- Não tenho nada para conversar com você. – falou erguendo o queixo desafiador – Agora, por favor, vá embora.
- Não vou embora antes que me diga o que quero saber. – falou glacial.
- Não tenho nada para lhe dizer. – disse sentindo o sangue correr nas veias – Quero você fora da minha casa, não é bem vindo aqui.
Deu-lhe as costas sentindo seu coração bater mais rápido. Aquele homem odioso a havia usado para se divertir e agora queria explicações que ela não queria dar. A encurralava como se tivesse algum direito de estar ali, em sua casa, querendo entrar em sua vida e isso ela não iria permitir. Voltou-se para ele com olhar de desdém.
- Ainda está aqui?
Os olhos azuis pareciam gelo ao fitá-la e havia um ódio velado neles que a fez estremecer e antes que tivesse tempo de reagir ele encurtou a distância que os separava em dois passos e a segurou firme pelo pulso trazendo-a para junto do peito musculoso.
- Não brinque comigo Hermione. – a voz perigosamente baixa fazendo com os pêlos de sua nuca se eriçasse – Estou esperando apenas a confirmação do que eu acabei de descobrir e não tente me enganar porque não vai conseguir.
O cheiro que se desprendia dele estava-a deixando entorpecida. O toque mesmo que frio dos dedos dele em sua pele fazia uma onda elétrica percorrer todo seu corpo fazendo sua respiração ofegar. O mesmo magnetismo que a fizera perder-se nos braços dele havia sete anos a estava prendendo novamente, fazendo-a mergulhar nas piscinas azuis que a encaravam friamente.
- Então Hermione? – a voz imperiosa a fez voltar do torpor em que se encontrava – Exijo uma resposta.
- Solte-me. – disse tentando soltar – Quem você pensa que é para exigir alguma coisa Ronald Weasley. Não têm o direito de vir em minha casa me fazer perguntas descabidas sobre algo que não lhe diz respeito.
- Não teste minha paciência Hermione. – disse ameaçador apertando mais o pulso frágil trazendo lágrimas aos olhos da mulher, mas permaneceu impassível fitando-a com frieza.
- Não tem esse direito Ronald. – disse ela por trás de uma cortina de lágrimas e desabafou – Você me usou aquela noite para se divertir, se aproveitou da minha inocência para aliviar suas necessidades mesmo tendo uma namorada que esperava um filho seu.
Ronald a olhava sem realmente vê-la, como se sua mente estivesse viajando para sete anos antes. Lembrava-se da tarde em que Lilá lhe dissera que esperava um filho seu e ele não acreditara de imediato, sabia que a namorada não era uma garota confiável e quando dissera aquilo não o convencera por completo até que, acidentalmente, ouvira uma conversa entre Lilá e uma amiga. Voltou seus olhos para Hermione e viu o sofrimento estampado na bela face.
- Não era meu. – disparou soltando-a – O filho que Lilá esperava não era meu, era de Olívio Wood.
Hermione ouvia-o incrédula. Como ele poderia querer esconder isso quando todos sabiam que não seria possível um envolvimento de Lilá com Olívio já que este havia se formado um ano antes.
- Espera que eu acredite nisso? – perguntou incrédula e prosseguiu – Não sou idiota Ronald Weasley, eu ouvi quando Lilá disse a você que estava grávida de seis semanas e era seu o bebê.
Ronald passou as mãos pelos cabelos visivelmente contrariado.
- Não era meu bebê Hermione. – insistiu – É verdade que na época nós namorávamos, mas ela saiu em um passeio a Hogsmead que eu não pude ir por conta dos treinos de quadribol e foi nessa ocasião que ela engravidou.
- E foi nessa ocasião que resolveu divertir-se comigo. – rebateu furiosa não conseguindo conter as lágrimas que lhe subiram aos olhos.
- Não me diverti com você Hermione. – disse sério – Não a usei como pensa, não foi assim. O que aconteceu aquela noite era algo que ambos queríamos havia muito tempo, apenas seguimos nossos instintos e desejos.
A maneira como ele falava da experiência mais devastadora de sua vida a deixou enfurecida. Para ele fora apenas uma maneira de extravasar o desejo e seguir seus instintos. Teve ímpetos de esbofeteá-lo, mas segurou-se para não fazê-lo. Então se revestindo de toda a frieza que julgava possuir dirigiu-se a ele.
- Saia da minha casa. – disse com a voz baixa, olhando-o com frieza.
- Não sem antes uma confirmação sua. – disse irredutível, encarando-a com uma mistura de frieza e fúria nos olhos intensamente azuis.
- Não lhe devo explicação sobre nada. – disse passando por ele indo até a porta – Por favor, saia.
- Não seja ridícula Hermione. – disse ele aproximando-se – Está tentando evitar o inevitável, está óbvio que a menina é minha. Por que está tentando esconder isso?
- Ela é minha e somente minha. – explodiu – Você nada tem a ver com ela, eu a tive sozinha e a criei sozinha até agora. E se quer saber mesmo, você é o pai dela por menos que goste da idéia. Mas, não pense que vou deixar que se aproxime dela, ela acredita que o pai está morto e é assim que vai continuar.
- Maldita! – disse ele agarrando-a pelos braços empurrando-a contra a parede fazendo-a embater com um baque surdo – Você disse a minha filha que estou morto.
- Mas você está morto. – disse ela furiosa – Minha filha nunca precisou de você, ela não sabe quem é você e não vai precisar de você agora.
- Como pode ter tanta certeza? – disse ele apertando-a mais contra a parede – Não pode me afastar dela e lhe garanto que não vai conseguir.
- Nunca vou permitir que se aproxime da minha filha. – disse entre dentes.
- Não brinque comigo Hermione. – disse ameaçador – Ellora vai saber que o pai está vivo e você não poderá impedir.
- Ouse chegar perto da minha filha Ronald Weasley e juro que...
- O que vai fazer Hermione? – disse colando seu corpo ao dela enquanto Hermione espalmava as mãos no peito largo tentando afastá-lo – Não tente medir forças comigo, sabe que não tem poder para isso.
- Odeio você. – disse olhando-o com frieza, no entanto um calor absurdo espalhou-se por seu corpo ao senti-lo tão perto e tentou soltar-se – Odeio você mais do que poderia imaginar.
Rony encarou-a por alguns instantes e ela pôde ver por um brilho intenso passar pelos olhos azuis e logo viu o quão furioso estava.
- Não tente me desafiar. – disse próximo fazendo com que ela sentisse a respiração dele em sua boca – Ou pode se arrepender.
O cheiro que se desprendia dele invadia suas narinas deixando-a entorpecida, fraca, lânguida. De repente toda a solidão por que passara nos últimos anos, todos os momentos que passara ansiando por ele, embora nunca tivesse admitido, vieram à tona fazendo com o ódio e o desejo tomasse conta dela. Uma parte sua queria se entregar inteira a ele novamente, mas a outra parte que era movida pela mágoa e pela raiva falou mais alto. Então com um empurrão ela afastou-se dele impondo o máximo de distância possível entre ambos.
- Afaste-se de mim. – disse ofegante – Vá embora da minha casa.
Rony encarou-a com um olhar intenso então esse mesmo olhar passeou por seu corpo demoradamente deixando-a perturbada e quente. Viu-o aproximar e deu um passo para trás.
- Não pense que vai se livrar de mim. – disse ele frio – Não vai conseguir me afastar de minha filha.
E com essas palavras saiu deixando-a escorada na porta com o coração pulsando acelerado e o sangue correndo depressa em suas veias, e antes que pudesse evitar lágrimas amargas escorrem por suas faces. Sentia-se sozinha e o odiava mais agora por deixá-la sentindo-se daquela maneira.
- Mamãe? – chamou Ellora.
Hermione voltou à realidade ao olhar para a filha. Era ela quem importava, era por ela que viveria e era por ela que valia a pena cada dia de sua vida.
- Sim filha. – respondeu enxugando as lágrimas.
- Por que você está chorando? – perguntou a menina com um olhar triste.
- Não é nada meu amor. – disse abaixando-se para ficar da mesma altura da menina e abraçou-a – Eu te amo muito.
- Também te amo mamãe. – respondeu a garotinha e afastando-se da mãe perguntou – Aquele homem, quem era ele?
Hermione encarou a filha e respirou fundo, não podia contar nada a ela ainda. Dizer algo e desdizer em seguida podia confundir e magoar.
- Nós estudamos juntos quando éramos crianças.
- Quando ele vai voltar? – perguntou – Eu gostei dele.
Hermione sorriu tristemente. Não queria nunca mais ver Ronald Weasley em sua frente, mas havia alguém que era mais importante que todo o resto e neste momento a olhava com os olhos brilhantes em expectativa.
- Não sei filha. – então se ergueu – Ronald é um homem muito ocupado, não acredito que volte tão cedo.
- Ah, que pena. – disse a pequenina.
Hermione aproveitou o momento para mudar de assunto.
- Vamos jantar? – perguntou à filha embora fome fosse a última coisa que sentia.
- Tudo bem.
A refeição foi feita basicamente em silêncio sendo quebrado vez por outra por algum comentário de Ellora. Hermione tinha os pensamentos confusos quando se recolheu após pôr a filha na cama.
Repousou a cabeça no travesseiro, mas não conseguia pegar no sono. A imagem de Rony não lhe saía da cabeça e ainda conseguia sentir o calor do toque dele em seu braço. Ele estava mais bonito e másculo do que se lembrava, cada vez que o olhava uma onda de languidez a invadia deixando-a fraca perante ele. Não poderia se sentir assim fazia muitos anos que aquilo acontecera e não podia esquecer-se de que fora usada como a um brinquedo. Com este pensamento caiu num sono intranqüilo.
Hermione acordou cedo no dia seguinte. Era sábado e tinha planos de sair para passear com a filha. Levantou-se da cama e encaminhou para o banheiro para sua assepsia matinal e logo depois descia as escadas rumo à cozinha. Preparou a cafeteira e logo a cozinha se encheu com o cheiro fresco de café, então se ocupou em preparar ovos mexidos e panquecas que Ellora tanto gostava. Trinta minutos depois tinha a mesa preparada para o café da manhã e decidiu subir para acordar a filha.
Parou na porta do quarto com o coração repleto de ternura ao observar a filha adormecida. Os cabelos ruivos espalhados pelo travesseiro, a boca rosada aberta e as mãos pequenas sob a bochecha. Deu um sorriso, ali estava a sua maior riqueza a única coisa importante em sua vida e nada poderia mudar aquilo. Com cuidado sentou-se na beirada da cama e passou os dedos pelo rosto suave da garota.
- Ellora. – chamou – Acorde meu amor.
A menina remexeu-se e choramingou. Hermione tocou-lhe os cabelos e insistiu até que ela entreabriu os olhos.
- Já está na hora de ir pra escola? – perguntou sonolenta.
- Não amor. – respondeu Hermione – Hoje não tem aula, mas quero que acorde para tomar café por que nós duas vamos passear hoje.
- É? – perguntou lutando contra o sono – Para onde vamos?
- Onde você quiser. – Hermione respondeu enquanto puxava as cobertas tentando despertar a filha – Ande Ellora, levante-se. O café já está na mesa, encontro você lá embaixo em dez minutos.
- Está bem. – respondeu a pequena levantando-se e rumando para o banheiro.
Hermione sorriu e foi até seu quarto. Tomou um banho rápido e como estava um dia quente de sol, optou por vestir uma bermuda branca, uma camiseta regata também branca e por cima uma camisa leve aberta em tom de rosa que ela dobrou as mangas até os cotovelos. Calçou as sapatilhas, prendeu os cabelos em um rabo de cavalo e mirou-se no espelho. A bermuda ia até o meio de suas coxas deixando à mostra suas pernas bem torneadas, a camiseta marcava seus seios fartos no sutiã meia taça e a camisa a protegeria de algum friozinho repentino. Saiu para o corredor e encontrou a filha já pronta num vestido florido que a deixava bem à vontade para brincar.
- Estamos prontas? – perguntou Hermione sorrindo, imitando o gesto de abrir uma saia como se estivesse em uma quadrilha e dobrando os joelhos em reverência.
- Estamos sim. – disse Ellora imitando-a.
- Então vamos tomar café.
As duas se davam muito bem e eram muito companheiras. Ellora imitava a mãe em tudo, querendo parecer-se com ela nos gestos e nos menores detalhes e Hermione deliciava-se com isso. Ambas cantarolavam quando chegaram à cozinha e Hermione dirigiu-se direto à geladeira pegar o leite e a geléia que sua filha tanto gostava quando a campainha da porta tocou.
- Eu abro. – anunciou a menina pulando da cadeira e correu para abrir a porta.
Deve ser a Linda, pensou. Então continuou a arrumar a mesa do café despreocupadamente cantarolando, quando ouviu a voz da filha.
- Mamãe, olha quem está aqui.
Hermione ergueu os olhos da mesa que estava arrumando e sentiu-se congelar. Diante de seus olhos, parado à porta de sua cozinha encarando-a com olhos faiscantes e um sorriso sensual estava Ronald Weasley. Sentiu um arrepio percorrê-la inteira e uma descarga elétrica passar por seu corpo ao ouvir a voz grave e rouca.
- Bom dia, Hermione.
N/A: Gostaria de me desculpar pela gafe no começo da história.
Quando Hermione sai da Inglaterra ela vai morar em Glasgow na Escócia e não em Edimburgo, capital da Escócia, como foi dito no começo da fic. Vai aí um pouco da história da cidade.
Glasgow situa-se a 80 km de Edimburgo e é considerada a cidade da moda na Escócia. Repleta de museus, entre eles o Museu da Gaita de Foles, e pubs da moda, conta também com uma vida cultural intensa e é palco do maior concerto de inverno do mundo. Possui uma extensa zona comercial para compras, além de extensos parques.
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