Estava ainda no meio da semana, pensou Hermione exausta. Aquela semana estava sendo mais longa do que podia imaginar e as horas pareciam se arrastar. Olhou com alívio para o relógio e viu que faltava pouco para encontrar sua pequenina. Um sorriso bobo desenhava-se em seus lábios cada vez que pensava na sua pequena ruivinha. Havia prometido a ela que sairiam no final de semana para passear e planejava levá-la para o interior e conhecer as famosas vacas escocesas de pelagem fofa e de pequena estatura. Adorava os passeios que faziam juntas, adorava o tempo que passava com ela brincando ou, simplesmente, quando a tinha em seus braços enquanto a via dormir. Sua vida estava perfeita, Ellora era doce e inteligente e era a alegria de sua vida. A única nuvem em seu céu era o fato de que havia algum tempo Ellora começar a perguntar sobre o pai de uma maneira muito insistente. Estava se preocupando à toa, pensou. Consultou mais uma vez o relógio e voltou a concentrar-se nos relatórios financeiros que lhe haviam sido entregues.
A última hora havia passado voando quando ouviu uma batida na porta e logo em seguida sua chefe, Dana Steiner, enfiava a cabeça pela abertura.
- Posso entrar?
- Claro Dana. – respondeu Hermione colocando os relatórios de lado.
Dana Steiner era uma mulher loira alta e esguia na casa dos quarenta anos, mas quem a visse dava-lhe no máximo trinta. Havia sido a pessoa que mais ajudara Hermione quando ela veio para a Escócia grávida e sozinha. Dana era jovial e extrovertida e sempre dizia a Hermione que ela devia se relacionar com outros homens e curtir a vida. Mas Hermione era reticente quanto a isso, não queria que sua filha tivesse contato com homens e pensasse que poderia ter um pai. O pai dela estava a quilômetros de distancia e era dessa maneira que ela queria que permanecesse.
- Hermione, preciso de você. – disparou a loira sentando-se na cadeira em frente e disparou – Estamos com uma empresa que pretende contratar nossos serviços e preciso que você faça a demonstração.
- Claro Dana. – respondeu – Sem problema e quando será?
- Para sexta-feira. – respondeu de pronto – Precisamos de um estudo de mercado. - Eles querem um estudo do mercado na América Latina e Austrália. – informou – Pretendem montar uma linha de produção em cada um desses lugares e também nos contratar para a implantação mercadológica.
- E tudo isso em dois dias? – perguntou Hermione passando os dedos pelos cabelos agora sedosos.
- Sei que é pouco tempo Hermione, mas não podemos rejeitar um cliente como esse – disse – Por favor, aceite e prometo lhe dar duas semanas de descanso quando acabar. A Visions Enterprises é pelo que sei uma empresa voltada para a produção de peças para computadores voltados para segurança, é uma empresa jovem e já conquistou uma fatia considerável do mercado.
- E o que eles querem que façamos por eles? – perguntou Hermione dando a volta na mesa e sentando-se em sua cadeira.
- Eles querem um estudo do mercado na América Latina e Austrália. – informou – Pretendem montar uma linha de produção em cada um desses lugares e também nos contratar para a implantação mercadológica.
Hermione ouvia atenta. Seria um desafio e isso a motivava.
- Está bem. – concordou – Vou levantar os dados e montar a apresentação para eles.
- Obrigada Hermione. – e antes de sair voltou-se com um sorriso – Tem outro detalhe, o tal Richard é solteiro.
- Ok Dana. – respondeu Hermione com um sorriso.
- Pense nisso. – e dando-lhe uma piscadela saiu pela porta.
Hermione consultou o relógio de pulso e decidiu dar seu dia por encerrado. Estava cansada, as costas doloridas e queria muito vestir uma roupa confortável e assistir a uma sessão de desenhos na TV com sua filha. Apagou as luzes do escritório e saiu.
- Até amanhã Kelly. – despediu-se da secretária.
- Até amanhã Srta. Granger. – respondeu a jovem – Bom descanso.
- Obrigada.
Entrou no elevador e apertou o botão que a levaria até o estacionamento. Em poucos minutos estava guiando pelas ruas da cidade rumo ao bairro onde morava. Estacionou o carro na garagem e ao entrar em casa foi surpreendida pela pequena Ellora.
- Mamãe! – exclamou a pequenina ao vê-la.
- Oi amor. – respondeu Hermione pegando-a no colo e beijando a bochecha rosada – O que a minha princesa fez hoje?
- Ah, um montão de coisas. – disse a pequenina torcendo as mãos – Até tomei sorvete.
- É mesmo? – perguntou com um sorriso – Já jantou?
- Não. – respondeu a pequenina – A Linda está fazendo uma sopa.
- Sopa? – perguntou Hermione sorrindo e apertando a filha fazendo-a rir – Eu adoro sopa.
- Então vai tomar banho que já está quase pronto. – ordenou a pequenina.
- Sim senhorita. – anuiu Hermione com um sorriso e beijou mais uma vez a bochecha rosada da criança e cantarolou – Eu te amo.
- Eu te amo mais. – cantarolou a pequenina de volta.
- Não, não. – respondeu Hermione colocando-a no chão – Eu é que te amo muito mais.
- Não. – retrucou Ellora e abrindo os braços cantarolou – Eu te amo um montão assim.
Hermione jogou um beijo para a filha e rumou para o quarto. Apesar de toda a solidão e sofrimento por que passara quando estava grávida, agradecia aos céus pelo pequeno ser que iluminava sua vida. Com este pensamento entrou debaixo da ducha morna para um banho relaxante e vestiu uma camisola de malha curta que deixava suas pernas e braços à mostra. Prendeu os cabelos em um coque frouxo e desceu as escadas rumando para a cozinha.
- Hum que cheiro bom.
- Está pronta. – disse a jovem tirando o avental – Só falta pôr a mesa.
- Não vai jantar conosco? – perguntou Hermione se dirigindo ao armário retirando pratos e copos.
- Não Srta. Granger. – respondeu a jovem – Tenho um compromisso.
- Com o namorado?
- Sim. – respondeu a jovem sorrindo – Como ambos estudamos só nos sobra o final de semana para ficarmos juntos.
- Linda – começou Hermione – por falar nisso será que poderia ficar com Ellora o próximo final de semana? É que tenho que trabalhar e não posso deixá-la sozinha.
- Posso sim Srta. Granger. – confirmou a jovem – Adam vai ter que participar de um seminário em Londres e só volta na segunda-feira à noite. Por mim tudo bem.
- Que bom Linda. – disse com um sorriso – Estava com medo de estragar seus planos.
- Nada disso e eu adoro ficar com Ellora. – disse sincera – Mas agora preciso ir.
- Antes deixe eu pagar você. – disse Hermione encaminhando-se para a sala.
- Não Srta. Granger. – retrucou a jovem – Prefiro que me pague depois, assim sei que não vou gastar com bobagens.
- Tem certeza Linda?
- Tenho sim. Já vou indo e até amanhã.
- Até amanhã. – disse de volta.
- Dê um beijo na pequenina por mim.
Hermione ficou na porta observando a jovem se afastar. Moravam na mesma rua o que facilitava bastante para que a jovem estivesse presente quando precisasse.
- Vamos jantar? – perguntou para a filha que já estava sentada à mesa.
- Sim. – respondeu a menina dispersa.
- Então vamos ao que interessa. – inclinou-se sobre a filha e deu-lhe um beijo nos cabelos vermelhos.
O jantar era composto pela sopa de carne e legumes, pão fresco, queijo e de sobremesa pudim de morangos. Serviu a filha e serviu-se em seguida sentando-se em frente à filha. Ellora comia a comida em silêncio e com um olhar triste e distante.
- Aconteceu alguma coisa, meu amor? – perguntou Hermione estranhando o comportamento da filha.
A menina permaneceu em silêncio e lágrimas começaram a correr pelo rosto angelical. Hermione olhou assustada para filha, levantou-se rapidamente e pegou a menina nos braços que soluçava profundamente. Sentou-se em uma cadeira e embalou-a até que os soluços parassem então a virou para si.
- O que foi meu docinho? – perguntou enxugando as lágrimas da filha.
- Eu...eu... – e mais lágrimas voltaram a correr-lhe pelo.
Hermione aninhou-a mais de encontro ao peito massageando suavemente as costas da criança a fim de acalmá-la. Nunca tinha visto sua filha daquela maneira, chorando tão dolorosamente e sentiu o coração partindo-se por ver aquele ser indefeso sofrendo. Muito tempo depois, a sopa havia sido esquecida a menina parou de chorar e Hermione pôde encará-la.
- O que está havendo Ellora? – perguntou preocupada – Alguém fez alguma coisa com você?
A menina apenas negou com um gesto de cabeça sem, no entanto, olhá-la.
- Alguém te machucou? – tentou mais uma vez.
E a menina apenas negou mais uma vez com um gesto de cabeça continuando de cabeça baixa.
- Minha filha, por favor, me diga o que está acontecendo. – pediu aflita.
A menina ergueu os olhos para ela e Hermione pôde ver o sofrimento estampado naquele rostinho, as lágrimas correndo livremente.
- A professora disse que vamos fazer presentes para o dia dos pais e um menino da escola me disse que eu não posso fazer um presente por que eu não tenho pai. – disse em um só fôlego e escondendo o rosto no peito de Hermione voltou a chorar.
Hermione apertou a filha contra o peito e lágrimas silenciosas caíram de seus olhos. Não queria ver sua menininha sofrendo daquela maneira por um pai que sequer sabia de sua existência. Ela havia se entregado a ele sem pensar no amanhã e agora um pequeno ser, que de nada tinha culpa, sofria por sua irresponsabilidade. Abaixou a cabeça e depositou um beijo silencioso nos cabelos ruivos da filha, faria qualquer coisa para evitar que Ellora sofresse. No entanto, não podia dizer a verdade a uma garotinha inocente.
O rosto de Ronald formou-se em sua mente e ela o amaldiçoou em pensamento. Ele a deflorara e a engravidara estando namorando outra garota, todo o amor que ela sentira por ele havia desvanecido naquele fatídico dia em que ouvira aquela conversa. Passara os últimos sete anos odiando-o com todas as suas forças e agora uma raiva ainda maior brotava de seu peito ao ver sua filha, seu tesouro sofrendo por ele.
- Mamãe? – chamou Ellora com os olhos vermelhos e a voz chorosa.
- Sim meu amor. – respondeu Hermione tocando-lhe o rosto carinhosamente.
- Eu não tenho um papai? – perguntou encarando-a.
Hermione olhou para a face triste da filha e sentiu-se quebrar por dentro. Seu bebezinho não merecia sofrer, ainda mais em tão tenra idade.
- Claro que tem meu amor. – falou encarando os olhos muito azuis filha – Todos nós temos pai e mãe.
- Então o meu papai não deve me amar, porque ele nunca veio me ver. – disse a pequenina com os olhos rasos d’água olhando para um ponto distante – Onde ele está mamãe? Onde meu papai está?
Hermione teve que engolir o nó em sua garganta ao ver a filha tão pequenina sofrer tanto pela ausência do pai. Mas, o que ela podia fazer? Ir até Londres e dizer a Ronald que tinha uma filha que precisava dele? Criara Ellora até ali dando todo o amor e carinho que podia e nunca imaginara que uma presença masculina faria tanta falta à sua filha. Em sua inocência imaginara que pelo fato de ter tido uma menina tudo seria mais fácil, mas estivera o tempo todo enganada. Não podia contar à filha a verdade, mas também não poderia deixá-la viver achando que o pai não a amava.
- Meu amor. – disse Hermione tocando o rosto da filha fazendo-a encará-la com os incríveis olhos azuis iguais ao do pai, respirou fundo e resolveu fazer o melhor que podia naquele momento – O seu papai ama você assim como a mamãe.
- E onde ele está agora? – perguntou a garotinha sentando-se em seu colo, os olhos brilhando em expectativa.
- Ellora – começou cuidadosa – seu pai amou muito você, mas ele agora é uma estrelinha no céu e ele está cuidando de você de lá meu anjo.
A menina demorou alguns segundos para registrar a informação, então com um olhar de entendimento para a mãe escondeu o rosto em seu peito e chorou. O corpinho frágil era sacudido por soluços enquanto Hermione a abraçava e chorava silenciosamente pela dor da filha. Não sabia se estava fazendo certo ou errado, mas era melhor que a filha não tivesse ilusões em encontrar um pai que sequer sabia onde estava. Com cuidado ela ajeitou a menina nos braços e subiu as escadas para o quarto. Ficou um longo tempo com a menina nos braços até que ela pegou no sono, então a deixou por alguns instantes enquanto preparava uma mamadeira com leite já que a pequena não havia comido praticamente nada.
Depois de ninar a filha até ter certeza que pegara no sono Hermione foi para o próprio quarto e deitou-se se sentindo exausta. Abraçou-se ao travesseiro sentindo-se impotente diante do sofrimento da filha. Jurara para si mesma que jamais deixaria sua filha sofrer e agora via sua garotinha chorar por um pai que estava distante e sequer sabia de sua existência. Não sabia se tinha tomado a decisão certa, mas não poderia deixar a filha sofrer achando que o pai não a amava. Era ainda muito pequena para encarar a verdade.
Lembrou-se de todo o sofrimento por que passou grávida e sozinha. Quantas vezes ela deitara-se a noite e uma onda de solidão parecia abraçá-la, era ainda uma menina quando se descobrira esperando um bebê. Havia passado muitas noites chorando e desejando os braços fortes para protegê-la do frio que sentia, mas então amadurecera e soubera que teria que encarar a vida sozinha e de frente. Ela o odiava e não deixaria que a menção de um pai que não existia fizesse sua filha sofrer. Nunca mais se envolvera com qualquer outro homem, sabia que era jovem, porém não queria colocar um estranho na vida de sua filha que poderia abandoná-la a qualquer momento. Lágrimas de dor e solidão caíram de seus olhos até que adormecesse um sono sem sonhos.
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