Cap. 2 – Conluio
De sua janela a atual diretora, Minerva McGonagall observava atentamente Hermione Granger abaixada junto ao túmulo do ex- professor de Poções consternada.
— Parece que finalmente ela soube a verdade. — Falou em voz alta sabendo que mais alguém naquele cômodo a ouviria. Provavelmente a pobre moça a procuraria. Minerva se lembrava da ex-aluna da Lufa-lufa e tomara conhecimento da história por causa de algumas cartas que Severo Snape deixara.
Não deixa de ser irônico que o sonserino temido por tantos fosse no fundo um romântico sem tamanho, com um coração enorme. — ela pensou consigo mesma.
Do fundo da sala uma voz ecoou de um dos retratos.
— Minerva, ela chegou?
— Sim Alvo, está lá embaixo no memorial, aparentemente aos prantos. E agora o que faremos? — a voz da diretora denotava certa preocupação.
— Tenho certeza que ela virá lhe procurar em busca do objeto. Então faremos o combinado. É a melhor opção. — o tom de voz dele tinha a mesma serenidade de outrora.
— Mas... Mas será que isso é o certo? E se...
Ele não permitiu que ela continuasse o pensamento.
— Chega de se... Minerva, não existe mais lugar para erros em minha existência e preciso realmente descansar em paz. Somente cumprindo essa missão é que conseguirei me redimir de todo o mal que causei a ele. — Logo logo ela lhe procurará e se conheço bem a Srta. Granger ela não fará rodeios em torno do uso do vira-tempo.
— Está bem Alvo, se esse for de fato o desejo dela, eu não me oporei. Seguiremos conforme o combinado e que Merlin nos ajude. — embora resistente ela sabia que de pouco adiantaria tentar mudar os fatos a partir de agora. Hermione não descansaria até ver sanadas todas as suas dúvidas.
A gárgula diante da jovem com os olhos inchados de tanto chorar se girou lentamente permitindo o acesso ao salão de formas arredondadas.
Ela pouco freqüentara aquela sala, mas não esquecera a imponência do lugar. Os vários objetos ali dispostos, a maioria deles de grande valor para o mundo bruxo, eram a memória de tudo o que eles passaram: o chapéu seletor, a espada da grifinória, e tantos outros que também tinham a sua importância.
Sentada defronte a uma ampla mesa, estava sua antiga professora, e agora diretora de Hogwarts, mas antes de tudo uma grande amiga e incentivadora. Ninguém melhor que Minerva para agora encaminhar as jovens mentes bruxas no caminho do bem.
A mesma roupa com detalhes em tartan e os óculos de aro quadrado, a espreitavam. O semblante austero, porém acolhedor.
— Hermione, quanto tempo. O que a traz aqui? Estava mesmo me perguntando quando você arranjaria tempo na sua vida atribulada para visitar essa velha amiga. Como vão seus pais?
— Bem Minerva, graças a Merlin eles já se adaptaram a sua vida anterior e estão clinicando e felizes a seu modo. Só a certeza de me ver viva e segura para eles já basta. — ela sempre admirara sua professora por ser alguém de decisões rápidas e certeiras e já decidira que não faria muitos rodeios para obter o que desejava.
— Porém o motivo que me traz aqui além de matar as saudades é que preciso muito de sua ajuda. Com certeza você é a única pessoa no mundo bruxo em que confio para tal pedido, e também creio que somente você tem os meios para que eu possa alcançá-lo. — a fala saiu aos borbotões e ela percebeu que a bruxa à sua frente a olhava curiosa.
— Bom Hermione, se for algo que esteja ao meu alcance, não hesitarei em ajudá-la.
— Minerva, antes de tudo eu preciso lhe contar uma história que chegou ao meu conhecimento alguns dias atrás. Peço-lhe também que, se possível, tente compreender a minha situação e não me julgue. No início da semana eu recebi uma carta em meu gabinete, solicitando um encontro para tratar de um assunto de meu interesse. O assunto em pauta não estava descrito, inicialmente temi ser algum tipo de emboscada e pensei em pedir auxilio ao Quim para investigar melhor o fato. Porém, com o excesso de trabalho e a súbita viagem do ministro ao interior, o dia do encontro chegou e não sabia de mais nenhum detalhe. Resolvi assim mesmo ir ao encontro da autora da carta.
— Você não pensou nas conseqüências, Hermione? — a bruxa mais velha a repreendeu com o olhar mesmo sabendo que de pouco adiantaria.
— Não Minerva, na verdade o que me tranqüilizou foi que ela sugerira um local público movimentado, portanto os riscos eram mínimos. Não me recrimine, mas eu realmente não vi perigo na situação.
— Está bem, prossiga, do que se tratava então?
— Para minha total surpresa ao chegar ao Caldeirão Furado me deparei com uma jovem um pouco mais velha do que eu, mas praticamente uma cópia minha. A semelhança era tamanha que até pensei que tinha uma irmã e não sabia.
— Entendo, e...
— Bom ela se chamava Paige Collins e me contou a história da vida dela nos últimos três anos. Como eu, ela também era uma nascida trouxa, e por infelicidade foi vítima de um ataque realizado por alguns comensais, ficando prisioneira deles por um longo tempo até que foi parcialmente salva, graças à sua semelhança comigo.
Minerva já sabia o que viria pela frente, mas precisava continuar seu papel então perguntou.
— Como assim Hermione? Quem a salvou e por quê?
A jovem respirou fundo, pois de agora em diante não teria mais volta. Ela talvez tivesse que revelar detalhes da vida de seu ex-professor que talvez chocassem Minerva, mas ela só se importava no momento, em atingir seu objetivo, custasse o que custasse.
— Aí é que está o inusitado. O Prof. Snape a salvou, Minerva ele a protegeu devido a sua semelhança comigo. — ela estava envergonhada e queria poupar os detalhes mais íntimos que a jovem lhe contara, mas não podia voltar atrás.
— Parece... Que ele desenvolveu um tipo de afeição por mim e viu nessa jovem uma forma de realizar seus propósitos.
O olhar da diretora para sua antiga aluna era um misto de sensações, mais uma vez Alvo parecia ter acertado em seu diagnóstico.
Por favor, Minerva eu queria lhe pedir para usar o seu vira-tempo. Sei que não posso mudar o passado, o que está feito permanecerá assim, mas eu preciso muito ter a oportunidade de ver o Prof. Snape com vida uma vez mais. Não me peça maiores explicações, eu ainda estou muito abalada com tudo o que ouvi. Mas eu devo isso a ele. E também a mim, entenda, por favor... — sua voz agora estava trêmula e suas mãos se torciam nervosamente em seu colo.
Durante seu discurso verborrágico, ela não se deu conta que um determinado retrato observava atentamente a cena, com um sorriso nos lábios e os olhinhos brilhando por detrás dos oclinhos de meia lua.
A diretora pausou por um tempo, dosando as palavras que usaria antes de responder.
— Hermione você sabe as conseqüências do uso do vira-tempo, não sabe? Ninguém a não ser ele, poderá lhe ver.
— Sim Minerva eu o usei tempo suficiente para aprender. Não existe perigo, eu cuidarei para que ninguém me veja. Eu apenas... Apenas preciso vê-lo e conversar com ele uma vez que seja.
— Está certo Hermione, depois de tudo o que vivemos nessa guerra não me cabe julgar ninguém muito menos Severo Snape. Confio em você o suficiente para permitir que você use o vira-tempo. Aguarde um pouco que vou aos meus aposentos apanhá-lo.
— Obrigado Minerva nem sei como agradecer. — felizmente a diretora não perguntara muitos detalhes e isso a acalmara. — ela se permitiu relaxar um pouco na poltrona. Ainda não sabia o que viria pela frente e qual seria a reação dele ao vê-la. Ela estava pensando em ajustar o tempo para encontrá-lo durante o sexto ano antes da morte de Dumbledore. Ele estaria menos defensivo e ela poderia conversar com ele mais tranquilamente. Se é que essa conversa seria tranqüila.
Subitamente ela ouviu um leve pigarro. Levantou a cabeça e encontrou dois profundos olhos azuis a espreitando. Ela sorriu.
— Prof. Dumbledore! — ela não tivera oportunidade no pós-guerra de interagir com o retrato do antigo diretor e realmente era reconfortante poder conversar com ele, ainda mais antes de uma decisão tão importante.
— Srta Granger, a aluna mais sagaz de toda a história dessa escola. É também um prazer poder lhe falar. Sempre admirei sua coragem e capacidade de ajuda ao próximo. Essas qualidades associadas ao amor são os maiores bens que podemos deixar de legado. Espero que se lembre disso na jornada que trilhará em breve. Peço desculpas, mas infelizmente essa minha condição faz com que eu acabe ouvindo coisas demais.
A voz do ancião era suave e reconfortante. Ela sabia do fato que ele e os demais retratos da sala tinham o poder de ouvir o que se passava por ali, mas realmente não se importara com isso durante seu desabafo. Retornou o olhar ao quadro e questionou.
— O senhor sabia do fato que relatei aqui anteriormente? Das afeições do Prof. Snape?
— Sim minha cara, pouca coisa me passava despercebida, como você bem sabe e essa não era uma delas. Apesar de Severo ser um homem muito reservado, era notório que ele a via como algo além da melhor aluna da classe, ou a amiguinha do Harry. Creio que o destino foi ardiloso ao fazê-lo se apaixonar por duas grifinórias. Mas quem pode mandar no coração não é mesmo? Pobre Severo, pagou um preço alto demais...
— Bem senhor tudo isso aconteceu tão rápido... , eu realmente fiquei tocada com tudo o que a Srta. Collins me contou e acabei pensando em tudo o que essa guerra estúpida nos tirou. Essa foi à razão de vir até aqui e tentar encontrá-lo. Acho que ele tem o direito de ao menos uma vez dizer o que sente para a pessoa certa.
— Realmente uma verdadeira grifinória! — o sorriso brotou na face de Dumbledore e ele começou a vislumbrar que realmente poderia alcançar êxito em sua empreitada. — Vá Hermione e atenda ao pedido do seu coração, quem sabe mais de uma pessoa será salva...
A porta de comunicação da sala anexa se abriu e Minerva reapareceu com um estojo de vidro nas mãos. Apesar de tudo, ela ainda estava apreensiva por sua pupila. Mas não havia mais como voltar atrás. As pedras estavam lançadas e agora era só torcer para que tudo desse certo.
— Hermione qual a data ou situação que você acha melhor para encontrá-lo?
Estive pensando e como garantia lhe entregarei também uma chave de portal que garanta a sua segurança para ir e voltar.
— Eu pensei em voltar ao sexto ano, antes dos acontecimentos da Torre de Astronomia, acho que seria mais fácil — olhou para o retrato e ao ver o assentimento mudo do mesmo soube ter feito a escolha certa. – Penso também que o melhor local seria aqui em Hogwarts mesmo, nessa época a casa do Prof. Snape devia ser muito freqüentada por comensais e seria um risco desnecessário.
— Ok, que seja. Vou preparar o vira-tempo. Fique o tempo que for necessário. Para retornar ative a chave de portal.
Hermione estava novamente com as mãos úmidas pelo nervoso. Mas seu coração já decidira por ela. Começou a respirar profundamente concentrando-se para achar as palavras certas na hora em que o encontrasse.
Levou pouco tempo até que a diretora entoasse alguns encantamentos na chave de portal e regulasse o já conhecido objeto dourado preso numa fina corrente.
Ela levantou-se da sua mesa e encaminhou-se até a jovem que agora olhava pela janela para a área do memorial com os olhos rasos de lágrimas.
— Pronto minha cara vai dar tudo certo. Que Merlin lhe proteja nessa jornada. Siga seus instintos e seu coração a guiará. Com essas palavras ela entregou a chave de portal para a jovem e envolveu seu pescoço com o cordão.
A última imagem que Hermione teve da sala foi a do retrato de Dumbledore lhe sorrindo...
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