O sol já se punha no horizonte quando Rony pegou o caminho de volta para a casa de Hermione. Ellora havia se divertido como nunca na companhia de Rony e ele se mostrara atencioso com a menina, fazendo-lhe as vontades, contando-lhe histórias e, por fim, carregando-a sobre os ombros. Parecia uma família de verdade passeando pelo parque em perfeita harmonia. Hermione olhou por sobre o ombro para o banco de trás onde a filha dormia depois de um dia agitado. Continuou observando a menina pensando em como seria dali para frente, Ellora havia adorado a companhia do pai embora não desconfiasse da verdade.
- Ela é linda. – disse Rony de repente.
Hermione voltou-se para ele e lembrou-se de como ele havia sido diferente um dia. Hoje era seguro e decidido, e do que ela fora um dia havia sobrado apenas inteligência.
- Sim, ela é. – respondeu depois de um tempo.
Rony dirigia em silêncio enquanto Hermione ocupava-se em olhar pela janela do passageiro vendo a escuridão, aos poucos, tomar conta de tudo. Em poucos minutos ele estacionava o carro em frente à casa e desligava o motor. Hermione saltou sem olhá-lo e abriu a porta do passageiro pegando a filha nos braços.
- Deixe que eu a levo. – disse Rony tirando a menina de seus braços antes que ela pudesse reagir. – Está pesada para você.
- Eu sempre carreguei minha filha Ronald. – retrucou – Não preciso da sua ajuda.
Rony não lhe deu ouvidos e rumou para a porta da frente. Hermione soltou um bufo de raiva e seguiu-o tirando a chave da bolsa e abriu a porta.
- Onde é o quarto dela? – perguntou para do hall.
- Deixe-a no sofá. – disse indicando a sala – Eu a levarei para a cama.
- Não seja teimosa. – rebateu – Diga onde é o quarto e eu a colocarei na cama.
- Não é preciso já disse. – falou sentindo raiva pela atitude prepotente dele.
Rony olhou-a por um momento e encaminhou-se para as escadas começando a subir.
Sem escolha, Hermione teve que segui-lo e ao chegar ao corredor indicou o quarto da menina. Viu-o colocá-la na cama com carinho e cobri-la com um cobertor, viu-o passar os dedos delicadamente na testa da filha afastando os cabelos dali então se curvou e depositou um beijo suave no rosto adormecido. Ela queria brigar com ele por se comportar como se tivesse algum direito sobre a menina, mas ao ver aquela cena de intenso carinho sentiu lágrimas inundarem-lhe os olhos. Teve que fazer um esforço sobre-humano para contê-las, não poderia demonstrar na frente dele como aquele gesto a havia abalado. Desceu as escadas na frente e dirigiu-se até a cozinha, onde pegou uma chaleira, encheu-a de água e levou-a até o fogão.
Respirou fundo enchendo os pulmões de ar. Aquele dia havia sido de intensa alegria para sua filha, mas a última coisa que queria era Ronald Weasley desfilando por sua casa. Perdida que estava em pensamentos não percebeu que ele havia decido e entrado na cozinha, assustou-se ao ouvir a voz grave.
- Hermione?
- Acho que já pode ir embora. – disparou.
Rony passou os dedos pelos cabelos depois enterrou ambas as mãos nos bolsos dos jeans como se estivesse ponderando sobre algo e disparou depois de alguns segundos.
- Case comigo.
- O que disse? – perguntou com os olhos arregalados.
- Case comigo. – disse novamente – Uma criança precisa de pais juntos e de um lar estável.
Hermione virou-se para a pia e pegou uma xícara do escorredor, não podia acreditando em seus ouvidos.
- Só pode estar brincando. – disparou.
- Estou falando sério. – disse com expressão grave.
- E o que o faz pensar que quero me casar com você? – perguntou olhando-o com desdém.
Rony moveu-se pela cozinha e de repente o cômodo ficou muito abafado.
- Ellora precisa de nós dois. – respondeu calmamente.
Hermione custava a acreditar naquilo. Não poderia ser possível que ele estivesse lhe propondo casamento como se estivesse convidando para comer uma pizza.
- Ela precisa de mim Ronald. – respondeu irritada – Não pense que por que passou um dia com ela alguma coisa mudou.
- Mudou sim. – respondeu ele aproximando-se – Ela é minha filha e quero participar da vida dela.
- Não vou permitir Ronald. – disse convicta – Você não vai intervir na vida da minha filha. Ela é uma criança feliz e não precisa de um pai.
Rony passou os dedos pelos cabelos em um gesto nervoso.
- Você fala o tempo todo que ela não precisa de um pai. Muito pelo contrário, toda criança precisa de um pai.
- Não me venha com clichês Ronald Weasley. – rebateu – Você não sabe nada sobre ela.
- Você tem razão, eu não sei nada sobre a vida dela. Mas é justamente isso que eu quero mudar, quero estar perto dela, participar da vida dela de perto e garanto que você não vai me impedir. – disse e prosseguiu – Você já me separou dela uma vez e não vai conseguir novamente.
- Você me usou como um brinquedo para suas necessidades. – disparou em tom elevado – Você me engravidou e eu tive que me virar sozinha.
- Podia ter me procurado. – argumentou – Deveria ter me contado e não fugido.
Aquilo era demais. Ela havia sido obrigada a sair da Inglaterra, tinha apenas dezessete anos e era muito jovem. Seus próprios pais não a apoiaram, ela se viu sozinha e sem saída, e agora depois de tantos anos era obrigada a ouvir tais absurdos.
- Saia da minha casa. – disse – Não sou obrigada a aturá-lo aqui.
Rony encarou-a com impaciência. Seu intuito era se entender com ela e não entrar em atrito. Respirou fundo e prosseguiu mais cuidadoso.
- Hermione escute, quero que se case comigo para podermos dar a Ellora uma família.
- Não vou me casar com você Ronald Weasley. – respondeu corada de raiva – Nem por minha filha faria tal coisa.
- Por quê? – perguntou ele perdendo a paciência – Você tem alguém?
Aquele pensamento não o agradou. Não queria sua filha em contato com os namorados de Hermione.
- E se eu tiver? – desafiou – Você nada tem a ver com isso.
Rony aproximou-se dela e agarrou-lhe o braço com força.
- Não brinque comigo Hermione. – disse ameaçador – Não quero minha filha em contato com outros homens achando que qualquer um deles pode ser seu pai.
- Quem pensa que é para exigir qualquer coisa? – perguntou soltando-se com um safanão – Eu faço o que quiser da minha vida, não lhe devo explicações.
- Você pode fazer o que quiser da sua vida Hermione, mas não se atreva a envolver minha filha com seus homens.
Antes que tivesse qualquer reação Hermione ergueu a mão e estampou-lhe a face com um tapa. Rony encarou-a com ódio evidente e segurou-lhe o pulso com força fazendo lágrimas surgirem nos olhos castanhos.
- Eu poderia revidar Hermione. – disse ele entredentes.
- Solte-me. – gritou ela tentando soltar-se, mas os dedos que a prendiam pareciam feitos de aço – Quem pensa que é para me tratar dessa maneira? Não sou uma qualquer e tudo que faço, faço por minha filha. Você não tem o direito de me acusar de nada, não tem o direito de interferir em minha vida. Eu odeio você e por nada deste mundo me casaria com você nem que fosse o último homem sobre a face da terra.
Rony segurava-a firme enquanto ela se contorcia para soltar-se. Sua face ainda ardia pelo tapa que ela lhe desferira, mas ouvir aquilo o incomodou mais do que gostaria de admitir.
- Ouça bem Hermione – disse encarando-a com um brilho gelado nos olhos azuis e apertando-lhe mais o pulso – Você tem duas opções: ou se casa comigo ou tiro a menina de você.
Seus ouvidos deveriam estar-lhe pregando uma peça, recusava-se a acreditar que ele dissera o que dissera. Por um momento Hermione sentiu como se estivesse sendo sugada por um buraco negro, como se um anestésico lhe tivesse sido aplicado. Não conseguia desgrudar os olhos dos dele, não podia acreditar que ele realmente tivesse dito aquilo. Sentiu o sangue ferver e antes que pudesse pensar no que fazia esmurrou o peito largo com a mão livre.
- Você só pode estar louco! – exclamou furiosa – Nunca vai tirar minha filha de mim, você não tem esse direito. Nenhum júri do mundo tiraria minha filha de mim para dar a um homem que apareceu do nada se julgando o todo poderoso.
- A decisão é sua. – disse impassível e soltou-a – Vou lhe dar um tempo para pensar. Tenho ainda três dias para ficar neste país, então antes de partir conversaremos.
- Não será preciso Ronald Weasley. – falou com as faces coradas pela raiva – Não vou me casar com você.
Rony passou as mãos pelos cabelos impaciente e olhou-a antes de sair.
- Voltaremos a nos ver.
Hermione sentada à sua mesa de trabalho lembrava-se daquele final de tarde desastroso. Odiava aquele homem com todas as suas forças e perguntava-se como poderia tê-lo amado um dia. Várias idéias tresloucadas passaram por sua cabeça, uma delas foi pegar a menina e fugir para o mais longe que pudesse. Mas, era uma mulher adulta e não iria dar a ele o gosto de vê-la fugindo. Iria encará-lo de frente e faria o que fosse preciso para manter sua filha a seu lado. Olhou para o relatório que estava preparando com o estudo de mercado para a empresa dele e sentiu um ímpeto infantil de alterar os dados e sabotá-lo, mas sabia-se incapaz de tal atitude. Respirou fundo e voltou o olhar para o relatório, mas não conseguia se concentrar. A ameaça que ele lhe fizera de tirar a menina a inquietava, o tempo que ele lhe dera tinha terminado e ele não a procurara, fazia duas semanas desde aquele final de tarde.
Passou os dedos pelos cabelos sedosos e fechou os olhos apertando-os com força. Tinha que esquecer aquela ameaça, não passava de uma maneira de assustá-la e com este pensamento voltou sua atenção ao trabalho. Muito tempo depois, havia terminado a análise de risco para a Visions Enterprises e ouviu uma batida na porta.
- Srta. Granger? – Kelly, a secretária, estava parada na porta olhando-a.
- Sim? – respondeu Hermione erguendo os olhos dos papéis sobre a mesa.
- Um advogado está aqui para vê-la. – informou a jovem com certo desconforto.
- Advogado? – admirou-se.
- Sim. – respondeu a jovem – Mando entrar?
- Claro. – respondeu Hermione sem entender por que um advogado estaria procurando por ela.
Antes que pudesse pensar mais a respeito uma figura calva e arrogante entrou em sua sala. O homem claudicava, ela pode perceber, e indicou-lhe uma cadeira para que se sentasse.
- Em que posso ajudá-lo? – perguntou.
- Srta. Hermione Granger? – perguntou o homem e prosseguiu quando ela confirmou com um gesto de cabeça – Meu nome é Stanley Treblinsky e sou advogado. Vim entregar-lhe esta intimação. – e estendeu um envelope pardo a Hermione que o pegou com dedos trêmulos.
- O quê exatamente é isso Sr. Treblinsky? – perguntou enquanto abria o envelope.
- Represento o senhor Ronald Weasley na ação que ele move contra a senhorita pela guarda da menor Ellora Granger. – informou o homem com ar
Hermione passou os olhos pelo documento e sentiu-se congelar. Ronald havia cumprido a ameaça e movera, contra ela, uma ação requerendo a guarda de Ellora. Como ele podia ter feito uma coisa daquelas? perguntou-se. Ellora era sua filha, ele não tinha nenhum direito sob a menina. Sequer sabia de sua existência até pouco tempo e agora a apunhalava daquela maneira. Uma fúria cega tomou conta dela e encarou o advogado empoeirado à sua frente.
- Diga ao seu cliente Sr. Treblinsky que ele não tem a menor chance de tirar minha filha de mim. – disse fria.
O homem remexeu-se na cadeira e encarou-a com um olhar frio.
- Srta. Granger, o meu cliente é um homem muito poderoso na Inglaterra e, sem falsa modéstia, ele nos contratou a nós que somos a melhor empresa de advogados de todo o Reino Unido. – fez uma pausa e prosseguiu – Embora seja difícil tirar um filho de uma mãe lembre-se, não é impossível. Agora se me der licença vou indo. Nos falaremos novamente me breve, a primeira audiência está marcada para daqui duas semanas e será no fórum de Glasgow. Passar bem.
Hermione ficou observando o homem sair de sua sala e voltou-se para o documento sobre a mesa. Leu-o lentamente e ali estava claro que as intenções dele era tirar Ellora dela alegando displicência e ausência materna. Ela quis socá-lo naquele momento, o fato de trabalhar não queria dizer que a menina era relegada ou que ela fosse uma mãe ausente. O motivo era ridículo, mas ela sabia que ele havia feito aquilo apenas para afrontá-la. Mas e se ele, como o próprio advogado dissera, era um homem poderoso na Inglaterra, conseguisse tirar-lhe a menina? Não poderia sequer considerar tal absurdo. Ela havia criado a menina até ali, ela era a mãe e nada poderia tirar-lhe Ellora. Ela lutaria com todas as suas forças pela sua filha, seu anjo, sua razão de viver.
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