode ir... Que cheiro é esse?
-Hã... – Elena coçou a cabeça, sem graça. – As velas talvez sejam de baunilha. Talvez! – reforçou ela, ao ver que eu e Bruce olhávamos para ela com repreensão. – Eu vou primeiro... – resmungou ela, e foi até o centro do pentagrama. Respirando com dificuldade, ela encostou a faca na parte de dentro do braço direito e forçou sua ponta ali até que um filete de sangue escarlate escorreu para fora. Cuidadosamente, mordendo os lábios provavelmente por ter acabado de se cortar com uma faca enorme, ela deixou cinco gotas de sangue pingarem no centro do pentagrama.
Bruce então entregou a ela um lenço para que estancasse o sangramento e pegou a faca, cortou-se (soltando um gemidinho nada másculo) e deixou cinco gotas de seu sangue se juntarem na terra às de Elena. Tirou outro lenço do bolso e me entregou a faca enquanto cobria seu machucado murmurando alguma coisa sobre esperar que aquilo não tivesse manchado sua calça nova.
Respirando fundo, olhei para a faca na minha mão. Nunca gostei de facas. Bom, tinha motivos para isso, mas talvez mesmo se meu pai não tivesse... Não. Não ia pensar nisso agora. Ia me focar no que tinha que fazer e esquecer sobre meu pai. Isso.
Apertei a ponta da faca no meu braço direito, até que ela cortasse a pele e o sangue escorresse de leve. Respirei fundo outra vez e deixei cinco das minhas gotas caírem no mesmo lugar das de Elena e Bruce. Andei de volta até eles, com cuidado e peguei o lenço que Bruce me estendeu, apertando-o contra meu machucado. Elena pegou a faca da minha mão (ela havia colocado um bandaid por cima de seu corte) e limpou-a na neve.
-Ótimo, agora temos que dizer uma frase em latim várias vezes, e daí quem sabe algo sobrenatural acontece e a gente não vai ter fugido, se cortado e desperdiçado velas ridículas por nada. – Bruce disse.
Andamos até a borda do pentagrama e ficamos lá parados como idiotas, provavelmente esperando Deus se pronunciar em relação a nossas atividades noturnas ilegais. Então Bruce nos ensinou a frase que o feitiço requeria que repetíssemos e queimou a folha do feitiço (ele disse que era um requerimento, mas acho que só queria ser dramático ao se livrar dela). Nos demos as mãos e nos ajoelhamos de frente ao pentagrama, repetindo a frase sinistra numa língua que não conhecíamos, cujo significado não tínhamos ideia.
Bem, ok, talvez isso fosse idiota. Mas já havíamos começado, não fazia sentido voltar atrás.
Chegamos ao final da última repetição quando aconteceu. As chamas das velas explodiram em um segundo, subindo a uma altura impossível, como labaredas de fogo tentando alcançar o céu. As linhas do pentagrama pegaram fogo, e as gotas de sangue espalhadas em seu centro foram sugadas pela terra, deixando apenas a terra e os flocos de neve que agora caiam como água devido ao fogo que emanava das velas.
Senti Elena e Bruce congelarem, cada um apertando nervosamente uma de minhas mãos. Senti o suor escorrendo pela minha testa e tinha a terrível sensação de que algo nada bom estava para acontecer.
Como acontece raramente, eu estava certo.
O vento uivou como um lobo raivoso, e então as chamas se extinguiram, todas ao mesmo tempo. A fumaça sinistra que se elevava das velas apagadas em espirais encheu o ar e senti uma dor terrível me tomar. Minha garganta se fechou, e meus olhos lacrimejaram enquanto senti meu corpo ser tomado por tremores fortes, enquanto ao meu lado, vi Elena e Bruce caindo na neve amarronzada, engasgando por ar e tremendo assim como eu. Mas que merda estava acontecendo?! O que havíamos feito? Isso não podia ter sido causado por um ritual estúpido achado na internet. Nada devia ter acontecido. Não podíamos estar...
Minha linha de raciocínio foi cortada quando a dor me tomou por completo e cai de barriga para cima na terra, grunhindo de dor.
A lua lá em cima brilhou, escarlate como sangue e senti todas as minhas últimas forças deixarem o meu corpo em um suspiro pesado.
E tudo ficou escuro.