O Sábado amanheceu glorioso. O céu azul pontilhado de fofas nuvens brancas parecia zombar do Outono que se avizinhava. Até o canto dos pássaros estava mais alegre por causa do sol maravilhoso daquela manhã.
Hermione, porém, ainda não tinha se contagiado pela magia daquele dia excepcional. Desde a hora que acordara, dera pela falta de Bichento e perambulara pela casa toda à procura do gato. O único lugar que não tinha investigado era o quarto de Sirius, que prosseguia ferrado no sono depois da madrugada conturbada. Perto da hora do almoço, não mais agüentando de preocupação, a garota decidiu acordar o padrinho de Harry para checar se o felino estava ali. Ela abriu a porta do quarto dele vagarosamente, para ver se ele ainda dormia. E lá estava o homem, usando apenas as calças do pijama, seu peito nu subindo e descendo lentamente no compasso da respiração. Hermione pensou que ele parecia extremamente charmoso quando estava assim, vunerável. Os longos cabelos castanhos espalhados pelo travesseiro e a costumeira barba por fazer deixavam-no ainda mais sexy. Ela ficou alguns segundos ali, sem ter coragem de acordá-lo ou de entrar para procurar Bichento. Decidiu então que retornaria depois, mas Sirius começou a se espreguiçar na cama e ela entendeu que era tarde demais para voltar atrás. Ele esfregou os olhos calmamente e olhou em direção à porta aberta, para ver quem era, mas quando Hermione enfim entrou em foco, ele instintivamente cobriu a cintura com o lençol. “Droga! Vê se eu mereço me defrontar justo com ela dentro do meu quarto! Será que ela nunca ouviu falar no estado que os homens acordam?”.
- Oi, Sirius, desculpe se eu te acordei... – disse ela enquanto já vasculhava o quarto atrás de Bichento. Ele ficou algum tempo observando-a aturdido. “Que raios ela está procurando debaixo da minha cama?”
- O que você perdeu? O seu ursinho de pelúcia? – indagou o homem de forma debochada.
Ela deu um meio sorriso e respondeu, de costas para ele, enquanto procurava dentro do armário:
- Não, perdi o meu gatinho. Ele fica um pouco desorientado quando é levado para um novo ambiente, demora um tempo até ele se acostumar com uma casa nova... por isso é que eu estou tão preocupada!
Sirius não se conteve e apreciou o traseiro de Hermione enquanto ela se abaixava para procurar na parte de baixo do armário. Sacudindo a cabeça para afastar certas idéias como quem repele uma mosca inconveniente, o homem perguntou:
- E o que te faz achar que ele possa estar no meu quarto?
- O fato de que eu o procurei em todos os outros cômodos da casa e não encontrei. – disse ela ainda sem olhar para ele. Era muito mais fácil fingir que ainda tinha lugares a investigar dentro do quarto do que ter que olhar para o peitoral nu de Sirius.
- Você já o procurou na despensa? – indagou ele.
- Bem... não. A despensa fica fechada o tempo todo...
- O meu quarto também e nem por isso você evitou fazer uma busca aqui, não é mesmo? – alfinetou o maroto com sagacidade.
Meio sem graça, ela começou a se desculpar, agora de frente para ele mas concentrando-se em olhá-lo apenas no rosto:
- Eu sei que você ficou chateado por eu ter te acordado, mas já é quase hora do almoço, você teria que levantar de qualquer jeito... E eu pensei em vir aqui procurar o Bichento porque ele gostava muito de você.
- Eu sei, menina, só estou brincando... – disse ele dando ênfase ao “menina” – mas siga minha sugestão, procure na despensa.
Sem mais esperar, Hermione bateu em retirada. “É impressão minha ou ele está fazendo questão de me tratar como criança?”, pensou ela. Chegando na cozinha, encontrou Dobby limpando os bigodes de Bichento à porta da despensa.
- Dobby! Você encontrou o meu gatinho!
O gato prontamente foi se enroscar nas pernas da dona assim que a viu. O elfo explicou o ocorrido:
- Dobby foi pegar batatas para o almoço e encontrou gato da senhora comendo todo o estoque de atum! É um gato muito esperto!
- Oh! Mas que coisa feia, Bichento! – ralhou ela com o felino, que se encolheu envergonhado - Me desculpe, Dobby, vou repôr todo o peixe que ele comeu.
- Não se preocupe, senhora. O senhor Harry Potter não ficou nem um pouco bravo com o gato. Ficou tão admirado que o bicho conseguiu abrir as caixas de atum sozinho que disse que o gato era tão inteligente quanto a dona! – disse o elfo feliz.
- Ah, Dobby, obrigada. Mas não deixe mais o Bichento comer os estoques da despensa... isso não está certo... e onde está Harry agora?
- Saiu. Mas deixou bilhete para senhora. – explicou o elfo apontando para o pedaço de pergaminho apoiado no canto da mesa.
Hermione agradeceu e prontamente foi ler a mensagem de Harry:
Cara Mione,
Desculpe não poder passar o dia com você, mas tive que ir ao alfaiate para provar meu smoking de padrinho. Gina veio comigo, mas o restante da família Weasley está na Toca e eles teriam muito prazer em recebê-la novamente. De qualquer forma, se você preferir, Lupin, Tonks, Sirius e Mundungo estão aqui na Sede e podem lhe fazer companhia durante a tarde. À noite vamos sair para algum pub, combinado?
Grande abraço, Harry.
- Mundungo está aqui? – perguntou Hermione para si mesma, baixinho.
- Estou – respondeu o vigarista atrás dela, fazendo-a se sobressaltar. – Tudo bem, Granger? – perguntou ele como se a encontrasse todos os dias.
- Sim, Mundungo, e você?
- É... as coisas vão indo... – respondeu ele evasivamente enquanto puxava uma cadeira para se acomodar – se bem que aquele pulha do Will me prometeu o dinheiro há uma semana e ainda não me entregou... foi uma venda complicada, sabe? O sangue de dragão não pode ser comercializado no mercado negro e...
- Mundungo, não brinde a Hermione com essas suas vigarices justo na hora do almoço... – ralhou Lupin, que acabara de chegar na cozinha, acompanhado da mulher – Aliás, não nos conte isso em hora nenhuma do dia. Não queremos nos comprometer com seus negócios escusos...
- Meus negócios não são escusos... só são ousados. – rebateu o outro - Apenas porque desafiamos a economia formal somos chamados de mercado paralelo... isso é um absurdo!
Hermione limitou-se a rir. Mundungo era mesmo um caso perdido, mas as suas malandragens chegavam a ser engraçadas. Ele era o que se podia chamar de um bandido inofensivo. Tonks parecia concordar com ela, pois não se meteu na discussão do marido com o vigarista.
- Quer dizer então que você conseguiu encontrar o Bichento... – comentou a mulher ao contemplar Hermione com o gato no colo.
- Sim, mas você não sabe o que ele aprontou! Uma vergonha, Tonks! Bichento assaltou os atuns da despensa! Bem que o Sirius me disse...
- Eu sempre estou certo! – provocou o próprio ao entrar na cozinha
- Mas você tinha informação privilegiada... já caçou muito gato na sua forma animaga para não saber um pouco do comportamento deles... – brincou Tonks.
- E desde quando é novidade para alguém que os gatos são loucos por uma sardinha? – rebateu Sirius
- Atum. – corrigiu-o Hermione.
- Dá na mesma. – deu ele de ombros enquanto se ajeitava na cadeira em frente a Hermione, jogando os cabelos para trás.
Whinky veio trazendo as travessas para o almoço e Dobby colocou os pratos na mesa. Hermione levantou-se para deixar Bichento na sala e lavar as mãos. Quando voltou, os outros já davam as primeiras garfadas.
- O que pretende fazer hoje, querida? – perguntou Tonks.
- Ainda não sei... Harry me deixou um bilhete dizendo que vamos sair à noite, mas estou sem programa para a tarde. Ele até me sugeriu uma visita à Toca, mas estou mais inclinada a matar minhas saudades das coisas inglesas... pensei em fazer um passeio em Hyde Park (*), para aproveitar o dia de sol... o que acham?
- Por que a molecada gosta tanto de piquenique no parque, hein? – comentou Sirius de forma zombeteira.
- Eu não falei em piquenique – disse Hermione tentando ignorar o “molecada” –, só dei uma sugestão de um passeio ao ar livre... Mas se o senhor tem uma sugestão melhor... – alfinetou Hermione. Sirius pareceu não gostar nenhum pouco da ironia dela, mas Tonks tomou a palavra antes que ele rebatesse:
- Sinto muito, Mione, mas não posso sair com você hoje. Eu e Remo teremos de ficar de plantão, pela Ordem.
- Ah, que pena... – lamentou a garota - e você, Sirius?
- Por mim, tudo bem. Até porque eu não tenho mesmo uma idéia melhor do que o parque... – admitiu ele, fazendo um sorriso vitorioso brotar nos lábios de Hermione.
- E você, Mundungo? Quer ir com a gente? – indagou Hermione cortesmente.
- Num lugar cheio de crianças gritando, sob o sol escaldante, sem bebida alcoólica e sem oportunidade de fazer negócios? Estou fora! – grunhiu o homem.
Os olhos de Hermione encontraram os de Sirius e os dois sorriram em silêncio. Não dava mesmo para imaginar Mundungo fazendo um programa daqueles...
Após o almoço, Sirius pediu que Hermione aguardasse alguns minutos, enquanto ele tomava banho e vestia roupas mais confortáveis para o passeio. Ela passou esse tempo conversando com Tonks, uma vez que já estava pronta para sair. Usava uma saia branca estampada com pequenas flores coloridas, regata branca básica e sandálias baixas.
Quando Sirius voltou, o maravilhoso cheiro de sabonete chegou às narinas de Hermione antes que ele aparecesse no vão da porta. Ele vestia bermuda marinho, uma camiseta azul clara básica e tênis. A garota nunca o vira em trajes tão joviais. Ele parecia pelo menos dez anos mais novo.
Sirius e Hermione iriam visitar um lugar predominantemente freqüentado por trouxas, de forma que não havia possibilidade de irem até o parque aparatando. Mas a caminhada até o ponto de ônibus trouxa foi muito agradável, devido à brisa insistente que varria as ruas londrinas naquela tarde. Hermione surpreendeu-se com a facilidade em conversar com Sirius depois que aquele aperto inicial no seu estômago passara. Eles falaram sobre seus lugares preferidos para viajar, sobre a política do Ministério, sobre o casamento de Rony... Estavam tão absortos na conversa que esqueceram de descer no ponto de ônibus mais próximo ao parque e tiveram que refazer o caminho a pé. Mas estavam se divertindo tanto que nem se importaram. Apenas riram de si mesmos, coisa que Hermione não se lembrava de fazer há muito tempo.
Havia inúmeras pessoas em Hyde Park naquela ensolarada tarde de Sábado. Londres era famosa por seu tempo chuvoso e os habitantes pareciam não querer desperdiçar aquele que podia ser o último dia de calor do verão. Crianças brincavam sobre a grama, casais trocavam beijos sob as árvores, jovens aproveitavam para praticar exercícios. O parque transbordava vida.
- Sabe, a última vez em que estive aqui vim como cachorro, na época em que estava foragido. Eu via essas pessoas andando de pedalinho no lago (**) e morria de inveja...
- Não seja por isso. Vamos lá... – disse a garota arrastando-o pelo braço.
- Não, Hermione... – protestou Sirius, estacando no meio do caminho - Você já pagou as nossas passagens de ônibus.
- Ora, você não tem dinheiro trouxa, tem? Então eu vou pagar pelo passeio e não se fala mais nisso. Além do mais, isso não é nada perto dos gastos que eu estou lhe dando por ficar hospedada na sua casa esses dias...
- Você não está me devendo nada, mocinha. E nós podemos fazer outras coisas, que não envolvam dinheiro... por exemplo, uma bela caminhada.
- Faremos isso depois. Você precisa curtir a sua liberdade Sirius, e eu vou adorar fazer parte disso! Venha, estou te pedindo, vamos andar de pedalinho. – disse ela com um ar suplicante que lembrou irresistivelmente a uma criança convencendo o pai a lhe comprar um doce.
- Ok, você venceu. Mas tem que me deixar pagar sua conta no pub hoje à noite.
- Você é sempre assim tão teimoso? – exasperou-se a garota.
- E você é sempre assim tão insistente? – devolveu Sirius.
A garota sorriu e mais uma vez puxou-o pelo braço na direção do lago. Uma vez que fôra convencido, porém, Sirius parecia uma criança divertindo-se no pedalinho. Por duas vezes ameaçou jogar Hermione na água e ficava balançando o veículo como se quisesse tombá-lo. Os dois se deixaram regredir à infância e logo depois de voltarem do passeio aquático emendaram uma brincadeira de frisbees com alguns garotos trouxas. Mais tarde, caminharam até o outro extremo do parque, parando ocasionalmente nas fontes para tomar água.
Hermione sentia que passear ao ar livre fôra a decisão mais acertada que tomara. Enfurnada dentro do hospital em Dublin, ela já havia esquecido de como a vida podia ser bonita nesses pequenos detalhes. O riso parecia não querer sair jamais dos lábios dela e Sirius não conseguiu evitar o pensamento de que ela ficava linda quando sorria.
Eles estavam fazendo o caminho de volta para o portão principal do parque quando as nuvens que vinham se intensificando no céu deram os primeiros sinais de que a chuva viria pesada para aplacar o calor que perdurara ao longo do dia. Além dos trovões, um vento mais forte denunciava que a água não tardaria a cair.
- Sirius, vamos apressar o passo. Do contrário, ficaremos ensopados!
- E daí? – disse ele dando de ombros – Eu não sou feito de açúcar, e você?
Hermione rolou os olhos (sua marca registrada) e tentou convencê-lo de que os dois não iriam querer pegar uma gripe na semana do casamento de Rony.
- Não foi você que disse querer fazer parte da minha nova vida em liberdade? Pois eu quero ir andando na chuva. Qual foi a última vez que você se permitiu isso?
A garota refletiu um momento, fazendo uma careta de concentração, porém acabou desistindo.
- Eu nem me lembro mais...
As primeiras gotas começaram a cair e Sirius disse simplesmente:
- Então comece a se lembrar. Bem-vinda de volta à vida, Hermione. Não sou apenas eu quem tem que curtir a liberdade...
Havia tanta verdade naquele argumento que a garota não ousou discordar. Era estranho como não foi nenhum de seus amigos mais próximos, mas justamente alguém que ela não via há sete anos, o responsável por fazê-la enxergar isso.
A chuva caía pesado agora e os dois já estavam quase inteiramente molhados. Sirius parou no meio do caminho, abriu os braços e levantou a fronte, sentindo a maravilhosa sensação da água escorrendo em seu corpo. Mais adiante, Hermione estacou o passo e ficou a contemplá-lo. “Merlim, ele é ainda mais sexy quando está molhado! Assim eu fico louca!”
Ele enfim abriu os olhos e a olhou com uma cara marota. E o que disse a seguir foi proferido com tanta intensidade, que ela percebeu que era sério.
- Vou lhe dar apenas dez segundos de dianteira. Se eu conseguir alcançá-la, vou jogá-la dentro da fonte.
- Sirius, isso é proibido! Se os guardas trouxas nos pegarem...
- Você já desperdiçou 3 segundos. O tempo está se esgotando.
Sem saber como demovê-lo da idéia, ela fez a única coisa que estava a seu alcance: correu. Mas Sirius era mais alto que ela e a alcançou com facilidade. Ele a pegou pela cintura e a jogou sobre os ombros como se carregasse um saco de batatas. A garota se debatia para que ele a soltasse, mas de forma alguma estava zangada. Ela não conseguia deixar de rir com o jeito impulsivo dele.
Quando já estavam ao lado da fonte, Sirius fingiu que iria jogá-la mas não o fez. Ele agora a carregava em pé com os braços ao redor das coxas dela, mas cavalheirescamente sem tocar seu corpo com as mãos. Disposto a recolocá-la no chão, afrouxou os braços um pouco para que o corpo da garota escorregasse até que ela pudesse se sustentar sozinha. Na posição em que estavam, a proximidade dos corpos molhados era perigosamente excitante. Quando Hermione finalmente tocou o chão, sua boca estava a centímetros dos lábios de Sirius, de tal forma que era possível sentir o calor do hálito dele. Os dois se perderam nos olhos um do outro por alguns segundos, até que Hermione baixou a cabeça e deu um passo para trás, fugindo do contato. Sirius aparentou certo desconforto por ter se deixado levar, mas logo reassumiu sua postura habitual.
- Acho que já está na hora de voltarmos para casa. Não vamos querer perder o programa de hoje à noite, não é mesmo?
Hermione assentiu e os dois começaram a fazer o caminho de volta. No ônibus trouxa, muitas pessoas lhes dirigiram olhares desconfiados, como se fosse crime andar ensopado daquele jeito pelas ruas. Em circunstâncias normais, Hermione sentiria vergonha pela excessiva atenção que atraía sobre si, mas Sirius tinha o dom de fazer as coisas parecerem simples e divertidas.
Ao chegarem ao Largo Grimmauld, Lupin os recebeu com uma tentativa de olhar de censura, mas não conseguiu conter o riso.
- Pelo visto o passeio não foi muito agradável, Almofadinhas...
- Pelo contrário. Foi ótimo!
Hermione lhe dirigiu um sorriso de cumplicidade e pediu para tomar banho primeiro. Sirius obviamente não se opôs e ficou observando a garota subir as escadas com um olhar perdido. Quando ela já estava longe o suficiente para não ouvir a conversa, Lupin disse ao amigo baixinho:
- Não se esqueça que ela tem idade para ser sua filha...
- Eu sei muito bem disso, Aluado, obrigado. – respondeu o outro azedo.
- Achei que não custava lhe fazer um lembrete – disse o outro singelamente antes de retornar para a cozinha.
Sirius ficou prostrado no hall de entrada, meditando se ele conhecia alguma poção que fizesse sua cabeça entender aquela verdade cruel.
Já passava das oito horas da noite quando Hermione ouviu duas batidinhas em sua porta e uma voz agradavelmente familiar lhe perguntando:
- Posso entrar, amiga?
- Entre, Gina!
A ruiva entrou e fechou a porta atrás de si. A caçula dos Weasley estava muito bonita em suas calças e jaqueta jeans, blusinha verde tomara-que-caia e sandálias plataforma. Hermione também estava muito elegante, embora ainda não tivesse finalizado a maquiagem. Vestia uma saia preta que ia até metade da canela, botas de cano alto que desapareciam sob a saia e uma blusinha na cor vinho.
- Uau! Que produção! – exclamou a ruiva – Até parece que você está disposta a seduzir alguém! Vou contar para o Vítor, hein? – brincou ela.
- Não me diga que você passou o dia todo com o Harry e ele não te contou? – perguntou Hermione descrente
- Contou o quê? – indagou Gina, genuinamente confusa.
- Parece que o Harry é melhor em guardar segredos do que eu imaginava... – suspirou Hermione – Eu e Vítor estamos dando um tempo no namoro.
Sentando-se na cama, a ruiva disse preocupada:
- Sinto muito, amiga. O que foi que aconteceu?
- Resumidamente? – perguntou Hermione enquanto abandonava sobre o aparador a varinha com que tentava fazer um feitiço de maquiagem – Ele me pediu em casamento!
- Espere um instante. Você e ele brigaram porque ele lhe propôs casamento? – certificou-se incrédula – Como isso é possível?
- Porque dizer “sim” implicaria a minha mudança com ele para a Bulgária...
- Ah... – exclamou Gina, a compreensão se espalhando por seu rosto. – E você não está disposta a fazer tamanho sacrifício, não é mesmo?
- Não sei, Gina... estou muito confusa. Disse a Vítor que lhe daria uma resposta quando voltasse das férias, mas quanto mais tempo passo na Inglaterra, mais vejo que aqui é o meu lugar.
A ruiva levantou-se e abraçou a amiga, num gesto claro de que a apoiaria qualquer que fosse a sua decisão.
- Sabe, Mione, nós todos sentimos muito a sua falta nesses últimos anos... Eu mesma acho que não conseguiria ficar tanto tempo longe da minha família, mas se o Harry tivesse que ir para outro país... não sei o que faria... Deve ser mesmo uma decisão difícil para você...
- É... mas o meu romance com o Vítor é diferente do que você sente pelo Harry. Vocês se amaram desde o começo, nasceram um para o outro... não me sinto assim tão vinculada a ele.
- Por que? Você não o ama?
Era a segunda vez em menos duas semanas que lhe faziam essa pergunta. Hermione parecia ter medo de dar uma resposta direta e saiu pela tangente:
- Eu gosto muito do Vítor, ele é incrível comigo... mas eu sempre achei que um dia na vida iria encontrar aquele príncipe encantado, sabe? Que faz o coração da gente bater mais forte, as pernas bambearem, as mãos suarem... E eu nunca vivi isso. Talvez seja só uma fantasia de adolescente e a realidade do mundo seja outra, mas eu queria tanto viver uma paixão intensa!
- Então você já sabe a sua resposta, Hermione...
- Será? – disse a morena para si mesma, admirando seu próprio reflexo no espelho.
- De todo jeito, agora é hora de nos divertirmos! - sentenciou Gina, procurando animar a amiga - Deixe que eu faço a maquiagem em você. Sou craque nesses feitiços de embelezamento!
Mal Gina acabara de conjurar o feitiço e Harry abriu a porta, sem nem bater:
- Ei! As donzelas vão ficar aqui a noite toda? Só faltam vocês duas!
- Já estamos descendo, querido. – respondeu a ruiva - Vá na frente.
Depois que o garoto fechou a porta, Gina conjurou outro feitiço que deixou Hermione perfumada como um lírio do campo.
- Sabe como é – apressou-se a justificar – Tendo em vista que você é quase uma pessoa solteira...
A morena riu e as duas desceram ao térreo, encontrando Rony, Melanie, Harry, Sirius, Fred e Jorge à sua espera. Hermione mais uma vez amaldiçoou mentalmente o charme de Sirius, irresistível em suas calças bege e camisa branca com as mangas arregaçadas displicentemente, combinando de forma singular com os cabelos revoltos. Ele, por sua vez, redobrou seus cuidados para não grudar os olhos na silhueta provocante de Hermione. Apesar do que quase acontecera entre eles mais cedo no parque, o mantra “Ela é só uma criança” ainda estava valendo.
- O pub a que vamos é bruxo ou trouxa? – indagou Hermione após os devidos cumprimentos.
- Bruxo. – apressou-se a responder Fred Weasley – Pertence ao nosso amigo Lino Jordan, lembra dele?
- Claro que sim! Impossível esquecer o trio-confusão de Hogwarts... – brincou a moça
- Mas você precisa ver o bom trabalho que ele tem feito lá. – esclareceu Jorge - Vai levar o Caldeirão Furado à falência logo, logo...
- Devo presumir então que nosso destino é o Beco Diagonal? – perguntou Hermione
- Certamente! – respondeu Gina – E vamos para lá da mesma forma como viemos da Toca até aqui: via rede de Flu.
Minutos depois, o grupo já estava sentado nas confortáveis instalações do estabelecimento de Lino, que levava o singelo nome de “Caneca Vazia”. Diversas mesas grandes e circulares de madeira espalhavam-se pelo local, todas elas rodeadas por macios sofás verdes. As paredes eram todas revestidas de madeira, o que, somado à lareira, conferia ao lugar um aspecto aconchegante. A intervalos, havia jogos de tiro ao alvo nas paredes e pequenas bandeiras irlandesas.
Em se tratando de um Sábado à noite, a casa estava bem movimentada, mas ainda assim Lino deu uma passadinha na mesa dos amigos para saber se estavam sendo bem atendidos. Hermione aproveitou a oportunidade para elogiar o trabalho de Lino:
- Sabe, você está de parabéns pelo esmero em reproduzir um pub irlandês, embora eu deva admitir que o seu é até sofisticado demais para o padrão. Mas definitivamente eu prefiro do seu jeito...
- Que bom! A opinião de alguém que tem conhecimento de causa conta muito para mim... – respondeu o rapaz. – De qualquer forma, preciso voltar ao trabalho, mas se precisarem de alguma coisa estarei à disposição.
- Quem diria que o locutor de quadribol mais famoso de Hogwarts conseguiria levar alguma coisa tão a sério na vida, não é? – brincou Gina depois que Lino se afastara.
- Vocês é que nunca nos levaram a sério – ponderou Fred.
A turma toda fez muchochos irônicos, fingindo sentir pena deles. Aproveitando a descontração, Harry propôs um brinde:
- À amizade! – disse ele levantando a caneca, no que foi acompanhado pelos demais.
- Ao amor! – emendou Rony, dando um selinho apaixonado em Melanie.
- E à uma vida nova – interpôs Sirius, seus olhos encontrando casualmente os de Hermione.
O grupo brindou ruidosamente, derramando cerveja das canecas. Todos estavam muito felizes pela oportunidade rara de estarem juntos. Entre o casamento de Rony e o trabalho de Hermione na Irlanda, encontros como aquele seriam cada vez mais difíceis.
Algumas horas depois, os gêmeos, embriagados, passaram da felicidade à melancolia, e não paravam de abraçar o noivo, recordando saudosos alguns episódios de sua infância. Sirius fazia algum esforço para conter a bebedeira dos rapazes, mas o serviço do estabelecimento era muito eficiente, e sempre trazia mais cerveja.
- “Caneca Vazia”? – indagou o maroto para seu afilhado – Isso aqui deveria é se chamar “Caneca Cheia”!
Hermione estava no lado oposto da mesa conversando com as garotas, ouvindo Melanie contar um pouco de sua infância, mas não pôde deixar de captar o comentário de Sirius e lhe sorriu divertida. Ela também já tinha as bochechas afogueadas por causa do álcool, mas ao menos por enquanto mantinha-se sóbria.
Foi só quando Gina lhe pediu que a acompanhasse até o banheiro que Hermione percebeu que ingerira mais cerveja do que deveria. Ficar em pé demandou dela um esforço um pouco maior que o normal e a morena viu que era hora de parar. Ela deu uma olhada de esguelha para conferir se Sirius tinha notado a dificuldade dela em se levantar, mas, encontrando-o absorto numa conversa com Harry, sentiu-se mais tranqüila.
Ao tempo em que voltaram do banheiro, as duas descobriram que alguém já havia pedido a conta e Hermione se sentiu aliviada. Coisas demais já haviam lhe acontecido naquele dia e ela não via a hora de se esparramar sobre a cama.
Antes de tomarem o caminho de volta, Harry explicou que acompanharia Gina até a Toca antes de ir para o Largo Grimmauld, de sorte que Sirius ficou incumbido de fazer companhia a Hermione. Quando chegaram na cozinha da Sede, Hermione tentou sem sucesso aparentar sobriedade, e se desvencilhou da mão que Sirius lhe oferecia como se o desafiasse. Ele já havia percebido há tempos que ela estava um pouco alegre demais, mas fingiu que acreditava na imagem que ela estava tentando passar. Só quando estavam subindo a escada é que Hermione tropeçou, fazendo um barulho passível de acordar os outros moradores. Sem dizer nada, Sirius pegou em sua mão e a conduziu até a porta do quarto dela.
- Você está bem? – sussurrou ele – Quer alguma ajuda?
- Eu não sei se eu consigo tirar as minhas botas... – admitiu ela gargalhando baixinho de si mesma.
Sirius sorriu por conta da leve embriaguez de Hermione e decidiu entrar no quarto e colocá-la na cama. Enquanto ele lhe descalçava as botas, a garota já acomodava a cabeça no travesseiro, sonolenta. Ele não se conteve e apreciou as curvas generosas que a natureza havia esculpido na menina durante os anos que ficaram afastados. Depois, lutando contra o próprio impulso, puxou o lençol e a cobriu, enquanto ela murmurava alguma coisa que ele não conseguiu compreender num primeiro momento. Aproximando-se mais da cabeça dela, reconheceu imediatamente um “Você é tão lindo...”. O estômago de Sirius deu uma pirueta ao ouvir isso. Ele não podia mais negar a si mesmo o quanto a queria, e ela parecia se sentir atraída por ele também. Por conta da bebedeira ela estava tão vulnerável, seria tão fácil... Mas Sirius era um homem de princípios. Limitou-se a fazer um afago no topo da cabeça de Hermione e saiu do quarto, rumando diretamente para a segurança de seu próprio dormitório.
*maior parque público de Londres, localizado no centro da cidade
**Lago Serpentine, no coração de Hyde Park.
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